Leonor de Mendonça/Ato Terceiro

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Leonor de Mendonça
por Gonçalves Dias
Drama em três atos e cinco quadros.


ATO TERCEIRO[editar]

QUADRO QUARTO[editar]

A cena representa a câmara da duquesa: um leito de cortinados, cadeira e mesa.

CENA I[editar]

496 - PAULA (Só, entrando com uma luz) - Ainda não veio!... Com efeito, para um namorado é ser bem esquecido. Ah! Se fosse comigo, eu lhe cantaria uma ladainha bem comprida para o ensinar a ser descortês com senhoras. (Chegando-se à janela) Como está escura a noite!... (Recuando) Jesus, Senhor!... Parece-me que vi lampejo de armas por entre as folhas do bosque. (Observando de novo) Já nada vejo!... Foi ilusão. (Fecha a janela)

CENA II[editar]

A DUQUESA, PAULA

497 - A DUQUESA - Ainda não veio?

498 - PAULA - Não, senhora Duquesa; e todavia é quase meia-noite!

499 - A DUQUESA - Está bem. Vê todos descansam em palácio.

500 - PAULA - Nada mais quereis de mim?

501 - A DUQUESA - Nada mais. (Paula sai)

CENA III[editar]

502 - A DUQUESA (Só, sentando-se) - Alcoforado tem alma de fogo; porém, é respeitoso e comedido!... Pobre moço! Quis dizer-me adeus sem que nos vissem e partirá feliz com a idéia de que por ele me interesso. Podia eu fazer menos em favor de quem tão generosamente me salvou a vida? Não. .. Mas talvez fui imprudente.

CENA IV[editar]

A DUQUESA, ALCOFORADO (Saltando pela janela)

5OlA - A DUQUESA (Assustada) - Ah!

502B - ALCOFORADO (Fechando a janela) - Sou eu, senhora, não vos assusteis.

503-A DUQUESA (Sentando-se) - Vindes armado!

504 - ALCOFORADO - Nada receeis da minha espada, Senhora Duquesa! Foi um capricho de meu irmão e uma ordem de meu pai que me obrigaram a trazê-la. (Põe a espada sobre a mesa) Permiti-me, senhora, que eu vos agradeça bem sincera, bem cordialmente, o sacrifício que hoje por mim fizestes. Favor tão grande não vos posso eu pagar com palavras, nem o meu sangue, todo que fosse, bastaria para o resgatar.

505 - A DUQUESA - Está bem, senhor.

506 - ALCOFORADO - Deixai que vos diga tudo quanto me inspira o meu reconhecimento para que não fiqueis julgando que abrigastes a um ingrato. Depois que condescendestes com o meu pedido, e quando me partia da vossa presença, aventei todo o perigo que nesta entrevista podia haver para vós, que eu por mim nada receio; e eu vô-lo confessarei, pasmei do meu desmarcado arrojo em vô-la pedir e admirei-me da vossa muita bondade em ma concederdes, quando me poderíeis ter feito expulsar da vossa presença como um louco, e de feito eu o era; porém, certo que, se me negásseis esta graça, eu me haveria por mui desgraçado, por mui digno de lástima e de compaixão.

507 - A DUQUESA - Deixemos isso, senhor; partireis sempre amanhã?

508 - ALCOFORADO - Partirei amanhã: irei espalhar as minhas mágoas por terras longínquas; irei por clima estranho em busca de um nome que algum dia possais pronunciar como o de um amigo, que não como o de um servo.

509 - A DUQUESA - Senhor!

510 - ALCOFORADO - De um servo, sim. Para vós, filha do primeiro duque de Espanha, mulher do primeiro duque de Portugal, o que é um moço fidalgo que está ao serviço da vossa casa? Julgais, acaso que eu não tenha pensado nestas coisas durante muitas horas, durante noites bem compridas? Pois em verdade vos digo, senhora, que eu tenho muitas vezes amaldiçoado a minha estrela que me fez nascer tão baixo, quando a sorte vos colocou tão sobranceira aos outros, que o meu nome, por muito famigerado que venha a ser, jamais não poderá ser equiparado ao vosso. E desdita; mas de que vale queixar-me?

511 - A DUQUESA - Não vos compreendo, senhor!

512 - ALCOFORADO - E fora maravilha que me compreendêsseis!... Falar-vos-ei pois claramente. Bem sabeis que eu parto amanhã; o que, porém, vós não sabeis é que desde criança um pensamento fatal se enraizou profundamente na minha alma. Não viverei muito! A outra por certo não diria eu isto, que se riria da minha credulidade; digo-vos, porém, a vós, porque vos falo sem rebuço e porque quero que leiais na minha alma como em um livro aberto que podeis folhear à vontade. Partirei e não voltarei mais.

513 - A DUQUESA - Temos boas esperanças de que haveis de voltar, Senhor Alcoforado.

514 - ALCOFORADO - Não voltarei! Assim pois, no último dia que me é dado passar convosco, permiti-me que vos revele um segredo; não vô-lo confiaria, a não ser esta circunstância: eu o guardaria comigo até o último da vida, eu o encobriria a todos os olhos e a terra, que me há-de tragar o coração inteiro e não sabido o tragaria também.

515 - A DUQUESA - Dizei.

516 - ALCOFORADO - Quando o houverdes escutado, Senhora Duquesa, podereis calcar-me aos pés, que vos não oporei resistência; podereis enxovalhar-me o rosto sem que eu descerre um suspiro; podereis rasgar-me, espedaçar-me o coração!... (Caindo de joelhos) Eu vos amo!...

517 - A DUQUESA (Levantando-se) - Senhor!

518 - ALCOFORADO - Não fujais, senhora, não fujais. Eu sou uma criatura fraca e inofensiva, que eu não sei senão sofrer silenciosamente e verter lágrimas não vistas. Notai que se eu vos revelo este segredo é porque tenho certo que a minha presença nunca mais ofenderá os vossos olhos, nem há-de atrair o sangue à flor de vosso rosto. Parto e morrerei; mas dizei, dizei ao menos que vos compadeceis da minha loucura e que não amaldiçoareis ao mísero que se deixou render por um amor insensato!

519 - A DUQUESA - Levantai-vos: e depois de me ouvirdes conhecereis que é da vossa honra fugir de mim e que me convém não vos tornar a ver. Eu vos amo, senhor!

520 - ALCOFORADO - Potestades do céu!

521 - A DUQUESA - Não vos iludais: vinde, vede o que está neste leito.

522 - ALCOFORADO - Vossos filhos!

523 - A DUQUESA - Sim, meus filhos. E à cabeceira de meus filhos que eu vos direi que vos amo; eu vos amo porque sois bom, porque sois nobre, porque sois generoso; eu vos amo porque tendes um braço forte, um coração extremoso, uma alma inocente; eu vos amo porque vos devo a vida, porque não tendes mãe e eu vos quero servir de mãe porque sofreis e eu quero ser vossa irmã. É um amor compassivo e desvelado, que poderá ser reprovado na terra, mas que eu não creio que o seja nos céus. Entendeis-me agora?

524 - ALCOFORADO - Oh! Senhora Duquesa, vós sois bela, pura como os anjos, sois boa e grande como Deus; Vossas palavras são como um bálsamo de vida e tornam o homem superior a si mesmo! (Dobres).

525 - A DUQUESA - Meu Deus!

526 - ALCOFORADO - Que tendes, senhora?

527 - A DUQUESA - Aqueles sons... não ouvis?

528 - ALCOFORADO - Que importam! Quando o homem é feliz parece que toda a natureza se esmera em proclamar a sua ventura. Que vale a voz do trovão quando o contentamento nos mora dentro da alma!

529 - A DUQUESA - Não os quisera escutar!

530 - PAULA (De fora) - Andam homens armados pelos corredores. Acautelai-vos!

531 - ALCOFORADO (Correndo à janela) - Cortaram a corda! E fui eu quem vos lancei neste abismo!

532 - A DUQUESA - Trata-se de vós, senhor; vejamos se vos podemos salvar!

533 - ALCOFORADO - Estais salva. Dizei somente que me perdoais, para que eu morra consolado.

534 - A DUQUESA - Que ides vós fazer?

535 - ALCOFORADO - Oh! Nada! Lançar-me-ei do vosso balcão abaixo e talvez que ainda me sobrem forças para ir morrer fora do vosso parque.

535A - A DUQUESA - Tendes alma sublime, Alcoforado; eu contudo não posso aceitar o vosso sacrifício, que a vossa morte seria terrível testemunho contra a minha inocência

536 - ALCOFORADO - Quem se atreveria a responsabilizar-vos pela morte de um miserável que aparecesse sem vida por baixo das vossas janelas? Não é este o último recurso?

537 - A DUQUESA - Não, esperai. (Vai à janela e recua aterrada) Meu Deus! O parque está todo iluminado... Que eu não cometesse culpa nem crime e que tenha de ver manchada a minha reputação!

538 - VOZ (De fora) - Abri! Abri, Senhora Duquesa!

539 - ALCOFORADO - Maldito! Maldito!

540 - A DUQUESA - Calai-vos! Quem bate?

541 - Voz (De fora) - O Senhor Duque vos quer falar.

542 - A DUQUESA - Deixai-me vestir. Alcoforado, aqui, escondei-vos aqui por detrás desta alcatifa; não apareçais senão em últimas circunstâncias... prometei-mo. A vossa espada, o vosso barrete. tomai tudo.

543 - ALCOFORADO (De joelhos) - Oh! Senhora, ainda é tempo, deixai-me precipitar daquela janela e sereis salva.

544 - O DUQUE (De fora) - Duquesa!

544-A - A DUQUESA - Céus! Meu marido!

545 - ALCOFORADO - Perdão! Perdão! (Cai-lhe o barrete)

546 - O DUQUE (De fora) - Arrombai essa porta!

547 - A DUQUESA - Esperai. Alcoforado, não leveis mão da vossa espada contra meu marido; eu vô-lo suplico por mim, por meus filhos, por Deus, por tudo o que mais amais.

548 - ALCOFORADO - Não usarei dela.

549 - O DUQUE (De fora) - Arrombai! (Pancadas na porta)

550 - A DUQUESA - Escondei-vos!... Senhor, sede comigo! (Abre a porta).

CENA V[editar]

O DUQUE, a DUQUESA

551 - O DUQUE (Atentando na agitação da duquesa e olhando para todos os lados com desconfiança) - Está aqui!

552 - A DUQUESA (À parte) - Já sabe tudo!

553 - O DUQUE (Em voz baixa e rouca) - Onde está ele?

554 - A DUQUESA - Ele quem, senhor? Vós me apareceis pelo meio da noite ameaçador e terrível: vindes tumultuosamente, acompanhado pelos vossos escravos para fazer arrombar a porta da minha câmara Por que, senhor? Sou eu acaso alguma mulher sem consideração, alguma criatura vil e desprezível para que nem sequer vos lembrásseis que a vossa suspeita me desacreditaria no conceito dos vossos lacaios? Senhor Duque...

555 - O DUQUE - Onde está ele?

556 - A DUQUESA - Fizestes iluminar o vosso parque, mandastes armar os vossos homens de armas, alvoroçastes todo o palácio; para que, senhor? Eu sou mulher e vós bem me podeis fazer morrer sem ser à força de escândalo e de vergonha, sem me acabrunhar com todo o peso do vosso poderio. Vindes cercado de uma turba vil e mercenária, a quem basta um só aceno vosso para me cuspir no rosto, porque sou mulher e fraca, enquanto que vós sois homem e temido. É isto ser nobre?

557 - O DUQUE - Onde está ele?

558 - A DUQUESA - Onde está ele! Está aqui, senhor; está aqui no meu leito. (Conferido as cortinas) São vossos filhos: eles que vos atestem a minha inocência.

559 - O DUQUE (Apanhando o barrete) - A fita! A fita!

560 - A DUQUESA - Meu Deus!

561 - O DUQUE (Arrojando o barrete ao chão e calcando-o aos pés) - Morrerá!

562 - A DUQUESA - D. Jaime, escutai-me pacientemente: eu vos explicarei este azar funesto que me faz parecer culpada.

563 - O DUQUE - Ambos! Ambos!

564 - A DUQUESA - Escutai-me, Senhor Duque: vós ides cometer uma injustiça.

564 - O DUQUE - Injustiça! Sois bem disfarçada e atrevida arrostando o olhar de um homem ultrajado sem cair por terra, de joelhos, de mãos postas, clamando perdão para o vosso delito e piedade para o que haveis de sofrer!... Injustiça! Um vilão que acha no seu leito dois adúlteros, duas víboras, pode esmagá-los impunemente e eu não o poderei fazer? Por que o não poderei? Por que sou herdeiro jurado do trono, duque de Bragança e Guimarães, senhor de Ourém, Borba, Chaves, Barcelos e Vila Viçosa? Por que sou o primeiro duque da Europa e o mais poderoso entre os nobres depois da nobreza coroada? Por São Tiago que vos desenganaremos?

565 - A DUQUESA - Por São Tiago que vos enganais: podeis, sem dúvida, matar-me, senhor; mas vós vos arrependereis e o vosso arrependimento será tardio; conhecereis a minha inocência já tarde e o remorso vos não deixará.

566 - O DUQUE - Justificai-vos perante todos os da minha casa; não quero que se diga que eu mato uma inocente. Olá!

567 - A DUQUESA - Senhor, eu leio a minha condenação nos vossos olhos; vejo que me não haveis de perdoar, nem fazendo o céu um milagre para me salvar e para vos mostrar a minha inocência. A minha vida tem sido constantemente um estorvo para os vossos projetos e eu conheço que ocultais a vossa convicção para mais facilmente vos livrardes de mim, eu o sei e o vejo; porém, se me quereis matar, Senhor Duque, se é esse o vosso propósito, como eu o creio, matai-me vós mesmo, barbaramente se o quiserdes; manchai embora o meu nome com uma nódoa infamante, mas não me humilheis na presença dos vossos servos. O meu nome é o vosso, Senhor Duque: não os podeis separar.

568 - O DUQUE - Assim é, senhora; liguei o meu nome ao vosso, e vós tomastes o trabalho de mo infamar: trabalho bem fácil para vós, impossível para o mundo. Quando pois o vosso nome se tornar sinônimo da infâmia, o meu se converterá em ludíbrio da populaça, que folga, a vil, com o desar dos grandes. Assim fora se me não viesse à mente fazer secar a mofa e o escárnio nos lábios do mais atrevido com o sentimento do terror. Bem dissestes vós... eu posso matar-vos a ambos, martirizar-vos, espezinhar-vos... nada me seria mais fácil. Mas esta vingança, que bastaria talvez para satisfazer a um vilão, não me satisfaz a mim. Oh! Tivesse eu a certeza que esta frágua de ódio que me devora não me consumirá inteiro dentro de algumas horas; pudesse eu contar com a vida até o raiar do sol... fora outra a minha vingança!... Esta noite eu faria erguer em Vila Viçosa dois patíbulos, um em frente do outro e daria amanhã um espetáculo de sangue aos meus bons e leais burgueses. Convidaria a todos para um festim de rei, far-vos-ia arrastar pelas ruas como dois miseráveis criminosos; e malgrado as justiças dei-rei, eu vos faria subir ao cadafalso, à luz do sol, à vista de todos e à face do mundo. Mas já que não posso contar com a vida, tomarei outra vingança, se menos esplêndida, igualmente aterradora. Entrai.

569 - A DUQUESA - Senhor, é de joelhos que eu vô-lo peço; não me obrigueis a corar morrendo, nem a suportar a piedade hipócrita dos meus inferiores que em torno de mim se estarão rindo interiormente com o meu suplício e com a minha desdita!

570 - O DUQUE - Entrai.

CENA VI[editar]

O DUQUE, a DUQUESA, FERNÃO, homens armados, pajens com luzes.

571 - A DUQUESA (Cobrindo o rosto com as mãos) - Ah! São eles!

572 - O DUQUE - Traidores não merecem contemplação.

573 - A DUQUESA (Erguendo-se) - Nem o sou, nem meus pais o foram nunca. Senhor, podeis empunhar o cutelo do algoz, podeis cobrir o rosto com a máscara da justiça, podeis fazer-me assassinar traiçoeiramente: só não podereis descobrir labéu na minha vida, nem crime nas minhas ações.

574 - O DUQUE (Aos da sua comitiva) - Procurai por toda a parte um vil que deve estar neste palácio.

CENA VII[editar]

OS MESMOS, ALCOFORADO (Saindo detrás do leito)

575 - ALCOFORADO - Senhor Duque!

576 - O DUQUE - Enfim! (A Fernão) Fernão, dize ao preto cozinheiro que traga o manchil da cozinha; dize a dois dos meus capelães que venham confessar dois penitentes. (Fernão sai)

577 - ALCOFORADO - Esqueceis que ainda tenho a minha espada?

578 - O DUQUE - Usai dela: folgaremos com isso.

579 - A DUQUESA (Baixo) - A vossa promessa... lembrai-vos!

580 - ALCOFORADO (Ao duque) - Eu prometi que não levaria mão da minha espada contra vós, e que o não prometesse! Vale porventura a minha vida um combate? (Depondo a espada) Aí tendes a minha espada, Senhor Duque.

581 - O DUQUE (Dando com o pé na espada) - Cobardia!

582 - ALCOFORADO - Senhor!

582 - O DUQUE - Calai-vos!... Digo-vos que sois cobarde porque sois traidor, e o traidor não pode deixar de ser cobarde.

583 - ALCOFORADO - Ainda hoje mostrei que o não era!

584 - O DUQUE - Silêncio! Que mostrastes vós? Que já na vossa idade tendes a astúcia de uma serpente: e de feito tendes enganado a todos com falsas aparências de nobreza e de candura; mendigastes a minha proteção, introduzistes-vos em minha casa, aliciastes meus servos, seduzistes minha... nem eu sei como a chame!... Morrerão ambos!

585 - ALCOFORADO - Assim é, Senhor Duque; eu sou um cobarde, um falso, um infame, não pelo que dissestes, mas porque envolvi na minha ruína uma criatura inocente como os anjos; porque, depois de a ter obrigado a descer ao fundo da minha ignomínia, não a pude defender das vossas afrontas, nem dos doestos que lhe assacastes, coisas que não eram para dizer: por isso mereço a morte. Estou no vosso poder, Senhor Duque; fazei de mim o que vos aprouver, mas até o meu derradeiro instante ouvireis a minha voz bradar cada vez mais alto: - A duquesa é inocente!

586 - O DUQUE - Mentira! O cobarde deve mentir.

587 - ALCOFORADO - Ainda quando a mentira houvesse escolhido os meus lábios para sua morada, não vos mentiria eu no meu derradeiro instante para que a maldição divina não pesasse eternamente sobre minha alma. Não é por mim que vos suplico a vida, Senhor Duque; fora indigno de viver quem tão baixamente a suplicasse. Estou no vosso poder, nem disso me queixo: depus a minha espada a vossos pés antes que me viesse a tentação de a arrancar contra vós; curvei a cabeça na vossa presença e, de joelhos e à hora da morte, eu vos digo que ela é inocente, que por isso me tenho envilecido e que por isso me envileço ainda.

588 - A DUQUESA (À parte) - Nobre mancebo!

589 - O DUQUE (Encarando-a fixamente) - Tredos! Fizesse eu correr o mar entre ambos que de um lado a outro voaria o pensamento do adultério!... Mar de sangue correrá entre ambos.

590 - ALCOFORADO - Saciai a vossa vingança no meu sangue que será bastante para apagá-la; puni o criminoso, mas não vos deixeis cegar pela vossa cólera, não mistureis o sangue do inocente com o sangue do pecador. Não sabeis quantas vitimas cairão comigo na sepultura?... Minha irmã enlouquecerá!... Meu pai... oh! Eu vos juro que será um desengano terrível para o bom do velho o féretro que amanhã lhe for enlutar a habitação, quando ele tropeçar em um cadáver, em vez de abraçar seu filho, seu filho bem amado que ele ainda espera abençoar e mandá-lo às terras de África pugnar pela religião de seus pais, banhando a espada no sangue de infiéis!... Quando lhe chegar aos ouvidos notícia de morte tão desastrada, o desgosto lhe quebrará violentamente a vida. O pobre velho morrerá!.,. Se quereis mais vitimas, vítimas, senhor, se inocentes vos são precisas para o vosso sacrifício, sereis amplamente satisfeito O velho e a donzela, ambos morrerão; e todavia não é por mim, não, é por eles que imploro a vossa compaixão! Sede justo, senhor: salvai-a.

591 - O DUQUE - Entra, escravo. (Entra o preto com um manchil) Evilecer-se-ia o braço de homem livre que vos cortasse a cabeça, e a espada que no vosso sangue se tingisse se tornaria infame; não morrereis por mão de um homem livre, nem aos golpes de uma espada. Vede... Vede também, senhora!

592 - A DUQUESA - Oh! Senhor!

593 - O DUQUE (Á duquesa) - Vede: será o seu carrasco um escravo, um preto... (Arroja-a de si e ela cai de joelhos)

594 - A DUQUESA - Meu Deus! Compadecei-vos de mim!

595 - O DUQUE (A Alcoforado) - E o instrumento da vossa morte será um manchil grosseiro tão vil como vós sois.

FIM DO QUARTO QUADRO

ATO TERCEIRO[editar]

QUADRO QUINTO[editar]

A cena representa um aposento no palácio do Duque, do lado direito um altar paramentado de tela branca e sobre ele um crucifixo, do outro lado mesa e cadeira, portas no fundo.

CENA I[editar]

596 - A DUQUESA (Só, nos degraus do altar) - Não posso orar!... O meu coração não pode despegar-se da vida, minha alma não pode elevar-se até Deus e a religião me não pode consolar!... Quisera ter alguém que me falasse, porque me parece que isto é um sonho! Um sonho horrível que me está sufocando!... (Pausa) Tenho frio!... Mas por que aterrar-me assim? Se eu tenho sempre de morrer, que importa que me venha a morte agora ou logo, hoje ou passados anos?... A vida cansa, e Deus tem um sorriso mais carinhoso para aquele que mais sofre sobre a terra, e eu tenho sofrido muito!... Em vão, em vão! Apesar do sofrimento, eu quisera ser como as outras, viver a minha vida até o fim, e morrer com a morte que Deus manda! (Pausa) O duque é bem cruel e todavia eu sou como ele, sou talvez mais do que ele, e morrerei!... Morrerei porque sou fraca, morrerei porque sou mulher!... Deus foi misericordioso para comigo em me não ter dado uma filha; que se eu a tivesse, por muito que a amasse, e ainda que ela fosse a única... meu Deus! cometeria hoje um crime... matava-a... seria talvez condenada por toda a eternidade, porém, ela seria livre no céu! Mas por que será irrevogável a minha condenação? Eu sou esposa sua, a mãe de seus filhos. Por ventura quis ele punir a minha imprudência só com o terror, e a estas horas já ele terá pensado que o meu martírio deve acabar. O duque é generoso; se ele tem sempre esmola para os mendigos, por que não terá também piedade para os que sofrem? Eu sofro tanto!

CENA II[editar]

A DUQUESA, PAULA

597 - PAULA - Senhora Duquesa!

598 - A DUQUESA - Quem me chama?... Paula!

599 - PAULA - Deixai-me chorar a vossos pés!

600 - A DUQUESA - Já me havia esquecido de ti, boa Paula; bem hajas tu que em tanta tristeza te vieste fazer lembrada, e que te não esqueceste da mãsera condenada que algumas horas apenas tem de vida. (Encostando-se ao ombro dela) Quando eu era feliz, e já me parece que foi há muito tempo, tinhas sempre um sorriso para desfazeres as minhas preocupações; e hoje achaste no teu coração algumas lágrimas que vens derramar sobre o meu infortúnio. Bem hajas tu.

601 - PAULA (Chorando) - Vós, que sois inocente, Senhora, por que haveis de morrer?

602 - A DUQUESA - Dize, dize que não é para me consolar que assim me falas; jura-me que acreditas na minha inocência: preciso que alguém creia nela para não morrer de desespero.

603 - PAULA - Não tenho eu vivido sempre na vossa companhia? Não leio no vosso rosto como na minha alma? Não sei eu que se pudésseis cometer um crime, nenhuma haveria que não fosse criminosa?

604 - A DUQUESA (Tristemente) - Os meus também hão-de acreditar na minha inocência, mas já tarde; talvez romperão lanças em favor dela, mas eu já serei morta! Oh! Se as lágrimas do arrependimento e do remorso pudessem dar a vida a um cadáver, não me pesara morrer, porque eu teria certa a minha ressurreição! Oh! boa Paula, é bem mal permitido que o homem, que não pode dar vida, tenha o poder de matar; é bem injusto que uma miserável criatura possa apagar a luz preciosa da existência que só Deus pode acender!... É bem injusto, meu Deus!

605 - PAULA - É destino, Senhora Duquesa; que lhe havemos nós de fazer!

606 - A DUQUESA - Tens razão; temos todos o nosso calvário, carregamos todos com a nossa cruz; e por que não haveria eu de sofrer também?... Mas, ó Senhor! bem aviltador é o meu calvário, e a minha cruz é muito pesada para mim!... Morrerei, Paula. O último favor que te pedir, cumpri-lo-ás tu?

607 - PAULA - Dizei, Senhora.

608 - A DUQUESA - Quando me aparelharem para o meu infame suplício, hão-de cortar-me os cabelos; creio que assim se faz. Tu os ajuntarás, Paula: vai depois ao meu guarda-roupa, e lá encontrarás os meus vestidos que eu trouxe da Espanha; era então uma criança!... Tira um deles e manda-o à minha irmã com uma trança dos meus cabelos: farás isto?

609 - PAULA - Eu o farei.

610 - A DUQUESA - Bem quisera eu deixar-te uma lembrança, boa Paula: mas que posso eu agora? Entrei para esta casa coberta de veludos, e hei-de sair vestida com a mortalha: entrei nova e cheia de inocência, e hei-de sair ainda nova, mas infamada!... A vossa pobre duquesa, mais pobre do que vós outras, nada tem para recompensar os bons serviços dos seus fiéis servidores. Escuta: quando eu for morta, tomarás para ti o meu livro de orações e escreverás na primeira página o meu nome com o meu sangue; não creias que sele seja vil porque o hão-de derramar vilmente!... Não lhe ponhas título nenhum, só o meu nome de batismo; e quando rezares lembra-te da infeliz Leonor, e dá-lhe uma das tuas orações.

611 - PAULA - Seja-me Deus boa testemunha em como, se morrerdes, eu me irei sepultar em algum convento para ali passar a minha vida em orações e penitências, não por vós, mas por ele que vos assassina. (Como que se lembra, levantando-se) Ah!

612 - A DUQUESA - Assim me deixas?

613 - PAULA - Esperai, esperai! (Sai).

CENA III[editar]

614 - A DUQUESA (Só) - Nunca me julguei com forças para sofrer tanto, nem que eu tivesse tantas lágrimas para chorar. No entanto, sofro como se nunca houvera sofrido; choro como se nunca houvera chorado. (Pausa). Sinto passos!... Quem sabe se não será o carrasco?... O carrasco!... (Sobe com terror pelos degraus até encostar-se às paredes do altar).

CENA IV[editar]

A DUQUESA, PAULA, os dois meninos.

615 - A DUQUESA (Correndo para eles) - Meus filhos! Meus pobres filhos!... (Beijando-os e abraçando-os) Vossa mãe ia morrer sem vos abençoar na hora da morte, sem beijar-vos, sem acariciar-vos mais esta vez, sem vos banhar o rosto com as suas lágrimas!... Meus pobres filhos! Que fareis vós no mundo sem o amor de vossa mãe?... Talvez que uma estrangeira venha deitar-se no meu leito para dele vos expulsar!... Que sereis vós sem mim!... Inocentes! Pobres inocentes!... Eles vos dirão que eu fui uma grande criminosa e que me havia tornado indigna de viver: não os acrediteis, meus filhos!... Quando vos disserem mal da vossa pobre mãe, lembrai-vos de hoje e de minhas lágrimas, e adivinhareis então que eu fui bem infeliz, ouvistes?... Oh! Eles não compreendem as minhas palavras, e até do meu nome se hão-de esquecer!... Paula! Paula! Por que me trouxeste meus filhos?... Eu me resignaria a morrer, e agora é impossível!... Atende-me: vai ter com o senhor duque, dize-lhe que lhe quero falar uma hora, um instante antes de morrer. Deixa-me meus filhos... não, leva-os; dir-lhe-ás que é em nome deles que eu lhe peço um instante para lhe falar; e ele não me poderá negar mercê tão pequena. (Paula sai com os meninos)

CENA V[editar]

A DUQUESA, LOPO GARCIA

616 - A DUQUESA (Só, no meio da cena) - Ele me perdoará!

617 - LOPO GARCIA - Senhora!

618 - A DUQUESA - Lopo Garcia! Ah! Que me acordais bem cruelmente, meu padre!

619 - LOPO GARCIA - Resignai-vos, minha filha.

620 - A DUQUESA - Resignar-me a quê? Não carecerei de vosso mister, meu padre; já mandei chamar a D. Jaime, que me não poderá recusar uma entrevista.

621 - LOPO GARCIA - Resignai-vos!

622 - A DUQUESA - Mas não estais vendo que é impossível que eu morra assim?... Não sabeis que meu pai é o duque de Medina Sidônia?... O Senhor Duque não pensou nisso: ele me perdoará.

623 - LOPO GARCIA - Não o fará.

624 - A DUQUESA - Como! Vós que sois um bom e santo padre pondes um freio injurioso à bondade daquele que folga em sua justiça de amolgar o coração mais endurecido e de reparar o mal por mão daquele mesmo que o praticou?

625 - LOPO GARCIA - Não o espereis! A esperança engana sempre que não esperamos a morte. Preparai-vos no santo tribunal da penitência para subirdes à presença do Senhor; confessai as vossas culpas e contristai-vos!

626 A DUQUESA (Chorando) - Ah! Meu padre, sois bem cruel em me despojar assim das minhas últimas esperanças. Deus vos perdoe a dor que me causais.

627 - LOPO GARCIA - Que merece a vida, minha filha? É um sonho mais ou menos longo, alegre ou triste, que o acordar da morte só vale dissipar. Consolai-vos! Deus é misericordioso e vos perdoará em favor do vosso arrependimento.

628 - A DUQUESA - A vida! A vida, meu padre!

629 - LOPO GARCIA - Não vos rebeleis contra o Senhor, nem o irriteis com a vossa desobediência! Curvai a cabeça perante a sua justiça e confessai-vos para que a morte vos não colha impenitente.

630 - A DUQUESA - Que vos hei-de eu confessar?

631 - LOPO GARCIA - A vossa vida. Qual é o justo que vive sem pecado durante o período de sua existência? Recordai-vos de quanto haveis feito, dito ou pensado, e atentai que, se é o sacerdote quem escuta as vossas palavras, é Deus quem recebe a vossa confissão.

632 - A DUQUESA - A minha vida... é um tecido de dores bem pequenas que talvez não compreendais e que todavia me têm martirizado.

633 - LOPO GARCIA - Contai-a.

634 - A DUQUESA (Depois de alguns instantes de silêncio) - Criança me trouxeram da casa de meus pais, prenderam-me numa câmara forrada de veludo, envolveram-me em alcatifas de seda, em reposteiros de damasco e eu disse adeus ao meu prado florido, ao meu jardim encantado, às flores que eu amava, a tudo, meu padre, a tudo!... Disseram-me então que eu pertencia a um homem e que o devia amar porque ele era meu esposo. Afiz-me à idéia de que lhe pertencia, fiz esforços incríveis para o amar, a ele, que eu só via de quando em quando, rodeado de larga turba de cortesãos, polido e respeitoso para comigo, porém, nunca extremoso. Nunca ele teve franqueza para comigo, nunca eu a pude ter para com ele; nunca o pude amar. E se ele o quisera! Bem pouco lhe seria preciso, porém, jamais se deu ele a esse trabalho. Nunca, meu padre, nunca estive com ele sem recear um acesso de sua cólera, sem tremer na sua presença como uma escrava. Dizei, meu padre: sou eu culpada em o não ter podido amar?

635 - LOPO GARCIA - Continuai.

636 - A DUQUESA - Quisestes escutar a minha vida... já vô-la contei. Não tive flores na minha infância, nem descanso na minha juventude. Outras culpas terei eu de que me não recordo... Deus mas perdoará.

637 - LOPO GARCIA - Não mintais à hora da morte!... E o mancebo que foi há pouco encontrado no vosso aposento?

638 - A DUQUESA - Ah! Sim, meu padre, a ação pertence à criatura mas as circunstâncias vêm... talvez do céu. Serei criminosa para Deus, porém, sou inocente perante os homens. Ouvi. Na minha soledade houve um mancebo que se compadeceu de mim, talvez porque adivinhou os sofrimentos que eu curtia silenciosa; desvelou-se no meu serviço; cercou-me de solicitudes, velava incessantemente sobre mim. E eu conheci que ele era respeitoso e cheio de extremos e que o seu amor era nobre, inocente e puro, como sua alma. Dizei-me, fiz mal em o não expulsar da minha presença?

639 - LOPO GARCIA - Continuai!

640 - A DUQUESA - Por algum tempo me deixei embalar por esse novo afeto que então principiava a sentir: veio-me depois a idéia que eu o não devia entorpecer na sua carreira e pedi ao senhor duque que o dispensasse do seu serviço e que o mandasse para África ganhar nome no serviço del-rei e salvação em guerras de infiéis. Dizei: fiz mal intercedendo por ele?

641 - LOPO GARCIA - Continuai.

642 - A DUQUESA - Ontem o senhor duque quis que o acompanhasse a uma caçada: acompanhei-o. No meio dela um javali ia espedaçar-me; esse mancebo salvou-me a vida. Dizei: fiz mal dizendo-lhe que lhe devia a vida?

643 - LOPO GARCIA - Prossegui.

644 - A DUQUESA - Ele ia partir para África, mais por força das minhas instâncias do que por vontade sua. Cheio de funestos pressentimentos, que ainda mal se realizaram, ele se lançou a meus pés pedindo-me que o escutasse. O senhor duque nos podia surpreender, algum pajem nos podia escutar e ele estaria perdido; fui prudente. Pediu-me uma entrevista para esta noite, que ele devia partir ao amanhecer. Eu conhecia a sua nobreza e honradez; concedi-lha. Dizei: fiz mal em ser prudente para uno ser uma ingrata?

645 - LOPO GARCIA - Acabai.

646 - A DUQUESA - À noite eu o recebi na minha câmara; meus filhos descansavam no meu leito. Ele disse que me amava; eu disse que o amava também como a um irmão, como a um filho. Fui nisto criminosa?

647 - LOPO GARCIA - Nada mais?

648 - A DUQUESA - Nada mais! Foi ser boa, afável, generosa, agradecida e prudente, tudo isto que na terra se diz virtudes, e que porventura também se chama virtudes no céu: foi tudo isto que me perdeu!

649 - LOPO GARCIA - Deus vos receberá na sua glória, minha filha.

650 - A DUQUESA - Mas não compreendeis vós que, se eu morrer, o mundo me julgará criminosa? Não vedes que eu não quero morrer porque amo a vida, que o não posso porque sou inocente?

CENA VI[editar]

LOPO GARCIA, o DUQUE, a DUQUESA

651 - O DUQUE - Acabai com a vossa confissão!

652 - A DUQUESA (Levantando-se) - Dai-me forças, meu Deus!

653 - LOPO GARCIA - Escutai-me um instante, Senhor Duque!

654 - O DUQUE - Não vos podemos atender, meu padre!

655 - LOPO GARCIA - Bem sei que o segredo da confissão é inviolável e sagrado; porém, Deus me perdoará se obro mal com isto, porque o faço para vos poupar um crime. Senhor Duque, a vossa esposa é inocente!

656 - O DUQUE - Não cometais um sacrilégio, meu padre; perfizestes o vosso mister; podeis retirar-vos.

657 - LOPO GARCIA - Eu vô-lo repito, Senhor, ela é inocente!... A duquesa terá caído em faltas que hão-de achar graça na presença de Deus, e Deus é justo. Vós sois homem, Senhor Duque; não sejais mais rigoroso do que ele... perdoai-lhe.

658 - O DUQUE - Meu padre, não aprouve ao Senhor dar-nos o condão da paciência... retirai-vos. (Lopo Garcia sai).

CENA VII[editar]

O DUQUE, a DUQUESA

659 - O DUQUE - Findou-se o prazo, Senhora duquesa!

660 - A DUQUESA - Senhor, mais um instante.

661 - O DUQUE - Mais dez minutos.

662 - A DUQUESA - É pouco, Senhor: tenho tanto para vos dizer!

663 - O DUQUE - Tendes um quarto de hora.

664 - A DUQUESA (Depois de um instante de silêncio) - Assim, pois, Senhor duque, não quisestes dar crédito às palavras de um moribundo que sobre a condenação eterna de sua alma vos asselava a minha inocência com um pé sobre o sepulcro!

665 - O DUQUE - Mentiu: eu vi a fita!

666 - A DUQUESA - A fita! Mas se ela fosse um presente vergonhoso, não a recataria ele cuidadosamente ao invés de a trazer tanto às claras? Não vos parece que seria isso uma loucura, Senhor duque?

667 - O DUQUE - Que sei eu? A alma do vilão embriagou-se com a posse de uma duquesa; quis fazer alarde dos seus amores, quis escarnecer de mim... enganou-se!

668 - A DUQUESA - Se não quereis acreditar nas palavras do moribundo, dai crédito ao menos ao santo sacerdote. Não vos disse ele que eu era inocente?

669 - O DUQUE - Mentistes vós: ele lá estava convosco.

670 - A DUQUESA - Meus filhos também lá estavam, senhor.

671 - O DUQUE - Escândalo maior, Senhora, escândalo maior! Quando mentistes ao sacerdote na vossa última confissão, condenastes. a vós mesma; se tão somente profanásseis o vosso leito, o crime ficaria ainda convosco! Fora isso apenas impiedade numa cristã, infâmia numa esposa! Há muito disso. Mas que a esposa se lembrasse dos filhos para encobrir o seu adultério, que o crime se lembrasse da inocência para vestir a sua nudez, que a mãe se lembrasse dos filhos para os industriar no crime... eis o que é horroroso, Senhora, eis o que é estupendo e inaudito, eis o crime por que haveis de morrer!...

672 - A DUQUESA - Imprudentemente me prodigalizais impropérios e convívios, Senhor duque. Fui criada em vossa casa, foi vossa mãe quem me educou. Atentai que parte de quanto me dizeis recai sobre quem se encarregou da minha educação.

673 - O DUQUE - Por quê? Conheço almas fáceis que se persuadem que ser virtuosa é ser fingida e que para ser impune basta ser habilmente criminosa. Outras há que nascem propensas para o crime e com o instinto do vício no coração. Há criaturas assim!

674 - A DUQUESA - Senhor duque, vós sois poderoso e escusais de subterfúgios contra mim. Ninguém vos pedirá contas da minha morte, Senhor, e escusais de torcer os vossos juízos para me caluniar. Podeis dizer, e dizei-o francamente, que ninguém nos escuta: "Morrerás porque assim o quero!" É uma razão que todos compreendem, a razão do mais forte, se não é a do mais nobre. Contra a vossa vontade me oferecestes mão de esposo e tendes sempre vivido constrangido considerando-me como um estorvo para a vossa vocação porque premeditáveis ser frade ou coisa semelhante. Bem oportunamente vos sorri este ensejo para de mim vos desfazerdes. Aproveitai-vos dele, e agradecei ao azar sem ostentardes de justiceiro. Não me faleis em justiça humana, Senhor, porque eu me poderei lembrar que vosso pai foi humanamente justiçado!

675 - O DUQUE - Deus vos encontre tão pura como ele, Senhora duquesa.

676 - A DUQUESA (De joelhos) - Perdão, Senhor, perdão. Não era isso o que eu vos quisera dizer; mas sei eu por ventura o que digo?... Estou quase louca, não penso, não meço as minhas palavras. Perdoai-me!... Eu amo a vida, Senhor duque; por que vos hei-de eu mentir?... Sou uma mulher fraca e sem forças; choro porque a amo e porque me dói perdê-la. Sou eu acaso algum homem para ter coragem?... Amo a vida,, amo tudo o que me cerca, amo tudo o que me era indiferente... sou nova e não posso resignar... sou inocente e não devo morrer. Perdoai-me! Que vos importam algumas palavras descuidadas que me escaparam? Não pensei nelas, nem foi minha intenção ofender-vos. Vós me aborreceis e com razão... O que era eu para merecer o nome de vossa esposa?... Que sou eu para vos merecer o vosso amor? A mim também casaram-me sem que eu soubesse o que era matrimônio. E que culpa tenho eu em não ter resistido à obediência a que desde criança me afizeram?... Como o poderia eu imaginar!... Ainda então não sabia que o homem, que é forte, pode ser obrigado a casar-se contra o seu querer, a casar-se com uma mulher que ele não ama!

677 - O DUQUE - Quem me poderia obrigar, Senhora?

678 - A DUQUESA - Tendes razão: eu é que sou uma louca em vos dizer estas coisas; mas tenho eu consciência do que vos estou dizendo?... Digo-vos tudo quanto me vem à cabeça para que vejais quanto sofro e para que perdoeis, Senhor duque...

679 - O DUQUE - Levantai-vos, Senhora Duquesa: o meu propósito é irrevogável.

680 - A DUQUESA - Mudá-lo-eis, senhor; mudá-lo-eis quando aventardes que mofina que eu sou e que embaraços a minha morte vos pode acarretar. O conde de Urenha, meu cunhado e o marquês de Cazaça, meu irmão, virão reptar-vos para o duelo, apelando da vossa sentença para o juízo de Deus.

681 - O DUQUE - Atrever-se-ão eles!.

682 - A DUQUESA - Meu Deus! Como lhe hei-de eu falar!... Eu vos digo estas coisas sem consciência de vos ofender. Eu é que sou a medrosa, vós sois forte e valente, de nada vos arreceais. Com efeito, de que vós podeis temer? Que vos importam meus irmãos, ou que vos podem eles fazer? Bem podeis vós calcar-me, bem podeis matar-me e fazer de mim quanto mais vos aprouver; mas que glória vos virá daí, Senhor duque?

683 - O DUQUE - Confrontai estas vossas palavras com as que ainda há pouco em a vossa câmara me dissestes!... Com o gesto irritado, com o olhar sobranceiro pedistes-me contas do meu proceder tachando-me de pouca lisura e comedimento! Agora, porém, confessais a minha prepotência, e tendes sem dúvida para vós que, se como homem me injuriastes, eu como senhor me vingo!... Apesar de vos abaixardes tanto, Senhora...

684 - A DUQUESA (Levantando-se) - Senhor duque!

685 - O DUQUE - Apesar de quanto tendes feito para alcançar a vida, apesar de tudo quanto me haveis dito ou me possais dizer não será menos certa a vossa morte. Acreditai que me não deixarei amolgar pelas vossas preces e que nem as vossas lágrimas torcerão a minha justiça. Morrereis!

CENA VIII[editar]

OS MESMOS, um PAJEM

686 - O SERVO - Senhor duque!

687 - A DUQUESA - É ele!

688 - O DUQUE - Viestes oportunamente. Findou-se o prazo.

689 - A DUQUESA - Meu Deus!

690 - O SERVO - Perdoai o meu arrojo, Senhor duque e não me tenhais má vontade, porque uma só vez vos desobedecerei.

691 - O DUQUE - Falai.

692 - O SERVO - Não vos posso servir nesta ocasião, Senhor!

693 - O DUQUE - Por quê?

694 - O SERVO - Aquele santo padre que há pouco saiu desta câmara, disse-nos que a Senhora duquesa era inocente, e que excomungado seria que em mal dela vos obedecesse!

695 - A DUQUESA - É possível!

696 - O DUQUE - Por nosso respeito não desobedecereis ao santo padre, nem ireis contra os ditames da vossa consciência! Entre os nossos vassalos mais do que um haverá que neste ensejo nos acuda em vossa falta. Chamai-os! (O servo abre a porta e faz sinal para dentro).

CENA ÚLTIMA

O DUQUE, a DUQUESA, servos, homens de armas

697 - O DUQUE - Este homem que aqui vedes nos obriga em circunstâncias bem melindrosas, a experimentar a vossa lealdade. Precisamos de um executor de alta justiça, e dar-lhe-emos com a nossa proteção cem peças de ouro.

698 - A DUQUESA - Inspirai-os, meu Deus! Inspirai-os!

699 - O DUQUE - Nenhum se move!... Pensais talvez que mais vale a cabeça de uma duquesa... nós lhe daremos mil peças de ouro e primeiro lugar entre os meus servidores.

700 - A DUQUESA - Hão-de tentar-se!... Nenhum! Nenhum!

701 - O DUQUE (Concentrado) - O Padre!... Por que o deixei sair quando precisava de um algoz?... (Baixo ao primeiro servo). O estrado e o cepo?

702 - O SERVO - Estão prontos.

703 - O DUQUE - E o cutelo?

704 - O SERVO - Está afiado.

705 - O DUQUE (Como que falando consigo) - Uma duquesa não deve morrer como uma mulher vulgar.

706 - A DUQUESA - Estou salva!

707 - O DUQUE (Em voz alta) - A filha de D. João de Gusmão, duque de Medina Sidônia, conde de Niebla, marquês de Cazaça e senhor de Gibraltar, merece contemplação pela sua hierarquia. (À duquesa). Não vos parece?

708 - A DUQUESA (Tímida) - Foi talvez inspiração do céu a que tornou esses homens surdos à voz do interesse.

709 - O DUQUE - E do céu é que vem esta inspiração, Senhora duquesa. Alegrai-vos... tereis um duque por carrasco!

710 - A DUQUESA - Vós! Senhor!

711 - O DUQUE (Travando-lhe o braço) - Vinde!

712 - A DUQUESA - Oh! Ainda um instante!

713 - O DUQUE - Nada mais!

714 - A DUQUESA - Eu tenho ainda tanto para vos dizer... Escutai-me até o fim, e certamente me haveis de perdoar.

715 - O DUQUE - Não vos perdoarei.

716 A DUQUESA - O que é um instante para vós que ficais desfrutando a vida?... Por Deus! Dai-me um só instante!

717 - O DUQUE - Não vos escuto!

718 -. A DUQUESA - Um instante, senhor!

719 - O DUQUE (Saindo com ela pela porta do fundo) Morrereis!... Morrereis!...

FIM DO DRAMA