Livro de uma Sogra/IX

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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo IX


A invariável convivência matrimonial é coisa muito séria, é a grande razão da corrente infelicidade doméstica, é a causa imediata da fatal desilusão dos cônjuges, mesmo daqueles que se casam por amor legítimo e verdadeiro, como eu me casei; é fonte de inevitável desgraça para a vida inteira, desgraça que os noivos ainda mais agravam, imprudentemente, com os recursos artificiais e hipócritas do namoro, quando aliás a mocidade, a graça natural e o amor deviam ser os únicos agentes da atração que os ajunta e abrocha.

Quando um moço, ou uma moça, quer casar, qual é o seu primeiro cuidado? — Enfeitar-se; ou melhor — disfarçar-se.

Ela recorre às torturas do espartilho para fazer a cinta inverossimilmente fina, às torturas dos sapatinhos apertados para fazer o pé microscópico; recorre aos arrebiques, ao pó-de-arroz, às opiatas, ao dentista, ao cabeleireiro, à modista. De feia pode fazer de si uma dessas elegantes bonecas de salão, por quem às vezes os homens se enfeitiçam. Ele, por outro lado, trata logo de dar brilhantina e cosmético ao bigode, calça-se com esmero, e estuda os meios, não de conseguir a própria felicidade e a daquela que pretende para esposa, mas de tornar-se irresistível dançando a valsa; e põe monóculo, e faz versos, ou arranja quem lhos faça. E ambos, depois de bem enfrascados em perfume, depois de bem adornados e convertidos no que não são, esforçam-se, cada qual com mais empenho, em esconder aos olhos do outro os seus defeitozinhos e as suas pequenas misérias de entes civilizados.

Ela, coitada! para de si dar cópia de um ser poético e vaporoso, recita poesias sentimentais ao piano, fala de coisas românticas que pescou de orelha, levando a comédia ao ponto de não querer à mesa, se houver rapazes presentes, quase que tocar nos pratos; e suspira, e requebra os olhos, e sibila os ss, e remexe-se toda, e toma langorosas posturas estudadas; e quando anda, e quando fala, e quando dança, e quando pousa na cadeira, é sempre com a mesma simulação e fazendo mil esgares de faceirice, mil trejeitos de ingenuidade e ao mesmo tempo de provocação amorosa.

Ele, bem barbeado, cheiroso, limpo e janota, afeta grande pureza de costumes e de maneiras, escolhe para a conversa assuntos finos e termos convenientes; faz-se terno, cordato, circunspecto, com um gênio de anjo; e fala do seu amor e do seu futuro conjugal, com tal doçura e tão voluptuosa virtude, que uma donzela ao ouvi-lo imagina logo que a vida, em companhia de semelhante puritano, há de ser uma nova edição, correta e aumentada, do paraíso, antes da gulodice da maçã.

E assim mutuamente enganados, mutuamente iludidos e engodados — casam-se.

Essa ilusão servirá para a garantia do primeiro filho. Está muito bem! Mas ainda os dois falam entre si e com os amigos em "lua-de-mel", e já cada um por sua conta começa a descobrir no companheiro imprevistas particularidades, reais e prosaicas, que vão surdamente desdourando o insubstituível prestígio poético que exerciam um sobre o outro.

Hoje um flato mal disfarçado, amanhã um ligeiro transbordamento de humor bilioso, em seguida uma cólica desmoralizadora, e em breve o marido já se não esforça por esconder os seus calos e a sua dispepsia, nem a esposa tem o cuidado de caracterizar-se de mulher bonita: já não mete os cabelos em papelotes para os trazer crespos sobre a testa, já não aperta com sacrifício a cintura e os pés, já não arma aqueles divinos sorrisos provocadores que parecia fazerem parte integrante da sua fisionomia, e já não arranja aqueles fascinantes olhares voluptuosos, que foram talvez o que mais decisivamente determinou a conquista do homem que agora é seu marido.

E as pequenas apoquentadoras misérias do gênio e do caráter, que se vão revelando dia a dia? E os egoísmos feminis? E os desleixos do corpo, que não chegam a ser desasseio, mas que já não são, decerto, o sedutor perfume que ambos sentiam um do outro, durante o período do namoro, e sob cuja influência se amaram, e se desejaram, e se tiveram?

O cheiro! Que importante papel representa ele no amor conjugal e nos destinos da família!...

As secreções da pele são às vezes um terrível inimigo das ilusões do nosso amor de hoje, mesmo aquelas que a natureza em nós criou ingenuamente para lubrificante estímulo dos sentidos. É que a natureza não contava com a degeneração do olfato, produzida pelo abuso, pelo vício, dos perfumes, das essências, dos desinfetantes e vinagres aromáticos, e mais das balsâmicas pastilhas de serralho e do odorante fumo do tabaco. O homem e a mulher, que se casam, só vêm a conhecer um do outro o verdadeiro cheiro, depois de rigorosamente unidos pelos inabrocháveis fechos do matrimônio, quando está mais que provado que, no amor, o cheiro particular do indivíduo tem ação tão poderosa como a cor da sua tez e dos seus cabelos, como o timbre da sua voz, a expressão do seu olhar e de sua boca, o feitio do seu corpo e o caráter geral do seu modo de ser. O olfato tem as suas idiossincrasias, tem as suas antipatias e as suas inclinações, como as têm o ouvido, o paladar, os olhos e o tato. Nos esponsais, os direitos desse sentido, tão respeitáveis como os dos outros seus congêneres, são perfeitamente ludibriados pela perfumaria de toucador, sem calcularem os noivos o perigo que com isso corre a sua futura felicidade doméstica.

O cheiro natural do corpo é por vezes o bastante para desfazer o laço amoroso de um par, mormente quando um bom perfume artificial, usado com insistência e regularidade, tenha, de parte a parte, como que servido de medianeiro durante o tempo de namoro. Os perfumista são, sem dar por isso, grandes promovedores e grandes dissolvedores de casais.

O gosto e o desgosto do olfato têm máxima importância na questão do amor genesíaco. A mulher, durante certos períodos fisiológicos, deve ser para o marido um ente inacessível, deve ser sagrada; já não digo só com respeito à comunhão sexual, mas ainda para a simples coabitação do leito ou do quarto. Ele, durante esse tempo, nem só não lhe deve tocar no corpo, como até nem dela se deve aproximar.

Eu digo — sagrada; a Bíblia lhe chama — imunda.

E já explicou um filósofo humorista que o casamento era sempre uma permuta, mas não de almas e corações, e sim: durante o dia — de maus humores; durante a noite — de maus odores.

Não convenho nesta jocosidade de mau gosto, mas a mulher, com efeito, naquelas ocasiões, torna-se repulsiva pelo cheiro. A mesma natureza como que assim está insinuando que o homem deve então afastar-se da esposa. O homem, porém, é teimoso e deixa-se ficar; fica por falsa compreensão dos seus deveres de ternura, ou fica por negligência e preguiçosa sujeição aos hábitos.

E a mulher afinal torna-se grávida, e o imprudente continua a dormir ao lado dela. Vêm as enojosas manifestações da crise gestante, as dores matrizes, os enjôos, as desagregações pituitárias, os vômitos, o mau hálito, as aberrações histéricas do gosto — e o teimoso não se despega.

E começa então para os dois uma existência de indecorosa promiscuidade; já não escondem absolutamente um para o outro os seus bocejos e as suas mais repulsivas expansões do corpo. É como se não estivessem juntos; cada qual, sem poder fugir à indefectível necessidade do isolamento — pois que todo o homem precisa de horas de solidão, como precisa de horas de sono, de horas de trabalho e de horas de convivência e prazer — e, não podendo evitar nos seus lazeres a presença do companheiro, abstrai-o do espírito, e acaba por ficar só, inteiramente só, ao lado dele.

E se um dos dois adoece gravemente, fica o outro a servir-lhe de enfermeiro, a mudar-lhe as roupas enxovalhadas, a aplicar-lhe vesicatórios, a dar-lhe purgantes e a ajudá-lo em todos os mais íntimos misteres.

Mas onde está, que fim levou, aquele airoso dançador de valsas, aquele gentil mancebo, que não seria capaz de exibir-se a ninguém, e muito menos à noiva, senão depois de caprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele irresistível galanteador, que dizia coisas tão finas e que fazia versos tão lindos, e trescalava a sândalo ou cananga-do-japão? E onde está aquela mocinha vaporosa, que era toda graça, delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura e uns pezinhos tão provocadores, e uma cabeça tão primorosamente penteada, e um colo, e uns olhos, e uma boca, tão misteriosos e divinos?...

— Oh! Isso foi durante o tempo de namoro! dizem eles. — Hoje somos "papel queimado!" Hoje somos "feijão com carne-seca!"

— Muito bem! replico eu; mas os dois que se amaram eram aqueles dois que desapareceram e não vós, que agora aí estais defronte um do outro, sem saber por que e para quê!

— Oh! mas agora nós nos estimamos muito mais. Se desapareceu a ilusão do amor, ganhamos em compensação um pelo outro uma bela amizade que dantes nos não ligava.

— Mas, adorável casal, tu te não constituíste para formar dois bons amigos íntimos, que nenhuma reserva têm entre si e que só desejam conservar a sua boa amizade! Tu, mancebo desiludido, e tu, querida dama despenteada, não vos unistes pelos laços da amizade, mas sim pelos laços do amor, o que é muito diferente; e, uma vez que já não existe amor entre vós, continuai amigos, mas separai-vos de corpo; que vá cada um procurar além novo consórcio para seu amor, porque ainda podeis ser aproveitados para a única verdadeira missão que a natureza exige de vós — procriar, e procriar bem.

— Ora, respondem eles. Mas nós somos felizes assim!...

— Não sois tal! Ah! eu conheço já de longa data essa confissão de felicidade a vosso modo! Vós, maridos, sois todos muito felizes; mas quem tomar a sério os vossos próprios conselhos, não se casará nunca, porque cada um de vós enquanto pela prática justifica o casamento, vai segredando pela boca pequena, ao ouvido de cada um dos amigos: "Eu, cá por mim, não me posso queixar; fui feliz! Não tenho que dizer; mas, aceita o meu conselho — não te cases! Não te cases nunca! É um conselho de amigo, podes crer!"

E repetem quase todos eles a mesma cantiga. É difícil encontrar um marido que não tenha na ponta da língua esta frase: "Eu não me posso queixar, mas não te cases!" sem se lembrarem os ratões de que semelhante conselho já é uma queixa.

Que diabo de felicidade é então essa, que os casados aconselham a todos os seus amigos solteiros que a evitem? Será isso egoísmo na ventura, ou falso vexame de confessar a própria desgraça?

Não, a razão é outra. Quereis saber, contraditórios casados, por que assim falais do casamento? É porque nele sois ao mesmo tempo felizes e infelizes — felizes na vossa amizade; infelizes no vosso amor.

E sois infelizes no vosso amor, simplesmente porque sois desiludidos.

Olhai o casamento entre a gente do campo. Por que razão o camponês é mais feliz no casamento do que a gente civilizada da cidade? É que lá na roça quando o João da Horta vai casar com a Joana dos Porcos já lhe conhece a medida justa da cintura, e já lhe viu os pés descalços, as unhas sujas e a cabeça despenteada; e ela vai sabendo já qual o verdadeiro cheiro que ele tem, e quais são os defeitos e as boas qualidades que o acompanham.

São antes do matrimônio o que são depois — não sofrem decepções! E, como a vida exercitada e simples do campo lhes tem naturalmente conservado melhor a integridade do corpo, e lhes tem poupado calos, enxaquecas, hemorróidas e dispepsias, a infinidade de misérias e inconfessáveis aborrecimentos, que sobrevêm fatalmente na coabitação dos casais civilizados, quase que não existe entre eles.

Assim, só entre os simples, ainda se encontram casados que se amam e se desejam fisicamente depois de ter tido vários filhos; por conseguinte só entre eles as crianças, concebidas depois do primeiro parto, seriam sãs, fortes e inteligentes, se nas relações matrimoniais dos camponeses concorressem o indispensável elemento poético da imaginação, do enlevo espiritual, donde tira o filho a última daquelas três qualidades. Só esse elemento lhes falta no amor, e é por isso que o filho do homem do campo é quase sempre bem constituído de corpo, mas em geral estúpido, ainda mesmo passando logo a conviver entre gente mais cultivada.

Em toda a ocorrência sexual, a ilusão fascinadora do espírito é indispensável para o perfeito equilíbrio do filho conseqüente.

Concluí pois dos meus raciocínios, não que Palmira precisasse conhecer bem o noivo antes do casamento, ou vice-versa, porque seria isso perigoso debaixo do ponto de vista da ilusão amorosa — ela não era uma camponesa; mas que deviam ambos conservar, eternamente intactas e perfeitas, as boas impressões, que um do outro tivessem porventura recebido no período em que se desejaram pela primeira vez.

A tarefa, como se vê, era mais que penosa, delicada, e de muito difícil execução; eu, porém, estava disposta a todos os sacrifícios por amor de minha filha, e haveria de triunfar! De resto, com que melhor poderia eu encher a vida? A idéia de escrever estas memórias só mais tarde começou a preocupar-me o espírito.

Mas prossigamos. Vamos ver agora como cheguei à realização dos meus ideais.