Livro de uma Sogra/X

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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo X


Na escolha mental que fiz de um noivo para minha filha, pareceu-me fosse preferível um oficial de marinha em serviço ativo, porquanto o marinheiro leva no casamento duas vantagens sobre os homens de outras profissões. A primeira porque o serviço de bordo ou em alguma fortaleza o obriga a afastar-se periodicamente da esposa, cumprindo ele assim, por dever de ofício, com o higiênico preceito da Bíblia; a segunda porque os perigos da sua vida aventurosa, a honra militar e a estética da farda, lhe dão certo brilho especial de antiburguesismo e um fascinante prestígio de altivez e denodo que muito pesam nos interesses do amor.

Nós mulheres gostamos de ver no homem amado tudo aquilo que não possuímos nem podemos aspirar. Quanto mais varonil e másculo for ele, tanto mais nos impressiona e atrai. A força física, a bravura, a energia de ação, e a singela bondade do homem forte, são os dotes masculinos que mais diretamente seduzem uma mulher bem equilibrada. Eu, que amei tanto meu marido, nunca lhe perdoei todavia, no íntimo do meu julgamento feminil, que ele fosse de compleição pouco mais desenvolvida em músculos do que eu. E não era fraco.

As mulheres ordinárias, que não desgostam de ser batidas pelo seu homem. têm a sua absolvição na mesma natureza inferior da mulher. Dar-lhes pancada é prova de falta de respeito e é brutalidade, mas não é prova de falta de amor; antes pelo contrário é essa uma das mais naturais expansões do domínio e do ciúme, e quer sempre dizer superioridade física. Ora, o que a mulher vulgar exige do seu homem não é respeito, mas só amor; logo prefere a pancada a qualquer outra manifestação menos grosseira, porém mais deprimente dos seus interesses sexuais.

Devia, por conseguinte, o noivo de minha filha ser um oficial de marinha em serviço ativo, e homem forte. Mas, como a força física não basta para conquistar um amor complexo, e para manter no mesmo grau de entusiasmo o enlevo poético de uma mulher de certa ordem, era preciso que o meu oficial de marinha, além de são e possante, fosse inteligente, honesto, simpático e carinhoso.

E encontraria eu um sujeito nestas circunstâncias, capaz de amar minha filha?...

Por que não? Palmira tinha dezoito anos, era bonita e perfeita, bem educada, inteligentezinha, e com um dote animador. Seria possível que não houvesse por aí um rapaz pobre, naquelas condições, que se apaixonasse por ela, encaminhando eu as coisas com certo jeito?

Pus mãos à obra: comecei a procurar o meu homem. em breve, porém, convenci-me de que sozinha não daria conta do recado, e lembrei-me de pedir auxílio ao meu amigo, o Dr. César Veloso, de quem já prometi falar.

Cumpra-se esta promessa antes de mais nada; César Veloso era então um belo velho de cinqüenta a sessenta nos, médico, abastado, viúvo, já sem nenhum de seus filhos, e vivendo em companhia de uma irmã, D. Etelvina, único parente que lhe restava e a quem ele estremecia profundamente. Foi o melhor coração e o melhor caráter que encontrei até hoje no meu caminho. Conheci-o, como disse, pouco depois do nascimento de Palmira, e já desde esse tempo o estimava mais do que a meu próprio esposo, de quem ele, só por minha causa, foi bom, leal e verdadeiro amigo.

Deu-se na minha vida e no meu coração uma coisa muito singular a respeito desse homem: Sem nunca formular sobre ele a mais ligeira hipótese de amor sensual, achava-me todavia tão sua amiga, amava-o tanto, que era um verdadeiro prazer, para minha alma, senti-lo perto de mim. Quando as desilusões do meu casamento me prostraram os sentidos e me enegreceram a existência, foi ele o único com quem abri o coração. Falei-lhe com toda a franqueza, queixei-me do meu destino; disse-lhe tudo quanto eu sofria, e até, ainda hoje me parece extraordinário! chorei em sua presença, o que, juro pela felicidade de Palmira, seria impossível suceder com outro, mesmo com meu marido.

Desde esse momento capital da minha vida, compreendi que era também amada por ele como a irmã eleita por sua alma e por sua inteligência. E fizemo-nos amigos para sempre, unificamo-nos em espírito, tornamo-nos moralmente inseparáveis por um tácito consórcio de absoluta confiança um pelo outro; consórcio de imperturbável harmonia de ideais, de alta poesia e de amor imaculado e superior a todas as misérias da carne. E esse amor essencial e puro, que nunca fora nem de leve perturbado pelo sobressalto dos sentidos, era um canto tranqüilo e doce, em que meu pobre espírito repousava da infernal campanha doméstica e dos enojos do outro amor.

Mas como se poderá explicar essa minha estranha predileção por um homem, que não era meu parente, nem meu companheiro de infância, e quando não havia entre nós de parte a parte o menor impulso de sexo?...

É preciso notar que eu fora sempre considerada, pelas pessoas que me conheciam, como um caráter seco e orgulhoso. E, com efeito, não gostei nunca de revelar, a quem quer que fosse, meus pensamentos e meus íntimos conceitos, nem mesmo ao meu marido, com o qual guardei em todos os tempos uma reserva, que ele aliás, coitado! jamais tivera para comigo. Posso até dizer que com Virgílio fui, no último quartel da nossa vida de casados, mais fechada e retraída do que com qualquer outro. No entanto, era bastante demorar-me alguns momentos sozinha perto de César, fitá-lo e descansar por algum tempo o olhar no seu olhar sereno, franco e bondoso, para logo me acudir à boca tudo o que meu coração, tão avaramente, trazia escondido e fechado para os demais homens.

Às vezes, espantava-me eu própria com semelhante fato e, depois de lhe revelar os meus mais íntimos segredos, perguntava a mim mesma — como e por que exercia aquele homem tão grande e decisiva influência sobre meu espírito? Fazia então vivos protestos de mudar de norma de conduta daí em diante. Afinal não havia justificativa para uma distinção tão acentuada! Chegava a parecer-me desonestidade! Mas, na primeira ocasião, em que de novo a sós nos encontrávamos, quando dava por mim, já o meu coração se tinha aberto por si mesmo, e despejava-se até ao fundo em palavras de amor.

Donde vinha toda essa confiança de minha parte? donde procedia esse poderoso e casto sentimento que a César me ligava tanto, e que em nada me parecia com o amor que eu mantive por meu marido, nem com o que eu sentia por meus filhos? Não atinava então com a verdadeira causa do fenômeno e moralmente supunha-me deveras culpada. Só muito mais tarde, continuando a estudar, no meu próprio coração, o coração humano, pude compreender, quando afinal o conheci de todo, que não se tratava com aquele fato de um caso meu particular, mas de uma lei comum para a minha espécie. Essa conclusão assustou-me profundamente e veio abalar todas as minhas idéias aparelhadas a respeito da felicidade conjugal, e, se ela já não chegasse muito e muito tarde, ter-me-ia feito sem dúvida reformar o programa de vida, que eu com tanto empenho e tanto cuidado traçara para minha filha.

Do resultado dessas minhas observações, vim a perceber que, sendo a procriação um instinto, e sendo o amor um sentimento, o grande mal, ou o grande erro, do matrimônio vulgar, consistia no disparate de querer harmonizar e unir-se, para os mesmos fins, essas duas coisas distintas — sensualidade e amizade — tão contrárias entre si, e tão antipáticas e até perfeitamente incompatíveis.

Compreendi que a mulher — para procriar, precisa de um homem, de um varão, escolhido pelos seus sentidos; e — para amar, precisa de um amigo, de um irmão, eleito pela sua alma e pela sua inteligência. O associado do seu corpo, em caso nenhum, pode ser associado do seu espírito, ou vice-versa.

Os irracionais também são, como nós, suscetíveis de simpatia e apego de amizade, mas nunca põem esse sentimento, que neles aliás não é tão elevado e tão perfeito como no homem, ao serviço da sua sensualidade e do seu destino procriador.

Compreendi que...

Mas não precipitemos os fatos da minha exposição. Vamos por ordem.

Como ia dizendo: Logo que me senti fraca para realizar sozinha o programa da felicidade de minha filha, recorri naturalmente à única pessoa com quem eu podia contar, o Dr. César. Escrevi-lhe, pedindo-lhe uma conferência em minha casa. Ele veio no mesmo dia.

Foi uma longa prática. Referi-lhe detalhadamente as minhas apreensões a respeito do futuro de Palmira; expus o que nesse tempo constituía o meu cabedal de observações concernentes ao casamento, e disse-lhe afinal qual era o meu plano resolvido. César ouviu-me, durante todo o tempo, em silêncio, com os olhos baixos, sem desviar um só instante a sua atenção do que eu expunha. Compreendi, pela concentração do seu rosto, que as minhas idéias e o meu projeto o interessavam e surpreendiam extremamente.

Quando acabei, ele tomou-me as mãos entre as suas, com um gesto carinhoso que lhe era habitual a sós comigo; meneou a cabeça e disse-me sorrindo que — em primeiro lugar, me fazia os seus cumprimentos pela lucidez de coração e de inteligência que eu acabava de patentear; depois, já em ar sério, falou da minha ilimitada dedicação materna, e declarou, ao terminar, sorrindo de novo, que, posto não acreditasse na eficácia do meu plano, pois que em absoluto não acreditava na felicidade, punha-se desde logo à minha disposição e pronto a entrar em campanha, na qualidade de meu ajudante-de-ordens.

Rejubilei de contente. Agradeci-lhe com um abraço sincero. Dispondo de semelhante ajudante-de-ordens, tinha certeza da vitória! César, amoroso e dedicado como sempre fora para comigo, havia de tomar a peito a minha causa e destruiria, com o seu valor de homem, os obstáculos que eu não pudesse quebrar com as minhas mãos de mulher.

— Os seus serviços, meu amigo, disse-lhe eu, vão ser desde logo necessários para uma prévia inspeção rigorosa, na pessoa de quem se propuser para meu genro. Só consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito, em plena normalidade de saúde.

— Está claro!

— A menor lesão, o menor vício de organismo ou de sangue, a menor deformação física, é o bastante para pô-lo fora de combate. Não lhe parece?

— Decerto; e desde já respondo por mim, como médico consciencioso... disse o meu bom amigo. Mal apareça o homem, arranje, Olímpia, um meio de pô-lo em contato comigo, e eu me encarregarei do resto. Desde que eu declare: "Este serve! — Este é perfeito — Este está conforme!" pode você aceitá-lo de olhos fechados, porque não deixarei passar gato por lebre!

Ele ficou para jantar conosco, e toda essa tarde meu coração cantou vitorioso, como se efetivamente já tivesse segura a felicidade de Palmira.