Livro de uma Sogra/XXIII

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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo XXIII


Ele afinal fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe tinha visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo tempo todos os velhos, intermináveis desgostos do seu passado roto e sem fundo, e todo o desespero do seu presente restrito e sem saída. Num relance veio-me ao espírito a síntese da sua longa existência de sessenta e tantos anos — um rosário de lutos: Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo em torno da sua velha dor sobrevivente, até que a última da família, aquela retardatária irmã que o estremecia, lhe fugia também agora, depois de uma tossegosa e sofrida existência de hética!

— Acabou-se tudo!... murmurou o infeliz, como se seguisse o rápido vôo do meu pensamento.

Tomei-lhe as mãos.

— Não... disse em segredo, que minha lágrimas tornavam mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã, uma companheira...

Ele levou à boca as minhas mãos, que se orvalharam nas suas barbas úmidas de pranto.

— Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem, um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?... Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria? — E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte. — Ah, destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo aqui... O que fico fazendo?...

A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.

As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.

César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo apenas em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.

E ele murmurou, como num sonho:

— Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito — uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido em tempo o teu marido ou me ter feito teu amante...

Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente do nosso velho amor.

César prosseguiu no mesmo tom: — Sim, sim, minha amiga... nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade não nos termos encontrados antes dos nossos loucos casamentos... ou não termos então rompido com todas as conveniências e com todas as convenções — para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora, minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...

— Não... respondi, não meu querido amigo, não seria a mesma coisa; não seríamos ainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O matrimônio carnal é incompatível com a amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento... se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos — tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...

César encarou-me surpreso:

Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...

— Certamente. Na língua não há palavras para exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão opostas: — o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido pela simpatia a atração moral de dois espíritos, que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar, o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca porém se preocupa com isso, quando trata de cumprir o seu mister procriador. O homem não deve ter comunicação carnal com a mulher que ama!

César mostrava-se cada vez mais surpreso.

— E tua filha!... interpelou ele; tua filha não ama e não é amada pelo marido?...

— Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este que nos ligou até hoje, ela está perfeitamente incompatibilizada com ele. O marido não pode ser nunca o amigo. O esposo do corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma; e nisto estava a razão de ser e a grande força dos confessores primitivos. Mas o padre não era amigo sincero e nem sempre foi leal e foi casto; daí, a causa única por que ele não persistiu e não ficou para sempre nos caudais junto à mulher e ao lado do marido.

César meditou um instante, e disse depois:

— Tens razão talvez... O que não impede que, apesar de nos amarmos sempre e apesar de termos nascido um para o outro, e apesar dos meus sessenta e cinco anos, e apesar de que sejas agora uma avó de cabelos brancos, não possamos viver juntos, como eu vivi até hoje com minha irmã, porque não somos casados... E, se aqui te detenho comigo, assim neste gabinete, se te cingi ao meu peito e te guardei um instante nos meus braços já trêmulos, é porque há aí a pequena distância de nós um cadáver que tudo justifica; ao contrário nem isso mesmo seria razoável!... Vê tu que escravidão a nossa!

— É a convenção social, meu amigo... Sofra-se tudo; suportem-se todas as misérias, mas não se falte nunca aos seus preceitos! Mas, antes de aparecer esse mesquinho código arranjado pelo homem, já um outro existia, imposto pela natureza, muito mais sábio, mais justo e mais generoso; e esse mesmo homem que reclama, sob pena dos maiores castigos, o bom cumprimento do seu código, calca aos pés, a cada momento, as leis do outro, sem receber por isso, dos seus semelhantes, a menor punição! De sorte que eu, tenho uma amiga a quem estremeço, com quem poderia arrastar menos tristemente o sudário da minha velhice, não hei de valer-me da companhia dela, nem usar livremente da sua casta amizade, porque o tal código social não mo permite! É caso para lamentar não seres tu homem, ou não ser eu mulher!

— Não, César, nada aproveitaríamos com ser do mesmo sexo... Nunca houve equilíbrio perfeito de qualquer amor senão entre pessoas do sexo diferente. O amor que te tenho, apesar de ideal, nunca poderia eu senti-lo por outra mulher, fosse esta minha mãe, minha irmã ou minha filha...

— Mas, meu Deus, isso é a negação das tuas teorias sobre o casamento...

— Não... Por quê?...

— Segundo o que acabas de dizer, duas pessoas de sexo diferente podem então, sem incompatibilidade, viver eternamente juntas...

— Decerto, desde que se amem castamente como nós dois nos amamos, e não tenham entre si a menor aproximação carnal. O que incompatibiliza moralmente os cônjuges é o amor físico. Se dois amigos de sexo diferente pudessem, na plenitude da mocidade, realizar um consórcio naquelas condições, e vivessem juntos sem a menor preocupação dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais se amariam, porque para eles a convivência constante, ao contrário do que sucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes o amor, havia de ir cristalizando-o lentamente, até fazê-lo atingir o supremo estado de pureza, inquebrantável e límpido como um diamante. Seria esse o único casamento eterno!

— E os filhos?...

— Que filhos? Acaso figuraste semelhante hipótese, quando há vinte anos te uniste eternamente a essa tua pobre irmã, que acaba de morrer, deixando-te a alma viúva do seu amor?...

— Eu a amava, justamente porque ela era minha irmã...

— E nós somos irmãos, justamente porque nos amamos. E assim deve ser entre todos os homens e todas as mulheres que se amam.

— Oh! seria isso a extinção da espécie... a não ser que, em tal casamento, a cada um dos consortes assistisse o direito de ir buscar fora do casal, onde melhor o levassem os seus apetites carnais, a satisfação do instinto procriador!...

— E por que não? O instinto materialíssimo da procriação nada tem que ver com o amor, isto é, com o verdadeiro sentimento de humanidade elevado ao seu mais alto grau de comoção. A fêmea é para o macho — produzem; a mulher é para o homem — amam-se. Entre os que se ajustam instintivamente, não pode existir o amor, só há sensualidade! É o caso de minha filha e meu genro; é o contrário do nosso caso!

— Então, para que fazer questão de sexo?...

— Porque, repito, entre duas pessoas do mesmo sexo, a não ser no caso particular do amor materno, que é um desdobramento do amor-próprio, só pode haver ligeiras relações de estima e simpatia. Amor, verdadeiramente amor, só pode existir entre o homem e a mulher; só entre estes se fará inteira confiança de parte a parte; inteiro equilíbrio de espíritos e de corações. A sexualidade física refletindo-se no moral é tão poderosa que se estendem até aos pais com relação aos próprios filhos, ou vice-versa. A filha ama sempre mais o pai do que a mãe, e o filho mais a mãe do que o pai. Pode-se afirmar que não é só o corpo que tem sexo, a alma também o tem, e só a alma de uma mulher pode compreender a alma de um homem e só por esta pode ser compreendida. Há muita coisa que um homem não confia ao espírito de outro homem nem uma mulher ao de outra mulher. Eu, por exemplo, em caso nenhum teria jamais revelado a outra pessoa do meu sexo tudo que até hoje te relatei da minha vida íntima e dos meus íntimos pensamentos; e tu, meu velho amigo, juro que também não serias capaz nunca de pôr a alma nua defronte de nenhum homem, como tantas e tantas vezes a exibiste defronte dos meus olhos. Por quê? porque sempre nos amamos sinceramente, e muito, tanto quanto é possível, sem nunca todavia depravarmos o nosso amor humano com a rasteira preocupação de nossos instintos bestiais! Se o tivéramos feito, não te poderia eu falar agora deste modo, nem tu me ouvirias a sério e de boa-fé, como me estás ouvindo: Rir-nos-íamos um do outro; achar-nos-íamos ridículos!... Os indivíduos, sujeitados e unidos pela sensualidade, quando se acham a só os dois, só podem falar com empenho dos interesses do próprio instinto que os uniu, seja dos interesses do gozo sexual, ou seja dos interesses dos filhos; no mais, as poucas e frias palavras que trocam entre si são concernentes a coisas chatas, caseiras e materiais como o mesmo amor que os liga. E nós, desde o primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, conservamos um para o outro a mesma poesia de amor?

Calei-me, e só então notamos que o dia acabava de invadir o gabinete por uma larga janela envidraçada.

César ergueu-se, e eu também. Ele, lívido com aquela noite de insônia e de lágrimas, parecia um espetro.

Adiantou-se lentamente para mim, estendendo-me as mãos trêmulas.

— Se assim é... disse-me comovido e suplicante; não nos separaremos mais!... Vivamos juntos este resto de vida, unidos por este elevado amor de que me falas!... Posto nossas almas há muito se esposaram, casemo-nos, já que assim o quer a sociedade; e que eu te possa ter a meu lado, e que eu te fale e te veja todos os dias, a qualquer instante; e que eu possa contar contigo, minha amiga, perto do meu leito, quando este pobre corpo morrer de todo!

Abaixei a cabeça.

Depois de uma longa pausa, tartamudeei muito triste:

— Ninguém nos compreenderia... Seríamos cobertos de ridículo, por todos, por minha família, até por minha filha!

— Não! insistiu ele. Não acontecerá assim: Já todos se habituaram a ver em ti um espírito superior, emancipado de preconceitos mesquinhos. Casar-nos-emos para poder viver perto um do outro, mas separados de corpo, como dois irmãos. Lembras-te de que hoje tua família é o meu único herdeiro e eu preciso justificar publicamente esse fato. Não me abandones aqui com as minhas saudades, sem ter eu um coração onde aqueça esta velha alma tua amiga! Casando-me contigo, minha querida irmã, não é só uma companhia que trarei para meu lado; Palmira será também minha filha e Leandro será meu filho... E eu terei o direito de amá-los e de importuná-los um pouco com as minhas rabugices de velho... E terei, para se rir de mim, para puxar-me as barbas e trepar-me pelas pernas, o teu netinho, Olímpia! Ele, o diabrete, vendo-me todos os dias a teu lado e habituando-se a brincar comigo, acabará por amar-me, como se com efeito fosse neto de nós dois... e só a idéia de que lhe ouvirei ainda chamar-me "Vovô"! só com esta idéia... vês tu, minha filha?... correm-me já as lágrimas pelo rosto!

Aproximei-me dele, para cingi-lo nos meu braços.

— Descansa, respondi-lhe. Não ficarás abandonado, meu bom amigo! Mesmo nestes pesados dias de nojo serei desde já a tua companheira. Logo mais voltarei com Palmira, para passarmos três dias contigo. Leandro ficará lá em casa durante esse tempo.

César amparou-se em mim, soluçando. Entre as suas lágrimas só uma palavra compreendi das que me disse: "Obrigado! Obrigado!" Depois tomou-me a cabeça entre as mãos e beijou-me na testa. Eu lhe respondi com um beijo igual.

Foi o primeiro beijo que trocamos em toda a nossa longa vida de amor.

Ao sair do gabinete, dirigi-me logo para a sala em que estava o cadáver. Em volta dele pareceu-me tudo ainda mais triste com aquela deslavada luz do amanhecer. As raras pessoas que ficaram a guardar a morta dormiam nas suas cadeiras, com a cabeça pendida sobre o peito. As velas choravam sempre, e mais sinistras achei agora as suas lágrimas. O corpo, já completamente rijo, fazia mais frio o ambiente, e um ligeiro fedor úmido evolava-se dele.