Lourenço (Franklin Távora)/XVI

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo XVI


Reconhecendo no espião o acostado de Afonso Maciel, Falcão d'Eça empalideceu. Como pudera penetrar até ali? Teria vindo só, ou seguido de tropas incumbidas de prender os nobres? Estavam estas perto ou longe? Demorar-se-ia o ataque, ou deveria romper já?

A primeira idéia que lhe ocorreu, foi a de mudar de pouso. Os outros companheiros tiveram o mesmo pensamento em presença do perigo considerado iminente.

— Nem mais um instante aqui! disse um, disseram quase todos, entreolhando-se confusos, senão admirados de não haver ainda rompido fogo contra eles.

Sobressaltados e precípites, cada um se muniu das suas armas; cada um, no seu fâmulo, ou escravo, pegou da ligeira bagagem; todos tomaram imediatamente o caminho em direitura para o Rancho do quiri, denominação dada por Falcão a outro arraial que ficava distante, cerca de três quartos de légua, do que desamparavam. Devia chegar lá ao amanhecer, depois de atravessarem vários arraiais, donde iriam coligindo as forças esparzidas na vasta massa dos bosques. Esta era uma estratégia que o chefe praticava sempre que se pressentia ameaçado - concentrar em um só ponto os vários contingentes.

A noite estava medonha, assim pela escuridão, como pelo tempo, que não suspendera.

Falcão ia na frente. Ninguém sabia, como ele, as sendas amigas. Intrépido e hábil, não havia matos, lamas, barrocais, desfiladeiros, precipícios, que lhe retivessem a marcha por perigosos ou desconhecidos. Às vezes, deslizava-lhe o pé nas folhas umedecidas, ou na argila escorregadia, e ele vinha em terra; mas logo se levantava, e seguia, sem proferir uma palavra que, ao menos e longe, indicasse indecisão ou desânimo.

Os outros acompanhavam-no quase instintivamente como autômatos. Os que eram mais sabedores dos caminhos conduziam os menos práticos, dando-lhes a extremidade de uma vara, e pegando na outra extremidade, como usam os guias com os cegos.

Era de singular efeito a vista oferecida, de tempos a tempos, por aquele longo cordão de figuras silenciosas em que se notavam semblantes de todas as feições, ao fuzilar dos relâmpagos nas abertas dos matos, ou ao clarear dos vaga-lumes no mais fechado. Uns de bota, outros descalços, todos, escorrendo água e tiritando de frio, lembravam, em parte, o tropel de fugitivos que no século XVII, deixando o Recife e as estâncias vizinhas, que haviam caído no poder dos holandeses, caminhavam a pé, na direção do sul, em demanda das Alagoas, por escapar aos vencedores.

O Rancho do quiri, que tomava a sua denominação de ser o lugar muito abundante daquela madeira, ficava quase no fim da mata, à beira de uma baixada, que com as grossas chuvas se mudara em vasto lago mediterrâneo.

Estavam ali os refugiados mais próprios para entrar em fogo, os de fibra rija, pela vida áspera que tinham levado antes. Compunham-se, em sua maioria, de moradores e foreiros, dedicados aos senhores do engenho. Quase toda esta gente, passante de cem indivíduos, se sustentava de caça e frutas agrestes. Uma vez por outra, saíam alguns do esconderijo, e nos povoados mais próximos iam prover-se de farinha e bebidas, ou iam buscar nos engenhos, onde tinham famílias, outras provisões; o mato, porém, era o seu principal fornecedor, agora lhes dando a paca, o tatu, a cutia, o preá; agora o jacu, a juriti, o nambu, pato bravo; agora o ananás, o inhame, a mangaba, o caju.

Às vezes saíam a pescar à noite, nas lagoas perdidas no interior da espessura; era para ver como tarrafeava habilmente o que se supunha, à primeira vista, não saber outro ofício senão o de carguejar. Voltavam trazendo cestos cheios de camarões e traíras.

Para esses homens, não trouxera grandes inclemências o homizio. Muitos deles preferiram estas indústrias grosseiras e selváticas à do trabalho de plantar ou almocrevar. Alguns que tinham a sua ponta de índio, compraziam-se nesse viver despreocupado, próprio e querido dos povos nômades. Tais haviam que diziam com sinceridade, quando sucedia falar-se-lhes no termo das perseguições e na volta ao antigo estado:

— Deus queira que não acabe mais esta guerra,

Outros completavam a idéia:

— Quero antes esta vida muito menos trabalhosa, que o do engenho. A única falta que sinto é a da minha mulher.

Pela madrugada chegaram Falcão com os companheiros ao Rancho do quiri, e ao amanhecer, reunidos em figura de conselho os principais nobres, trataram de sentenciar sumariamente o espião.

Notava-se no ponto insólito alvoroço. Todos os semblantes, ainda os de seu natural mais serenos, davam mostras de invencível inquietação. Muitos dos fugitivos ali reunidos nunca se tinham achado em condições de testemunhar espetáculo idêntico ao que fora resolvido.

Chegado o momento, em uma aberta da mata, seis escravos formaram uma roda, como se se aparelhassem para certa dança circular que usavam os nossos índios.

Ao meio do círculo fora arrojado o espião, nu, da cintura para cima, com as mãos atadas atrás da costa. Alguns dos refugiados mais animosos, os mais duros, de pé, ou sentados junto das árvores que formavam o desigual anfiteatro - grosseira semelhança dos circos romanos onde prisioneiros de guerra combatiam para divertimento do público - testemunhavam a punição cruenta que talvez terminasse com a morte do delinqüente. Sobre este, que umas vezes implorava perdão, outras soltava imprecações injuriosas, descarregavam os executores os instrumentos da infame e infamante pena.

O paciente, que ao princípio rugia de cólera, ou gritava ou vociferava, do meio para o fim, quebradas as forças, enfraquecidos os espíritos, recebia em silêncio, mal se sustentando de pé, e por último caído por terra, as varadas brandidas pelos vigorosos pulsos africanos.

Era a isto que se chamavam roda de pau, castigo muito praticado naqueles tempos, por naturais de Pernambuco, especialmente contra os portugueses europeus.

Vários alvitres tinham sido indicados, várias penas propostas, entre as quais a do saco de areia, hoje inteiramente desusada, como a da roda de pau.

A surra de saco de areia ligava-se a uma superstição: o povo acreditava que o paciente de semelhante suplício não declarava, em caso de nenhum, o nome do ofensor. Era castigo aplicado a culpas graves, e consistia em longo estojo de lona cheio de areia fina bem socada, que, tanto pela forma, como pelo tamanho e dureza, se parecia com um cacete. À circunstância de ter no fundo uma moeda de cobre e uma rodela de fumo, invenção da superstição do povo ignaro, atribuía este a especial virtude de impor silêncio ao que com ele era castigado, e que, por muito moído em todo o corpo, mui raras vezes sobrevivia ao castigo.

Quando no rancho foi indicada a surra de saco de areia, para a punição do espião, um dos matutos observou, em tom de chalaça:

— Isto é lá para a beira da praia, onde não há madeira forte; não é para aqui, onde não falta quiri nem pitiá, e só temos barro duro, e não areia fina.

Ainda por estas razões, que, bem indicam não ser o aludido castigo filho da região das matas, ou do sertão, mas, sim, do litoral, e talvez até de país estrangeiro, provavelmente da Holanda, prevaleceu o da roda de pau, o qual, parecendo mais atroz que o outro, nem sempre, na crença do povo, tinha, como aquele, resultados fatais; porque à roda de pau muitos sobreviviam, ao saco de areia quase nenhum; o primeiro tinha por fim castigar, ou ensinar, como se dizia então, ao passo que o último tinha por fim matar.

Ora, os nobres não quiseram sentenciar à morte o espião; ao contrário, entrara no seu plano que, longe de ocultar o nome de quem lhe aplicara o castigo, fosse depois o espião revelá-lo àqueles cujo era mandatário. Havia nisto particular sabor de vingança - o desdém por não ter o ardil sortido o esperado efeito. Estava tão enraizado no espírito pernambucano do século passado, que não contribuiu pouco para a explosão revolucionária de 1817 a prevenção contra os portugueses, até certo ponto justificada pelo exclusivismo que afastava os brasileiros das posições e empregos importantes na região oficial, e tão em voga o castigo corporal como represália àquele exclusivismo, à qual se ligava a idéia de ter em pouca conta os preferidos, ou de os rebaixar, que um dos nobres - o sargento-mor Leonardo Bezerra, depois de três anos de prisão em Lisboa, escreveu da Bahia, onde voltando ao Brasil, se fixara definitivamente, aos parentes de Pernambuco, lugar do seu nascimento:

"Não corteis um só quiri das matas; tratai de poupá-los para, em tempo oportuno, quebrarem-se as costas dos marinheiros"(7).

Reproduzindo estas palavras, não sou levado por intuito de picar a nacionalidade irmã, intuito que não teria o menor fundamento, e contra o qual, muito ao contrário, não me seria difícil aduzir provas, tomadas de mim mesmo. O meu fim único é dar idéias dos costumes e paixões dominantes naquele tempo; é autorizar a narrativa com a tradição, junto da história.

Terminado o atroz suplício, mandou Falcão d'Eça por um pano nos olhos do supliciado, e conduzir este para fora do pouco. Inútil, senão irrisória precaução, Gregório, mole, esquálido, metia horror. As alvas costas, para onde, por especial recomendação, tinham convergido os golpes dos executores, haviam enegrecido: não se notava diferença de cor entre os algozes e a vítima. Somente as mãos e os pés atestavam, pela brancura, a raça do infeliz.

Deixaram-no, por morto, na entrada da mata, tendo em uma das mãos um papel com este improviso em verso, obra de Domingos Freire:

"Buscar lã veio o Gregório,

Mas volta bem tosquiado:

Se vier, por mais finório,

O Felix José Machado,

O Cutia e o Bacalhau,

Havemos de ter, não uma,

mas quatro rodas de pau".

Seria meio-dia. Tinha feito uma estiada, O sol chegou a mostrar-se, ardente e amarelento, como é o sol do inverno. Aproveitando a impressão deixada nos espíritos pela notícia da partida de D. Manoel para as Alagoas, e pela audácia da recente espionagem, aproveitando, enfim, a crença de todos os homiziados, e não esperarem remédios aos seus males senão de si mesmos, e de estarem constantemente cercados de emboscadas e perigos, Falcão d'Eça chamou de parte alguns amigos, em cujo critério e decisão mais confiava, para que lhe ouvissem a última palavra:

— É tempo de tomarmos uma resolução. Quando me meti nestas matas, não foi com o único intento de escapar à prisão ou à morte. Tendo parentes no Ceará, ser-me-ia fácil, se o meu intento fosse somente evitar a prisão, emigrar para o seio deles, onde estaria ao abrigo de toda hostilidade. Quem primeiro me impeliu para aqui, senhores, não foi um sentimento baixo - o medo; foi um sentimento elevado - o amor da pátria; fio que vós poderei dizer outro tanto.

— Decerto, respondeu o padre Guerra.

— Que víamos antes da luta? Dois interesses, um estrangeiro, outro brasileiro. Levados de cobiça, e não satisfeitos com serem senhores do comércio e das indústrias, os portugueses europeus queriam chamar a si a agricultura, impondo aos agricultores obrigações que redundavam em ficarem estes à mercê daqueles. Como não pudessem, por meios lícitos, levar a efeito o seu intento, maquinaram criar a vila onde tinham e onde têm a sua força, e tornar-se, por este modo, árbitros dos preços dos gêneros que haviam de ser forçosamente tachados por almotacés do seu plano; e este diabólico intento estaria de todo realizado, se a nobreza não pusesse para fora o governador que tivera o arrojo de promover a criação da vila maldita. Sabeis, tão bem como eu, o que se seguiu ao ato de energia, que nos livrara de Sebastião de Caldas. Foi no Senado da Câmara de Olinda, reunido para providenciar sobre o governo da capitânia acéfala, foi ali que o amor da pátria, fazendo-nos pulsar os corações, proclamou em nossas consciências a necessidade de tornarmos Pernambuco independente da metrópole, madrasta e não mãe. O amor da pátria, pernambucanos, o amor da pátria é uma paixão grande que se gera, não do ajuntamento de dois seres como geram as criaturas, mas do ajuntamento de milhares de seres, dos ajuntamento dos povos; que nasce, não sob o teto particular, ou em leito clandestino, mas sob o teto público, sob a abóbada livre e ampla dos céus, no largo leito das praças; que nasce, não ocultamente, à luz da candeia noturna, trancadas as portas, mas nas vistas de todos, fora de paredes ou cortinas, alumiados pelo sol do dia; que nasce, não como nascem as crianças que acende, rubor nas faces das mães, mas como nascem os sentimentos imortais, trazendo à face dos patriotas o sangue vivo do coração, porque o amor da pátria não é uma paixão vergonhosa, e sim uma paixão egrégia, que dignifica os que nela se abrasam. Sabeis, tão bem como eu, que a primeira palavra nesse consórcio do Senado da Câmara com a nobreza, foi no sentido de Pernambuco declarar-se república; mas, como naturalmente acontece sempre que se congregam muitas vontades, os que assim pensavam, encontraram da parte de outros pensar, senão inteiramente oposto, ao menos restrito quanto à oportunidade da declaração. O que os exaltados, a cujo número tenho orgulho de pertencer hoje mais do que então, porque os acontecimentos posteriores, confirmando a nossa razão, vieram provar que dos meios brandos nada colheríamos, queriam realizar imediatamente, isto é, separação, entenderam os moderados que se devia adiar para logo. Não faltou nestes, senhores, amor da pátria, faltou um pouco de previsão, um pouco do conhecimento dos homens, e sobejou prudência que não mereciam os nossos inimigos. Os moderados, no pensamento de conciliarem os ânimos, propuseram a eleição do bispo, ficando este obrigado a conceder aos nobres o perdão em nome de el-rei. Entendiam-se eles, e entendem todos, menos alguns, de cujo número faço parte, que esta providência reconduziria a Pernambuco a tranqüilidade e a paz, fazendo entrar nos justos limites os mascates exorbitantes. Sabeis, tão bem como eu, que em vez de se submeterem a tão prudente alvitre, os mascates levaram seis meses a aparelhar o golpe, que descarregaram contra nós, e ocasionou o sítio do Recife, até a chegada de Félix José Machado; o que trouxe a certeza da sua perseverança e contumácia em sotopor-nos. Sucedendo as prisões, quase em massa, e por sentenças arbitrárias dos novos ministros contra os nobres, o único remédio que a estes se ofereceu, foi desamparar as suas famílias e propriedades, para se meterem como feras, nos bosques. Depois desta prova da ineficácia do meio paliativo, proposto em Olinda pelos moderados, que se devia fazer? O que se devia fazer era voltar à primeira idéia, aventada em Olinda pelos exaltados ou antes, pelos de maior previdência - à idéia da separação; era pôr em campo a revolução nacional. Sabeis, tão bem como eu, que do seio destas matas vozes eloqüentes, soltadas por quem na tribuna sagrada está afeito a arrebatar os mais vastos auditórios - vozes eloqüentes do padre Guerra - representando a aspiração de trinta refugiados ilustres pelos seus troncos e haveres, foram levar ao bispo D. Manuel - ponto culminante do nosso partido, não só pela sua posição na igreja, mas também por ter sido o nosso chefe o governador no levante dos mascates - as nossas súplicas e instâncias, para que aceitasse o primeiro lugar à frente de nós, nessa revolução tão nobre quanto justa. Sabeis, tão bem como eu, que surdo às nossas rogativas, a sua resposta foi uma recusa formal, foi um ato de desânimo, inspirado talvez em piedosa ingratidão. Todavia, alguns dos que me escutam aqui agora, não afastaram de todo as vistas de sobre o prelado; e esperavam que mais cedo ou mais tarde, vendo os destroços daqueles que o haviam elegido em Olinda para o chefe, se resolvesse a dar o passo direito, e único adequado à nossa salvação e glória. Acabamos, porém, de saber que D. Manoel, intimado para se ausentar da sede do levante cem léguas, já está de marcha para as Alagoas, como corre a longínquo estábulo fraco cordeirinho apavorado por lobos carniceiros. Depois desta solução final da abortada esperança, dizei-nos senhores, o que nos resta? Devemos continuar aqui foragidos, nus e crus, ausentes de nossos filhos, os nossos engenhos e fazendas destroçados e seqüestrados, a nossa saúde enfraquecida pelas injúrias do tempo, fomes, vigílias, febres e frialdades, sem um físico que nos receite um xarope, os mantimentos escasseando de dia a dia, os inimigos levantando cada vez mais a cabeça deles, enquanto nós cada vez abaixamos mais a nossa? Preciso de saber o que resolveis.

Falcão calou-se.

O padre Guerra, como se estivesse de inteligência com o chefe da liga respondeu-lhe depois de curta interrupção:

— Não nos pergunteis, Falcão, o que resolvemos; dizei-nos o que tendes resolvido. Vós que haveis sido a nossa coluna neste ermo de amarguras, tendes o direito de indicar-nos a vossa vontade. Por minha parte dir-vos-ei que estarei cegamente pelo que vos parecer melhor. Entendeis que devemos continuar doentes, famintos, rotos e esfarrapados, sem tranqüilidade de espírito nem comodidades físicas, a cada momento julgando-nos descobertos como ainda ontem, enfim com o coração nas mãos e a alma somente entregue a Deus e à aventura? Se é este o vosso parecer, estarei por ele; ficaremos aqui indefinidamente, até que nos mares encapelados da adversidade sobrenade uma tábua de salvação. Entendeis que, tendo em menoscabo todos os sacrifícios porque há dois anos estamos passando, devemos nós, enfim, para o epílogo condigno de tamanha tragédia, deixar o nosso asilo, correr à vila maldita, subir as escadas - escorregadias de vício e devassidão - do palácio das duas torres, e aí batendo com a mão no peito, como penitente em artigo de morte, confessar ao governador culpas que na realidade não temos, e pedir perdão que provavelmente nos será recusado? Se vos parece decisivo, para termos dos nossos males, este recurso sem nome, acompanhar-vos-ei até a morada da soberba, da avareza, da luxúria, da ira, da gula, de todos os pecados mortais, aí rojar-me-ei aos pés do que tem feito do ofício de governador edifício do ódio, imoralidade, vícios e crimes. Se vos parecer...

Falcão interrompeu o padre Guerra, com uma interrogação hábil e estratégica, e um gesto rasgado que acusava irrupção de sentimentos por muito tempo sustidos:

— Padre, falais em vosso nome, somente, ou falais também em nome de todos os que nos escutam?

O padre Guerra, que estava sentado em um toro seco, ergue-se imediatamente. Quem fora estranho ao congresso da selva não dissera que estava ali um padre. Os cabelos e a barba de mais de um ano, trazidos em parte pela dificuldade de serem aparados a tempo e a hora, em parte pela conveniência de ter o rosto mudado, chegavam-lhe aos peitos e às espáduas, e davam-lhe uns longe de solenidade que haviam às suas grenhas os antigos profetas. Os olhos brilhantes, o nariz alto no meio e grosso na ponta, as mãos e a testa salientes, a tez entre pálida e tostada, ajudavam a expressão da guedelha, dando ao antigo profeta parte do moderno tributo.

— Creio poder afiançar-vos, capitão, disse ele, discorrendo rápido olhar sobre os companheiros, alguns dos quais, imitando-o, pela força comunicativa do seu gesto, já estavam de pé, entregues a poderosa comoção - creio poder jurar-vos que num uma voz divergente virá contradizer o meu enunciado, filho da nobreza e lealdade que nos são comuns a todos, filhos principalmente da confiança sem limites que, pelo vosso procedimento alevantado, nos tendes merecido até este momento.

Falcão deu alguns instantes ao silêncio, como quem aguardava manifestação mais larga e positiva. O seu silêncio era na realidade uma interrogação.

Compreendendo-o talvez alguns dos nobres, e entre estes, Ribeiro da Silva, Faustino Figueira e Bernardo de Alemão, adiantaram-se para clamarem com certa ênfase:

Falcão, que era um homem bonito, nesse momento aliava à graça do seu gesto o prestígio que lhe haviam captado dois anos de perseverantes esforços em triunfar das maquinações e traições dos inimigos, dois anos de insano lidar. Alto, espadaúdo, o rosto corado, os olhos retintos, de fulgor seco e vivo, oferecia majestoso e insinuativo aspecto. Era o tipo da força e da resolução - um desses homens que nos afastam dela os adversários e comunicam aos amigos grande e heróica firmeza - um desses homens em quem se encontram qualidades de dois mais admiráveis representantes do espírito revolucionário - Cromwell e Mirabeau.

— Darei a minha resposta em poucas palavras: somos quinhentos nobres, temos quatrocentos escravos e duzentos camaradas; mil e cem homens bem armados e municiados para tomar a vila de surpresa, pôr abaixo o governador e os ministros e expulsar os mascates que não quiserem submeter-se, proclamar a independência de Pernambuco. O meu intento não é outro, senhores! O meu intento é libertar a terra que nos viu nascer. Eu quero a liberdade de Pernambuco, ou do Brasil, eu quero acabar, de uma vez por todas, com o jugo dessa metrópole ingrata que nos traz em baixa vassalagem.

Apenas tinha acabado de proferir estas palavras, quando se ouviu ruídos de passos de cavalo em uma das veredas que vinham dar no pouso.

— Quem será? disse um dos nobres em tom de quem se assustava.

E a esta voz, todos os outros presentes, levantando-se com um só homem, lançaram mão das armas.

Falcão, empalidecendo levemente, fez-lhes sinal que ficassem silenciosos e quedos.

O papel arriscado de ir ao encontro de quem quer que fosse, ele o não quis passar a ninguém. Rompendo por entre troncos seculares, desapareceu das vistas dos outros, num abris e fechar d'olhos.

Mas logo retornou ao recinto, possuído de diferentes impressões, ouvindo uma voz conhecida - a de Lourenço. O semblante do rapaz indicava uma extraordinária satisfação.

— Alvíssaras, seu Falcão, alvíssaras!

— Que notícias trazes? perguntou o capitão espantado.

— O perdão.

— O perdão? inquiriram dez, vinte, cem bocas ao mesmo tempo.

— Sim, o perdão que o rei mandou para a nobreza; chegou ontem. Andei toda a noite, debaixo de chuva que Deus dava, para ser o primeiro que trouxesse a vosmecês este alegre presente.

Por entre a multidão, que ocorrera ao ponto, a fim de ouvir de perto a grande nova, Lourenço enxergou Francisco e Saturnino, que se adiantavam para ele. Atirou-se ao encontro, tendo antes entregue a Falcão uma carta, que este leu em voz alta, depois de a haver lido para si:

"Amigo e senhor,

Não tenho tempo senão para lhe participar, sumamente regozijado, que chegou esta manhã de Lisboa um navio com a notícia de estarem perdoados os nobres.

O governador ainda não fez público o perdão com que el-rei se amerceou dos pernambucanos; mas, várias cartas do reino a amigos nossos são unânimes em afirmar que o perdão foi concedido e o governador será mudado.

Receba os meus parabéns e abrace todos os nossos amigos e patrícios.

Salinas, 3 de junho de 1714

Gil Ribeiro

Apenas acabada a leitura, muitos exultando de prazer, soltaram irresistivelmente vivas a el-rei que foram calorosamente correspondidos.

O padre Guerra não pôde fugir de dizer:

— Eu logo vi, senhores, que el-rei não havia de ser surdo às nossas súplicas conteúdas nas cartas dos clérigos, das matronas pernambucanas...

— Não esqueçais as vossas eloqüentes cartas - acrescentou Christovam de Holanda.

— Senhores, senhores, tornou o padre, demos graças a Deus por este celestial benefício.

O ruído, o burburinho produzido pelos que celebravam e comentavam a nova; os sorrisos de uns, os gracejos de outros, os abraços e as alegrias gerais indicavam que a idéia da separação política, há pouco aceita e proclamada por todos os homiziados, não tinha grandes raízes senão em Falcão d'Eça, o qual emudecera, triste e eclipsado, quando o júbilo dava brilho a todos os semblantes, e eloqüência a todas as vozes.