Louvação dos mestres que chegam

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Louvação dos mestres que chegam
por Lucilo Varejão Filho
palavras de saudação aos professores Hilton Sette e Geraldo Lapenda quando de suas posses nas Cátedras de Gegrafia e Latim, respectivamente, do Colégio Estadual de Pernambuco (hoje Ginásio Pernambucano), em 17 de julho de 1957.
publicado originalmente na coletânea À sombra da velha casa.


Srs. Professores Hilton Sette e Geraldo Lapenda:

Quando a Congregação do Colégio Estadual de Pernambuco designou aquele que, em seu nome, deveria saudar-vos, creio que na escolha se deixou levar pelo conhecimento da fraternal amizade que a vós me unia. Foi como se quisesse que ao entrardes nesta Casa vos sentísseis já em família, encontrando um irmão, à porta, para receber-vos. É de boa praxe fazer-se em tal momento a “louvação” do mestre que chega. Mas que grande coisa poderia eu acrescentar ao que sobre vós tão insistentemente já se afirmou?

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Quanto a vós, sr. Professor Geraldo Lapenda, constituís um exemplo de rápida e segura afirmação de valor pessoal. Vosso nome surgiu nos meios do magistério recifense há pouco mais de um lustro. Vínheis do Seminário. Tínheis estudado em Roma, e era quase tudo que se sabia sobre vós. Chegastes com esse vosso ar desarrumado e vosso riso franco. No primeiro concurso a que vos submetestes, chamastes a atenção sobre vossos méritos. Depois, dentro do cotidiano banal, fostes surpreendendo os circunstantes com a variedade dos vossos conhecimentos. Hoje era o latim, amanhã o italiano. O francês e o inglês também vieram. Depois tirastes dos bolsos do vosso largo manto de sabedoria o grego e íeis assim surpreendendo a assistência com vossos mágicos recursos. Por fim, até isto conseguistes: uma língua viva e praticamente desconhecida: fostes até o Iatê. E dessa pobre língua de uma pobre gente, organizastes tudo, que tudo estava por fazer: estudo da prosódia, levantamento do vocabulário e da gramática. E mostrastes, assim, do quanto éreis capaz. Certo a literatura não era vosso fraco, mas onde houvesse sons emitidos pela voz humana, lá havíeis de estar com vossa atenção presa, vosso ouvido fino e o lápis suspenso para as anotações que se fizessem necessárias.

Durante largo tempo fostes visto pelas ruas da cidade, acompanhado de uma estranha figura de indígena que, para melhor domínio da língua, tínheis transformado numa espécie de secretário. A cousa chegou até segundo se soube, a tomar aspectos de grave complicação tribal. Estranhando vosso avassalante interesse pelas coisas suas, temiam os Fulniôs que estivésseis a querer penetrar nos segredos da tribo, tendo mesmo havido ameaças de morte ao indiscreto cariri que se fizera vosso secretário e ousava instruir-vos nos mistérios do seu povo. Por um triz não provocastes uma tragédia nos moldes dos romances indianistas. Valeu, entretanto, o risco. O trabalho do Prof. Geraldo Lapenda quando estiver publicado trar-lhe-á ao lado do reconhecimento devido aos seus méritos, a inclusão do seu nome na galeria daqueles que, com o risco da própria vida, fizeram avançar a ciência da linguagem.

Hoje o professor Geraldo Lapenda também ingressa – e sem perigo de vida – nesta Casa. Competiu com experimentado latinista e mestre de várias gerações, coisa que só fez realçar a sua vitória. Aqui muito terá que fazer. Seus alunos tudo esperam da sua juventude e do seu entusiasmo. Enquanto isso, no intervalo de suas aulas, continuará a nos surpreender com seu conhecimento de línguas e dialetos novos que ele irá sacando, diante dos nossos olhos espantados, dos bolsos mágicos de seu manto de sabedoria.