Luís Soares/III

Wikisource, a biblioteca livre
< Luís Soares

Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

A prima Adelaide tinha vinte e quatro annos, e a sua belleza, no pleno desenvolvimento da sua mocidade, tinha em si o condão de fazer morrer de amores. Era alta e bem proporcionada; tinha uma cabeça modelada pelo typo antigo; a testa era espaçosa e alta, os olhos rasgados e negros, o nariz levemente aquilino. Quem a contemplava durante alguns momentos sentia que ella tinha todas as energias, a das paixões e a da vontade.

Ha de lembrar-se o leitor do frio comprimento trocado entre Adelaide e seu primo; tambem se ha de lembrar que Soares disse ao amigo Pires ter sido amado por sua prima. Ligão-se estas duas cousas. A frieza de Adelaide resultava de uma lembrança que era dolorosa para a moça; Adelaide amára o primo, não com um simples amor de primos, que em geral resulta da convivencia e não de uma subita attracção. Amára-o com todo o vigor e calor de sua alma; mas já então o rapaz iniciava os seus passos em outras regiões e ficou indifferente aos affetos da moça. Um amigo que sabia do segredo perguntou-lhe um dia por que razão não se casava com Adelaide, ao que o rapaz respondeu friamente:

— Quem tem a minha fortuna não se casa; mas se se casa é sempre com quem tenha mais. Os bens de Adelaide são a quinta parte dos meus; para ella é negócio da China; para mim é um máo negocio.

O amigo que ouvíra esta resposta não deixou de dar uma prova da sua affeição ao rapaz indo contar tudo á moça. O golpe foi tremendo, não tanto pela certeza que lhe dava de não ser amada, como pela circumstancia de nem ao menos ficar-lhe o direito de estima. A confissão de Soares era um corpo de delicto. O confidente officioso esperava talvez colher os despojos da derrota; mas Adelaide, tão depressa ouvio a delação, como desprezou o delator.

O incidente não passou d’isto.

Quando Soares voltou á casa do tio, a moça achou-se em dolorosa situação; era obrigada a conviver com um homem ao qual nem podia dar apreço. Pela sua parte, o rapaz também se achava acanhado, não porque lhe doessem as palavras que dissera um dia, mas por causa do tio, que ignorava tudo. Não ignorava; o moço é que o suppunha. O major soube da paixão de Adelaide e soube tambem da repulsa que tivera no coração do rapaz. Talvez não soubesse das palavras textuaes repetidas á moça pelo amigo de Soares; mas se não conhecia o texto, conhecia o espirito; sabia que, pelo motivo de ser amado, o rapaz entrára a aborrecer a prima, e que esta, vendo-se repellida, entrára a aborrecer o rapaz. O major suppôz até durante algum tempo que a ausencia de Soares tinha por motivo a presença da moça em casa.

Adelaide era filha de um irmão do major, homem muito rico e igualmente excentrico, que morrêra havião dez annos deixando a moça entregue aos cuidados do irmão. Como o pai de Adelaide fizera muitas viagens, parece que gastou n’ellas a maior parte da sua fortuna. Quando morreu apenas coube a Adelaide, filha unica, cerca de trinta contos, que o tio conservou intactos para serem o dote da pupilla.

Soares houve-se como pôde na singular situação em que se achava. Não conversava com a prima; apenas trocava com ela as palavras estrictamente necessarias para não chamar a attenção do tio. A moça fazia o mesmo.

Mas quem póde ter mão ao coração? A prima de Luiz Soares sentio que pouco a pouco lhe ia renascendo o antigo affecto. Procurou combatêl-o sinceramente; mas não se impede o crescimento de uma planta senão arrancando-lhe as raizes. As raizes existião ainda. Apezar dos esforços da moça o amor veio pouco a pouco invadindo o lugar do odio, e se até então o supplicio era grande, agora era enorme. Travára-se uma luta entre o orgulho e o amor. A moça soffreu consigo; não articulou uma palavra.

Luiz Soares reparava que quando os seus dedos tocavão os da prima, esta experimentava uma grande emoção: corava e empallidecia. Era um grande navegador aquelle rapaz nos mares do amor: conhecia-lhe a calma e a tempestade. Convenceu-se de que a prima o amava outra vez. A descoberta não o alegrou; pelo contrario, foi-lhe motivo de grande irritação. Receiava que o tio, descobrindo o sentimento da sobrinha, propuzesse o casamento ao rapaz; e recusal-o não seria comprometter no futuro a esperada herança? A herança sem o casamento era o ideal do moço. Dar-me asas, pensava elle, atando-me os pés, é o mesmo que condemnar-me á prisão. É o destino do papagaio domestico; não aspiro a têl-o."

Realisárão-se as previsões do rapaz. O major descobrio a causa da tristeza da moça e resolveu pôr termo áquella situação propondo ao sobrinho o casamento.

Soares não podia recusar abertamente sem comprometter o edificio da sua fortuna.

— Este casamento, disse-lhe o tio, é complemento da minha felicidade. De um só lance reuno duas pessoas que tanto estimo, e morro tranquillo sem levar nenhum pezar para o outro mundo. Estou que aceitarás.

— Aceito, meu tio; mas observo que o casamento assenta no amor, e eu não amo minha prima.

— Bem; has de amal-a; casa-te primeiro...

— Não desejo expôl-a a uma desillusão.

— Qual desillusão! disse o major sorrindo. Gosto de ouvir-te fallar essa linguagem poetica, mas casamento não é poesia. É verdade que é bom que duas pessoas antes de se casarem se tenhão já alguma estima mutua. Isso creio que tens. Lá fogos ardentes, meu rico sobrinho, são cousas que ficão bem em verso, e mesmo em prosa; mas na vida, que não é prosa nem verso, o casamento apenas exige certa conformidade de genio, de educação e de estima.

— Meu tio sabe que eu não me recuso a uma ordem sua.

— Ordem, não! Não te ordeno, proponho. Dizes que não amas tua prima; pois bem, faze por isso, e d’aqui a algum tempo casem-se que me darão gosto. O que eu quero é que seja cedo, porque não estou longe de dar á casca.

O rapaz disse que sim. Adiou a difficuldade não podendo resolvêl-a. O major ficou satisfeito com o arranjo e consolou a sobrinha com a promessa de que podia casar-se um dia com o primo. Era a primeira vez que o velho tocava em semelhante assumpto, e Adelaide não dissimulou o seu espanto, espanto que lisonjeou profundamente a perspicacia do major.

— Ah! tu pensas, disse elle, que eu por ser velho já perdi os olhos do coração? Vejo tudo, Adelaide; vejo aquillo mesmo que se quer esconder.

A moça não pôde reter algumas lagrimas, e como o velho a consolasse dando-lhe esperanças, ella respondeu abanando a cabeça:

— Esperanças, nenhuma!

—— Descansa em mim! disse o major.

Comquanto a dedicação do tio fosse toda espontanea e filha do amor que votava á sobrinha, esta comprehendeu que semelhante intervenção podia fazer suppôr ao primo que ella esmolava os affectos do seu coração.

Aqui fallou o orgulho da mulher, que preferia o soffrimento á humilhação. Quando ella expôz estas objecções ao tio, o major sorrio-se affavelmente e procurou acalmar a susceptibilidade da moça.

Passárão-se alguns dias sem mais incidente; o rapaz estava no gozo da dilação que lhe dera o tio. Adelaide readquirio o seu ar frio e indifferente. Soares comprehendia o motivo, e áquella manifestação do orgulho respondia com um sorriso. Duas vezes notou Adelaide essa expressão de desdem da parte do primo. Que mais precisava para reconhecer que o rapaz sentia por ella a mesma indifferença de outro tempo? Accrescia que sempre que os dous se encontravão sós, Soares era o primeiro que se afastava d’ella. Era o mesmo homem.

— Não me ama, não me amará nunca! dizia a moça comsigo.