Ludovina Moutinho

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Ludovina Moutinho
por Machado de Assis
Poema publicado em Chrysalidas (1864). Agrupado posteriormente em Poesias Completas (1902).
Texto com ortografia atualizada disponível em Elegia (Machado de Assis, ortografia atualizada).



LUDOVINA MOUTINHO.


ELEGIA.


(1861.)


A bondade choremos innoccente

Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada d'entre a gente.
Camões. — Elegias.


Se, como outr'ora, nas florestas virgens,
Nos fosse dado — o esquife que te encerra
Erguer a um galho de arvore frondosa,
Certo, não tinhas um melhor jazigo

Do que alli, ao ar livre, entro os perfumes
Da florente estação, imagem viva
De teus cortados dias, e mais perto
        Do clarão das estrellas.

Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa a noite, alli derramaria
Do seus negros cabellos puro orvalho;
Á borda do teu ultimo jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem lettra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,
Dissesse: — Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transumpto
        De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existencia
Os dourados umbraes; a vida agora
Sorria-lhe toucada dessas flores
Que o amor, que o talento e a mocidade
        Á uma repartiam.

Tudo lhe era presagio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o iris da esperança;
Era, emfim, entre os seus a copia viva
Dessa ventura que os mortaes almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem,
        Deixa gozar na terra.

Mas eis que o anjo pallido da morte
A presentio feliz e bella e pura,
E, abandonando a região do olvido,
Desceu á terra, e sob a aza negra
A fronte lhe escondeu; o fragil corpo
Não pôde resistir; a noite eterna
        Veio fechar seus olhos;
        Emquanto a alma abrindo
As azas rutilantes pelo espaço,
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,
        No seio do infinito;
Tal a assustada pomba, que na arvore
O ninho fabricou, — se a mão do homem
Ou a impulsão do vento um dia abate
O recatado asylo, — abrindo o vôo,

        Deixa os inuteis restos
E, atravessando airosa os leves ares,
Vai buscar n'outra parte outra guarida.

Hoje, do que ora inda lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra delia;
O attento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outr'ora ao seu contacto respondiam.

Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esphera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam
        As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flor da mocidade
Toda se esfolha sobre o chão de morte,
Senhor, em que firmar a segurança
Das venturas da terra? Tudo morro:
Á sentença fatal nada se esquiva,
O que é fructo e o que é flor. O homem cego
Cuida haver levantado em chão de bronze

Um edifício resistente aos tempos,
Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
        O castello se abate,
Onde, doce illusão, fechado havias
Tudo o que de melhor a alma do homem
        Encerra de esperanças,

        Dorme, dorme tranquilla
Em teu ultimo asylo; e se eu não pude
Ir espargir tambem algumas flores
Sobre a lagea da tua sepultura;
Se não pude, — eu que ha pouco te saudava
Em teu erguer, estrella,- os tristes olhos
Banhar nos melancolicos fulgores,
Na triste luz do teu recente occaso,
Deixo-te ao menos nestes pobres versos
Um penhor de saudade, e lá na esphera
Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo,
Possas tu ler nas pallidas estrophes
        A tristeza do amigo.