Luzia-Homem/III

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo III


A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias no extremo passo da miséria - resíduos da torrente humana que dia e noite atravessava a rua da Vitória, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traçado ao lado esquerdo do rio Acaracul, até ao mar, Eram pedaços da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem através do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela ira de Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança, vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes rodomoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.

Luzia viera na enxurrada, marchando, lentamente, a curtas jornadas, e fora forçada a esbarrar na cidade, por já não poder conduzir a mãe doente. Do capitão Francisco Marçal, o homem mais popular da terra, tão procurado padrinho, que contratara com o vigário pagar-lhe uma quantia certa, todos os anos, por espórtulas dos batizados, obtivera, por felicidade, uma casinha velha e desaprumada, onde se aboletou com relativo conforto. A vida lhe correu bem durante seis meses. Havia trabalho e ela ganhava o suficiente para se prover quase com fartura, Mas o coração pressentia, então, com vago terror, o perigo das pretensões de Crapiúna e ela procurava, por todos os meios, evitá-lo. Seu primeiro impulso, depois que lhe ele ousara falar em termos desabridos, foi anoitecer e não amanhecer; emigrar, confundir-se nas levas de famintos em busca das praias ubertosas, com os lagos povoados de curimãs, em cardumes assombrosos, os tabuleiros irrigados por orvalho abundante, cheios de plantações, e confinando, em contraste consolador, com a planície seca e estorricada.

Além se desdobrava o grande, o soberbo mar infindo e glauco, a rugir lamentoso, despejando, envolta em rendas de espuma, a generosa esmola de peixes, moluscos e crustáceos saborosos. Com a proteção de Maria Santíssima venceria a travessia. Vinte léguas galgam-se depressa. Talvez tombasse, como os míseros, cujas ossadas alvejantes, descarnadas pelos urubus e marcarás, iam marcando o caminho das vítimas da calamidade.

E a mãe, a querida mãezinha, que era o seu tudo neste mundo? Não era possível abandoná-la a cuidados estranhos, doente, quase entrevada, como estava, a deitar a alma pela boca, quando a acometia o implacável puxado. Os brincos e o cordão de ouro, que lhe dera a madrinha, vendidos aos mascates da miséria, não dariam com que pagar o transporte da pobre velha em carroças puxadas por homens atrelados dois a dois, como animais de tiro. Era esse, naquela quadra de infortúnio, o veículo das famílias abastadas, que já não possuíam cavalos e muares de carga e montaria.

Nessa triste conjunção, venceu o dever. Luzia ficou resoluta a enfrentar, de ânimo sereno, o destino, e aparelhada para suportar os mais dolorosos lances da adversidade. Continuaria a trabalhar sem desfalecimento, retraindo-se quanto pudesse para evitar encontros com o importuno soldado. Por fortuna sua, Alexandre, o amigo dedicado e afetuoso, que se lhe deparara entre a multidão de desconhecidos e indiferentes, moço de maneiras brandas, muito paciente, muito carinhoso, com a tia Zefa, passando serões, noites em claro junto dela e da filha, num recato de adoração muda e casta, lhe poupava o vexame de ir à cidade: era ele que ia ao mercado comprar a quarta de carne fresca para o caldo da enferma, os remédios e consultar o médico, mister em que era auxiliado pelo Raulino, outro amigo da família.

Uma tarde, ao voltarem juntos da obra, Alexandre, impressionado pelo tom de penosa preocupação bem acentuado no semblante de Luzia, disse-lhe a medo:

— Se a senhora não se zangasse, eu acabava com essa reinação, dando um ensino ao Crapiúna...

— Não quero – retorquiu Luzia vivamente – Não tenho medo daquele miserável, mas não desejo dar nas vistas dessa gente desabusada. Depois que hão de dizer?... Você não é nada meu para tomar dores por mim... Aquilo não tem entranhas de cristão: é um malfazejo...

Alexandre sentiu-se humilhado, supondo que a moça desconfiasse do seu valor, e, continuou com brandura tímida:

— Não seria a primeira vez... Não sou nada seu, mas sou um homem capaz de jogar a vida em defesa de uma mulher de bem. Pensei que não se agravaria comigo...

— Agravar-me?!... Não pensei nisso. Não quero que se sacrifique por mim, que já muito lhe devo – favores que só Deus pagará. Imagine a briga de dois homens, pancadas, ferimentos, um crime e o meu nome detestado passando de boca em boca., Luzia-Homem causadora de tudo... Não quero, não. Faça de conta que aquele mal-encarado homem não existe... Não tenha receio, Alexandre, eu sei defender-me. De mais a mais. .. tudo passa...

Luzia confiava na ausência, mãe do esquecimento, para conjurar o perigo; entretanto, um mês depois, recebeu uma carta de Crapiúna, transbordante de frases de amor, em prosa e verso – protestos lânguidos e trovas populares, escritas em péssima letra sobre papel de cercadura rendilhada, tendo, no ângulo superior, à esquerda, um coração em relevo, crivado de setas, desfechadas por travessos Cupidinhos alados. E leu-a com assombro e cólera, como se as letras disformes, enfileiradas em tortuosas linhas, e o pensamento sensual nelas expressado, lhe vergastassem cruelmente o rosto.

— Este homem será o causador da minha desgraça - murmurou ela com um soluce de pranto sufocado.

— Que tens, filha? – inquiriu a mãe... – Estás tão alterada?... Que houve?

— Nada, mãezinha – respondeu Luzia, disfarçando a emoção que a conturbava – É este labutar constante, sem esperança de melhoria, e a sua doença que me apertam o coração...

— Tu me encobres alguma coisa. Estás afrontada?

O peito de Luzia arfava descompassado, e seus rijos seios espetavam, em sacudidos golpes trêmulos, a delgada camisa.

— Tenho ouvido dizer – continuou ela – que banhos salgados são bons para reumatismo. Se pudesse levá-la para as praias... Bastava chegarmos com vida à Barra. Daí para os Patos é um pulo. Ficaríamos acostados à gente do meu padrinho José Frederico, que é rico e bom para os pobres.

— Tenho medo... Nunca vi o mar. Dizem que é bonito, perigo e traiçoeiro. Inda que fosse essa viagem a salvação. Como queres que me mexa? Não vês? Estou impossibilitada de andar neste quarto, quanto mais para fazer a travessia deste sertão inclemente!... Ai!... Deus não quer, filha. São os meus pecados, que me encaranguejam as pernas. Já fiz uma promessa a São Francisco das Chagas de Canindé para que ele me pusesse em estado de caminhar com os meus pés; e... nada... Cada vez mais me incham as juntas e se me entortam os ossos. . .

Subjugada pelo impossível evidente, inelutável, a moça estraçalhou com as unhas pontudas a carta fatal. A mãe tinha razão. Deus não queria. Era forçoso ficar, amarrada àquele poste de amor e sacrifício, onde morria, em lento martírio, a mãe adorada, arrostar o perigo pressentido, o acinte da paixão do lúbrico soldado. Era formoso ficar exposta ao insulto daquela atrevida e grosseira insistência repugnante; e sucumbir, talvez, assoberbada de vilipêndio e ultrajada como as outras desditosas, arrastadas pela miséria à crápula abjeta.

Sob os músculos poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil, afogada no sofrimento que não transbordava em pranto, e só irradiava, em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa trevas