Luzia-Homem/IV

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo IV


Quando lhe serenou o ânimo atribulado, teve ímpetos de repelir o insulto com represálias violentas, castigando, ela mesma, o insolente, custasse-lhe isto, embora, muita vergonha, muito opróbio, ou procurar auxilio na dedicação cega de Alexandre, com a qual sabia poder contar para a vida e para a morte; mas, demoveram-na desse passo, ponderações das conseqüências de escândalo, um crime possível e a punicão. Não queria arriscar o moço, cuja alma impetuosa e forte, parecia adormecida sob aparências de mansidão e doçura, como a lâmina de uma faca acenada, escondida em bainha de veludo. Raulino era demasiado ardente; tinha o coração na goela e seria capaz de estripulias graves. Demais, por lhe haver catado valioso serviço, pareceria exigir a paga com o apelo ao seu concurso. Além desses, não tinha um coração amigo onde fosse haurir conselho e procurar o inefável alívio da confidência, válvula benéfica para o escoamento das mágoas, pesares e desgostos. As moças da mesma idade, ainda não contaminadas pelo vírus pecaminoso, que empestava o ambiente, evitavam-na com maneiras tímidas, discreto acanhamento, como não fossem iguais na condição e infortúnio. Muitas se afastavam dela, da orgulhosa e seca Luzia-Homem com secreto terror, e lhe faziam a furto figas e cruzes. Mulher que tinha buço de rapaz, pernas e braços forrados de pelúcia crespa e entonos de força, com ares varonis, uma virago, avessa a homens, devera ser um desses erros da natureza, marcados com o estigma dos desvios monstruosos do ventre maldito que os concebera. Desgraça que lhe acontecesse não seria lamentada; ninguém se apiedaria dela, que mais se diria um réprobo, abandonado, separado pela cerca de espinhos da ironia malquerente, em redor da qual girava o povilhéu feroz a lapidá-la com chacotas, dictéríos e remoques. Tal se lhe figurava, através dos exageros pessimistas, a sua triste situação.

Uma vez, estando ela a banhar-se, depois de cheio o grande pote, na cacimba aberta no leito de areia do rio, em sítio distante dos caminhos e aguadas mais freqüentadas, surpreendeu-a Teresinha, a rapariga branca e alourada, bem-parecida de cara e bem-feita de corpo, que era flexível como um junco, de sóbrias carnações e contornos graciosos.

Estava ainda longe o dia. As barras apenas despontavam no levante em pálido clarão e alguns farrapos de nuvens rubescentes. Exposta à bafagem da madrugada, Luzia de pé, em plena nudez, entornava sobre a cabeça cuicas d'água que lhe escorria pelo corpo reluzente, um primor de linhas vigorosas, como pintava a superstição do povo o das mães-d'água lendárias, estremecendo em arrepios à líquida carícia, e abrigado em manto da espessa cabeleira anelada que lhe tocava os finos tornozelos. Ao perceber desenhar-se no lusco-fusco da nebrina matinal, já perto, o vulto da moça a contemplá-la, soltou um grito de espanto e agachou-se, cruzando os braços sobre os seios.

— Não tenha receio, sa Luzia. Sou eu - disse Teresinha, atirando o pote sobre a areia – Vim também lavar-me com a fresca. É tão bom, neste tempo de calor, poder molhar o corpo...

— Dê-me a camisa por favor - suplicou Luzia, transida de pejo, apontando para a roupa amontoada.

Teresinha não despregava dela os olhos, em êxtase de admirativa curiosidade. Deu-lhe a roupa, e, despindo-se sem o menor resguarde, banhou-se rapidamente.

— Você tem vergonha de outra mulher, Luzia? Eu, não. Não sou torta, nem aleijada, graças a Deus...

Vestida a camisa que se lhe amoldou ao corpo molhado, como leve túnica de estátua, Luzia não ousava erguer os olhos, tão confusa e perturbada estava.

— Agora sou sua defensora – continuou a outra torcendo os cabelos ensopados – Hei de punir por você em toda parte, porque vi com os meus olhos que é uma mulher como eu, e que mulherão!... Sabe? Outro dia estava numa roda conversando sobre moças que não há nenhuma honrada para aquelas línguas danadas, Falou-se de você e o Crapiúna, que estava ouvindo, disse que, por bem ou por mal, lhe havia de tirar a teima.

— O Crapiúna? - exclamou Luzia com irrepressível terror.

— Sim. Aquele infame soldado, muito metido e apresentado, que anda perseguindo a gente. É um gabola para quem não há mulher séria. Não se fie daquele malvado. Conheço muitas que ele desgraçou com partes de promessa de casamento; e não teve coragem de dar-lhe um pedaço de pano para fazer uma saia. A mim andou ele a afrontar com o anelão de ouro que traz no dedo, como isca para as tolas. Eu não sou mais moça, confesso a minha desgraça, mas não me sujo com semelhante desalmado.

Luzia ouvia calada, com os olhos fitos na cacimba, onde a água marejava lentamente.

— Dizem que é criminoso. Muito provocante e atrevido, outro dia quase teve uma pega com o Alexandre por causa de umas liberdades, que quis tomar com a Quinotinha.. Não foi por ciúme que o outro avançou em defesa da menina, uma criança inocente, coitadinha, que ainda não desceu o embainhado da saia. Só visto se acredita. Era preciso ter cabelos no coração para fazer o que ele fez e ter sangue de barata para suportar tamanho desaforo.

— Então o Alexandre?!...

— Avançou para ele que nem uma fera, e o cabra ficou branco como um defunto. Todo o homem de más entranhas, à traição, é, cascavel, mas, peito a peito, é medroso. Alexandre já andava com ele de olho por sua causa...

— Por mim?

— Ora, eu sei que ele gosta de você, mas não tem coragem de se declarar. Olhe, minha camarada, procurando com uma vela acesa, não encontrará homem de bem igual a ele. É pessoa de consideração e procedente de boa família. Dizem que deixou moradas de casa e uma fazenda nos Crateús; mas essa desgraça da seca acabou com tudo e o obrigou a andar trabalhando para arranjar um bocado para comer... Ah! também eu já tive muito de meu e agora vivo nesta miséria. Quando saí de casa com o Cazuza, meus pais, graças a Deus, ainda possuíam muita farinha, muito milho e muito arroz, na despensa, não falando nas matalotagens. Depois, andamos vagando pelo sertão como casados, até que o perdi. Morreu de bexigas, o pobre... Eu saíra de casa com a roupa do corpo. Vi-me sozinha no mundo, sem ter com que comprar uma tigela de feijão... Fiz então, o que me mandou a minha ruim cabeça... E por aqui ando como um molambo, sem uma criatura que se doa de mim... Ainda hei de contar-lhe a minha vida.

Teresinha limpou os olhos com as costas da mão, e suspirou. Sentada, em desalinho, traçava na areia úmida, figuras cabalísticas, entremeados de letras que logo apagava, como se simbolizassem importunas e saudosas recordações da felicidade, para sempre perdida.

A cacimba transbordava. Os potes estavam cheios. Luzia torcia em rodilha um trapo de antiga toalha, para equilibrar o seu sobre a cabeça, esperando que Teresinha lhe restituísse a cuia com que se banhava.

Nisto ouviram vozes e tropel humanos. Teresinha vestiu-se às pressas. Era o triste cortejo da faxina diária da cadeia. Dous presos, ligados pelo pescoço por comprida corrente de ferro, carregavam pendurada de um caibro, polido pelo uso, a grande cuba contendo os dejetos da véspera, para despejá-los, longe da cidade, à margem do rio, nas vazantes onde, em tempos prósperos, medraram melões e melancias. Acompanhava-os uma escolta de soldados, da qual se destacou Crapiúna, que se dirigiu às duas moças com maneiras de afetada severidade.

— Então, suas vadias! Estão a sujar a água que a gente bebe?... Corja de porcas... estas retirantes... Ai, Jesus!... Não tinha reparado na sa dona Luzia, milagrosa santa dos meus olhos pecadores...

— Deixe a gente sossegada, seu Crapiúna – atalhou Teresinha.

Siga o seu caminho e não se importe com o que não é da sua conta...

— Não estou falando contigo, tábua de bater roupa. O meu negócio é com esta feiticeira soberba que furtou meu coração...

— Você diz isto – replicou Teresinha – é por estarmos aqui sozinhas. Soldado relaxado...

— Olha – retrucou Crapiúna enfurecido – Toma a bênção ao furriel que está ali na escolta. Se eu não estivesse de serviço te ensinava quem é relaxado, cachorra....

— Cachorra é tua mãe, cabra safado...

A esta injúria Crapiúna cerrou os punhos, num gesto bruto de ameaça; mas , à chamada do furriel, teve de partir, dirigindo à moça uma praga obscena.

— Deixa estar que me pagarás. Esta não caiu no chão.

Voltando depois para Luzia, trémula e confusa, inanida de surpresa e vergonha, acrescentou, requebrando os olhos congestionados:

— Adeus, meu bem... Tenha pena de seu mulato... Me responda; faça uma fezinha para me consolar o peito, sua ingrata... Ai, ai, coração!...

Luzia continuava a preparar, automaticamente, a rodilha, não ousando, erguer os olhos para o sinistro homem.

— O demônio te carregue, peste – resmungou Teresinha quando Crapiúna se reuniu à escolta – Tu só prestas para carregar porcaria de preso. Por estas e outras é que eu não ando de mãos abanando. Era encrespar-se para mim aquele excomungado, metia-lhe no bucho este canivete até o cabo.. .

— E tinha corarem? - perguntou Luzia encarando na franzina moça e na fina lâmina da arma, que ela trazia oculta no cós da saia.

— Ora, ora, ora!... Fisgava-o sem dó nem compaixão. Não me importava de ser presa, nem tenho a vida para negócio... desgraça por desgraça... Ah! minha camarada, já sofri tudo de ruim deste mundo; passei por vexames e desgostos... Só lhe contando isso por miúdo... Deixe estar que os desaforos daquele cabra miserável não caíram no chão. Paga-me mais cedo ou mais tarde, tão certo como chamar-me Teresa de Jesus...

— Ferir, matar um homem!... Seria horrível.

— Qual horrível, qual nada. Já vi gente morrer à minha vista. Não foi uma nem duas criaturas. Tivera eu a sua força, não precisaria de arma: quebrava-lhe a cara safada que ficaria a panos de vinagre. Quando ele me dissesse alguma liberdade, dava-lhe tamanho tabefe...

— Vamos que são quase horas de ir para a obra... Ah! nem me lembrava que hoje é dia santo. .. Esta minha cabeça...

— Olhe para mim, Luzia; mire-se no meu espelho Eu já lhe quero bem, como parente minha, por isso falo-lhe assim. Veja como estou pagando os meus pecados; veja a minha desgraça e a quanto estou sujeita...

— É pena, você, uma moça branca, andar assim na vida...

O céu pálido clareava, e a aurora, que irrompia, punha nas coisas o rúbido fulgor das suas pompas. Ranchos de mulheres e de meninos macilentos se endireitavam à cacimba; e, falando e rindo, os pequenos, quase nus, sacudidos por quintos de tosse rouca, levavam grandes cabaças para colherem o precioso líquido, ainda nas entranhas da terra ressequida e flagelada.