Luzia-Homem/V

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo V


Mal restabelecida da comoção do encontro com Crapiúna, Luzia sentia-se humilhada pelos grosseiros galanteios que ele lhe dirigira sem o menor rebuço, com desabrida petulância e desenvoltura sensual, como se ela fora uma dessas desgraçadas, cujo acesso não é já resguardado pelo prestígio da virtude. Pouco atenciosa à incessante tagarelice de Teresinha, e remordida pela afronta, meditava na turra de Alexandre com o soldado, persuadida de que a defesa de Quinotinha fora o pretexto para a explosão do ódio latente. Seu coração estremecia, vacilante, à idéia de um conflito entre os dois homens, e o júbilo de sentir-se amparada por dedicação superior a todos os sacrifícios.

E flutuava nesse consolador eflúvio de reconhecimento, arrebatada à região dos sonhos, das coisas ideais, sobranceiras ao pélago da tristeza e sofrimentos humanos.

Quando chegou a casa, e depôs o grande pote sobre as três garras de uma forquilha de sabiá, fincada no solo, a mãe, sentada à rede armada a um canto do quarto, gemia, à surdina, em atitude de vítima resignada ao martírio da implacável moléstia.

— Sua bênção, mãezinha?

— Bênção de Deus, filha. Vens tão cansada. Teimas em carregar água nessa jarra... Estás a botar a alma pela boca...

— Não é o peso do pote... São pesares...

— Hoje é dia santo. Achava bom ires à missa...

— Já fiz as minhas orações, mãezinha. O meu lugar - Deus me perdoe - é aqui a seu lado, tratando-a, a ver se podemos deixar logo esta terra.

— O quê!!... A terra não tem culpa do que padecemos. Admira de pensares ainda em semelhante coisa. Desengana-te, filhinha da minha alma. Havemos de ficar e talvez morrermos aqui, quando Deus for servido...

— Também, mãezinha, não faz caso dos remédios, que têm custado um dinheirão. Se tomasse de verdade os da receita do doutor Helvécio... Olhe ele quase sarou a mãe da Grabina. Muito mais doente e com moléstia ruim, teria ficado boa, se não se metesse com meizinhas e feitiçarias ensinadas. Pelo menos conseguiu viver muito...

— Porque a hora não era chegada.

— Só queria que melhorasse. Era capaz de carregá-la nas costas, como criança de peito, até à Barra. Tenho visto mulheres, mais franzinas que eu, conduzindo ao colo filhos crescidos, quais rapazes, doentes, ou meio mortos. Tenho fé em Deus que me dobraria as forças para fazermos, em paz e salvamento, a viagem. Depois Alexandre havia de ir conosco e nos ajudaria, ao menos, carregando os nossos teréns... Pensar que em cinco dias poderíamos estar na praia, livres deste inferno...

Enquanto tentava demover a mãe a empreender a viagem, a moça torcia as madeixas dos fartos cabelos negros, embebidos d'água, até secarem à pressão de suas mãos, mãos delicadas de mestiça, pequeninas e elegantes. Enrolado no alto da cabeça o cabelo, que ela tratava carinhosamente, passou aos cuidados domésticos matinais: atiçar o fogo, preparar o café e uma sopa com grandes bolachas duras, quebradas em pedaços miúdos.

Nisto ouviu um forte silvo de fadiga. Era Alexandre que chegava, trazendo provisões em um uru, funda bolsa de malha tecida com palhas de carnaúba.

— Bom dia, sa Luzia. Como passou tia Zefinha? - disse em tom prazenteiro.

— Deus te abençoe, meu filho! - gemeu a velha com esforço.

— Passei por uma madorra; mas, à primeira cantada dos galos, despertei e não houve meio de tornar a pegar no sono.

— Que há de novo? – inquiriu Luzia.

— Ouvi estarem falando, na casa da Comissão, que o doutor José Júlio deu ordem para facilitar a saída do povo. Quem quiser embarcar deve procurar a Barra ou o Camocim, onde há vapores para conduzir a gente. Quem quiser ficar tem trabalho na estrada de ferro e nos açudes. Mas, assim mesmo, não se pode dar vencimento ao potici de povo, que vem derramado por esse sertão a fora. Disse-me o capitão Marçal que vão principiar as obras do cemitério novo e da estrada para a Meruoca. Já estão engenheiros medindo a ladeira da Mata-Fresca. Era o caso de irmos nos trabalhar na fresca da serra, onde ainda há olhos-d'água vivos. Pelo meu gosto já não estava mais aqui.

— Quem impede? – perguntou Luzia, ocupada em dar a sopa à mãe.

— Ninguém – respondeu Alexandre surpreendido pela inesperada pergunta, feita em tom de indiferença. Ninguém, nada me impede... Mas a gente nem sempre faz o que quer. Muita vez a cabeça vira para um lado e o coração para outro. Quando morreu minha mãe e vi-me só no mundo, estive em termos de assentar praça, porque quando um homem é soldado vira outro, fecha a alma e não se pertence mais. Estava maginando nisso, em me afastar da terra da sepultura, onde descansava a minha defunta velhinha, quando topei com você, sa Luzia, servindo no trabalho da cadeia. Por sinal que, nessa ocasião, lembra-se? a maltratavam. Era uma canzoada de mulheres e meninos, gritando: Olha a Luzia-Homem, a macho e fêmea! O povo todo corria de morro baixo e eu também fui ver o que era. Você vinha subindo, trazendo nos braços Raulino Uchoa, quase morto, ensangüentado e coberto de poeira. Contou-me, então, o Antonio Sieba, pai daquela moça bonita, que canta como um canário, o que se havia passado. O Raulino apostara derribar, a toda a carreira, um boi pelo rabo. Na verdade o homem corria como um veado e, era pegar na saia da rês e virá-la, na poeira, de pernas para o ar; mas, naquele dia, foi caipora; falseou-lhe o pé; o boi voltou-se como um gato e mataria o pobre diabo se, dentre o povo, que disparava espantado, não surgisse uma moça afoita e destemida que agarrou o bicho pelas galhadas e o sujicou que nem um cabrito.

— Não valia a pena lembrar isso.

— O capitão João Braga, aquele coração de oiro, mandou recolher o ferido à casa da administração; e, voltando-se para mim, disse-me: Seu Alexandre aliste esta moça para trabalhar e dê-lhe cinco mil réis como molhadura pelo ato de coragem. Você não quis receber o dinheiro. Ficou até meia estomagada..

— Por força... Eu não devia receber pagamento pelo que fiz por caridade.

— Eu tomei por soberba. Cem anos que viva, terei sempre diante dos olhos e do pensamento, a sua figura, de cabelos soltos, rompendo a multidão, com o Raulino nos braços, como se fora uma criança. Lembrava-me um registo do Anjo da Guarda, levando a alma de um inocente para o céu.

Luzia ouvia-o complacente e admirada, porque Alexandre, de ordinário tão retraído e acanhado, estava, nesse dia, expansivo, e loquaz.

— Desde, então – continuou ele – não pensei mais em assentar praça, nem abandonar esta terra. Quando sube que tinha mãe e conheci a tia Zefinha, meu coração se abriu consolado, como se houvesse ressuscitado a minha defunta mãe, que Deus haja em glória.

Você hoje – Observou a velha, amparando da luz os embaciados olhos, com as mãos, trêmulas e mirradas – trouxe o uru cheio!...

— O pobre tem seu dia...

E afastou-se para entregar as compras a Luzia, esvaziando o uru que deixara sobre o jirau do alpendre.

— Aqui tem uma libra de carne fresca e um corredor, uma quarta de toicinho, afora a ração do governo. A farinha é meia grossa, mas tem muita goma.

— Ninguém dirá, com semelhante fartura, – gracejou Luzia – que somos retirantes.

— Agora – disse-lhe Alexandre, baixando a voz, tímido e comovido – tenho uma coisa para você; um mimo que me trouxe um camarada meu da Meruoca.

E tirou do bolso interior da jaqueta de brim pardo uma laranja, onde estava plantado um cacho de cravos sanguíneos e cheirosos.

Aqueceu-se o rosto moreno de Luzia, como inundado de um fluxo de sangue abrasado. Seus olhos negros brilharam em fugaz eflúvio de prazer fitando-se no fruto e nas rubras flores sensuais, preciosas jóias da natureza avara naquela quadra de desolação. Ela as tomou a duas mãos, meigamente; hauriu com voluptuoso anseio o perfume dos cravos; e, mal articulando as palavras, dirigiu-se à mãe:

— Aqui tem, mãezinha, um presente de Alexandre. Tome a laranja; eu fico com os cravos. Que bonitos!...

E, com gestos de casquilhice infantil, cravou-os nas ondas do cabelo. Depois, voltando-se para Alexandre, que não ousava contemplá-la, lhe disse à puridade:

— Muito agradecida. Mas... estou zangada com você...

— Comigo!?...

— Sim. Teresinha contou-me a sua briga com Crapiúna.

— Não houve nada. Juro-lhe à fé de Deus! Estávamos na casa da Comissão: eu no meu lugar fazendo a relação da gente que era demais; ele, numa reinação, intimando com as mulheres. Chegou a Quinotinha em procura da ração do pai, que desmentira um pé; e o desaforado entrou a bulir com ela até fazê-la chorar. Aquilo foi me inchando no coração; perdi a paciência, e não me pude conter. Meti os pés; cresci pra cima do cabra, e disse-lhe por aqui assim: "Se o senhor não respeita a farda para provocar uma menina inocente, há de respeitar um homem!..." Ele estremeceu; quis se endireitar pra mim, mas eu não o deixei esfriar, e acrescentei: "Uma pouca vergonha que a gente não se atreve... Tamanho homem e, de mais a mais, soldado, andar aqui todos os dias, que Deus dá, com desaforos, até com meninas donzelas! Fique sabendo que não me mete medo; não me vou queixar ao sargento Carneviva, nem ao Comandante!..." O mulherio abriu em roda; e o Crapiúna, vendo que eu estava decidido para o que desse e viesse, murchou; ficou fulo de raiva e foi saindo, lá ele, por estas palavras: "Está bom! Não quero baticum de boca comigo..." E o povaréu caiu em cima dele com dictérios que faziam uma zoada doida: - Olha o valentão!... Meteu o rabo entre as pernas!... Cabra frouxo!... Vi que ele ficou danado, mas, nem como coisa, continuei sossegado o meu serviço. Quando o capitão José Silvestre soube do caso, disse-me que eu tinha feito muito bem.

— Que tinha você de comprar briga...

— A gente não faz essas coisas por querer. Quando dá fé está feito... Tal qual você, quando tirou o Raulino debaixo do boi... O coração não se governa, nem pede licença. para bater...

— Mas você já estava de ponta com ele...

— Andava, falo a minha verdade. E não era para menos ver aquele safado, com partes de ser cangaceiro e criminoso, andar intimando com Deus e o mundo. Todo o gabola é mofino...

— Faça-me um favor...

— Que não farei eu por você, Luzia?...

— Não se meta mais com a vida do Crapiúna...

— Está dito!... Por essas e outras é que eu desejava trabalhar fora daqui...

— Ninguém está livre de uma traição...

— Ah! Bem se vê que ele tem cara de cascavel de tocaia...

— Evite; evite aquele homem, Alexandre... Eu lhe peço por alma de sua mãe...

— Juro!... – afirmou o moço, solene, erguendo-se e estendendo a destra, com um gesto resoluto e sincero.

— Confiem em Deus, minha gente – observou a velha, que do quarto os ouvia.

— Não há mal que sempre dure. Ele é pai de misericórdia. Há de ter pena de nós e desta terra...

— Se nós dois – disse Luzia, após alguns momentos de meditação – botássemos mãezinha numa rede e a carregássemos até a Barra do Acaracu?

— E tu a teimares, filha...

— Eu era muito homem para fazer isso – respondeu Alexandre – mas vinte léguas, léguas de beiço, muito puxadas, por uma estrada de águas difíceis e com esta soalheira!?...

Luzia não replicou.

— Mais fácil seria – continuou ele, irmos trabalhar na obra da ladeira. Já estou com uma casinha de olho: a que fica quase defronte da Cova da Onça. Daqui até lá levamos a tia Zefinha de um só fôlego...

— E ficaremos sozinhas naquelas brenhas? – ponderou Luzia.

— Se não levassem a mal eu ficaria morando com vocês... Sempre é bom ter homem em casa...

— E as más línguas?... Acha pouco o que já rosnam de nós?...

— Então não sei como há de ser... Só se...

Alexandre estacou enleado, não ousando externar a idéia que lhe ocorrera...

Recobrado o ânimo, titubeou, a meia voz, trêmulo quase comovido:

— Só se... nós... nos casássemos...

Luzia surpreendida pela proposta. estremeceu, corando.

No mesmo instante, passava pelo terreiro, rente à casa, um magote de mulheres, com trajes domingueiros, grazinando em desbragada conversa.

— Que lhes dizia eu?... Vote!... Já estão bem principiados no namoro! – exclamou uma delas indicando, com um gesto do mento, Luzia e Alexandre, transidos de pejo, como delinqüentes apanhados em flagrante crime de amor.

O grupo desapareceu correndo e tagarelando, aos empurrões e palmadas, com maneiras desenvoltas. Dominava o murmúrio de risos e chacotas grosseiras, a gargalhada estridente e sarcástica de Romana, a lúbrica, a roliça e quente cabocla de dentes pontiagudos.