Luzia-Homem/IX

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo IX


Apagavam-se no céu pálido os astros e a estrela-d'alva desmaiava, lívida, quando Luzia deixou a rede. Espreguiçando, estremunhada ao fresco terral da manhã, que lhe agitava o traje com suave carícia, desfez os cabelos impregnados de forte fragância de mulher amorosa, como se a própria essência da força e da saúde evolasse deles em capitoso filtro sensual; e, tomando de um largo pente de chifre, começou a desembaraçar as densas madeixas, que se afofavam e intumesciam crespas e lustrosas. Aos seus ouvidos, chegavam os clamores vibrantes do toque de alvorada, recordando-lhe Alexandre encerrado na prisão infecta e escura, entre celerados, àquela hora despertados do profundo sono perturbado pelos sonhos de remorsos implacáveis.

Nos arredores, até onde o olhar podia chegar fendendo a vaporosa neblina da madrugada, surgiam massas pardacentas de moitas desgrenhadas em gravetos ressequidos, espectros de árvores, a terra poeirenta e as casas ainda fechadas, donde partia o surdo rumor de choro de crianças, ranger de chaves nas fechaduras perras, prolongados bocejos, resmungando frases de vago, quase imperceptível queixume.

No quarto próximo, a velha mãe ressonava com intermitentes gemidos. Teresinha dormia ainda, estirada na esteira, seminua, num abandono ingênuo, debuxando-se-lhe as formas delgadas e graciosas. No alpendre esmoreciam, na extremidade dos grossos tições, grandes brasas rubras, sob tênue camada de cinzas brancas.

Ao espetáculo do alvorecer sem alegria, o campo desolado, sem cânticos de pássaros e rumores harmoniosos do trabalho venturoso e fecundante, ela revia a infância, na fazenda Ipueiras: a campina verdejante umedecida de orvalho congregado no côncavo das folhas em gotas trêmulas, os cabeças-vermelhas gorjeando nos mais altos ramos dos juazeiros frondosos; caraúnas airosas papeando em volatas vibrantes nos leques das carnaubeiras esguias, rolas arrepiadas e friorentas aguardando, aos casais quietos, bem juntinhas, os primeiros raios do sol. Ouvia o mugir lamentoso das vacas presas nos currais, o gemido soturno e tímido dos bezerros e monjolos famintos; o balir das ovelhas irrequietas no fumegante chiqueiro; o gaguejar dos bodes lúbricos, ébrios de luxúria; e o relincho triunfante do fogoso cavalo castanho, a galopar peado das mãos, de crinas eriçadas, de orelhas espetadas e de rúbidas narinas acesas. E com o cheiro do pasto florido, dos aguapés flutuantes na lagoa azulada, nenúfares de caçoilas entreabertas, sentia o fartum da prodigiosa terra exuberante, e o bafio agro dos rebanhos fecundados. Recordava-se do banho na lagoa, que espalhava o céu, e a paisagem pitoresca, e onde ela nadava como as marrecas ariscas; mergulhava e voltava a flux, espadanando a água com o açoite de cangapés acrobáticos, espantando os paturis e jaçanãs medrosos, os graves socós pousados sobre uma perna e os bandos de alvas garças elegantes. Como era saboroso o leite morno, espumando nas cuias, o tassalho de carne-do-sol chiando no espeto, o cuscuz vaporoso e os queijinhos de cabra, em forma de peito de moça; as merendas e o mel de rapadura e macaxeira, o mocunzá com coco da praia, a coalhada escorrida e os fofos manuês assados em folha de bananeira?!...

Nessa evocação saudosa de um passado morto, ressurgiram as adoráveis peripécias da infância, os episódios da vida de adolescente na penumbra da puberdade, salteada pelas primeiras investidas dos instintos; as festas, os Sãos Gonçalos, os Bumba-meu-boi, as vaquejadas, as caçadas de avoantes nos bebedoiros, a colheita dos ovos que elas, abatendo-se em nuvens sobre as várzeas, punham aos milhões, junto dos seixos, das toiceiras de capim, ou nas barrocas feitas, durante o inverno, pelas patas do gado. Sentia ainda zumbir o vento nos ouvidos, quando, em desapoderada carreira, o castanho perseguia, através dos campos em flor, as novilhas lisas ou os fuscos barbatões, que espirravam dos magotes; o ecoar da voz gutural do pai, cavalgando, à ilharga, o melado caxito, e bradando-lhe, quente de entusiasmo: Atalha, rapariga!... Não deixes ganharem a catinga!... E quando ela, triunfante das façanhas do campeio, o castanho a passarinhar nas pontas dos cascos, garboso, vibrátil de árdego, as ventas resfolegantes, os grandes e meigos olhos rutilantes, todo ele reluzente de suor, como um bronze iluminado, o enlevo do pai a contemplá-la, orgulhoso, e indicando-a aos outros vaqueiros: Vejam, rapaziada!... Isto não é rapariga, é um homem como trinta, o meu braço direito, uma prenda que Deus me deu... E as moças, suas companheiras, murmuravam espantadas: Virgem Maria! Credo!... Como é que a Luzia não tem vergonha de montar escanchada!...

Paisagem, fatos, coisas, criaturas queridas perpassavam, confundidos, sós, ou em torvelinhos fantásticos: tudo ao longe, num horizonte de nebrinas, como recordações truncadas e vagas de um delicioso sonho interrompido.

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O sol surgia rubro, sem pompas de nuvens, destoldado.

Teresinha apareceu à porta do quarto, bocejando e fazendo cruzes sobre a boca escancarada:

— Credo!... – murmurou – Pegou-me o sono que não foi graça... Bom dia, Luzia... Você é muito faceira com esses cabelos...

Bom dia, Teresinha! – respondeu Luzia com uma das madeixas presa aos dentes para lhe poder desembaraçar a extremidade – E mãezinha?...

— Está dormindo, coitadinha, que nem uma criança. Que santo remédio!... Somente – já reparou? – de vez em quando ela a modos que se engasga...

— É da moléstia...

— Que inveja tenho dessa cabeleira! Que é que você fez para crescer assim?

— Nada... Água do pote e pente duas vezes por dia...

— Qual! Isso é do calibre da gente... Eu tenho usado tudo quanto me ensinam: óleo de coco, enxúndia de galinha, uma porção de porcarias... Cheguei até a botar nos meus, remédio de botica... Foi mesmo que nada... Sempre ficaram nestes rabichos que nem me chegam às cadeiras...

— Veja só. Ninguém está contente com a sua sorte... Eu, por mim, não se me dava que os meus fossem como os seus. Dariam menos canseira para os desembaraçar e alisar todos os dias...

— Enfim, cada um como Deus o fez...

— Por que não os ensaboas com raspa de juá? Todas as moças, na redondeza das Ipueiras, têm cabelos lindos, que crescem depressa – dizem – por causa da água de lá, que é virtuosa, e da tal raspa...

— Vou experimentar.

Houve longa pausa. Teresinha, de olhos apertados, sufocada pela fumaça, soprava os tições. Luzia subjugava os cabelos em grande cocó, no alto da cabeça.

— Às vezes – disse Luzia – tenho vontade de cortar os meus bem rente. Para que pobre quer cabeleira?...

— Que horror! – exclamou Teresinha – Ficar sura?!... Nem falar nisso é bom.

— Não faz mal. Cabelo é bem de raiz: quanto mais se corta mais cresce. Assim foi com os meus.

— Há gente que usa cabelos postiços. A Maria Caiçara, aquela cara de lua cheia, que é caseira do Belota, tem um enchumaço, que parece dela mesma. Algumas moças brancas e ricas também gostam disso. Dizem até que compram cabelos de defuntas, cortados pelos coveiros do cemitério... Credo!... Eu teria um nojo...

Nessa ocasião, chegou Raulino, sertanejo muito afamado, alto, todo músculos, de cabelos vermelhos e olhos azuis, genuíno tipo de bretão, bravo e meigo, contador de histórias maravilhosas de grande voga. Trazia, em balança, nos ombros, uma grande toalha de algodão da terra, com uma trouxa em cada extremidade.

— Bons dias, meninas! Como vai tudo por esta casa?

— Assim, assim – respondeu Luzia – E você?

— Eu? Como pobre. Não estou bem em pé, mas encostado, e vou furando, como Deus é servido, o oco deste mundo, até topar na morte. Estão aqui as rações: a sua, sa Luzia, e mais a da velha. Como vccê não pôde ir trabalhar o capitão José Silvestre me perguntou se eu podia trazê-las. Então respondi: Que é que eu não farei por semelhante gente? Era para vir ontem de tarde, mas porém fui pegar um veado de estimação, que fugiu da casa do doutor e só pude dar com o bicho à boca da noite, lá perto do córrego da Roça. Então resolvi vir agora de manhãzinha.

— Deus lhe pague.

— Ainda não lhe paguei eu, sa Luzia, a esmola que me fez... Se não fosse você, abaixo de Deus, o boi me desgraçava daquela feita...

— Ora, ora, ora... Grande coisa!...

— Mangando, mangando, eu ia, mas era sendo varado pelas galhadas do bicho traiçoeiro... Ainda estou com este pé meio esnocado, mas já lhe piso em riba com vontade...

Luzia desatou as trouxas, e arrumou, cuidadosamente, os víveres, que elas continham, sobre o tosco jirau, enquanto Teresinha torrava café em um caco de pote, mexendo os grãos que se coloriam de castanho, exalando saboroso cheiro.

— Bom, agora vou para a obra – disse Raulino – Até mais ver...

— Espere o café. A Luzia pila num instantinho.

— Café é comigo. Não posso enjeitar – respondeu o sertanejo, com mesuras de agradecimento – Não bebendo de manhã, passo todo o dia com a cabeça dolorida e as fontes latejando...

Teresinha despejou o café fumegante no pilão, e Luzia tomando da mão pesada de pau-d'arco, em poucos minutos, a golpes firmes e cadenciados, reduziu os grãos a leve pó inebriante.

Pouco depois Raulino sorvia, a largos tragos, o adorado líquido, que ele entornava no pires e soprava, tão quente estava. Ao terminar, puxou do cós da ceroula um grande corrimboque de retorcido chifre de carneiro, cuja tampa, de casco de cuia, estava presa pelas correias a um velho lenço vermelho; sorveu enorme pitada do caco, e partiu troteando em ligeiro chouto de andarilho.

A velha, cujo sono já causava estranheza à filha, despertou muito melhorada. Havia muito, não lhe fora dado dormir uma hora a fio.

— É do remédio, mãezinha – dizia-lhe Luzia com alegria infantil, beijando-lhe a mão, trêmula e descarnada – Se Deus for servido, vai ficar boa, aliviada desse martírio. Também já basta, tanto tempo dentro de uma rede!... Mais dias, menos dias, estamos de viagem...

A velha, sorriu-se, complacente e irônica.

— A demora – continuou a filha – é soltarmos Alexandre...

Às nove horas, partiu ela para a cidade, levando a comida do preso. Já estava quase na volta do caminho, quando Teresinha gritou por ela:

— Não esqueça o que me prometeu ontem.

— Deixa estar – respondeu Luzia, fazendo de longe, um gesto de certeza, e desapareceu.

A entrevista na grade da prisão foi a de todos os dias: palavras de consolações de esperança. Alexandre desanimado e doente, para espairecer as amarguras da reclusão, trabalhava para um sentenciado sapateiro que lhe dera, em pagamento do salário, um par de chinelos de marroquim verde para Luzia, presente muito oportuno, porque os dela já os não podia quase sustentar nos pés, tão estragados estavam.

Depois da refeição – disse-lhe o moço à puridade:

— Tenho que lhe dizer; mas só quando não estiverem outros presos perto de nós...

— O que é?...

— Uma intrigalhada... Imagine que levantaram...

A confidência foi interrompida pela aproximação de Crapiúna, que estava de serviço.

— Vamos isso – bradou ele, afetando energia, e piscando sensualmente o olho para a moça – Não quero paleios com os presos. Aqui não é lugar de namoro, nem de bandalheiras. É fazer o que tem de fazer e muscar-se. São as ordens...

Luzia, perturbada com a súbita presença do terrível soldado, não ousou proferir palavra; compôs a trouxa, e partiu, rapidamente, para não ouvir as graçolas, que lhe dirigia a meia voz:

— Ingrata! Não se zangue comigo, meu benzinho... Tenha pena de seu mulato, feiticeira da gente...

Alexandre tiritava de raiva, murmurando entre os dentes cerrados:

— Deixa estar, miserável!... Não hei de ficar preso toda a vida... Nossa Senhora há de me tirar daqui e então aprenderás a respeitar os outros... Peste!...

— Não quero conversa com presos e, de mais a mais, gatunos...

A injúria feriu certeira o coração de Alexandre, que se conteve para se não agravar.

O Promotor recebeu Luzia com a benevolência com que sempre lhe ouvia as queixas, as censuras, com ingênuo desembaraço feitas à morosidade da justiça e das diligências, principalmente o tal balanço que nunca mais se acabava.

— Você tem razão, em parte – dizia-lhe, com brandura, o jovem bacharel – Mas a justiça é cega, não pode correr; deve andar com muita cautela, e, por não tropeçar, muito devagar. Além disso; essa demora, que a impacienta, é favorável a Alexandre, para que ele saia limpo de tão malfadado incidente. Tenha paciência, espere mais alguns dias. Há uma pequena complicação por esclarecer.

Luzia ouvia em silêncio, torcendo e destorcendo a ponta do lençol...

— Noto que está hoje muito preocupada. Que lhe aconteceu?... – Nada... – respondeu ela de olhos baixos, hesitante - Sempre que topo com aquele soldado, o coração me bate ao pé da goela e fico meio sufocada... É preciso ter muita paciência...

—Fez-lhe alguma?...

— Fez... Mas não é disso que eu queria falar a vossa senhoria... Era...

— Diga sem hesitação...

— Eu queria pedir-lhe um favor, pelo bem que quer a sa dona...

— Fale...

— Lembrei-me que achou os meus cabelos bonitos...

— Sim, é verdade – afirmou o Promotor corando - E... depois?...

— Então vim aqui para lhe vender...

— Vender os cabelos, Luzia?!...

— Não tenho mais o que vender... É a necessidade... Contento-me com dois mil réis por eles... Não é caro...

Dois mil réis por esse tesoiro?!... Eis um bom negócio, Matilde – disse, dirigindo-se à esposa, formosa senhora, que, em adorável traje matinal, um roupão de cambraia e rendas, entrava no gabinete - Esta moça quer vender os cabelos...

— Oh! É horrível – exclamou Matilde penalizada.

Deslumbrada com a presença da senhora, cujos belos olhos, claros e suavíssimos, se fitavam nela compassivos, ergueu-se e arrancando o pente, deixou caírem as fartas, fulvas madeixas encaracoladas.

— Magníficos – continuou Matilde - Mas... para que serviriam? São muito diferentes dos meus...

Faça-me esta esmola, minha dona. Veja, não é por me gabar, parece cabelo de branca... Pegue neles, não tenha nojo...

Matilde, após curta hesitação, tomou as madeixas nas mãos alvas e delicadas; fixou nelas os finos dedos, com unhas de nácar, e apertou-os a rangerem como meadas de retrós.

— Que belos, que extraordinários cabelos!... Com que os trata?

— Pente e água do pote. Então? Fique com eles que tenho muito gosto nisso...

— Fico, sim... – respondeu Matilde, tomando súbita resolução – Dou-lhe cinco mil réis por eles; mas... imponho uma condição.

— Quer cortá-los já?... – atalhou Luzia, vivamente.

— Ao contrário – continuou a senhora – não os cortará. São meus, mas ficam na sua cabeça.

Iluminou-se o semblante de Luzia de irrepressível alegria; seus olhos se umedeceram e os lábios, trêmulos, murmuraram:

— Deus lhe pagará, santa criatura!... Nossa Senhora lhe dê uma boa sorte... Oh! a senhora não parece deste mundo... Perdoe-me!... Eu tinha um grande aperto aqui, no coração... Faz-me bem chorar...

— Aqui tem o dinheiro – disse o Promotor, entregando uma nota a Luzia – Amanhã, talvez tenhamos boas notícias...

— Amanhã?... – perguntou Luzia, guardando o dinheiro no seio e compondo os cabelos.

— Sim. Creio que teremos novidade... Vá descansada, que aqui fica o seu advogado – disse ele, indicando Matilde.

E voltando-se para ela, enquanto Luzia partia, alastrando agradecimentos, disse-lhe em tom de afetuoso carinho, muito enternecido:

— Bom negócio fizeste, meu amor! Belíssima ação praticaste... És um anjo de bondade...