Luzia-Homem/X

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo X


Rosa Veado voltara extenuada de penosíssimo trabalho. Sentada à porta da casa de taipa, onde morava com os filhos entre o cemitério velho e a Fortaleza, contava o caso às vizinhas atentas, acocoradas em redor dela, curiosas e admiradas.

— É o que digo a vocês. As outras comadres não lhe puderam dar volta e não tiveram remédio senão me procurarem, porque, não é por me gabar, todo o mundo sabe que eu sou a tira-teimas. Que horror! A mulher tinha a criança atravessada, lá nela; era cheia de dengues; e, quando vinham as dores, não havia meio de ter mão nela. Eram gritos, exclamações!... E botava a boca no mundo, que não era para graças... Também era a primeira barriga, coitada!... Eu lhe dizia: Tenha paciência, comadrinha... É assim mesmo. - Mas eu já não posso mais, sinhá Rosa. Estas dores me arrebentam – respondia ela, com as mãos fincadas nas cadeiras – Ai... ai... ai... que estou me acabando!... – É porque vosmecê não está afeita... A primeira vez custa um bocado... Nisto, vinha-lhe o sono... Ela passava por uma modorra, como se não tivesse nada. De repente, estremecia... – Lá vem... lá vêm elas – repetia espantada. Ai... ai... Minha Santa Virgem!... –Ah, meu maridinho... da minha alma... Ai!... Ai!... E eram ais de cortar o coração de quem não labuta, como eu, desde rapariga. Estava eu já esfalfada; não sabia mais como enganar a pobre, quando ela teve um puxo forte e quebraram-se as águas. Então eu disse: daqui a um nadinha, se Deus quiser, está aí a criança. – As dores foram amiudando, umas em riba das outras e... nada... Por fim a mulher não tinha mais forças: os puxos se espaçaram muito escassos, estava lavada em suores, branca como um pano, os olhos revirados e o nariz afilado... Credo! Parecia uma defunta... – Tenha coragem, minha comadre. Mais uma vez e estará livre... Ela não falava; berrava como uma bezerra. Peguei-me, então, com o Senhor São Raimundo e rezei o Magnificat. Já estava para mandar tocar, no sino da Matriz, sinal de mulher de parto, quando me veio uma fé... Mandei sujicá-la por outra mulher, que estava junto, e vistoriei-a à fina força, porque, toda cheia de luxo e de vergonhas, me dava com os pés como uma desesperada. O menino estava mesmo atravessado. – Vão ver uma botija, minha gente – disse eu. Trouxeram, uma botija de zinebra vazia, onde eu mandei que ela assoprasse com toda a força. - Sopre... sopre de verdade... Vamos... vamos... mais... mais um bocadinho... Agora... agora... Nisto dei um jeito que só eu sei... A mulher largou um grito rasgado e a criança pulou!... Estava roixo corno uma berinjela... Mal se viu aliviada, era só arremetendo para ver o filho... Eu, com medo de dizer que a criança parecia morta, tinha mão na mãe... A criança não dava sinal de vida. Amarrei-lhe o embigo; arrumei-lhe quatro palmadas fortes; meti-lhe o dedo na boca cheia de gosma... Foi dito e feito: chorou logo com força, pois era um menino macho, com a graça de Deus... A mulher ficava cada vez mais branca e com uma sede de engolir quartinhas d'água. Era um frouxo danado. Parecia que se havia sangrado um boi... Então mandei assoprar outra vez na botija. E, como as párias não se despregassem, chamei o marido, mandei que botasse o pé em cruz na barriga da mulher enquanto esta rezava comigo: "Minha Santa Margarida, não estou prenha, nem parida, mas de vós favorecida." Ao cabo da terceira vez, estava tudo acabado. Arre! Que nem com dez mil réis me pagavam o trabalho e o susto... Ainda tenho uma dor aqui, na ponta da costela mindinha, de uma feita que ela me empurrou o pé para fazer firmeza... Credo!...

— Vosmecê tem muita sorte, tia Rosa!...

— Qual! O que eu tenho é fé em Deus.

— Não sei como, em semelhante sequidão, ainda há quem se lembre de ter filhos...

— Você não vê como estão cheios de crianças os abarracamentos de retirantes?!... Até parece imundície, tanto menino...

— É só o que Deus dá aos pobres...

— É um morrer de crianças que até parece praga...

— Se não morressem, mulher, o mundo já não cabia mais a gente. Depois, anjinhos, não faz mal morrerem... Vão para o céu rezar pelos pais...

— Assim mesmo – retorquiu uma gorda matrona que tinha junto quatro crianças – eu não quero que os meus morram... Já que nasceram é melhor que se criem...

— Pois eu tive cinco – atalhou outra – que Deus chamou à sua santa glória. Foram para o céu direitinho, só passaram pelo purgatório para vomitar o leite pecador...

Em meio da conversa, chegou Teresinha.

— Que fim levou você? – perguntou-lhe Rosa.

— Ando por aí mesmo. Boas tardes a vosmecês todas...

As mulheres corresponderam, friamente, à saudação de Teresinha; e, desconfiando que vinha tratar de algum particular, foram saindo, uma a uma. Era muito comezinho receber a parteira visitas misteriosas, em busca das suas artes, das suas maravilhas.

— Trago aqui os dois mil-réis – dizia Teresinha quando se acharam a sós.

— Hoje talvez não possa fazer a reza – disse Rosa, tomando a cédula e examinando com os olhos pequeninos e cinzentos; armados duns óculos de cangalha, remendados com cera – Estou que não posso me mexer de cansada de um trabalho que me pôs sal na moleira...

E repetiu o caso com peripécias novas, apesar da impaciência da moça.

— Enfim – condescendeu a parteira – como você tem pressa, vou ver se, com a ajuda de Deus, posso fazer hoje alguma coisa...

— Faça, sa Rosa. É em beneficio de um pobre que já não se astreve com a cadeia...

— E tem razão. Preso nem para ganhar doce. Só d'eu pensar naquela sepultura, tapa-me o fôlego...

— Podia fazer a esmola de experimentar hoje...

— Eu tinha de servir uma dona, separada do marido, que foi para o Amazonas e nunca mais se soube dele; nem novas, nem mandados... Ela, que esperou tanto tempo, pode esperar mais alguns dias... Vamos lá... Entra para dentro de casa...

E conduziu Teresinha a um quarto estreito, sombrio, atravessado de frechas esguias de sol que, das fendas do telhado, iriadas de doirado pó irrequieto, o iluminavam, e marcavam no chão mornos discos pálidos. No centro, sobre uma esteira, havia um banco, envernizado pelo uso e marcado com pingos de cera. Tirou, depois, de uma velha mala, carcomida e desconjuntada, duas velas e uma pequena imagem de Santo Antônio, tão amarrado e enrolado em fitas de cores tantas, que só lhe aparecia a cabeça tonsurada e o microscópico Menino Jesus, nuzinho, sentado sobre o livro vermelho e estendendo os bracinhos para abraçar o santo.

Um gato negro, de olhos fulvos, veio lentamente, a passos tardos e preguiçosos, encolher-se perto do banco.

Dominada por secreto terror do contacto com o mistério, Teresinha acompanhava, com o olhar espantado, os preparativos. Quando a parteira acendeu as velas, que espargiram mortiça claridade no ambiente, e aspergiu os quatro cantos do quarto com uma palha benta, molhada na água do copo, colocado defronte da imagem, se sentiu aniquilada e caiu de joelhos, baixando os olhos para não encontrarem os dela, pequeninos e vivos como os do gato, a fitarem-na com insistência e energia, como se lhe prescrutassem a alma.

— Reze o Creio em Deus Padre – ordenou Rosa Veado, com voz soturna.

Enquanto a moça repetia, maquinalmente, a oração, ela murmurava o responsório, que terminou implorando a Santo Antônio, deparador do perdido àqueles que recorriam à sua intercessão junto do Trono do Altíssimo, fizesse a graça de indicar o ladrão por quem estava padecendo um inocente.

Rosa Veado saiu, então, do quarto, como um espectro, a deslizar sem ruído, e fechou a porta cautelosamente.

Teresinha ficou só no sítio de mistério e esconjúrio. Seus olhos esgazeados acompanhavam os movimentos sensuais do gato, que entrou a caminhar de um para outro lado, farejando e chamando a feiticeira com plangentes miados. Havia, no ambiente enfumarado, sombras adejantes, a atravessarem céleres, os traços luminosos das frestas, como enormes pássaros negros. Toda ela tremiam em arrepios aflitivos. Um formigueiro subia-lhe pelas pernas frias, entorpecidas. Gelado suor colava-lhe às têmporas, as loiras madeixas. Arfava-lhe o seio, angustiado por mortal compressão. Quis gritar, mas a voz esbarrou na garganta, embargada por um nó. Fixou o olhar fascinada no brilho do copo e viu se moverem nele, como em uma câmara clara, confusas figuras humanas, mulheres e homens, arrebatados por um furacão, com doidos volteios de dança macabra. Ao mesmo tempo, experimentava a impressão de alar-se do chão, sorvida pelo enorme e poderoso hausto de colossal boca invisível. Cresciam as figuras; tinham feições de pessoas conhecidas; riam com esgares ferozmente sarcásticos; envolviam-na; arrastavam-na no galope diabrino... Ela desmaiava de gozo, à deliciosa sensação de adejar no espaço, subtraída à gravitação, como um floco de nuvem, alma sem corpo.

Em plena alucinação, não perdera, todavia, os sentidos e a idéia, fixada e dominante em seu cérebro conturbado: o crime imputado a Alexandre e a infamação do castigo. As suspeitas, que lhe haviam cavado largo sulco no espírito, se acentuavam com o testemunho dos olhos, porque via, nos vultos cabriolantes em redor, autores e cúmplices do delito, indicados por Santo Antônio. O responsório produzira o apetecido efeito. Quando, entretanto, empregava enorme esforço por apreender bem os traços dos semblantes deformados por horríveis caretas, tênue fumaça, de cheiro inebriante, começou a invadir o quarto. As figuras mais se adelgaçaram, imergiram outras nos rolos vaporosos, para surgirem, depois, mais confusas, mais disformes e misturadas, até desaparecerem em treva densa.

Teresinha despertou, sacudida por forte acesso de terror, e vomitou um bolo de saliva efervescente.

As velas ardiam, lacrimejantes, ao lado do pequenino santo. De um fogareiro de barro, cheio de brasas amortecidas, subia tênue fio de fumo, cheiroso, dum azul delido. Rosa Veado, de joelhos, fitava nela os olhinhos fulvos como os do gato negro, que ressonava, então, estirado na esteira.

— Não se assuste... – observou baixinho, a feiticeira – O incenso consagrado foi-lhe aos grogomilhos...

— Vosmecê não saiu daqui?... – perguntou a moça, com voz magoada e débil, esfregando os olhos lacrimosos e congestos.

— Saí, sim. Fui buscar o fogareiro e o incenso...

— E não viu?!...

— O quê?!...

— Eles... pelo ar...

— Vi, mas foi você, de queixos cerrados e olhos esbugalhados, sem responder às minhas perguntas... Que rapariga medrosa!... Credo!... Nem que lhe houvesse aparecido alguma visagem!...

— Pois vi mesmo... Estou bem certa... Dê-me uma pinga d'água... que tenho uma coisa... aqui... na boca do estômago. Um entalo...

— Tome um golinho deste copo...

— Deste, não!... – atalhou vivamente Teresinha, com um gesto de repugnância – Não quero, está enfeitiçada... Ai... que tenho as pernas bambas, sem ossos...

— É o que eu digo. Tudo isso é medo... Bem se vê que você nunca assistiu a respônsio. Daí, bem pode ser que o glorioso Senhor Santo Antônio tivesse feito o milagre...

— Fez... fez... Eu vi tudo, muita coisa; mas não lembro bem... Espere... Era uma porção de gente maluca; era... Oh! tenho a cabeça a andar à roda e besoiros nos ouvidos...

Rosa Veado apagou as velas, guardou-as com o santo e conduziu Teresinhia, que mal podia caminhar, vacilante, trêmula, para fora do quarto. À impressão violenta da claridade e do ar livre, ela esfregou, de novo, os olhos, e espreguiçou-se fatigada, em contorções felinas...

— Quando estiver com o juízo assentado – ponderou a feiticeira - há de recordar tudo... Agora é esperar com fé, e verá como a coisa se descobre, quando menos pensar. Quando pilhar uma ocasião, farei a adivinhação da urupema, que nunca falhou... Deixe por minha conta... Já sei que, nessa história, anda metida alguma mulher...

Confusa, envergonhada, todos os seus membros desmantelados, Teresinha partiu perseguida pelos olhares matreiros do mulherio da vizinhança, mal podendo arrastar as pernas trôpegas e doloridas, com as articulações a estalarem de perras e as virilhas traspassadas por alfinetadas pungentes.

Quando se viu longe da casa da Rosa, murmurou, irada e suspeitosa:

— Aquela bruxa me botou quebranto...