Luzia-Homem/XXVI

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XXVI


Não acabara Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a troixa de mantimentos e uma grande cabaça d'água.

— Muito bom dia, sa Luzia!

— Bom dia, seu Raulino. Você vem hoje carregado.

— É que aumentei a troixa com a cabaça e contrapeso que lhe mandaram.

— Para mim?

— Sinharsim. Meti os pés da rede quando vinham quebrando as barras e maginei que vosmecês estariam carecidas d'água. Como estou morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de noite, enchi a cabaça na jarra e fui à cidade receber as rações porque as do armazém da Comissão são melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrança mandada por Deus, porque, chegando lá, topei na porta o Alexandre...

— Alexandre!

— Em carne e osso. Depois de dar-lhe mão de amigo, pedi-lhe que me aviasse depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro, perguntou por vosmecê, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos. Coitado! Está branco, com a cara encerada, que mete dó ver, tão desfeita uma criatura, que vendia saúde...

— Está doente?

— Como quem passou obra de um mês enterrado naquela prisão porca e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristãos.

— É horrível!

— Mas a demora foi dar notícias de vosmecê, ficou ligeiro e alegre que não parecia o mesmo. Mediu... Mediu é um modo de falar: fez a olho, as rações. Era o que a mão dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E não fomos mais longe porque já era uma dor de consciência. O homem quer bem a vosmecês mesmo de verdade. Fez perguntas e reperguntas; quis saber do puxado da tia Zefinha; se sa Luzia ainda estava na obra, se passou lá trabalhando o dia de ontem, um horror de coisas que fui respondendo só para dar-lhe gosto. Agora está como quer. Há males que vêm para bem. Melhorou no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.

Luzia desembrulhava os gêneros e os arrumava, aparentando indiferença à loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos ladinos são, em geral, admiráveis narradores, de imaginação acesa, fecundos em descrição, cujos menores incidentes são debuxados com vigor.

— Que é isto? – perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado nas quatro pontas.

— Isto é pães – respondeu Raulino. – Quando eu vinha vindo, a dona do Promotor chamou-me e deu-me essa frouxinha, dizendo por aqui assim: "Leve isto para Luzia, seu Raulino, diga-lhe que estou muito agradecida pelo trabalho da roupa para os pobres, uma perfeição de costura. Diga-lhe mais que apareça: desejo muito ver os meus bonitos cabelos."

Luzia baixou os olhos, e estremeceu ligeiramente.

— Ora, - continuou o sertanejo – eu não entendi bem o que a dona queria dizer, mas fiquei maginando que também gosta, como todo o mundo, dessa sua cabeleira, comparando mal, parecida com as das mães-d'águas encantadas, lavando-se na lagoa em noite de luar, com os cabelos de vara e meia boiando e embaraçando-se nos aguapés cheirosos, como eu vi com estes olhos, que a terra fria há de comer, de uma feita, que eu estava de tocaia, esperando patarrões brabos. A noite estava clara que nem dia. Cansado de esperar e resfriado pela fresca do sereno, passei por uma modorra.

Quando dei fé, ouvi o barulho de um corpo espalhando a água; levei a lazarina à cara, e, pensando que eram os patos, ia papocar fogo. Divulguei, então, o corpo de uma mulher, luzindo molhado e nadando como uma marreca. Ainda fico frio quando me lembro dessa visagem. Os meus cabelos se arrepiam como espinho de cuandu. Quis gritar, mas tinha um nó na garganta. Passou-me uma névoa pelos olhos e deixei cair a espingarda. Quando dei acordo de mim, afirmei bem a vista para ver o que era. A lagoa estava serena como um espelho. Tudo quieto. Só ouvia sapos ateimando: foi, não foi, e os cururus roncando. Não quis mais saber de histórias; apanhei a arma e meti o pé na carreira. Só tomei fôlego quando avistei a casa. Sa Luzia a modos que não me acredita?

Luzia sorriu, com branda ironia.

— Pois fique sabendo – continuou Raulino, com muita convicção – que não foi só a mim que ela apareceu. O Isidro, rapaz destemido e caçador de fama, também viu a mãe-d'água de uma feita que estava tarrafeando curimatãs. Por sinal que não apanhou uma triste piaba naquela lagoa, que tinha mais peixe do que água. Voltou da pescaria com as mãos abanando, capiongo, meio leso e contou o caso à noiva, moça (falando com o devido respeito) bonita como uma imagem. Ela ficou desconfiada e quis, por fina força, ir, fora de horas, à lagoa. O rapaz fez todo o possível para tirar-lhe da cabeça semelhante doidice; disse-lhe que era um perigo porque as mães-d'água são ciumentas das moças que estão para casar, que houvera muita desgraça por causa disso; pediu, rogou por tudo quanto havia de mais sagrado. Ela prometeu não ir, mas cada vez mais desconfiada teimou, porque mulher, quando malda, não chega ao moirão com duas razões. Fugiu de casa quando estavam todos recolhidos e foi à lagoa. Não lhe conto nada. Ao amanhecer, deram por falta da moça. Foi um Deus-nos-acuda. Ninguém dava notícias dela. O noivo ficou como um doido; mas, lembrando-se da história da mãe-d'água, pôs-se a rastejar e encontrou o rasto da chinelinha da infeliz, bem marcado no caminho orvalhado.

Acompanhou-o com outras pessoas, também rastejadoras, e foram bater na beira d'água. Estavam maginando no que teria acontecido, quando ouviram uma risada de mangação. Pensaram que era a moça escondida para zombar deles. Bateram o mato em redor, o pacoval, cheio de ninhos de azulões e papa-arroz. Nada. Os passarinhos fugiam espavoridos, e um bando de garças, alvas como capuchos de algodão, voava remando no ar. Os homens olharam uns para os outros sem saberem o que fizessem. O Isidro, mais morto do que vivo, numa aflição de meter dó, encarou n'água como se quisesse ver-lhe o fundo. Quem dera a risada? Aonde fora a moça parar? Onde se escondera? O rasto ali estava provando que ela não voltara para trás...

— Mas... é verdade isso? – inquiriu Luzia, com terror.

— Acredite, como se estivesse vendo. Eu não sou homem de inventar, nem de dizer uma coisa por outra. Ouça o resto. Um vaqueiro velho foi buscar uma cuia, pregou dentro uma vela acesa e largou-a em cima d'água. A cuia vagou à toa, de um lado para outro, conforme assoprava o vento; foi, depois, seguindo para o centro, até que ficou parada, obra de cinquenta braças de distância. Nisto, o Isidro, num abrir e fechar d'olhos, tirou o gibão de coiro e largou o braço n'água. Chegando ao lugar, onde a cuia estava parada, mergulhou, e... Que horror!... Nem gosto de me lembrar... Num instantinho, voltou à flor d'água; tomou fôlego e mergulhou outra vez... Quando deram fé, ele surgiu com um corpo nos braços e nadou para a terra como um desesperado. Vinha como um bicho feroz, arquejando, enlameado, coberto de ervas e raízes encharcadas. Os outros foram ao seu encontro para ajudá-lo. Trazia a noiva morta. Os olhos azuis da defunta estavam esbugalhados e vidrados. A boca meia aberta, parecia querer falar. Tinha as mãos juntas sobre o peito, aqui, lá nela, e amarradas em nó cego, com as duas tranças de cabelos loiros, compridos como os seus, sa Luzia...

— Que desgraça! Credo! Morreu de ciúmes!...

— Que ciúmes! Foi afogada pela mãe-d'água. A malvada amarrou-lhe as mãos para que a pobre se não pudesse salvar, pois nadava como uma piaba. Era dela a risada que ouviram; ria da sua obra maldita... Depois dessa tragédia, os comboieiros, que navegam para aquelas bandas e passam de noite pela beira da lagoa, ouviram arrepiados de medo, aquela risada medonha.

— Isso é busão! – disse do quarto a velha, atenta à história.

— Ah! tia Zefa, vosmecê estava acordada?

— Desde madrugada.

— Busão ou não – ponderou Raulino – o caso é verdadeiro. Quando a gente não pode explicar as coisas diz que é busão; mas o fato é que há no oco deste mundo velho muita coisa, que nem doutores, nem padres conhecem. E, com esta, vou andando.

Habituada às histórias extraordinárias do imaginoso sertanejo, Luzia experimentou, todavia, forte abalo, ouvindo a reprodução da lenda, sempre viva nas recordações da infância, dura quadra despercebida, de gozos facilmente olvidados, porque é bem verdade que só o sofrimento tem o poder de cavar na memória sulcos indeléveis. É por isso que há estranho encanto, espécie de amargura e de saudade em exumar tristezas, em reviver lances de desgraça, como narrar crises de moléstia, lutas entre a vida e a morte, os dissabores, as desilusões, as mágoas suportadas com resignação, com heroísmo, que se nos afiguram obstáculos transpostos, vitórias alcançados contra a fatalidade, os cruéis inimigos ocultos, intangíveis, à maneira das tiranias onipotentes das forças misteriosas que engendram, nas terríveis profundezas do infinito, as calamidades, os cataclismos e os assombrosos fenômenos que assinalam o eterno combate entre o que destrói e o que produz.

— Espere pelo café, seu Raulino – disse Luzia.

— Estava quase requerendo – tornou o sertanejo. Por essa bebida, sou como macaco por banana. No tempo da fartura, eu era capaz de tomar uma canada de café por dia.

— Não viu, por ai, Teresinha?

— Nharnão, pensei que ela estava aqui.

— Esperei-a toda a noite.

— Deixe estar que aquela não se perde com duas razões.

— Sempre estou com cuidado nela.

— O Alexandre disse-me que ela esteve com ele desde que foi solto até à tardinha, quando o deixou com promessa de se encontrarem aqui hoje.

— Aqui! – exclamou Luzia, alvoroçada.

— Sinharsim. Pelo menos, foi o que ouvi da própria boca dele – afirmou Raulino, tirando uma grande pitada de caco do corrimboque de chifre de carneiro.

— É para dar que pensar – observou a velha.

— O mais certo – considerou Raulino – é ter ela ficado no quarto da Gangorra, pensando, talvez, que, preso Crapiúna, vosmecês não precisassem mais de companhia. Poderiam dormir descansadas sem receio de alguma traição do excomungado.

— Se soubesse onde era a casa, iria buscá-la, tanta falta me faz... Coitada! Aquilo só é ruim para si.

— É pena, sa Luzia, porque ela teve bons princípios e foi bem afamilhada. Mas, caiu-lhe em cima a desgraça. Eu também tive a mesma sorte. Meus avós eram gente de consideração, bem arranjada; e, como me vê, poderia comer em pratos de ouro, se não... Para que lembrar tristezas que não pagam dívidas? Tive currais cheios de vacas de leite; apanhava meus oitenta bezerros por ano; possuía bons cavalos de sela, e o demônio, em figura de mulher, levou tudo. Hoje, ando a trabalhar para não morrer de fome, com vergonha de me dar a conhecer à parentalha que tenho aqui mesmo em Sobral. Fui nascido e criado na ribeira do Jaguaribe. Ainda é do meu sangue essa gente de Xerez. Somos todos Furnas...

— Que feio nome?

— É meio esquisito, mas é de gente muito graúda, de muitas posses e honrarias, espalhada por estes sertões numa parentalha, que nunca mais se acaba, como a gente dos Olhos-d'Agua do Pajé, os Rochas e os Cavalcantes...

Agora, vou mesmo que já tocou a primeira vez da missa do dia.

— Se mãezinha tivesse com quem ficar, iria também à missa.

— Não seja essa a dúvida, filha – observou a enferma. – Basta que me deixes ao alcance da mão um caneca d'água.

— E vou mesmo. Há muito que não piso na igreja. É mesmo um pecado...

Raulino despediu-se, sorvendo, com estrépito, outra pitada, e partiu no seu passo de andarilho, bamboleando num chouto mole, miúdo, o corpo erecto e musculoso.

Preparada a refeição da mãe, Luzia ataviou-se, com o seu melhor vestido, um roupão de cassa lisa, que, amarrado à cintura, lhe desenhava as formas graciosas, e saiu na direção da cidade.

Não era a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as últimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com requintes convencidos de elegância, com raro gosto, pelas adoráveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurável em que as moças da cidade, metidas durante toda a semana em casa, ocupadas em trabalhos sedentários de renda e labirinto, se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas, sempre, com extraordinário esplendor. Imitando à gente rica, Luzia, além do intuito de cumprir um piedoso dever, nutria a esperança de encontrar Teresinha ou Alexandre, obter notícias deles, ou, pelo menos, encurtar a distância que os separava.

Ao passar pela rua do Menino Deus, ela esmorceu a marcha; aproximou-se do armazém da Comissão e olhou atentamente para dentro, erguendo-se nas pontas dos pés, para ver, através da multidão de indigentes, aglomerados à porta, a criatura querida.

Quando avistou a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados e lívidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapiúna estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele momento, com os olhos injetados por uma congestão de cobiça e raiva impotente.

— Moça, ó! moça! – disse um menino que se aproximou dela correndo. – Ali tem um preso que quer falar com vosmecê.

Luzia repeliu, com um gesto enérgico de negação, o esperto pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se da sinistra prisão, onde uma voz rouca e vibrante, como um rugido, a voz de Crapiúna, bradava suplicante, e amaldiçoava:

— Luzia, Luzia!... Meu coração, meu amor da minha alma, tem pena de mim! Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem! É um instantinho... Não te farei mal. Vem! Só duas palavras!... Ah! Não me ouves; não queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa estar, safada, amaldiçoada, que não ficarei preso toda a vida... Nem que tu vás para o inferno...

O soldado gritava, estorcia-se delirante, agarrado às enormes barras de ferro do portão, brandindo-as, abalando-as com inútil esforço para quebrá-las, arrancá-las dos gonzos chumbados ao portal de granito.

Perseguida pelo eco dos brados de insânia desesperada, ela penetrou no templo, como num abrigo inexpugnável, defeso à maldade humana, à curiosidade vexatória daquela gente que, lá fora, a considerava criatura impassível de coração, e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia dos grandes infortúnios.

A imensa nave da matriz desbordava de fiéis, amontoados, em confusa massa inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidáveis paredes de pedra e cal, sobre os mantos alvíssimos das mulheres ajoelhadas. No fundo resplendia a capela-mor, o tabernáculo, esculpido pelo cinzel do mestre João Francisco, o entalhador, com duas séries de elegantes colunas coríntias, enleadas de parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assunção de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata maciça e os bustos dos Apóstolos, emergia, dentre palmas, dentre flores, a imagem da Virgem da Conceição, a padroeira da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho pelas órfãs da Casa de Caridade. As chamas dos círios esmoreciam na suntuosa claridade da manhã, como pálidas placas, dissolvendo-se em ténues fios de fumo, a sumirem-se no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.

Luzia, sobressaltada pela imprecação minaz do soldado, cujas palavras brutais lhe contundiam o cérebro, pensara encontrar na casa de Deus, aos pés da Mãe Santíssima, refúgio e conforto à sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia a protérvia da multidão. De pé, hesitante na escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam, trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malícia atroz dos ruins sarcasmos. Uma crispação de surpresa, de curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistência, imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto murmúrio, cochichado de todos os lados:

— É a Luzia!... A Luzia-Homem!...

Prostrada à meia-sombra de um confessionário de jacarandá, salientemente adornado de arabescos estranhos, absorta em sincera prece, ela ouviu a missa, celebrada pelo vigário Vicente Jorge de Sousa, cuja voz sonora e forte, recitando as orações do ritual, dominava os pigarros, as tosses incontinentes e o choro clássico das crianças que aguardavam o batismo, ocultas sob os lençóis das mães, que ali mesmo, as amamentavam. Rezou pela mãe entrevada, por Teresinha; rendeu graças a Deus pela libertação de Alexandre; e quando se ergueu a Hóstia, ao ruído de peitos percutidos, do som argentino da campainha, tangida pelo sacristão, José Fialho, um velho doce e respeitável, pediu ao Deus sofredor e resignado, ao Deus de amor e misericórdia, como Jesus pedira ao pai celestial perdão para os algozes que o flagelaram e o crucificaram, se apiedasse do infeliz soldado, vítima da insânia de uma paixão brutal. E, como se esse generoso impulso rompesse os diques à inefável caudal de consolação, sentiu-se alvoroçada de suavíssima alegria, desse gozo incomparável da alma purificado, expungida das sombras do remorso. Seus olhos, fitos no doce semblante da imagem da Virgem, e aljofraram de pranto, lágrimas de reconhecimento, porque Deus se compadecera de Luzia-Homem, ouvira a sua prece.

As últimas palavras do sacerdote, recitando, de cor, o evangelho de São João, os fiéis se ergueram com sussurro, espraiaram-se pelo patamar, sob um sol intenso, e se dispersaram em todas as direções, descendo pelo suave declive do cúmulo, onde se ergue o templo, acrópole da cidade.

No átrio, do lado da pia d'água benta, bela concha de lioz, erecta no centro da pequena capela consagrada a São João Batista, dezenas de mães piedosas esperavam o batismo dos filhinhos, crianças sadias, nédias, sorridentes, espantadas, pequeninos seres informes, moribundos, esqueléticos e arroxeados, mal podendo emitir lamentoso vagido. Do outro lado, reunidos em grupos, estavam os nubentes, rapazes e moças, de olhos baixos, confusos, vexados como delinqüentes de amores criminosos, vindo pedir absolvição ao sacramento.

Luzia permaneceu, no recinto sagrado, ajoelhada, até que se esvaziou a imensa nave; e, quando se dispunha a sair, foi atraída pelo choro das crianças e pelo doloroso contraste das mães venturosas e das mães aflitas: umas, radiantes de amor; outras, tristes. acabrunhadas de mágoa, animando, desenganadas, as inocentes vítimas, para as quais a água lustral seria a extrema-unção.

— Se lhe fosse dado – pensava ela – casar como aquelas ditosas moças, realizando o supremo anelo da mãe doente; se o seu amor fosse, como o daquelas mães, matronas beneméritas, sorrindo aos filhos vigorosos, abençoado por Deus, experimentarei o inefável júbilo de sentir-se mulher, humanizada, completa e fecunda. Não temeria que os seus filhos definhassem: defendê-los-ia contra as moléstias traiçoeiras e as intempéries, inimigas das criaturas tenras, as flores e as crianças. Dos seus seios de Pomona correria perene manancial de vida, que as pequeninas bocas rosadas sorveriam, sôfregas. E as suas entranhas virginais latejavam em alvoroço. Havia dentro dela, a insurreição dos gérmens da vida sofreados, e um clamor de instintos, entoando o hino de glória à maternidade vitoriosa.

— Vamos aos batizados – disse o vigário, chegando ao átrio, revestido de roquete rendilhado e cingindo estola roxa, de finíssimo lavor. – Os noivos não têm pressa, que esperem – acrescentou, atirando por cima dos óculos de ouro, um olhar de ironia aos grupos do outro lado.

Ao começar a cerimônia, Luzia se esgueirou e saiu, buscando a casa pelo caminho mais longo e afastado da cadeia, onde Crapiúna imprecava, ameaçador e furioso.

A mãe se arrastara até à porta do quarto, onde vigiava a panela fumegante, sobre a trempe de pedras, e ouvia Quinotinha ler, muito devagar, e por vezes soletrando, no jornal O Sobralense, a notícia dos episódios da audiência da véspera.

— Tudo isso – inquiriu a velha – está escrito aí?

— Está, sim, senhora – respondeu a rapariguinha – Aqui no fim tem um pé, que diz: "Alexandre, a vítima da perversa aleivosia do soldado, que, assim, desdoira a farda dos bravos heróis do Paraguai, companheiros de jornada gloriosa dos lendários Sampaio e Tibúrcio, é noivo de Luzia-Homem, a extraordinária mulher, que é uma das melhores operárias da construção da penitenciária."

Luzia ouviu o último tópico, e prorrompeu indignada:

— 0 quê? Pois falam de mim nas folhas?... Era só o que me faltava.

— Sim – afirmou Quinotinha sorridente – Veja!...

E as duas repetiram a leitura; a menina transbordante de alegria; ela, confusa, quase não acreditando nos seus olhos, diante dos quais dançavam as colunas e letras do jornal, mal impresso na tipografia Miragaia, a primeira estabelecida em Sobral.

— Só vim aqui mostrar isto a vosmecês. Agora, vou indo que saí quase fugida – disse Quinotinha, partindo a correr.

— Vai, anda, levadinha – murmurou a velha sorrindo. – Essa menina é uma capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam só!... Agora que chegaste, deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.

Luzia conduziu a mãe, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, então, por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por que tanto se arrebatava Crapiúna, e os cochichos das mulheres durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrível nome – Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com a tigela de caldo para a mãe.

Era Alexandre que se aproximava, a passo indeciso e lento.

— Ó! da casa!

— É voz conhecida – observou a velha.

— É... é... – balbuciou Luzia comovida.

— Ó! de fora! Quem é? – respondeu a enferma, falando com esforço.

— Sou eu... tia Zefa.

— Eu quem?

— O Alexandre.

— Ah! meu filho! Não te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.

Alexandre, fora do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de pau branco. Deparando-se-lhe a moça, parada, indecisa, à porta do quarto, avançou para ela e a saudou com ligeiro sorriso.

— Adeus, sa Luzia.

— Adeus, seu Alexandre.

— As duas mãos geladas, hirtas, mãos de autômatos, apenas se tocaram.

— Como está? – perguntou Luzia, de olhos baixos.

— Eu! Melhor de ontem para hoje, como quem saiu da prisão.

— É horrível!...

— Nem pode fazer idéia do que é...

— Abanque-se...

— Estou bem. A demora é pouca. Vinha saber como está tia Zefa e vosmecê.

— Boas, graças a Deus.

Houve pausa cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito pálidos, muito comovidos, não sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu o silêncio:

— O senhor viu por aí Teresinha?

— Esteve, ontem, comigo, à tardinha. Prometeu estar aqui hoje...

— Não veio desde ontem.

— É esquisito.

— É. Não acha? O senhor não quer falar com mãezinha? Pode entrar.

Alexandre entrou no quarto, e Luzia ficou só no alpendre, inteiriçada, imóvel, contemplando o céu, em êxtase. E assim ouviu as ruidosas manifestações da alegria da mãe, as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras de consolação, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal carinho.

Venha sempre ver a gente – suplicava a velha, sorrindo.

Virei, sim. Virei amanhã, se Deus quiser. Só tenho medo de importunar – respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mágoa.

Sentindo Alexandre a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de súbito à meditação, fez um gesto de susto. A atitude do moço era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe o coração, sufocado de ternura. Vencendo, por fim, o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criança medrosa recitando um recado, murmurou:

— Aqui estão estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia... Adeus... Até outra vez...

— Até... – suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertando-as contra o peito, em frenético amplexo, enquanto ele lhe voltava as costas, e partia.

— Seu Alexandre!...

O moço estacou ansioso, não ousando encarar nela.

— Quero pedir-lhe uma coisa – disse a moça, caminhando para ele, vagarosa e humilhada. – Não repare... no que tenho feito... Sou má de nascença... Minha sorte é fazer os outros padecerem... Tenha dó de mim... Peço... Peço-lhe que me perdoe...

— Luzia! – exclamou ele, numa explosão de ternura, estendendo-lhe os braços para ampará-la, porque ela vacilava.

— Perdoe-me – repetiu a mísera, vencida, com voz angustiada, quase à surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.

XXVI

Dias depois, soube Luzia do paradeiro de Teresinha.

Raulino contou-lhe como a encontrara, sucumbida, em amarga tristeza, a se penitenciar no serviço doméstico de uma família desconhecida.

— É possível – exclamou Luzia – que aquela pobre esteja vivendo de aluguel? Por que nos abandonou sem motivo?

— Eu não sei dizer – observou Raulino. – O que sei é que ela está servindo a uns retirantes ricos, aboletados na casa da fortaleza. Não me disse porquê. Ali há coisa. Se vosmecê se encontrar com ela, não a conhece.

— Coitadinha!

— Não é mais aquela mulherzinha espevitada e alegre. Não fala quase. A modos que lhe botaram mau olhado!

— Quem sabe se não a intrigaram comigo?

— Não duvido. Há gente para tudo. Quando eu lhe disse que íamos trabalhar nas obras da ladeira da Mata-fresca, ela ficou calada, maginando, e disse-me por aqui assim: "A Luzia é feliz; vai sair deste inferno... Eu é que estou condenada por toda a vida." E, como eu lhe inculcasse que devia abandonar aquela gente, os patrões, para, vir conosco, abanou a cabeça, desanimada que metia pena... Ah! Sa Luzia! Imagine que a pobre faz todo o serviço; até trata de um burro velho, pele e osso, sem préstimo para nada.

— Se seu Raulino fosse comigo, iria vê-la.

— Ora, ora, ora!... É já. Que não farei eu para servir ao meu anjo da guarda? Olhe, benefício no meu coração pega de galho. Vamos por detrás do cemitério velho e num instante, estamos lá. Pelo caminho continuaram a conversar, Luzia marchava ligeira movendo o corpo com flexões de faceirice, a cabeça erecta, e o semblante sereno, rebrilhando ao júbilo de encontrar a amiga. Raulino aligeirava a travessia, contando, com a avidez contumaz do sucesso, as suas maravilhas, as suas histórias.

— Sabe – disse ela, abeirando ao assunto que a preocupava naqueles dias – que vamos morar na ladeira?

— Já sei. O Alexandre teimou em deixar o serviço da comissão. Eu, no caso dele, não largava o certo pelo duvidoso. Empregado, como está, não arranjará melhor arrumação. Enfim, pode ser que melhore. Na serra, a gente está mais à fresca, tem água com fartura.

— E vai para longe desse povaréu de pobres, esfomeados que cortam o coração... Não é?

— Lá isso é verdade. O doutô, engenheiro das obras pesque é inglês ou alemão. Não sei bem que língua ele fala. Bota o Alexandre no mesmo emprego que aqui tem, com uma gratificação de três mil-réis por dia, afora a ração. Quando é a viagem?

— Por estes dias. Talvez, depois d'amanhã.

— E eu rente...

— Também vai?

— Se estou nomeado feitor!... De mais a mais, já resolvi não largar de mão a gente que me quer bem. Comigo vai uma troça de rapazes de primeira ordem; homens que são mouros no trabalho.

— E eu que tenho pena de deixar aquela casinha, onde curti tantas amarguras!

— É assim mesmo. A gente tem saudade quando abandona o poleiro antigo; mas, ao depois, tendo junto os seus, se conforma depressa, e as saudades voam como folhas secas tangidas por um pé de vento.

— Quero ver se Teresinha também nos acompanha.

— Ela é meia bandoleiro.

— Mas, tenho certeza de que me quer muito bem.

— Não digo o contrário. Experimente... E... a propósito... Sabe que o Crapiúna fez, outro dia, na cadeia um rolo danado? Estava como uma fera. Pensavam até que havia perdido o juízo.

Luzia sentiu percorrer-lhe o corpo intensa crispação de terror.

— Mas eu – continuou Raulino – disse logo que aquilo era cachaça.

— Quem sabe!... Talvez não – arriscou Luzia.

Haviam chegado ao renque de casas da Leonor, que terminava na casa mal-assombrada.

— E aqui – disse Raulino, indicando o pardieiro desengonçado. – Abeiremos às pedras da fortaleza, Teresinha deve estar nos fundos.

Junto dos rochedos a prumo, havia uma latada de palhas de carnaúba, recentemente construído para servir de abrigo ao burro, que ali estava de pé, sonolento, espantando, devagar, com açoites da cauda pelada, as moscas que erravam sobre as chagas da sarnelha e das espáduas, quase cicatrizadas numas manchas negras, lubrificadas com azeite de carrapato. Mais adiante, alguém lavava roupa, com um lânguido bater cadenciado de pano molhado, algumas peças enxombradas, arrumadas, em tulha, sobre um lajedo úmido.

— Teresinha! – chamou Luzia.

Cessou o rumor de lavagem, e Luzia insistiu.

—Teresinha, sou eu, Luzia!...

E, avançando de jacto, deparou-se-lhe a amiga, que se erguera, seminua, com uma saia a tiracolo, molhada, colada ao corpo.

— Que é isto? – exclamou Luzia, passando-lhe o braço nos ombros.

— Nada – suspirou a amiga, baixando os olhos, quase opacos, de infinita tristeza. – Estou pagando as minhas culpas...

— Ingrata! E eu que esperei, que passei noites em claro, pensando em você.

— Para que afligir os outros com a minha desgraça!

— Que desgraça! Deus teve pena de nós.

E, com um meigo gesto de ternura, conchegou-lhe a cabeça ao seio.

— Sou amaldiçoada...

— Amaldiçoada? Que maluquice! E por isso está servindo de negra cativa? Como está você mudada, magra! Como ficou outra em tão poucos dias!...

— Teresa, deixe, minha filha; não te mates tanto – disse, dentro de casa, uma voz carinhosa.

— Quem é? – perguntou Luzia.

— É... é... – balbuciou Teresinha, com os olhos trêmulos, rasos de lágrimas – É... minha mãe...

— Tua mãe?!

— Sim, ela mesma.

E contou como encontrara a família, contou as suas alegrias por se mais não achar só no mundo, desprezada e vilipendiada, alegrias que foram efêmeras, desfeitas pela cólera do pai que lhe recusara a bênção, e a tratava como estranha à família. Os carinhos da mãe, o doce contacto da irmãzinha, a suave Maria da Graça, que era um anjo de bondade, mal lhe leniam a rudez fulminante do golpe, que lhe lascara o coração, e o expusera, retalhado, à luz com as suas máculas, como chagas sangrentas, descascados. Desde aquele momento, horrorizada de si mesma, obrigada a baixar os olhos diante dos entes queridos, sabedores do seu grande crime, e evitando o frio olhar paterno, se consagrara inteira à redenção do passado nefando, pelo castigo cruel e merecido.

— Tive ímpetos – concluiu ela, aos soluços – de trepar naquelas pedras e atirar-me de lá de cabeça para baixo, mas... não tive coragem de morrer...

— Deixa-te disso – acudiu Luzia, com ternura – Aqui estou eu para te ajudar, para te pagar o muito que me fizeste, porque se sou feliz, a ti é que devo e a Deus.

Vim atrás de ti. Iremos juntos para a serra, onde vamos trabalhar.

— Não posso... E meu pai?

— Teu pai, mãe, irmã irão mais nós. Alexandre encontrará meio de arrumar todos como uma família. Não é possível que, depois de vivermos como duas amigas, nos separemos, talvez para sempre.

— Se conseguisse isso, seria um alivio para mim. Pelo menos, deixaríamos esta casa maldita, onde não se pode pregar olhos toda a noite. Já vivo com o corpo moído; doem-me as cadeiras que, às vezes, não me atrevo a torcer-me; tenho nos ouvidos um besouro a zunir sem parar. Quando consigo passar por uma modorra, me vêm sonhos agoniados; sonho que me caem os dentes, o Cazuza me arrasta pelos cabelos para me atirar num despenhadeiro, e acordo em meio da queda. Esta noite senti mãos frias que me encalcavam o peito, mãos de defunto a me sufocarem, e ouvi uma voz fanhosa a dizer coisas sem pé nem cabeça. Despertei com o coração a saltar pela goela. Vi, então, um vulto branco que se desmanchava no ar, e com um gemido surdo e... gritei... Mamãe, que passa a noite a rezar, correu a ver o que era... Eu estava, como quem perdeu o juízo, apontando para o fundo escuro do quarto... Ah! Luzia! Nem pode imaginar o que tenho sofrido...

— Coitadinha!..

— Hoje de manhã, quando mamãe contou o caso a meu pai, ele respondeu... Que foi que ele disse? Deixa ver se me lembro... Ah!... Não se amofine, mulher; é o remorso. Depois, acrescentou com voz mais branda: Veja se arranja uma retirante limpa para certos serviços, para que ela não se mate tanto... Dando casa e comida, não falta quem queira trabalhar.

O burro, num acesso de impaciência, orneou.

— Está pedindo milho – observou Teresinha – Este malvado é os meus pecados. Estava quase morto; não se dava nada por ele. Recobrou as forças, comendo da minha mão; e, quanto mais o trato, mais manhoso fica. Parece de propósito para judiar comigo. Se o ponho a andar, empaca; fica como uma pedra; não se mexe. Outro dia ao passar por ele, mordeu-me de furto... E é só comigo que ele implica.

— Tem paciência, minha negra. O que estás padecendo é bem recompensado pela fortuna de haveres encontrado tua família.

Raulino, que estivera à parte, examinando o animal enfermo, com olhares magistrais de conhecedor, aproveitou o ensejo para encartar uma das suas anedotas sobre astúcias e manhas de burros.

— Era por volta da era de sessenta. Não me lembra bem o ano; só sei que eu era rapazote; pelo tope dos doze. Andava por estes sertões uma comissão de doutores, observando o céu com óculos de alcance, muito complicados, tomando medida das cidades e povoações e apanhando amostras de pedras, de barro, ervas e matos, que servem para meizinhas, borboletas, besouros e outros bichos.

Os maiorais dessa comissão eram homens de saber, Capanema, Gonçalves Dias, Gabaglia, um tal de Freire Alemão, e um doutô médico chamado Lagos e outros. Andavam encoirados como nós vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graça, o retrato da gente, com uma geringonça, que parecia arte do demônio. Apontavam para a gente o óculo de uma caixinha parecida gaita de foles e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saíam pintados, escarrados e cuspidos, num vidro esbranquiçado como coalhada. Uma tarde, chegaram, ao pôr-do-sol, à fazenda do velho. Iam no rumo da gruta do Ubajarra. Aboletaram-se no copiar, derrubando o comboio, que era um estandarte de malas, instrumentos, espingardas, na casa dos passageiros. Depois de jantarem um bom trassalho de carne de vaca gorda que parecia um leitão, assada no espeto, algumas linguiças e um chibarro aferventado com pirão escaldado, armaram as redes nos esteios. Veio a noite, clara como dia, sem uma nuvem no céu, liso como um espelho. Convidava mesmo a gente a dormir na fresca do alpendre. Ali pelas sete horas, disse a eles o velho: "Achava melhor vossas senhorias passarem cá para dentro, porque vem aí um pé d'água de alagar." Ora, os doutores, que sabiam tudo e adivinhavam pelas estrelas as mudanças de tempo, zombaram do aviso; saíram para o terreiro e olharam para o céu, sempre limpo e claro, para verem o que diziam as estrelas. O mais sábio deles, o doutô Capanema, disse que o velho estava sonhando com chuva, mania de sertanejos, que não pensam noutra coisa. Teimaram em ficar no alpendre, embora o velho continuasse a assegurar que se arrependeriam. Quando estavam ferrados no sono, ali pelas onze horas, acordaram debaixo d'água e correram com a rede nas costas, em procura de abrigo dentro de casa, todos admirados uns dos outros, como haviam mangado do velho. De manhã, antes de deixarem o rancho, foram agradecer a hospedagem, e um deles perguntou ao velho: "Como é que vossa senhoria percebeu sinais de chuva, que escaparam a nós outros científicos, envergonhados do quinau de mestre que nos deu?" O velho sorriu, e respondeu: "É muito simples. Tenho ali, no cercado, um burro velho que, quando se está formando chuva, rincha de certo modo: é aquela certeza. A chuva vem sem demora. Foi por isso que avisei a vossa senhoria." O tal de Gonçalves Dias, pequenino, muito ladino e esperto, começou a bulir com os outros, dizendo a eles: "Estamos numa terra, onde burros sabem mais que astrônomos." Foi gargalhada geral. Aí está – concluiu Raulino – de quanto é capaz um burro velho. Ninguém se fie em semelhante raça de bicho...

Dispunha-se a contar outras histórias, quando apareceram Clara e Maria da Graça, que já conheciam Luzia, por informações de Teresinha.

— A Teresa – disse Clara com voz lenta e meiga – quer muito bem à senhora e eu já lhe quero também muito pelas ausências que ela lhe fez.

— Esta é a Luzia-Homem? – perguntou a ingênua Maria da Graça – Pois é bonita moça. Não tem nada de homens... Não é, mamãe?...

— É apelido que lhe puseram, filhinha. Não digas mais semelhante palavra.

— Não faz mal – observou Luzia, visivelmente enleada – É assim que me tratam.

— Perdoe – balbuciou a rapariga – Pensei que era mesmo o seu nome...

E, logo, houve palestra cordial, como se fossem conhecidas de longa data. O projeto da mudança para a Meruoca foi acolhido com entusiástica alegria; mas faltava o essencial: o consentimento de Marcos. Não ousando a mulher e a filha consultá-lo, Raulino e Luzia resolveram procurá-lo para saberem a sua opinião.

Marcos estava na sala da frente, sentado na rede branca, enfeitada a ponto de marca, com vistosas ramagens vermelhas e largas varandas franjadas, arrastando na esteira, onde ele deixara, em desalinho, um livro, As Missões Abreviadas marcado com os óculos de oiro, o lenço de ganga azul e uma caixa de rapé de tartaruga, restos da abastança perdida. Com as largas mãos descarnadas, eriçadas de pêlos, sustendo a cabeça, vergada ao peso das idéias tristes que a povoavam, o velho meditava, baloiçando-se lentamente.

Raulino chegou à porta; Luzia após ele.

— Dá licença, seu capitão Marcos – disse Raulino, cortesmente.

— Quem é? – respondeu o velho tomado de surpresa.

— É de paz.

— Queira entrar...

O velho ergueu-se; examinou-os com os pequenos olhos azuis e profundos; demorou-os sobre Luzia alguns instantes; e, indicando as malas que, com as redes, davam a mobília da sala, principiou, com uma pausa triste, a voz seca, penetrante e cava:

— Abanquem-se. Não ignorem a desarrumação, pois somos com boieiros de passagem.

— Eu e esta moça somos muito camaradas de sua filha, dona Teresinha.

Marcos tornou-se lívido. Raulino continuou, com a desenvoltura de homem despachado e ladino:

— E sabemos que a vossa senhoria não se lhe daria de achar uma arrumação...

— Ainda tenho algumas migalhas – atalhou o velho – para não morrer à fome...

— Sabemos; mas, não seria mau ganhar alguma, ainda que só chegue para o prato.

— Contanto que seja serviço ao alcance de minhas forças... Eu já não posso com trabalhos puxados...

— Não há dúvida. É serviço nas posses de vossa senhoria, nas obras do Governo...

— Onde é isso?

— Na Meruoca...

— Já lá estive, há muitos anos, em compra de farinha.

— Então está feito? Nós ficamos muito agradecidos a vossa senhoiria, que nos faz um favorão. Esta moça é sa Luzia-Homem. Ela, estava com acanhamento de falar.

— Eu não sou mau, dona – murmurou o velho, compungido. – Os desgostos me puseram assim. Era feliz, na minha fazenda, uma situação bem boa, que não me dava cabedais, mas produzia com que viver sem ser pesado a ninguém. Entrou-me, um dia, de repente, a desgraça em casa e fugiu-me para sempre, o sossego. Vi... minha santa mulher envergonhada; ela e a filha caçula a chorarem, escondidas pelos cantos para me não amargurarem. Eu mesmo, tão ralado na vida, parecia oco, sem alma, como se me houvessem roubado o coração. E saía atrás dele, à toa pelo mato, como um desmiolado, em procura da filha ingrata, que o levara. Dias e noites, passei na aflição de sentir-me atolado na lama, estas barbas sujas, evitando os amigos e conhecidos, que me procuravam. Eu tinha vergonha de encarar nos próprios bichos, quanto mais em cristãos, que conheciam a infâmia... Pedi a Deus que me matasse, e Deus não me ouviu... Conservou-me a vida para castigo meu, para que eu ficasse no mundo como um condenado... Depois, o tempo foi roendo o que me restava de melindre. A negra chaga fechou por fora; mas continuou alastrando por dentro... Afinal, a gente se acostuma a tudo... Rezei por alma da ingrata e jurei que, dali em diante, só existiria para mim a filha mais moça, essa inocente que não tinha culpa da crueldade da outra...

A voz do velho rangia-lhe na garganta, em vibrações metálicas; tinha as modulações pungentes do estertor de uma alma estrangulada pelo mais querido dos afetos.

— Moça – continuou ele, erguendo-se e dirigindo-se a Luzia, que o contemplava, comovida. – A senhora é mulher de bem; possui mãe, tem pai?... Conserve a sua honra; defendas mesmo a preço da própria vida... Há filhos que matam os pais... Pois há piores monstros da natureza – as filhas que os desonram... Os mortos deixam de sofrer; mas, os vivos, infamados de dor e vergonha, ficam com a alma enferma para sempre...

— Teresinha também tem sofrido tanto – observou, a medo, Luzia.

— Não me falem nela, se querem que os acompanhe... Se a ela perdoasse, era capaz de matar-me outra vez - murmurou o velho, cujos olhos azuis fulgiram num relâmpago de cólera.

Clara ouvia de longe, atrás duma porta, esse doloroso colóquio. Não ousou entrar na sala para ajudar Luzia na defesa de Teresinha tanto conhecia as crises terríveis daquela mágoa inextinguível; mas os seus lábios trémulos, lábios doloridos de mãe amantíssima, nuns estos brandos de ternura, murmuravam, súplices, desconsolados:

— Pobre da minha filhinha!...

Parece que açoitam diante de mim, a minha filha do coração.

XXVIII

O sol repontava no horizonte, como um rubro e enorme disco. Surgindo de um lago de oiro incandescente, quando o cortejo do êxodo se pôs em marcha, pela estrada da serra.

Luzia percorreu, com enternecimentos de saudade, os recantos da casa vazia, onde ficavam o pilão, o jirau da latada, a trempe de pedra, os tições extintos, enterrados sob tulhas mornas de cinza, tristes vestígios dos habitantes que a abandonavam. Contemplou, com lágrimas comovidas, o lar apagado, o terreiro, em torno, limpo, varrido, as árvores mortas, os mandacarus carcomidos até ao alcance dos dentes dos animais vorazes, a paisagem triste, coisas mudas e mestas, que se lhe afiguravam companheiros de infortúnio, dos quais se despedia para sempre. E partiu, conduzindo, à cabeça, uma pequena troixa.

Seis possantes rapazes e Raulino iam à frente, revezando-se na condução da tia Zefa, estirada na rede, amarrada a um caibro longo e flexível. A bagagem, duas malas e os cacarecos de serventia doméstica, foi levada na véspera por outros trabalhadores e Alexandre, que se adiantara para preparar a nova morada, o ninho da ventura sonhada. A família de Marcos também partira com ele.

Ao passar a rede pelas últimas casas da Lagoa do Junco, perguntavam as mulheres debruçadas sobre as janelas:

— Vai vivo ou morto?

— Bem viva, graças a Deus, respondia Raulino.

— Deus a conserve. Boa viagem!

Luzia lançou demorado olhar ao morro do curral do Açougue, onde começava de alvejar, de reboco, a penitenciária, enleada na floresta de andaimes, quase pronta para receber a cumeeira. E ocorreu-lhe, como recordação piedosa, a triste sina dos condenados que ali ficavam, por toda a vida, encerrados, como em sepultura de pedra e cal. Dentre eles, surgia o espectro minaz de Crapiúna, cujos gritos terríveis de desespero ecoavam ainda no coração dela, por mais que se esforçasse por varrê-los da memória, e libertar-se da implacável obsessão, que lhe toldava a serenidade do amor vitorioso.

Desviando os olhos do morro sinistro, que fora o seu Calvário de vilipêndio, compensado pela florescência dos instintos sagrados e do afeto redentor de Luzia-Homem, ela resfolegou aliviada, como se dentro daquelas paredes maciças, colossais, ficassem encarcerados o passado, as mágoas, os dissabores dos opressivos dias de miséria.

A estrada coleava pelo terreno ondulado, cômoros calvos e vales cortados pelos sulcos dos regatos extintos, e alteando insensivelmente, ao passo que, com a montanha, se aproximavam, cada vez mais nítidos, o arvoredo, as manchas peladas dos roçados estéreis, as cintas de granito, os talhados a pique, em precipícios medonhos, e grotões sombrios, destacados, num esmalte bronzeado de nebrina vaporosa.

Madrugadores serranos desciam para a cidade, dirigindo comboios de farinha, de rapadura, o derradeiro produto da lavoira agonizante. Troteando à cadência do ranger das cangalhas, eles saudavam aos viajantes, repetindo a pergunta caridosa: "Vai vivo ou morto?" – quando, tirando o chapéu, se afastavam para darem passagem à rede da tia Zefa.

À margem da estrada, dentre moitas de mofumbos ressequidos e juremas desgrenhadas, uns fios de fumo azulado erguiam-se, em tênues espirais, dos ranchos de retirantes, acordados àquela hora da manhã, e pedindo, plangentes, uma esmolinha pelo amor de Deus.

Depois de duas horas de marcha, interrompida a espaços, para descanso dos carregadores, tornou-se o solo mais acidentado em sucessivas colinas e contrafortes tortuosos, dilatados, como raízes colossais pelo sertão, partido em vales profundos, refrescados pelas filtrações da serrania, sombreados por vegetação da folhagem pardacenta, retorcido e crestada. Mais longe, uma descida íngreme, sobre estratificações da piçarra cortante, os levou ao sopé da montanha, onde começava a ladeira, e apareciam as primeiras árvores, os oitizeiros frondosos, cedros, paus-d'arco e angicos em floração estiolada, contornando o riacho da Mata-fresca, do qual restava intermitente fio d'água a deslizar sobre lages, e gotejando de pedra em pedra, como vagarosa lágrima. O séquito parou ao abrigo de grandes rochedos, rolados e amontoados em confusão, por esforço titânico. Forte aragem rumorejava encanada pelo boqueirão, com um ruído de mar longínquo.

— Estamos quase em casa! – exclamou Raulino. – Mas o rabo é o mais difícil de esfolar. Ainda temos um pedaço de ladeira de suar topete. Se pudéssemos ir pelo atalho, encurtaríamos metade do caminho, mas a rede não pode passar na vereda cheia de voltas, troncos e barrancos que é mesmo uma escada de demônios.

— Não há dúvida, seu Raulino – observou um dos rapazes, limpando, com o dedo, o suor que lhe perolava a fronte. – Nem que fosse carga mais pesada; nós somos cabras de talento; vamos bater lá num fôlego, quanto mais a tia Zefinha que é leviana como uma pena.

— Vocês são mas é uns prosas – tornou o sertanejo, ironicamente. – Vejam como estão melados! Com qualquer forcinha ficam botando a alma pela boca. Vamos ver se chegamos à Cova da Onça sem arriar. Um trago da branca está esperando a gente lá em riba. Vosmecé, sa Luzia, que é ligeira, vá pelo atalho que é melhor. Quando chegar no primeiro cotovelo da ladeira, quebre a mão esquerda por uma vereda trilhada, que desce de cabeça abaixo; chega no fundo da grota; passa entre dois muros de pedra; atravessa o riacho e sobe por dentro de um bananal. Chegando na lombada do oiteiro, avista logo a casinha no meio de laranjeiras.

— Você já esteve aqui, seu Raulino? – inquiriu Luzia.

— Ora, ora, ora! Eu conheço o oco do mundo. Oh! Aqui vai a Teresinha. Veja o rasto dela, pequenino, delgado no meio que não toca no chão. Se apertar o passo ainda a pega, porque ela vai cansada. O rasto miúdo e encalcado mostra que vai devagar... Eu rastejo, como se lesse no chão, até por cima da pedra, folharal e até dentro d'água...

E, voltando-se para os carregadores:

— Vambora! Pega de jeito; acerta o passo, cabroeira mofina!... Vamo, vamo, que é meio-dia... Agüenta o balanço! Aonde vocês botam o pirão que comem? Até daqui a um tiquinho, sa Luzia...

E seguiram, em festiva algazarra, estimulando-se com gritos, graçolas que repercutiam, com fragor, nas quebradas do boqueirão. Raulino os tangia com ordens de comando, emitidas no tom gutural dos vaqueiros, voz retumbante, que ele pretendia fosse ouvida a léguas.

Luzia foi subindo após eles, sem esforço, lentamente, até à primeira volta da ladeira, daí em diante cavada na aresta das rochas, talhadas, a prumo, sobre o grotão profundo. Desse sítio agreste, descortinou o panorama do sertão, cinzento de mormaço, terminando no recorte azulado das serranias, ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas de catedral gótica, os picos, que eriçam as crateras extintas dos Olhos-d'Água do Pajé. Uma facha verde-escuro, serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminável renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque; depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade em agrupamento informe, apenas esboçado, as casas das fazendas abandonadas, ponteando, aqui e ali, a planície devastada e quieta, como um imenso pântano.

Enternecida na contemplação daquele espetáculo extraordinário, na sua tristeza de paisagem morta, o sertão devastado como a terra combusta do Profeta, ouvia o festivo alarido dos silvos das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a descascarem, numa exuberância magnífica de seiva.

Desse enlevo, arrancou-a o brado longínquo de Raulino, gritando aos carregadores da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre, do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximação dos entes queridos.

Obedecendo à indicação do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das margens para não escorregar, colhendo flores silvestres, parando, a revezes, para desembaraçar as vestes dos espinhos que a detinham, chegou à garganta, que Raulino designara por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas, o riacho, quando Deus dava ao Ceará chuvas benfazejas e fecundantes. Erguendo a saia, ela fruiu a delícia, havia muito não gozada, de imergir n'água sussurrante, os pés pequeninos, as pernas roliças e musculosas, adornadas de aveludada pelúcia negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljôfares cristalinos nas palmas côncavas das mãos, e banhou o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.

Interrompeu-a pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu, rugiu:

— Foi o diabo que te atravessou no meu caminho. É a última vez que me empatas, peitica do inferno!...

Luzia, na confusão da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos; mas, vencendo o impulso de cobardia, e avançando, cautelosa, deparou-se-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada de terror, agitando, frenética, os braços, presa a voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aquém, arquejava Crapiúna em estos de cólera, tentando galgar as pedras que os separavam.

— Desta vez - grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinária. Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito... Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...

Em convulsão de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com uns acenos epilépticos, as mãos desarticuladas.

— Deixe a rapariga, seu Crapiúna – bradou Luzia, avançando, resoluta e destemida.

O soldado voltou-se como um tigre, ferido pelas cestas.

Diante da moça, em postura de firmeza impávida, magnífica de vigor e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lívido, e recuou, como se um prestígio sobre-humano lhe aplacasse os ímpetos incoercíveis de cólera e de vingança.

— Luzia! – murmurou ele, quase súplice – Não lhe quero fazer mal... Sou um desgraçado, um miserável... Pedi-lhe outro dia, pelo amor de Deus, um instantinho de atenção. Não fez caso; não teve dó de mim... Agora vai se decidir a minha sorte...

— Arrede-se; deixe-me passar!... – intimou Luzia, com força, num tom imperativo, breve e seco.

— Escute-me, meu coração... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem como eu.

— Deixe-me passar!...

— Passar!?...

Luzia avançou agressiva.

— Pensas – continuou Crapiúna, recuando, transfigurado o rosto por diabólico sorriso – Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraça pouca é bobage...

E atirou-se de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu, e, atirando-o ao chão, subjugado, comprimiu-lhe o peito com os joelhos.

O séquito parara na Cova da Onça, cerca de cem metros de altura, donde se viam, distintamente, os lutadores.

Crapiúna gemia, espumava de raiva, medonho, sob a pressão inexorável que o esmagava.

— Miserável, miserável! – gritava Luzia, rubra de pudor, de cólera, procurando deter as mãos crispadas do soldado a lhe rasgarem o vestido – Alexandre!... Raulino!...

A voz vibrante de angústia retumbou nas quebradas do boqueirão, como um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:

— Agüente; tenha mão nesse malvado, que já vou!...

Aproveitando um movimento da rapariga para compor o traje, Crapiúna ergueu-se, e recuou de salto. Arquejava de cansaço, e da boca lhe borbulhava sangrenta espuma. Os olhos, injetados, fulgiam de volúpia brutal, louca, fixando-se desvairados em Luzia, desgrenhada, o seio nu e as pernas esculturais a surgirem pelos rasgões das saias, caídas em farrapos.

Ébrio de luxúria, exasperado pela invocação de Alexandre, o monstro, recobrado o alento, acometeu-a, rugindo.

Luzia conchegou ao peito as vestes dilaceradas, e, com a destra, tentou lhe garrotear o pescoço; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada ao soldado que, em convulsão horrenda, delirante, a ultrajava com uma voracidade comburente de beijos. Súbito, ela lhe cravou as unhas no rosto para afastá-lo e evitar o contacto afrontoso.

Dois gritos medonhos restrugiram na grota. Crapiúna, louco de dor, embebera-lhe no peito a faca, e caía com o rosto mutilado, deforme, encharcado de sangue.

— Mãezinha!... – balbuciou Luzia, abrindo os braços e caindo, de costas, sobre as lajes.

Raulino precipitara-se no despenhadeiro. Agarrando-se aos arbustos encravados nos interstícios dos rochedos, escorregando onde o penhasco se inclinava em rápido declive, saltando com energia indômita por sobre as fendas, pendurando-se nos cipós que entreteciam a floresta, atufando-se nas frondes das árvores, passando de uma a outra com agilidade de símio, ou deslizando pelos troncos nodosos, enleados de orquídeas, chegou ao fundo da gruta.

Lá, em cima, se ouviam os brados dos carregadores e os grandes gemidos dilacerados da mãe angustiada:

— Meu Deus, Mãe Santíssima, valei-a, salvai a minha filhinha!...

Momentos depois, o sertanejo surgiu do matagal, perto das pedras do riacho, ofegante do esforço da fantástica descida, atassalhada a roupa, escoriados os braços e pernas pelos espinhos, as mãos feridas, ensanguentadas.

Luzia, hirta e lívida, jazia seminua. Nos formosos olhos, muito abertos, parecia fulgir ainda o derradeiro alento. Os cabelos, numa desordem, escorriam pela rocha, forrada de lodo, e caíam no regato, cuja água, correndo em murmúrio lâmure, brincava com as pontas crespas das intonsas madeixas flutuantes. Na destra crispada, encastoado entre os dedos, encravado nas unhas, extirpado no esforço extremo da defesa, estava um dos olhos de Crapiúna, como enorme opala, esmaltada de sangue, entre filamentos coralinos dos músculos orbitais e os farrapos das pálpebras dilaceradas. Sobre o seio, atravessado pelo golpe assassino, demoravam, tintos de sangue, como se reflorissem cheios de seiva, cheios de fragância, os cravos murchos que lhe dera Alexandre.

Raulino recuou, cortado de terror, ante o cadáver; e, num turbilhão de cólera, rugiu, arrepiado, apertando os dentes, e, com uns gestos, que eram crispações medonhas de fera, esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso.

Crapiúna, ganindo de dor, estorcia-se, erguia-se, nuns movimentos loucos, comprimido, sob as mãos, o rosto mutilado; caía e erguia-se de novo, até que rolando de pedra em pedra, se sumiu no precipício...

Voltando, então, para junto do corpo de Luzia, Raulino curvou-se compungido; apalpou-lhe o peito, ainda morno; e, aproximando os lábios da divina cabeça da heroína, gemeu com intensa amargura, as palavras doloridas de unção aos moribundos:

— Jesus!... Jesus!... Seja contigo!... Jesus, Maria e José!...