Luzia-Homem/XXV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XXV


Com irrepressível impaciência, esperou Luzia que algum dos raros conhecidos lhe trouxesse as últimas notícias dos acontecimentos do dia. A cada momento, se lhe afiguravam vultos de homem, esboçados nos cúmulos da poeira, que o vento rijo da tarde revolvia, em redemoinhos, pela estrada, como um sinal do vento baixo, rasteiro, sinal de seca. Talvez Alexandre livre, remido da infâmia, radiante de ternura a lhe sorrir com amor. Tinha estremecimentos de júbilos comedidos; a efêmera visão fugia com as colunas de pó desfeitas, e a pobre recaía desiludida numa dolorosa apatia de quem espera em vão.

Ninguém aparecia. Alexandre, cheio de brio, magoado pela crueza com que ela o tratara, não viria, contido pelo mesmo propósito que a condenava a estar ali, a estorcer-se em voluntário suplício, estimulada de fútil obstinação em resistir ao impulso de correr a recebê-lo no limiar do cárcere.

Nem vivalma. Estavam todos, àquela hora, recebendo, em ração, o salário da semana, pago aos sábados, nos postos de distribuição de socorros, ou na obra da penitenciária. Ela via as suas meninas amadas, Quinotinha e outras da tenda de costuras, sobraçando saquinhos cheios de víveres; as suas companheiras de trabalho aguardando a chamada, a tagarelarem com a garridice de maracanãs nos roçados; outras tristes, desconsoladas, recebendo os quinhões que deveriam passar às mãos de atravessadores, em paga de adiantamentos usurários; muitas agrupadas em torno da figura hercúlea, vermelha e ruiva de Raulino Uchoa, com a distinção de tipo de outra raça, entre os ouvintes, emaciados de privações, minados pelos tóxicos das raízes de mucunã, de pau-mocó, esboroadas em farinha. Ele costumava matar o tempo com a narrativa pinturesea das façanhas inverossímeis de amansador de animais bravios, orelhudos que nunca tinham visto gente, as áfricas de vaqueiro de fama, temido dos barbatões mais ferozes das catingas e carrascões impenetráveis, as proezas de caçadas de onças acuadas em furnas sombrias, onde ele as agredia, armado de uma simples azagaia. Contava das viagens extraordinárias, aventurosas pelo sertão inundado, da intrepidez com que afrontava o ímpeto dos rios desbordantes, nadando em cavaletes de molungu no tempo – até parecia sonho – em que Deus ainda se lembrava, piedoso, do Ceará, para dar-lhe chuvas copiosas e fertilizadoras dos campos, trombas d'água devastadoras, rotas nas cumeadas das serras, descendo em catadupas raivosas, invencíveis, pelos telhados, encostas verdejantes, arrastando rochedos, árvores, plantações, até se espraiarem na planície, à maneira de um mar, arrombando açudes, soterrando bebedores, cavados durante a seca. Descrevia com a linguagem fantasiosa, ardente, de vigoroso colorido, com as imagens vivas, sugestivas do rude estilo sertanejo, o fragor das correntes raivosas de concerto com o ribombo ininterrupto da trovoada, o relampear das nuvens negras e maciças, es ziguezagues fulvos a riscarem o céu, com letras cabalísticas, ameaçadoras, traçadas pela ira de Deus; o estrondo horrível dos coriscos, o pavor do gado, haurindo, a largos sorvos; o ar saturado de ozonona, reunido, em magotes, nos cômoros da planície encharcada.

Fresos aos lábios do narrador imaginoso, os retirantes mal continham lágrimas, ouvindo-o evocar, entre episódios da vida sertaneja, fatos e coisas, dons do céu, para sempre perdidos, água, verdura, roçados, safras opimas, alegria e fartura, cortados os corações pela amarga saudade de recordar tempos felizes.

Luzia meditava, fitos os olhos, com uns gestos de sufocado pranto, nas rubras chamas vacilantes, desprendidas dos tições, quase apagados, espevitadas pelo vento e crepitando nuns feixes de centelhas intermitentes.

— Ninguém – murmurou ela, magoada pelo abandono – Nem vivalma! E Teresinha? Que será feito daquela cabeça de vento? Onde se meteria? Nem pensa em mim, que a espero... Ah! se ela soubesse... Qual... está com ele, e eu, coitada de mim...

Cada vez mais espessa, a nebrina da tarde, com uns restos de calor, entrava a redondeza. Casas, árvores mortas confundiam-se desconformes, no esboço da paisagem, esfumada em claro-escuro. As manchas das sombras alastravam, como um líquido negro, devorando os tons luminosos. No céu, puríssimo, piscavam, espertas, álacres, como uns pequeninos olhos, estrelas e constelações. Papa-ceial, o astro da melancolia, librava-se no poente ainda claro, como lúcida lágrima, mensageira da dor ignota, oculta nas profundezas misteriosas do espaço, tremeluzia prateada como pólo das esperanças e das mágoas dos tristes, e parecia vacilar atraída pelo sol, atufado em nuvens purpúreas.

Pela estrada, abeirada à casa, passavam mulheres e meninos conduzindo as rações. Vinham da cidade ou do morro do curral do Açougue; deviam de saber de Alexandre e Teresinha, mas Luzia não ousou interrogá-los. Apareceu, depois, Romana à frente do grupo de bandoleiras desenvoltas. A roliça cabocla, de dentes aculeados não ria dessa vez. Lamentava, com as outras, a sorte de Crapiúna, que se desgraçara, apanhado na arapuca armada ao outro. Metia-lhes intenso dó o Belota, tão bom para elas, uma vítima da amizade, ou das más companhias. Nada diziam em defesa de Crapiúna; consideravam, entretanto, injustiça prenderem o outro, homem incapaz de fazer mal e sempre, bem procedido no serviço. Só tinha o defeito de jogar, mas o Governo devia saber que ele não se podia manter com o reles soldo; era homem como os paisanos. Ninguém vive enchendo a barriga de vento como os camaleões.

— Olha a Luzia! – observou uma – Nem parece que o homem dela foi solto!

— Vote! – atalhou outra – A modos que estaria mais alegre se ele ficasse na cadeia toda a vida.

— Qual o quê! – ponderou Romana. – Aquilo é soberbia. Quer mostrar que não faz caso de nada neste mundo. Impáfia ali é mata. Deixa estar que há de ser castigada.

— Aquilo, mulher, é calibre do sangue. Nem o demônio tira. Por isso é que vive sempre apartada das outras, metida com ela cheia de coisas como se fora uma senhora dona.

— Conheço muitas mais melhores que não se desprezam de tratar bem e falar com a gente.

— Só a Teresinha lhe caiu em graça. As duas se entendem. Deus as fez...

Esses comentários eram feitos em voz alta, para que Luzia os ouvisse; esta, porém, minada embora de rancor surdo a Romana que não a poupava com insinuações perversas, duma ironia picante, e passava por ali de propósito para molestá-la, fingia não ouvir, resistindo ao impulso de assaltá-la, arrancar-lhe a língua danada, esmagá-la aos pés, como réptil nojento e venenoso.

O grupo desapareceu. Passaram depois desconhecidos que, confundidos ao lusco-fusco, a saudavam com boa noite.

A velha mãe reclamava os seus cuidados, para iluminar o quarto e dar-lhe o remédio, que, abaixo de Deus, a salvara.

— Tiveste notícias de Alexandre? – perguntou-lhe ela, interrompendo o terço, rezado a meia voz.

— Não – respondeu Luzia, com fingida indiferença – Depois de saber que estava solto, fiquei descansada... tirei dele o juízo...

— E Teresinha?

— Sei lá!...

— Estou tão acostumada com ela, que já lhe sinto a falta quando se demora...

— Ainda é cedo. Virá quando a lua sair...

— Sabes que mais, filha? Acho-te hoje tão mudada!

— É que estou maginando no que devemos fazer, agora que não temos já obrigação de velar por ele. O coração me pede que vamos embora; mas não podemos. Não há remédio senão ficarmos. Será como Deus quiser. Eu terei sempre forças para trabalhar e viver... sem ser pesada a ninguém, apesar de me desprezarem e fazerem pouco de mim.

— Não fales assim, filha. Os fortes também enfraquecem quando Deus os desampara.

— Deus! Deus já não se lembra de nós, que somos cristãos, que o adoramos e amamos...

— Tem fé nele, que é pai de misericórdia.

— Para falar a verdade, mãezinha, eu, às vezes, não acredito em nada. A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais filhos, pois já ninguém ama.

— E eu que pensava...

— Em quê?

— Não te quero pôr de confissão, mas... sempre desejava saber se Alexandre nunca te falou em casamento.

— A mim?

— Pensei que se engraçara de ti. Fiquei com a mosca na orelha desde aquele mimo dos cravos.

— Os cravos! É verdade que, um dia, ele me disse: "se casássemos, iríamos viver juntos em uma casinha da ladeira da Mata-fresca." Não respondi sim, nem não. Depois apareceu o impute, e foi preso. Sofri mais com essa desgraça do que ele; até parecia que todos me olhavam como ladra, e só o abandonei quando suspeitei que era igual aos outros homens, queria bem a outra e me enganava cruelmente. A última vez que vi ele, deixei-lhe os cravos na grade da cadeia. Essas pobres flores, guardadas no meu seio, como um breve milagroso, não podiam mais ficar comigo. Ele que as desse a outra. Mais tarde arrependi-me: revoltei-me contra esse ciúme à-toa, que não me envergonhava, porque as mulheres ricas também se enciumam; mas era uma fraqueza. Tive ímpetos de pedir-lhe perdão. Uma voz, que vinha daqui, do coração, aconselhava que eu quebrasse a teima de abandoná-lo e fugir dele... Seria rebaixar-me, fazer como essas que continuam a querer bem ao homem que as despreza, surra e maltrata; seria contra o meu gênio de não dar braço a torcer, de não dar parte de fraca, de sofrer calada.

— E é por isso que tens andado capionga? Ah! coração de mãe adivinha.

— Era...

— Pois foi muito feia ação desconfiar dele.

— A gente não suspeita por querer.

— Quando se quer de verdade, não há suspeita que entre no coração. Eu nunca maldei do defunto teu pai, quando ele passava meses ausente, comprando garrotes no Piauí. Só pensava que poderia apanhar moléstias, morrer sem confissão e em não estar eu a seu lado para tratar dele.

— Era seu marido. Alexandre não é nada meu. Ninguém me tira da cabeça que, agora, limpo de pena e culpa e por ser bom, caridoso e bonito homem, todas as mulheres querem bem a ele. Homem que sofre é, comparando mal, como Jesus Cristo. As mulheres andam atrás dele.

Houve, então, longa pausa. Nos pequeninos olhos parados da velha, desanimados, demorava uma funda impressão de surpresa, com um brilho gasto de mágoa.

— Além disso – continuou Luzia, com um ligeiro movimento, dos ombros – Elas têm o mesmo direito que eu. Mas não me conformo... Pode mais do que a minha vontade essa suspeita, que me põe o coração escuro e mau... Sabe, mãezinha, em que estou pensando agora?... Um horror, que até tenho vergonha de dizer... Antes uma boa morte que descobrir a outra pessoa o que me passa pela mente... Olhe...

E sussurrou, com voz soturna, como um sopro de cansaço, ao ouvido da velha:

— Imagino que, neste momento ele está com Teresinha...

— Credo! filha!

— É um horror, não é?... Parece que estou vendo eles juntos, alegres e satisfeitos. Ele todo agradecimentos; ela cheia de si... Sim, porque se está solto a ela o deve... Ela tem direito à recompensa. É justo que não se lembrem de mim...

— Que maldade, filha de minha alma...

— Sim, como não hei de ser má, de ter más entranhas, se uma cobra venenosa me morde o coração! E sou culpada de tudo por ser desconfiada... soberba... maldita... Luizia-Homem é o que eu sou... uma bruta desalmada...

— Que coisa sem pé nem cabeça? Estou estranhando isso... Sossega... Teresinha, tão boa para nós, não tarda aí, quando a lua nascer.

— Veja aquele clarão... Já está fora.

— Ela foi cheia tresantonte. Aquilo é fogo no pasto.

Havia, com efeito, no horizonte, um clarão de incêndio, onde surgia, lentamente, um enorme disco.

— Qual – exclamou Luzia, com uns gestos violentos, e um amargo tom de sarcasmo – Aquela mesma? Onde está, está muito bem... gozando o que muito lhe custou ganhar... Não se me dava de apostar...

— Não faças juízo à toa – disse a velha, com energia – maldando da outra...

— Não maldo por querer. É uma coisa que me vem à cabeça e que me tira o juízo... Ah! Eu não era assim. Não era. Em nada pensava, nada tinha, que me afligisse ou me tirasse noites de sono. Não fora o seu puxado, vivia sossegada, pensando somente no dia d'amanhã, em ganhar a vida. Era feliz, consolada com a minha sorte.

— Não eras, não. Nunca te vi assim... São repiquetes de mau gênio que passam depressa. Agora, se não te dás bem aqui, se te sentes mal, iremos, como querias, para as praias. Raulino irá conosco...

— Para a praia! Não vou mais, não... posso. Hei de ficar aqui até quando Deus permitir... Até... morrer. Quem sabe?

— Aí está! Não te entendo. Há bocadinho, falavas nessa viagem que não te saía da cabeça... Agora...

— Pensei melhor.

— Qual, filha! Andas tão atarantada que já não pensas coisa com coisa.

— É mesmo, mãezinha. Até parece que estou lesa. Ah! se eu pudesse esquecer tudo como se fora um sonho, desses que a gente dá graças a Deus e cria alma nova, quando se acabam... ou se desperta...

— Tu estás, mas é muito alterada. Vem dormir, anda, que Teresinha rebenta por aí sem demora, e as duas vão levar a noite grazinando como duas amigas.

A velha Josefa benzeu-se ao terminar o terço, interrompido pelo diálogo com a filha. Ergueu-se apoiada ao portal, e gemendo, tanto lhe custava distender as articulações emperradas; e, arrastando as grandes chinelas, dirigiu-se, claudicante, para a rede. O quarto estava iluminado pela candeia mortiça, crepitando na cantoneira, asseado, muito arrumado; as malas encostadas à parede, duas redes armadas nos ângulos, e, no chão, a esteira de Teresinha, a pele de carneiro, um simples tapete para se não resfriarem os pés da enferma. De uma corda, pendiam várias peças de roupa.

— Deixa-me – disse a velha, arfando de fadiga e afastando a filha que pretendia ajudá-la. – Deixa-me andar sozinha para experimentar as minhas forças. Se me acostumo a estar sentada e a andar pelas mãos dos outros, fico mesmo enferrujada de todo... Ah! Se Nossa Senhora me tirasse esta canseira, podia eu dizer que estava sarada... Isto vai devagarinho... Moléstia é como preaca de frecha: entra no corpo de repente, e custa a sair.

— Tenho fé – disse Luzia, mais calma e com meiguice, abrindo a rede para que ela se sentasse – isto vai passar.

Quem a viu e quem a vê, nota logo grande melhora.

— Tenho esperança de rolar mais alguns dias por este mundo, e só peço a Deus que me não faça sofrer, quando chegar a minha hora. Bem sei que não hei de ficar para semente... Tu, que és o meu sangue, tomarás o meu lugar, sendo o que eu fui, uma mulher de bem, trabalhadeira e temente a Deus.

— Não fale nisso.

— Como não fala!, se não me sai da cabeça o pensamento de morrer, deixando-te sozinha, sem encosto, sem proteção.

— Quando tal acontecesse, quando Deus me castigasse com essa desgraça, eu teria coragem para suportá-la. O trabalho não mete medo a Luzia-Homem.

— Bate na boca, filha. Luzia, mulher e bem mulher, fraca como as outras, é o que tu és.

Ela sentia a verdade das palavras da mãe. A ansiedade, as dúvidas, as suspeitas cruéis em tumulto absurdo e monstruoso comprovavam a sua debilidade de mulher amorosa. Compreendia, então, a perversidade de Gabrina, vingando-se de Alexandre por meio da declaração falsa; compreendia por que havia mulheres criminosas, que se rebaixavam satisfeitas, que se depravavam despudoradas, arrojadas, por impulsos de paixão irresistível, fora da senda do dever, olvidando honra, família e o decoro, que é o esmalte das almas boas para tombarem, desfigurados o corpo e a alma, até à lama do enxurro humano, como nojentos dejetos do vicio.

Havia, entre essas míseras, culpadas por depravação moral, desviadas pela educação, contaminadas pelo contágio do exemplo. A maioria, porém, era de inconscientes, sem imputação, dignas de perdão como pensava ela, que não podia expungir do coração os maus instintos, que o dominavam e ali grelavam, como ervas daninhas, à sombra propícia da suspeita e do despeito. E Luzia que padecera pela prisão do homem amado, que sentira nas próprias carnes o estigma com que o pretendiam marcar, que seria capaz de fazer por ele o extremo sacrifício da própria vida, seria capaz de estrangulá-lo, de arrancar-lhe as entranhas, de cevar-se no seu sangue, à simples idéia de vê-lo nos braços de outra mulher.

— Eu morreria descansada – disse a mãe, suspirando – se te deixasse casada com Alexandre, que seria incapaz de te dar má vida.

— Casada! – retrucou a filha, arrancada, de súbito, às tristes idéias. – Quem quererá se casar comigo?...

— Não digas semelhante coisa, tamanhas asneiras... A mim, me palpita o coração que amanhã terás vergonha dessas suspeitas, porque Alexandre virá e tudo passará, como se nada houvesse acontecido. Tu, então, arrependida, reconhecerás que, quando moça está influída para casar, não tem o juízo assente; vê tudo pelo avesso, de pernas para o ar, e fica mouca aos conselhos. No meu tempo, as raparigas não pensavam nisso; quando davam fé estavam na igreja com o moço escolhido pelos pais. Hoje, está tudo mudado... Meninas. que ainda cheiram a cueiros, já têm opinião e caprichos como qualquer mulher feita. Deus louvado, sempre foste muito bem procedida e obediente. Veio-te, agora, essa influência de querer bem... Já não veio sem tempo... já tardava e não tem nada de mal; mas, é preciso ter juízo para não desmanchar o que esta tão bem principiado. Vê bem o que te digo; deixa-te de histórias e teimas. Se procurares com uma candeia, não encontrarás outro tão do meu gosto.

— E se ele não me falar mais em casamento?

— Paciência! É porque não tinha de ser.

— E eu?...

— Tu!... Pois não és mulher forte, capaz de viver sozinha, sem ser pesada a ninguém, trabalhando para comer?... Não és Luzia-Homem?...

— Eu não sou nada – murmurou Luzia, abraçando a mãe e escondendo-a quase na onda de cabelos revoltos. – Sou uma infeliz, que está sendo castigada, sou uma doida, que não sabe o que faz... Perdoe-me, mãezinha da minha alma...

— Ai que me tiras o fôlego – gemeu a velha, sufocada pela veemente carícia da filha. – Não reparas que só tenho de gente a figura com a pele sobre os ossos? Deixa estar que tudo há de sair bem, se Deus não mandar o contrário... Dá-me outra colher de remédio. Quero ver se pego no sono. Fecha a porta e vem dormir.

— E Teresinha?

— Deixa estar que ela não se perde. Sabe de olhos fechados o caminho da casa.

— Tem razão, mãezinha. O melhor é esperar sossegada o que tem de acontecer.

Depois de dar o remédio à mãe e acomodá-la para passar a noite, Luzia saiu ao terreiro a passear em roda da casa, a contemplar a lua, que ascendia em pleno esplendor. Interrogou o céu e a terra, silenciosos, impassíveis; espreitou em todas as direções, até aonde a sua vista alcançava, e prescrutou os mais leves rumores que a viração lhe trazia em rajadas violentas. Nada correspondia à sua ansiedade. A solidão lhe recusava alento às débeis esperanças e conforto às mágoas, que os conselhos maternais não conseguiram aplacar de todo. Entretanto, a confidência à mãe idolatrada, fora um transbordamento salutar, e ela experimentava a sensação de desafogo, como se o coração, libertado de cruciante aperto, pudesse pulsar sem se, contentar em estreito âmbito. Ligeiro torpor lhe invadia os membros que ela tentava em vão estimular, distendendo-os em contorções preguiçosas a lhe desenharem, com harmonioso relevo, as linhas vigorosas, exuberantes de graça.

— Não teimes em esperar, filha – observou a mãe – até fora de horas. – Anda, e fecha bem a porta. Eu não descanso enquanto estiveres aí a rondar de um lado para outro, como quem está malucando.

— Amanhã é domingo, mãezinha. O luar está tão bonito que a gente tem pena de se deitar. Parece dia...

— Que horas são?

— O Setestrelo já está alto e as Três Marias estão descambando. Ainda agorinha tive um susto! Correu uma zelação, que parecia uma tocha.

— Deus a guie. É sinal de desgraça. Anda, anda, vem para dentro, que a friagem te pode fazer mal.

Luzia obedeceu. Depois de fechar a porta, tomou a bênção à mãe; e, desatando os cordões da saia branca, estirou-se, extenuada, na esteira, onde Teresinha dormira tantas noites. E, todavia, mole de fadiga, não pôde conciliar, calmamente, o sono. Torcia-se, mudava de postura, como se o seu corpo robusto excedesse ao molde ali deixado pela amiga ausente, cuja recordação, engastada em seu cérebro, era o carvão da suspeita, comburente, agora, em brasa de remorso.

Ela imitava as desenvolturas da outra, da criatura dedicada, que renunciara a todos os seus hábitos para participar, com a placidez de uma consciência satisfeita, da pobreza e das tristezas daquele mísero lar. Julgava ouvir passos cautelosos, abafados pelo ruído das folhas agitadas pelo vento, e Teresinha e Alexandre lhe apareciam como espectros, exprobando-lhe a injusta desconfiança, e exigindo reparação. Acusada por si mesma, Luzia não se podia defender; a culpa era demasiado evidente. Abandonada pelas energias musculares, que eram o seu estigma, oberada de vergonha, ela suplicou, em atrição, lhe perdoassem; e, como se um filtro purificador lhe lavasse a alma da mácula do cruel pecado, adormeceu no delicioso enlevo de um sonho de ventura inefável.