Luzia-Homem/XXIV

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XXIV


Separando-se de Alexandre, Teresinha, começou de sofrer a extenuante reação do esforço empregado para salvá-lo. Essa generosa empresa, que a seqüestrara à influência deletéria dos hábitos de viciosa passiva, que lhe despertara afetos adormecidos no coração, encrostado ao atrito do infortúnio e lhe deparava a inefável satisfação de ser útil, fora, muitos dias, o pólo da gravitação do seu espírito. Nesse período de agitação do cérebro ocioso e vazio, ela só pensava na iniqüidade do constrangimento de um inocente, no martírio da enxovia imunda, na arrogância petulante de Crapiúna e no cruel insulto, que a chicoteara como um relho. Alcançado o anelo de justiça e vindita, parecia faltar-lhe a razão de viver. As pétalas de sua alma, sob um fino, um suave orvalho do bem, se contraíam tristonhas, como folhas que, saciadas de luz e oxigênio, se encolhem para adormecerem ao avizinhar da treva, e se expandem viçosas ao raiar da seguinte aurora. Ela, porém, se sentia sepultada em noite sem esperança de alvorecer, sem o consolo delicioso do sonho a doirar a ignomínia da realidade, onde imergira, como num tremedal de lama gulosa.

Restava, entretanto, o remate da obra meritória, a felicidade de Alexandre e Luzia; vê-los casados, muito amigos um do outro; e fruir o saboroso quinhão de ventura do lar abençoado. Mas, os dois pareciam separados pela teia de aranha de melindres fúteis ou amarrados ao poste de caprichos injustificáveis. Seria mais nobre, mais humano, se estreitarem em decisivo amplexo, como faria ela, sem ponderar conveniências, escrúpulos, circunstâncias, num arroubo de paixão vitoriosa.

As reservas de Luzia irritavam-na como estulta resistência. E murmurava, caminhando a esmo, injúrias contra ela, recriminações a Alexandre, um mazanzal, que ficava no armazém embiocado de fadiga, quando a liberdade e o amor deveriam restituir-lhe as forças, dar-lhe asas para voar, como um passarinho evadido para junto da criatura querida.

— Arre lá! – exclamava indignada – Que se arranjem, que se separem, cada um para o seu lado. Que me importa!... Bem-querer não é obrigado, nem eu tenho nada com isso. Eu me intrometi demais em negócios alheios... Chega a meter-me raiva tamanha cerimônia entre pobres diabos, que não têm onde caírem mortos, quanto mais vivos...

Considerava depois, que não mudaria o seu destino se eles fossem felizes. Ela seria esquecida, porque o dia do benefício é véspera da ingratidão. Na embriaguez de gozos divinos, não se lembrariam dela que havia sofrido por eles; não teriam uma palavra de dó da pobre Teresinha, mulher à-toa, desprezada como vil trapo humano, atirado ao monturo dos resíduos sociais, vagabunda sem rumo, sem triste vintém para comprar um bocado, carecendo de tudo e não sabendo onde buscar cinco patacas do aluguel do quarto, abandonado, havia mais de mês.

A recordação dessa dívida, surgia a horrível idéia de ser forçada a volver ao poste da infâmia, onde passara noites acocorada à soleira da porta, fumando cigarros, mutuando gracejos torpes com as vizinhas; ou, solitária, bocejando, a lutar com o sono, aguardando o inesperado amante, que a provasse de alimento para o dia seguinte deixando-lhe o imundo bafio hircico de homem luxurioso, impregnado na sua pele. Vinha-lhe, então, invencível nojo à passividade abjeta de coisa que se vende, tábua de lavar roupa, como dissera Crapiúna; assaltava-a o terror de volver àquele lamaçal infecto, como se o contágio da pureza, o exemplo da honestidade impoluta e forte, em combate com a miséria, lhe houvessem infundido no coração, fechado aos afetos sãos e benfazejos, um nobre impulso de amor-próprio. Faltava-lhe, porém, coragem para resistir ao pendor criminoso, volver a trabalhar como as outras desgraçadas, nas obras da Comissão, carregar água, tijolos, areia. Que poderia fazer para ganhar, além da ração, algum dinheiro, uma criatura franzina, desacostumada a esforços musculares, e, por cúmulo de males, aberta dos peitos?...

— Como há de ser, Deus do céu? – exclamava, aflita – Como hei de viver agora, sozinha, sem parentes e aderentes nessa desgraceira!...

E seguia, lentamente, na direção da casa de Luzia, contornando os quintais e as casas extremas da cidade, para evitar o trajeto nas ruas cheias de gente, mendigos, enfermos e a praga de meninos esfomeados.

Na várzea, varada de trilhos claros que riscavam o chão negro, ela encontrou, àquela triste hora da tarde, magotes de retirantes, cobertos de pó, marchando em filas tortuosas, das quais, como de um rastilho de suplício marcado pelas vítimas, se destacavam individuos ou famílias, que paravam emaciados, rendidos de cansaço e se sentavam para repoisarem, recobrarem alento e comporem os andrajos, antes de penetrarem na cidade.

Esse espetáculo de todos os dias, na sua monotonia sinistra, não a impressionava mais, porque se habituara à vizinhança da miséria nas formas mais lúgubres e vis. Vira crianças, a sugarem os seios murchos das mães mortas; cadáveres desses entezinhos abandonados sobre a estrada, devorados por urubus e cães vorazes: criaturas, ainda vivas e exangues, torturadas pelas bicadas de carcarás a lhes arrancarem, aos pedaços, as carnes ulceradas e podres. Vira mães desnaturadas ocultarem em crateras de formigueiros, o fruto de amores criminosos, ou traficarem com filhas impúberes; pais desalmados, incestuosos e delinqüentes dos mais torpes crimes, como se o concurso de todas as dores e de todas as baixezas, condensando-se em enorme e fantástico suplício, os houvera transformado em monstros hediondos, rebalçando-se em lances trágicos de ferocidade inconsciente. Diante dela haviam tombado, fulminados pela fome, indivíduos de aparência sadia e robusta, estrebuchando no chão como epilépticos a tragarem terra aderente aos dedos aangrentos e blasfamarem contra o Deus impassível que os desamparava, os renegava filhos pecadores, condenados, em vida, às torturas daquele inominável inferno da miséria.

Milhares de criaturas haviam sido provadas nesses transes inenarráveis; no entanto, ela havia apenas sofrido o ferrete da ignomínia. Era, pois, incomparavelmente, mais feliz que aqueles pobres alquebrados, que passavam lentamente, restos de uma raça de trabalhadores heróicos e fortes, desbaratada sob o látego do castigo do céu. Se devia cair mais, descer mais fundo no sorvedoiro da infâmia, padecer como aqueles mártires, desejaria ser levada por uma moléstia para a vida onde ninguém sofre.

A sua imaginação desvairada volviam, com esses pensamentos tristes, as figuras de Alexandre e Luzia: ela caminhando para a praia, confundida no êxodo, conduzindo a mãe estropiada; ele, feliz, bem colocado no emprego e apoiado na confiança dos Comissários. E não se conformava com o romance passional sem desenlace, empatado pelo egoísmo de ambos.

Desviando-se, insensivelmente, Teresinha foi ter ao sobpé da encosta íngreme cerrada pelos rochedos, chamados Fortaleza, nos quais terminava o renque de casas da Leonor, onde morava Rosa Veado. Aí o caminho, que era uma breve ladeira cavada entre pedroiços, estava obstruído por um grupo de três indivíduos, uma família que subia a passo tardo, tangendo um velho burro, pelado e esquelético, carregando duas malas e, no meio da carga, os utensílios domésticos e o oratório de cedro envernizado, cheio de santos. Um velho, de longas barbas brancas, puxava o animal pelo cabresto; ao lado, ia a mulher, também idosa, de formas cheias; atrás, marchava uma rapariga loira, de corpo franzino e flexível, acusando o despontar da adolescência. O burro, de grandes orelhas bambas, vacilava a cada passo, e era animado pelos seus condutores com palmadas carinhosas nas ancas, estalidos de lábios soando como largos beijos, e vozes de estímulo. Mas o mísero bufava, arquejava, e mal se podia equilibrar sobre as patas corridas de suor, trêmulas, hesitantes.

— Que maçada! – resmungava Teresinha, obrigada a seguir o moroso grupo, parar quando ele parava, a marchar com ele, bem chegada à mocinha loira – Esta só a mim acontece...

Entretanto, o animal, vergado de fadiga, tirava-lhe funda piedade. O oratório, encimado pela pequena cruz singela, a balançar surgindo dentre o amarradio de cordas de crina, evocava meiga saudade, fantasmas de anjos esvoaçando através de sua memória obscurecida, recordações vagas, místicas comoções, talvez provocados pela parte dos santos no infortúnio dos adoradores, aquela família de crentes, que não os abandonava, como tutelares do lar vazio.

— Vamos, vamos! – dizia a mocinha ao animal – Caminha mais um bocadinho; estamos quase em riba.

Essa voz tinha sonoridade consoante às recordações de Teresinha; era a de uma pessoa querida, morta, ou, havia muito, ausente, depois de feliz encontro na sua carreira aventurosa pelo mundo. Quem seria? Onde ouvira falar aquela criatura, que lhe alvoroçava o coração? E à revolta contra o obstáculo, sobreveio intensa curiosidade de ver a mocinha, de saber quem era.

O burro, com supremo esforço, deu mais alguns passos e chegou ao cimo da pequena ladeira, junto dos grandes molhes de granito retangulares e erguidos a prumo, como ameias de uma fortaleza. Aí, como se houvesse esgotado o alento, vacilou, respirou com força; soltou um surdo gemido doloroso e caiu aniquilado, contemplando com os grandes olhos súplices, o velho que puxava o cabresto para lhe suspender a cabeça, ao passo que a moça tentava erguê-lo pela cauda.

— Aliviemo-lo da carga – ordenou o velho – Está afrontado, pobre Macaco... Também há três dias que nem retraços tem comido.

O caminho estava desobstruído e franco; mas Teresinha apiedada do pobre animal, estacara trêmula e lívida, cosida aos rochedos, numa postura de horror, pregando o olhar esgazeado no grupo sugestivo, a poucos passos de distância.

— Macaco! Será possível! – gaguejou ela, espavorida.

Vendo-a ali parada, a mocinha se dirigiu a ela:

— Minha senhora, faça a esmola de nos dar uma mãozinha para tirarmos a carga daquele pobre.

— Maria da Graça! – bradou Teresinha.

— Sa dona conhece-me? Minha Nossa Senhora!... É... é...

Maria recuou, transida de susto, mal confiando nos seus olhos.

— Que é?... – perguntaram, a um tempo, os dois velhos, muito empenhados em tirar o oratório de cima do burro, imóvel, estirado no chão.

— É... é a Teresa – respondeu a mocinha, com um grande gesto de espanto.

— Teresa! minha filhinha!... – exclamou a velha, num grito de surpresa alegre, no qual retumbava a ternura toda do coração de mãe. – Tu!... tu aqui?

E, atirando-se à filha, enlaçou-a nos braços, beijando-a com apaixonado frenesi na face, na fronte, nos cabelos, como quem sacia longa e cruel sede de amor.

Hirta e gelada, desfigurado o rosto por violentas contrações de estupor, e lívida como um morto, Teresinha não pôde fazer um gesto; mas, a carícia maternal lhe agitava todas as febras do coração, e todo o seu corpo tremia convulsionado. Só os olhos espantados, viviam, cintilando com uma lucidez ingênita.

— Teresa, filha da minha alma, - continuou a mãe – Deus te abençoe! Minha Virgem Santíssima, é ela mesma!... Seu Marcos, veja, é a nossa filha!...

O velho erguera-se. As grandes barbas, alvejando à luz do sol poente, davam venerando relevo ao esquálido rosto, macerado, tostado pelo mormaço do sertão. Os pequenos olhos azuis, de um azul de céu empoeirado de neblinas, brilhavam no fundo das órbitas sombrias, com um bruxuleio de lâmpada de santuário. Na postura, nos andrajos e na voz soturna e firme, corporizava a nobreza da miséria da miséria superior.

— Teresa de Jesus! – murmurou ele, com um suspiro, que lhe assomou aos lábios, como um silvo de tormenta – Já pedi a Deus que perdoasse os seus pecados. Estes santos, que nos acompanham, sabem que rezei por ela, como um pai reza por uma filha ingrata, perdida e morta.

Ao choque destas palavras de condenação implacável, Teresinha cambaleou, e caiu prostrada de dor, nos braços da mãe angustiada.

Maria da Graça contemplava, muito aflita, o pai e a mãe, e, no transe incompreensível, considerava a intensidade da cena, dolorosa, inconsiderável.

— É nossa filha, seu Marcos – continuou a velha, acariciando a filha e conchegando-a ao seio. – Tenha dó dela, meu marido do coração! Veja como está acabada a nossa filhinha!...

— Você sabe, mulher – gemeu Marcos – que já padeci por ela todas as dores deste mundo...

— Também ela tem sofrido... É uma infeliz...

— Infeliz! assim foi de sua vontade...

— Seu Marcos...

— Sabe que mais, mulher? Vamos cuidar deste pobre animal, nosso amigo velho, que não nos abandonou e está aqui morrendo por nossa causa... Ah! os bichos têm, às vezes, mais coração que as criaturas.

— Meu pai! – soluçou Teresinha, como se as duras palavras lhe estrangulassem as entranhas.

Ele, porém, parecia intangível. A súplica da filha, queixumes de alma penitenciada a estorcer-se no silício da vergonha não ecoou no coração, donde ele arrancara, num paroxismo de opróbio, a poluída imagem da pecadora, que não podia volver a profanar o tabernáculo do culto incondicional à honra e à integridade da família. No peito lhe ficara um buraco lúgubre, o ninho vazio transformado em cova, encerrando, para sempre, um sublime afeto estiolado.

A um gesto imperativo do pai, Maria da Graça, despertada da estupefação que lhe gelava o sangue nas veias, o ajudou a desatar a troixa de redes, as azelhas dos dois baús, cobertos de coiro cru e tauxiados de pregos doirados e, por último, as cilhas da cangalha que, retirada do suarento dorso do burro, lhe expôs as mataduras da espinha, as chagas rubras dos omoplatas, sobre as quais vieram adejar, zumbindo, grandes varejeiras, de asas nacaradas e revestidos de cintilantes coiraças, oxidadas de verde metálico. No espaço voavam, em largas espirais, urubus famintos, dos quais alguns mais ousados se despenhavam, de asas quase fechadas, até perto dos rochedos, onde poisavam, aguardando o abundante repasto da carniça ainda viva.

Macaco, aliviado da carga, tentava erguer-se sobre as pernas dianteiras, rolando um olhar de terror para os lúgubres pássaros, que pontuavam de negro as arestas das rochas, mas, faltavam-lhe as forças e recaia ofegante.

— Se ao menos – dizia Marcos – houvesse por aqui uma pouca d'água e alguns retraços...

Clara, indiferente à sorte do animal, acariciava e consolava a filha desditosa:

— Tem paciência, meu coração. Teu pai tem ímpetos de crueldade, mas passam, porque a alma é de oiro. Coitado! Sofreu tanto por ti...

— Tem razão... tem razão, mamãe – gemia Teresinha. – Sou uma ingrata, uma doida, mas... assim mesmo... não sou tão ruim que mereça menos compaixão que este animal...

E entrou a chorar em convulsão, murmurando frases inteligíveis, que o pranto e os soluços entrecortavam.

— Seu Marcos, meu marido da minha alma – suplicava a mãe. – Tenha pena desta pobre.

— Ah! papai – balbuciou, trêmula, Maria da Graça – tenha compaixão dela... Coitadinha de Teresa...

— Era melhor – resmoneou o velho, abalado pelas lágrimas da mulher e da filha caçula, que era o seu ídolo. – Melhor seria que essa mulher, em vez de estar ai a chorar, ela que conhece a cidade, nos ajudasse, mostrasse que ainda tem préstimo...

Teresinha ergueu-se de repente; enxugou o rosto na saia e partiu. Sabia que Rosa Veado morava perto, no renque de casas da Leonor, e foi procurá-la, seguida pelos olhares da mãe e irmã, tomadas de surpresa, ao passo que o velho teimava em reanimar o burro com palavras afetuosas.

Pouco depois ela voltou, trazendo uma grande cuia cheia d'água... Pressentindo o precioso líquido, Macaco nitriu surdamente, como se sorrisse de satisfação; ergueu a cabeça e, agitando os grandes lábios negros e ávidos, a sorveu, a longos, a ruidosos tragos.

— Deus lhe pague – disse o velho, restituindo a Teresinha, cuia vazia. – Disseram-me que era possível encontrar aqui uma, pousada, um tecto caridoso, onde pudéssemos descansar da viagem através desse sertão ingrato.

— Deram-me – balbuciou Teresinha, hesitante de medo – chave daquela casa, a casa da fortaleza, onde ninguém mora há muitos anos, porque é mal-assombrada...

— Virgem Maria!... Credo! – exclamaram Maria da Graça e Clara, numas projeções espavoridas de olhos sobre a velha prumada, cujas paredes, esburacadas e marcadas de grande reboco, pareciam apoiadas nos rochedos. Ervas morta das goteiras desdentadas, donde esguichavam piando, em desordenado vôo, grandes morcegos, estonteados pela tênue luz crepuscular.

Pouco depois, o grupo estava cercado de moradores da vizinhança, cada qual mais curioso e empenhado em socorrê-lo. Vieram em seguida, e quase sobre os passos de Teresinha, Rosa Veado e o Chico, um guapo tipo de homem; a Marciana que mantinha, nas proximidades, uma bodega bem sortida e possuía já algumas libras de oiro em obra, comprado aos retirantes a troco de gêneros alimentícios; e, esgueirando-se por entre os circunstantes, o bando infalível, barulhento de meninos, os mais pequenos nus, os outros enrolados em trapos, em molambos.

— Anda, Francisco – ordenou Rosa ao filho – dá um adjutório a estas criaturas... Abre a casa; leva as malas...

— Amanh㠖 exclamaram os meninos, tripudiando em volta do burro – urubus têm festas! Este mesmo está aqui e está no céu das formigas!...

Rosa Veado tomou o oratório; beijou-o, com reverência, que outras mulheres, outras devotas, imitaram, silenciosamente.

— O senhor – observou ela ao velho Marcos – tem coragem. Eu não passava a noite naquela casa amaldiçoada, nem que me matassem.

— Eu só tenho medo dos vivos – ponderou o velho.

— É que vossa mercê não sabe o que nela se tem dado, coisas de arrepiar coiro e cabelo...

— Que me importa visagens e almas do outro mundo, ou artes do demônio? Por ora, eu careço, que me arranjem alguma coisa para matar a fome deste animal...

— Não é difícil – atalhou Marciana. Mas, o senhor deve saber que o milho está pela hora da morte...

— Ainda tenho meios, graças a Deus, e, além da paga, ficaria agradecido.

Marcos desatou da cintura uma faixa elástica, tecida de algodão, e tirou dela alguns patacões de prata. A vista das moedas, desapareceram as hesitações de Marciana, que se desmanchou logo em cumprimentos e palavras de pesar pela sorte da família e prometeu prove-la, sem demora, do necessário, preparando a casa mal-assombrada para aboletá-la com a possível comodidade naquela noite.

Não era raro aparecerem, entre os retirantes, famílias abastadas que haviam abandonado os lares, levando dinheiro e jóias sem valor por não terem o que comprar, mesmo a preços exorbitantes. Marcos, depois de inútil resistência, viu-se nessa triste situação. De esperança em esperança de mudança de tempo, vira os gados morrerem nos campos devastados; consumira, com parcimônia cautelosa, as provisões acumuladas, os surrões de farinha de mandioca, os paiós de milho, arroz em casca e feijão; as matalotagens em salmoira ou empilhadas se esgotaram por encanto, porque não tivera coragem de recusar esmola aos famintos que passavam pela sua fazenda. Os vaqueiros, agregados e pessoal de fábrica, empregados na labutação de criadores e agricultores, na maioria escravos velhos e crias de casa, não tinham que fazer; eram bocas inúteis. Alforriou-os deu-lhes liberdade para ganharem a vida.

Cansado de resistir e lutar, aguardando, em vão, sinais de inverno, viu-se, afinal, só, sem um amigo, um companheiro, um vizinho, numa redondeza de dez léguas, exposto aos assaltos de bandidos, que enchiam a região, e resolveu emigrar. Arrumou em algumas malas o indispensável, a roupa da família e algum dinheiro, enterrando o resto com a prataria, velha baixela e jóias numa brenha de serrotes ásperos e pedregosos. Organizou o comboio com três burros e outros tantos cavalos de sela, e partiu na direção de Sobral, a cidade intelectual, rica e populosa, empório do comércio do norte da província, na qual o Governo estabelecera opulentos celeiros.

Na longa e penosa travessia, à falta d'água e pasto, morreram os cavalos, depois dois burros. Foi forçado a abandonar malas, reduzir as cargas a uma só para que Macaco, o animal sobrevivente, a pudesse agüentar. Pela primeira vez na vida, tiveram de viajar a pé, a curtas jornadas, para não fatigarem o animal e poderem suportar, sem se estropiarem, a penosa marcha de exílio.

Muita vez, arranchados à sombra de oiticicas frondosas, oferecera um patacão por uma cuia d'água. Os raros bebedoiros subsistentes ficavam longe da estrada real: era preciso fazer enormes desvios para os alcançar. Cortava-lhe o coração ver a filha, a meiga Maria da Graça, descorado o rosto de criança na moldura dos cabelos de oiro, rendido o frágil corpo, os pezinhos dilacerados pelas agruras dos caminhos e veredas, os rubros lábios ressequidos e rachados, as entranhas devoradas pela sede, adormecer no regaço da mãe, também mortificada, mas resistindo resignada, com esse valor divino que torna invencíveis as mães aflitas.

Ele sofria a tortura inigualável de não a poder socorrer, mesmo com o sangue de suas veias; de pedir, em vão, ao céu luminoso, impassível, sorridente, a gota de orvalho que alentasse aquele lírio, nascido nas ruínas de sua alma, a vergar emurchecido, tostado pelo sol inexorável, quando, no delírio da febre, a pobrezinha, com ânsia, balbuciava: "Água... água, papai!"; e ele via dos olhos da mãe, resignada e heróica, a implorar misericórdia ao Deus de amor e justiça, por intercessão daqueles santos companheiros de infortúnio, rolarem grossas lágrimas silenciosas.

Quando algum comboieiro lhe cedia, de graça, a metade da sua borracha d'água salobra, recusando a pródiga paga por não ter ânimo de vendê-la a cristãos, Marcos, superior às dores físicas, sorria de alegria de ver saciadas e salvas da morte horrível as criaturas idolatradas e o fiel animal, e apenas umedecia os lábios e sentia alentarem-se-lhe as indômitas energias para chegar ao termo da dolorosa viagem pelo sertão combusto.

— Deus é grande! – exclamava, em arroubos de fé inquebrantável. – Coragem, mulher, ânimo filhinha!... Vamos para adiante, parar aqui é morrer!... Mais alguns dias, estaremos salvos!...

A salvação estava em Sobral, na cidade formosa e opulenta, o oásis hospitaleiro anelado pelas caravanas de pegureiros esquálidos.

E chegaram, padecendo todas as inclemências da jornada, caminhando à noite para evitarem a torreira do sol. Por inculcas, souberam que no subúrbio da cidade, poderiam encontrar um rancho, modesto abrigo, onde pudessem esperar dias menos aflitivos.

A casa mal-assombrada era quase uma, tapera. O repuxo das paredes; os esteios esconsos, cobertos de colmeias abandonadas; o tecto, velado sob empoeiradas colgaduras de teia de aranha; o telhado desfalcado, invadido de ervas mortas; as portas emperradas e o chão, aluído por túneis de formigueiros, sinalavam longo abandono. Essa vivenda maldita, preservada pela superstição, estivera sempre fechada. Ninguém lhe conhecia já o proprietário, cujo procurador, morto havia muitos anos, deixara a chave à custódia de Marciana.

Ao penetrar no asilo de duendes, onde se ouviam, à noite, gemidos lancinantes, rumores de correntes arrastadas assobios diabólicos, Rosa Veado, que se encarregara de prepará-la para aboletar os hóspedes, persignou-se, balbuciou uma Ave-Maria e acostou-se às outras mulheres, apiedadas da família de Marcos. Mal acenderam a vela, uma coruja espantada esvoaçou, gaguejando pavorosa gargalhada de louco, e enormes vampiros agitaram a luz, o ar deslocado pelo remígio das grandes asas desvairadas.

— Credo! – gritaram as mulheres, recuando de medo. – Te desconjuro, pé-de-pato!

Passado o susto, entraram e vasculharam, num instante, a sala, impregnada de forte cheiro de estrume de morcego.

Uma levou as redes e as atou aos cantos nos armadores enferrujados; outra sobraçou, reverente, o oratória que foi colocado sobre uma das malas conduzidas pelo Chico, que foi depois à venda da Marciana buscar um pote d'água e um caneco de folha-de-Flandres novo. Apareceu, por sua vez, a bodegueira, trazendo um bule com café, três casais de xícaras de ruim louça, esmaltada de flores vermelhas, um pires com açúcar escuro mascavado, e algumas roscas e bolachas, duras como pedra.

— Aí está, seu capitão – disse ela a Marcos – Já tem onde encostar o corpo e o que foi possível arranjar para entreter a barriga. Até amanhã. Vossa senhoria deve ter o corpo pedindo rede... Com Deus amanheça. Se percisar de alguma coisa, é só bater na derradeira porta da esquina.

Marcos contemplava, penalizado, o burro, que Teresinha alimentava com punhados de milho amolecido; tomou Maria da Graça pela mão, e recolheu-se.

— Vai dormir, filhinha...

— E mamãe?

— Está com a outra, tratando o Macaco. Virá mais tarde.

Clara ficara ao lado da filha infeliz, amimando-lhe os cabelos, dirigindo-lhe palavras de amor e conforto, e recomendando-lhe que suportasse, com paciência, as explosões da cólera paterna, até conseguir ser abençoada.

— Ele tem razão, mamãe – balbuciava a moça, com voz embargada pelo hercúleo esforço para conter o pranto. – É o castigo, castigo merecido pelos meus pecados, que são muitos. Não peço que me perdoe, mas tenho padecido tanto com o abandono, que não poderei mais viver sozinha no mundo. Rogue a papai que não me bote para fora de casa. Embora não me tenha mais como filha, porque morri para ele, deixe que eu fique, como negra cativa. Tratarei o Macaco, carregarei água, tomando conta da cozinha, da roupa, pois não me desprezo de fazer todo o serviço.

— Sei que não és má, filha do coração. Foi aquele malvado, meu Deus perdoai-me, que te botou a perder... Eras uma criança... – Não o culpe, mamãe. Cazuza era bom e me quis bem até morrer. Só depois de ficar sem ele foi que me senti na desgraça, por não ter vivalma caridosa que me amparasse.

— Por que não voltaste?

— Tive medo e... vergonha. Faltou-me coragem para afrontar a ira do papai...

Passaram as duas horas conversando, e alimentando, aos poucos, o precioso muar desfalecido. Por fim, teve Clara de obedecer aos repetidos chamados do marido para não o exasperar.

— Anda – disse ela. – Teu pai já está impaciente. Vem comigo.

— Não preciso de descanso. Vá, mamãe, que ficarei vigiando este pobre.

Clara imprimiu-lhe na fronte um longo beijo, e partiu, murmurando: Pobre filha! Deus te abençoe. Parece que lhe quero ainda mais por ser infeliz.

O rígido velho, curtido de preconceitos e fechado o coração nas resoluções inabaláveis, como num túmulo, não podia conciliar o sono. A espaços, erguia-se da rede, ia à porta, sempre aberta; contemplava a filha culpada, acocorada ao lado do burro enfermo; e, no misterioso silêncio da noite estrelada, ouvia um murmúrio dolente, um estertor de fonte, que se estanca, o pranto de Teresinha velando o animal para que os urubus, postados nas arestas dos rochedos, como vedetas sinistras, não o devorassem vivo.