Luzia-Homem/XXIII

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XXIII


Nunca estivera Luzia mais atenta, mais solícita na ocupação de diretora das meninas costureiras. Fingindo indiferença aos comentários e informações, resmungados de grupo em grupo, sobre o extraordinário caso do dia, às perguntas indiscretas, alheia aos gracejos inofensivos, levemente maliciosos, das companheiras de trabalho, respondia com meias palavras, com evasivas curtas de quem se não quer importunar de olhares impertinentes, de mexericos, de insinuações. Mas, as meninas mais taludes cochichavam a respeito da mestra; trocavam gracejos contemplando-a, de soslaio, muito espantadas de que ela não acompanhasse o contentamento dos amigos de Alexandre, que eram, então, muitos, quando devera ser a mais interessada no desfecho do aleive urdido pelo celerado Crapiúna.

Notava-se-lhe, no entanto, certo cuidado excepcional no arrumo dos cabelos em grossas tranças luminosas, dum brilho escuro de cobras negras, a escolha do vestido de chita cabocla, guarnecido de rendas, e as posturas faceiras, a disfarçarem o alvoroço do coração. Seus olhos, onde brilhavam lampejos fugaces, se fitavam, a curtos intervalos, na foz da larga estrada da cidade, e seus ouvidos, com avidez aguçado, colhiam frases soltas, palavras esparsas dos trabalhadores que chegavam, e traziam notícias últimas dos últimos acontecimentos.

— Estive na Casa da Câmara – dizia um – Tem gente que faz medo. A sala estava atopetada, e os soldados não deixavam mais entrar o povo que se espalhava por fora, pela escada do rendenguel abaixo, até à rua. Ouvi dizer que a Chica Seridó contou tudo...

— Eu vi o Crapiúna – afirmava outro – Estava como uma onça acuada. Os olhos pareciam duas brasas.

— Não viste a Gabrina? – inquiriu uma mulher – Pois eu tive pena dela. Fazia apertos no coração. Tão moça, tão bonitinha e faceira e implicada na história do roubo. Eu, Deus me livre de tal, se me visse em semelhante vergonheira, era capaz de morrer.

— Foi sempre uma desmiolada – acentuava uma velha - Conheço-a desde menina. Era um diabinho em figura de gente. Também a mãe, Deus perdoe os seus pecados, não se importava com ela; fazia-lhe todas as vontades... Sempre digo que essa criação d'agora não presta. Filhos muito senhores de si, por qualquer descuido, se desgarram. Os meus não punham pé em ramo verde. Muito amor, mas muito respeito e cabresto curto.

— Nestes tempos de miséria – ponderou um carpinteiro idoso – ninguém tem folga para cuidar da criação dos filhos. Vão se criando ao Deus-dará, como filhos de pobre.

— Os mais bem criados não estão livres de uma desgraça. Não valem cuidados, nem vigilâncias; a miséria entra pelas gretas das fechaduras, empesta o ar e tira o juízo.

— Quando saí – informou um recém-chegado – a Chica ainda estava falando. Ela, que tem partes com o demônio, estava se, vendo para explicar a embrulhada das sacas de feijão e de farinha recebidas de Crapiúna, os cortes de vestido e os brincos de oiro. Imaginem vocês que aquela inocente, passada pelos corrimboques, não maldou. Se eu fosse delegado, ela ia, mas era pra cadeia, para não se fazer de besta, pensando que os outros têm um tê na testa.

— Ladina como ela só... Quem a ouvir, não a leva presa.

Luzia não perdia uma sílaba do que se dizia. Colhia, aqui e ali, fragmentos de narrativas, observações, notícias incompletas, que devorava na ânsia de saber tudo, principalmente o que concernia a Gabrina e a Alexandre, de quem não haviam ainda falado. E Teresinha? Onde se metera? Por onde andava que não vinha para dar-lhe, como prometera, informações seguras, anunciar-lhe a feliz nova da libertação do preso, ou trazê-lo?

Correram horas de ansiedade, da pungente tortura de esperar, suportada de rosto sereno, onde não havia uma contração de impaciência.

As sombras informes da penitenciária, das grandes paredes de andaimes complicados, se alastravam pela encosta do morro; o anilado perfil das serranias se esfumava em turva neblina de mormaço, e a viração, caída como um hálito de febre, revolvia o pó em torno das moitas mortas, rugia nas palhas dos alpendres e barracas, anunciando o pendor do sol para o ocaso flamejante.

Do alto do morro ela divisava a faixa de oiticicas seculares, marcando o contorno do leito do rio estanque, e a cidade, como um enorme crustáceo farto à sesta, as torres da matriz alvejando em plena luz, o vermelho, o vasto telhado da casa da Câmara, no qual, tanta vez, demorara o olhar saudoso e compadecido do homem querido, sofrendo, ali, aviltante prisão, e donde ela, enternecida, esperava, agora, ver alar-se o anjo da esperança triunfante. Mas, não partia de lá, nem o eco de uma voz de alvíssaras, nem um sinal auspicioso animava a paisagem, tocada de tons quentes de brasa, numa imobilidade de coisa morta, num silêncio triste de sítio desolado, quando ela desejava que a natureza, as coisas vivas, as coisas mortas participassem da sua ansiedade, do seu desejo quase raro, quase ignorado.

As meninas cosiam, diligentes, agrupadas em derredor da mestra, numa garrulice de passarada inquieta. Ranchos de operárias davam a última demão ao trabalho do dia; retirantes fatigados da derradeira caminhada se aliviavam das cargas de material, e os feitores contavam e notavam em cadernos apolegados, o pessoal que vinha chegando lentamente.

Apareceu por último, Raulino, rúbida figura de bretão, muito alto, muito magro, de músculos túmidos, os revoltos cabelos ruivos empoeirados, erguidos em trunfa sobre a fronte tostada.

— Então? – inquiriu Luzia, erguendo-se a encontrá-lo.

— Está solto. Não o vi, porque havia gente como formiga defronte do armazém. Teresinha saiu com ele. Estava desfigurado, dizem, como quem se levanta da cama de moléstia maligna. Credo! Parecia um defunto em pé.

— Não falou com ele?

— Fiz o possível; mas tinha pressa de chegar aqui antes do ponto.

— Está mesmo livre. Não é, seu Raulino?

— Tão livre como eu, que lhe estou falando. Também não foi sem tempo, porque se o pobre ficasse mais alguns dias na cadeia, talvez fosse desta para melhor. Saía dali para a cova.

— E agora?...

— Agora... é cuidar da saúde, e trabalhar. Pobre não tem direito de ficar doente. Barco parado não ganha frete...

— Acha que ficará bom?

— Alexandre é rijo e moço. Com alguns dias de ar livre, fica capaz de outra, do que Deus o livre. Aquilo é madeira de lei; o cupim da moléstia há de custar a roê-la.

— Ainda bem.

Luzia voltou-se para as meninas, e ordenou-lhes que dobrassem as costuras, embora não soasse ainda a hora de terminar a tarefa. Pensou, então, em abandonar o trabalho, voar a casa, onde, talvez, a estivesse Alexandre esperando, ansioso. Mas, primeiro a obrigação, o cumprimento do dever remunerado pelo pão de cada dia. E ficou, aparentemente, calma, resignada à lentidão do tempo, porque o sol, que o governava, como que havia parado, desceu escandescido, na calma imensidade de oiro alastrado.

Dona Inacinha errava, rabujenta, entre as turmas de costureiras, resmoneando censuras graves, cheias de desgosto.

— Tudo muito mal feito, obra albardeira, mal-acabada e feita à pressa: não paga o pirão que custa.

— Vocês mesmo – continuava, com asperezas fanhosas de voz, traindo a irritarão incoerente de celibatária – não se emendam. O que lhes digo sobre o serviço entra por uma orelha, e sai pela outra. Estas costuras encardidas bem mostram que foram feitas por porcalhonas. Vejam as da Luzia. Dá gosto lidar com uma pessoa assim cuidadosa e cumpridora dos seus deveres. Os pospontos parecem feitos por máquina. Vocês me põem doida. Estou vendo a hora de perder a paciência e o juízo. Se vivem grazinando na conversa, em vez de olharem para o que estão fazendo.

E mais rubro se acendia, riscado de veiazinhas tensas, o grande nariz da beata, montado de grandes óculos cintilantes.

Quando chegou a turma de Luzia, estranhou que as peças costuradas já estivessem todas arrumadas em pilhas.

— Como? Tão cedo, e já acabada a tarefa?

— É que eu – observou Luzia, enleado – desejava sair hoje mais cedo...

Por que não me disse há mais tempo? Pode ir. Você merece contemplações. Dá conta do serviço, como uma moça de vergonha.

Acrescentou depois, sorrindo, com ironia, e cravando nela os pequeninos olhos maliciosos:

— Hoje é dia grande para você, sua sonsa. Já me disseram: sei tudo. Vá, ande, e seja bem sucedida. Como é para bom fim, não me importa de dar-lhe um sustozinho...

Luzia corou; agradeceu o favor, e partiu veloz, açoitada pela ventania morna e violenta que lhe relevava as formas, colando-lhe, como uma túnica de estátua, o vestido ao corpo, mal disfarçando os graciosos contornos, modelados por inspirado escopro.

O coração pulsou-lhe inquieto, ao avistar o tecto da casinha, vergando ao peso das telhas enegrecidas pelas intempéries, deslocadas pelos tufões. Naquele abrigo, onde gemia a mãe doente, e que ela amava como lugar do sofrimento dos fortes resignados e dos crentes; naquele sítio, onde Alexandre lhe propusera viverem eternamente juntos, ligados pelo mesmo afeto espontâneo e sincero, e lhe dera os cravos vermelhos que lhe haviam envolvido o coração com raízes vigorosas, e o inebriaram com o seu perfume suavissimo; sob aquele tecto velho, a vacilar sobre as forquilhas de aroeira, passara dias de amargura, noites de vigília torturantes, e os momentos mais venturosos de sua existência humilde, ignorada; e ali, àquela hora melancólica, contrastando com as pompas deslumbrantes do crepúsculo, encontraria a satisfação dos seus supremos desejos.

Exausta da caminhada, estacou para tomar fôlego e consertar as vestes, como quem se aparelha para um lance de efeito. Prosseguiu, lívida e trêmula, com precauções de menina criminosa na iminência de castigo merecido.

A latada do alpendre estava deserta. Sobre a trempe fumegava uma grande panela de barro. Os utensílios domésticos estavam arrumados no jirau. O silêncio, um silêncio triste de abandono, era interrompido pelo queixume triste dos ganchos de ferro, donde pendia a rede, em que a mãe se baloiçava, defronte da porta do quarto escancarada.

— Que é isto? – perguntou-lhe a velha – Supus que viesses com Alexandre...

— Não – respondeu ela. – Vim do morro.

— Não foste à cadeia?

— Fui trabalhar.

— Que modos, filha? Esperava ver-te alegre e ditosa...

— Quem sou eu para merecer tanto?

— Tens alguma coisa? Estás cansada, não é?... Sempre digo que te matas sem proveito com os teus excessos de labutação.

— Teresinha não apareceu?

— Não.

— Sabe que Alexandre já está livre?

— Deus seja louvado!

— Agora vamos cuidar de nós – concluiu Luzia, atirando o manto branco sobre a corda atravessada ao canto do quarto. E, voltando ao alpendre, tratou do jantar da doente, que a seguia com os olhos carinhosos, olhos de mãe.

— Bem mereço este castigo. Sou eu a culpada. Abandonei-o por soberba, capricho... Teve razão. Não devia perguntar por mim – murmurou, enchendo de caldo a tigela. – Eu, no lugar dele, não viria atrás de uma ingrata feroz... Ah! os homens nada desculpam; não perdoam... São vingativos porque não são capazes de querer bem como nós, que, por eles, esquecemos tudo...

— Que tens, filha? – repetiu a velha, recebendo o caldo fumegante. – Choraste?

— Não – respondeu ela, a voz salteada, comovida. – É a fumaça que me faz arder os olhos...

E sentou-se à soleira da porta, desmanchando, lentamente, as bastas tranças, do lustre fulvo da asa da caraúna, as tranças que vendera por causa dele, dessa criatura ingrata, que os seus olhos, flébeis de decepção e de saudade, procuram, em vão, topar, de súbito, surgindo onde o caminho torcia, encoberto de moitas mortas de mofumbas e juremas, a cujos galhos, desordenadamente hirtos, contorcidos, a ventania vultarna dava movimento, gestos de aflição, nuns silvos de estertor.