Música do Parnaso/Dedicatória

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Música do Parnaso por Manuel Botelho de Oliveira
Dedicatória


Ao Excelentíssimo

Senhor D. Nuno Álvares Pereira de Melo, Du­que do Cadaval, Marquês de Ferreira, Conde de Tentúgal, Alcaide-mor das Vilas e Castelos de Olivença, e Alvor. Senhor das Vilas de Tentúgal, Buarcos, Vila Nova Dansos, Rabaçal, Alvaiazere, Penacova, Mortágua, Ferreiradaves, Cadaval, Cer­cal, Peral, Vilaboa, Vilarruiva, Albergaria, Água de Peixes, Mujem, Noudar e Barrancos: Comenda­dor das Comendas de Grândola, Sardoal, Eixo, Morais, Marmeleira, Noudar e Barrancos. Dos Conselhos de Estado, e Guerra, e do despacho de mercês, e expediente. Mestre-de-campo, Gene­ral da Corte, e Província da Estremadura junto à pessoa de Sua Majestade, Capitão-general da Ca­valaria da mesma Corte, e Província da Estrema­dura junto à pessoa de Sua Majestade, Capitão-general da Cavalaria da mesma Corte, e Provín­cia, Presidente do Desembargo do Paço etc.

Célebre fez em Fócio ao Monte Parnasso o ter sido das musas domicílio, mas se nisto teve a fortuna de ser talvez o primeiro, não faltou quem lhe tirasse a de ser único. Essa queixa pode formar da famosa Grécia, para cujas interiores províncias se passaram as musas com tanto em­penho, como foi o que tiveram em fazer aque­le portento da sua Arte, o insigne Homero, cujo poema eternizou no Mundo as memórias da sua pena e do seu nome. Transformou-se Itália em uma nova Grécia, e assim, ou se passaram outra vez de Grécia, ou de novo renasceram as mu­sas em Itália, fazendo-se tão conaturais a seus engenhos, como entre outros o foram no do fa­moso Virgílio e elegante Ovídio, os quais, vulga­rizada depois, ou corrupta a língua latina, na mesma Itália se reproduziram no grande Tasso e delicioso Marino, poetas que entre muitos flo­resceram com singulares créditos e não meno­res estimações. Ultimamente se transferiram para Espanha onde foi e é tão fecunda a cópia de poetas, que entre as demais nações do Mundo parece que aos espanhóis adotaram as musas por seus filhos, entre os quais mereceu o culto Gôngora extravagante estimação, e o vastíssimo Lope aplauso universal; porém em Portugal, ilus­tre parte das Espanhas, se naturalizaram, de sor­te que parecem identificadas com os seus patrí­cios; assim o testemunham os celebrados poe­mas daquele lusitano Apoio, o insigne Camões, de Jorge Monte-Maior, de Gabriel Pereira de Cas­tro, e outros que nobilitaram a língua portugue­sa com a elegante consonância de seus metros.

Nesta América, inculta habitação antigamen­te de bárbaros índios, mal se podia esperar que as Musas se fizessem brasileiras; contudo quise­ram também passar-se a este empório, aonde como a doçura do açúcar é tão simpática com a suavidade do seu canto, acharam muitos enge­nhos, que imitando aos poetas de Itália, e Espa­nha, se aplicassem a tão discreto entretenimento, para que se não queixasse esta última parte do mundo que, assim como Apoio lhe comunica os raios para os dias, lhe negasse as luzes para os entendimentos. Ao meu, posto que inferior aos de que é tão fértil este país, ditaram as Mu­sas as presentes rimas, que me resolvi expor à publicidade de todos, para ao menos ser o pri­meiro filho do Brasil que faça pública a suavida­de do metro, já que o não sou em merecer ou­tros maiores créditos na Poesia.

Porém encolhido em minha desconfiança, e temeroso de minha insuficiência, me pareceu logo preciso valer-me de algum herói, que me atentasse em tão justo temor, e me segurasse em tão racionável receio, para que nem a obra fos­se alvo de calúnias, nem seu autor despojo de Zoilos, cuja malícia costuma tiranizar a ambos, mais por impulso da inveja, que por arbítrio da razão: para segurança, pois destes perigos soli­cito o amparo de Vossa Excelência, em quem venero relevantes prerrogativas para semelhan­te patrocínio; porque se é próprio de príncipes o amparar a quem os busca, Vossa Excelência o é não menos na generosidade de seu ânimo, que na regalia de seu sangue, com cuja tinta trasla­dou em Vossa Excelência a natureza o exemplar das heróicas prendas de seus ilustríssimos progenitores, de quem como águia legítima não de­generou a Sua Soberania: a Vossa Excelência ve­nera o estado do Reino por Conselheiro o mais político, pois assim sabe nele propor as dificul­dades, e investigar os meios. A Vossa Excelên­cia faz o nosso sereníssimo Monarca árbitro dos negócios mais árduos, e arquivo dos segredos mais íntimos, repartindo, ou descansando em generoso Atlante o grande peso de toda a esfera lusitana; nela re­conhecem a Vossa Excelência por luminar, ou astro mui benéfico, tantos quantos são os que participam das continuadas influências de sua grandeza, a qual como logra propriedades de Sol, a todos alcança com seus benignos influxos; assim o experimentam tantas viúvas, a quem Vossa Excelência socorre compassivo, tantas don­zelas a quem dota liberal, tantas mulheres que têm o título de visitadas, a quem se não visita sua pessoa, remedeia todos os meses sua muni­ficência, sendo esta em Vossa Excelência tão fe­cunda, como o mostram outras muitas esmolas, que por sua mão faz, além das que em trigo, e dinheiro, todo o ano reparte por seu esmoler e pároco, que são dois contínuos aquedutos, pe­los quais perenemente corre a fonte de sua li­beralidade; a esta dá Vossa Excelência muito maiores realces, quando tão pia e profusamen­te a exercita com o sagrado, ornando e enrique­cendo os templos, especialmente o em que foi batizado, a quem consignou todos os anos co­piosa côngrua para seu culto, favorecendo com toda a grandeza as comunidades, provendo com larga mão as Religiões do que necessitam, como o confessa a Seráfica Família do grande Patriar­ca São Francisco, e dando aos conventos pobres das religiosas vestiaria para todas, sendo a sua caridade como fogo, que nunca diz basta para dar, enquanto acha necessidades que socorrer; esta lhe conciliou a Vossa Excelência o renom­bre de Pai da Pobreza, título entre os muitos que logra o mais ilustre, pois tanto o assemelha ao mesmo Deus, que por ser o sumo Bem, sempre se está comunicando a todos.

Mas como nos astros não só há influxos, se­não também luzes, os brilhantes reflexos das de Vossa Excelência bem se viram em todos os tri­bunais deste Reino, que foram os iluminados zodíacos, onde giraram tanto tempo seus res­plandores: aqui luziu a sua justiça com raios sem­pre diretos, porque nunca houve coisa que pu­desse torcer, nem ainda inclinar a sua retidão: aqui brilhou o seu zelo com luzes tão vivas, que nada pode diminuir sua eficácia, nem res­friar o intenso de sua atividade, sendo em Vos­sa Excelência este zelo tão geral e pronto para todas as matérias tocantes ao bem do Reino, que por causa deste o levou no tempo presente dos tribunais aos exércitos, e da corte para a campa­nha, na qual se houvera mais, ou maiores oca­siões para a peleja, o admiráramos todos vivo retrato daquele famoso Marte lusitano, o Se­nhor Nuno Álvares Pereira, de quem Vossa Ex­celência herdou o valor com o nome, e com o sangue a generosidade, e ficara conhecendo o mundo como na paz e na guerra era Vossa Ex­celência sempre César.

Bem certificado estava de seu marcial âni­mo, e militar ciência o nosso Sereníssimo Mo­narca, pois em sábado 4 de outubro lhe encar­regou o governo da primeira linha do exército, para que dirigisse a marcha dele ao sítio que se pretendia, empresa tão difícil em si, como pelas circunstâncias para Vossa Excelência gloriosa, porque obedecendo com pronto rendimento à real vontade e encarregando-se com singular prudência desta ação, que Sua Majestade lhe fiara, fez marchar o exército com tão admirável ordem, que todos os cabos nacionais e estran­geiros concorreram a dar-lhe os parabéns do acerto com que Vossa Excelência desempenhou felizmente o bom sucesso, que nesta empresa se desejava: bem conheceram a Vossa Excelên­cia por herói capaz e digno de outras maiores as Majestades ambas, pois na bataria, que se fez no Porto de Águeda em sete de outubro, ven­do-o livre das balas do inimigo, especialmente de uma que lhe chamuscou a anca e cauda do cavalo, em que andava montado, não podendo dissimular o seu júbilo, davam também multi­plicados parabéns a Vossa Excelência de esca­par a tantos perigos, em que o meteu o seu va­lor, e de que o livrou a Providência Divina, fa­vor bem merecido da piedade com que Vossa Excelência socorria na campanha aos soldados com tão repetidas esmolas, escudos fortíssimos que o defendem nos maiores apertos da terra, ao mesmo tempo que lhe servem de poderosas armas, com que Vossa Excelência está conquis­tando o céu. Mais pudera dizer de outras mui­tas heróicas ações, relevantes prendas e singu­lares virtudes de Vossa Excelência, se este epi­logado papel fora capaz de tanto empenho; po­rém, como nele não cabe a multiplicidade de tantos títulos, quantos as acreditam, seria teme­ridade querer recopilar um mar imenso em tão limitada concha, e copiar figura tão agigantada em um quadro tão pequeno, guarde Deus a pes­soa de Vossa Excelência por dilatados e felicís­simos anos para glória de Portugal.

De Vossa Excelência,

Menor súdito,

MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA