Marános/Canto 7

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Marános  (1920)  por Teixeira de Pascoaes
VII. Marános e a Saudade


VII


MARÁNOS E A SAUDADE




Marános acordando, e em alta voz,
Saudando o sol, a lua, a sombra amada
De Eleonor que vivia além do sol
E além da lua, em sonho alevantada,
Continuou caminhando, a meditar,
Atravez dos planaltos...
 E os seus olhos
Sentiam-se acordar e madrugar
Para outra luz mais pura e verdadeira.
Ouvira a voz da Serra e interpretava
Esta vida melhor, que, em volta d'ele,
Mais profunda e mais alta se tornava
E mais digna portanto de viver-se.
Cada vez mais o mundo—cretura
Era o mundo—creador; o sêr humano
Um sêr divino; e a terra ingrata e dura
Um céu verde, tangível e fraterno.
E tornára-se humilde, pois a Vida
Não encarnara n'ele a derradeira
Forma de perfeição; e, redimida
Em sonho já divino e transcendente,
Para além do seu corpo se prolonga,
Criando o eterno Reino Espiritual...
E deslumbrado viu que a Natureza
Fez d'ele o Paraiso, a Terra astral,
Onde vive de amor e de alegria
A Creatura animica e perfeita...
E viu seu fragil corpo de agonia
Ser o Pomar do Fruto sempiterno.


Assim pensava, quando, por acaso,
Encontrou dois pastôres que o saudaram.
—Quem era? D'onde vinha? Se um desgosto
O trouxera até ali, lhe perguntaram.
E com simples palavras de amizade
Lhes respondeu Marános. E os pastôres
Deram-lhe pão e leite e mel silvestre
Que invoca, á luz do sol, jardins de flôres.
E com peles de cabra se vestiu
Contra o frio do inverno. E no mais alto
Pincaro da Montanha descobriu
Uma Ermida onde, á noite, descansava.
E pelos duros sêrros caminhando
No meio do silencio e da profunda
Soledade, os seus olhos levantando
Para os astros já proximos da terra,
Meditava e sentia o coração
Bater no peito forte; e tinha assim
Consciencia de si proprio e, ao mesmo tempo
Da Vida eterna, tragica e sem fim!
E as nuvens lhe falavam, de passagem;
E os rochedos agrestes lhe falavam...
E entre os seus claros olhos e a Paisagem
Não existia já distancia alguma;
Ela estava integrada em seu espirito,
Seu espirito esparso em toda ela...
E ao sentir uma lagrima no rosto,
Tambem sentia a pequenina estrela
Que, atravez a distancia indefinida
Voando... voando... viéra recolher-se
Ao seio d'essa lagrima, onde a Vida
É apenas humildade e comoção...


E ali, n'aquele ar vivo das alturas,
Mysteriosas vozes e sussurros
Talvez contemporaneos das escuras
E remotas origens da Montanha...
Repercussões longínquas do ruido
Com que a Serra se ergueu... etereos sons
No desvanecimento e no desmaio
Do Tempo ... echo espectral do Fiat Mons...
Aladas, vagas sombras rumorosas
Pairavam, penetrando de mysterio
Os montes e as encostas fragarosas
E o coração confuso de Marános...
E julgou, por instantes, regressar
Aos primitivos tempos creadôres,
Em que do seio a referver do mar,
Surgiam cordilheiras abrasadas,
Quando o Sol, moço ainda, saciava
Na Terra o seu desejo! e os arvoredos
Cyclopicos nasciam, e animaes
Que, ao andar, esmagavam os rochedos!
Num sonho regressivo, o seu espirito
Percorreu essas tragicas edades,
Quando ele, bruto ainda, a vez primeira,
Ás sofregas e vivas claridades
Do apaixonado Sol, viu na agua clara,
Surpreendido e medroso ... sem saber...
Seus gestos feios e peluda cara
E a luz, já curiosa, dos seus olhos!
E de si proprio atónito, fugiu,
Guinchando horrivelmente pelos bosques!...
Ai, do sêr que, algum dia, descobriu
Essa mortal miseria que o formou!
Mas tambem, n'esse instante de miseria,
Seus olhos mais além se dirigiram,
Alcançando, por fim, a Vida eterea
Que nimba de luar e de esplendor
O tenebroso corpo que a produz,
Vivendo e gravitando em tôrno d'ela:
Ele,—o mundo de dôr e de tormento;
Ela,—a remota, virgem, pura estrela!


E Marános, em scismas embebido
E como distraido, contemplava
As distancias do céu indefinido,
Onde em segredo e sombra os astros nascem...
E as tôscas rochas ingremes dos montes
E os casaes branquejantes e apagados
Que faiscam no pó dos horisontes,
Quando o sol-pôr incide nas vidraças.
O seu gôsto era olhar, isto é, crear;
Converter em profundo sentimento
A espiritualidade azul do ar,
Cores, perfumes, sons, a terra, a nuvem...
De manhã, ia vêr o Sol que nasce,
Quando a neblina em sonhos de brancura
Lhe deixava, fugindo, sobre a face
Lagrimas abrazadas n'um sorriso...
De noite, no Luar se refugiam
Seus olhos, como em templo recatado...
E seus ouvidos ávidos recolhem
Os murmurios da Sombra no ar parado...
De dia, a luz do sol o embriagava,
Os perfumes e a brisa passageira
Que nos longínquos mares se impregnava
De frescuras de espuma e brancos vôos
De gaivotas, pairando em multidão,
No cólo vivo e lucido das ondas...
E ali, n'aquela amavel solidão
As Horas conversavam com Marános...


Um dia, em que ele estava distrahido,
Sentado n'uma pedra, viu chegar
Ao pé de si um vulto de Mulher.
E então, a sua alma e o seu olhar
A conheceram logo...


 Extasiado,
Marános a saudou: (n'um chôro de oiro,
Nascia a Luz e o Zephyro acordado
Parecia tentar as brandas azas)


«Mulher terceira vez aparecida
Ante o meu coração que te estremece!
Tu que és tanto de mim, da minha vida,
Que nem a carne e o sangue d'este corpo!
Com que prazer tão intimo te vejo
N'este silencio mystico e profundo
Que parece descer na luz da lua
E na luz das estrelas sobre o mundo...
Anda; senta-te aqui, ao pé de mim;
Quero em teu colo amavel descançar
Esta fronte scismatica...


 E a Mulher
Toda ela se continha em seu olhar...
E disse n'um sorriso: «Aqui me tens!»
E Marános, então, em vivo ardôr,
Os braços lhe estendeu; quiz abraçá-la!
Mas tornou-lhe a Donzela, com amor:


«Tu julgas ver o corpo que cingiste
N'aquele cair de noite e de silencio,
E que ao fugir de ti, ficou mais triste
Do que uma sombra morta caminhando?
Ah, como te enganaste! E tenho pena
Que esta animica Imagem que te fala;
Esta Vida translucida e serena,
Não seja o corpo em flôr que tu desejas!
Pois quem sou eu? Apenas a Saudade
Da Pastora que, um dia, te encantou!
Sou a longinqua Nuvem de anciedade
Que enche teus olhos de agua e de penumbra...
Sou a eterna Saudade que levaste
D'essa Pastora simples e adorada!
E n'ela foi seu vulto mais presente
Que o proprio Deus na Hostia Consagrada!
N'ela foi seu cabelo, a sua fronte;
N'ela fôram seus gestos doloridos:
Assim um rio leva as margens verdes,
Passarinhos e nuvens reflectidos...


«Toda ela vive e sonha n'esta Imagem
Que te contempla, sim! Mas que distancia
Entre as formas inertes da Paisagem
E a sombra espiritual que em nós projecta!
É certo que em meu sêr a encontrarás,
Embora mais remota e transcendente,
Porque se eu vivo d'ela, tambem ela
N'esta Imagem existe ocultamente...
E por isso, me tens ao pé de ti
N'este alto de montanha ... Mas meu corpo
Terreno e material, longe de aqui,
Seu rebanho e tristezas apascenta...
Anda na verde encosta d'esse outeiro,
Onde a primeira vez eu te encontrei;
Anda sósinho e envolto em nevoeiro
De cuidados e scismas ... E á noitinha,
Quando regressa a casa, vae tão triste
Que parece levar dentro do peito,
Tudo o que tem a noite e n'ela existe
De solidão, de sombra e de silencio...
Faz pena vê-lo assim na flôr da edade,
Como tocado já de frio outomno,
Melancolico errar na soledade
D'aqueles pinheiraes que são Tristeza...»


E Marános, surpreso, respondeu:


«Tu gracejas comigo; eu bem te vejo...
Descubro o teu perfil, teus olhos de alma;
Ouvi a tua voz, e dei-te um beijo
N'essa mão que ainda sinto em minhas mãos...
A vida, a graça, a luz que tens na fronte
Não é propria das sombras; é da carne
Voluptuosa e viva...»
 No horisonte,
Vagueavam, como sonhos, brancas nuvens...


E a Donzela, a sorrir, continuou:


«Ha momentos, eu sei, em que as Imagens
São corporeas e lembram alto vôo
Condensado em relevo e forma de asa.
De resto, a vaga imagem transcendente
D'um corpo, é tão real e verdadeira
Como esse mesmo corpo ... E certamente,
Eu, que sou a Donzela que tu amas,
Participo tambem da tua vida.
Não vês o negro virgem d'estes olhos?
Por ele é tua alma escurecida,
Porque ele, sim, faz parte do teu sêr.
Não vês o meu cabelo? Enraizado
Está na tua alma ... E o meu perfil
Foi na tua emoção todo moldado...
Não vês na minha face a rosa viva
Nascida da roseira que em teu sangue
As raizes embebe; e primitiva
Em cheiro e côr, teus olhos enamora?
Tu contemplas meu sêr, e podes vê-lo;
Pertence-te, portanto; mas jamais
O possuirás em corpo e sangue humano,
Em femininas formas animaes!
E todavia, eu sou da tua vida
E do teu coração; sou para ti
O que para esta Serra denegrida,
Quando a nevoa a halucina transtornando-a,
É a tua propria sombra caminhante...
Sim: tu és para a Serra um sonho etereo,
Aparição phantastica e distante
Na evidencia mais proxima das arvores;
Porque a terra é mais perto do arvoredo
E o entende melhor que á Creatura
Desarraigada e livre, perpassando,
Como um phantasma, na distancia escura...
Mas uma arvore, então, já comprehende
O espirito dos homens; já respira
O mesmo ar e luz, e nos seus ramos
Ha já canções de amor e sons de Lyra!...


«Oh, nunca serei tua! Em realidade,
Não te pertenço, não! Sou de outro Reino,
Embora isto que sou, esta Saudade
Como tu seja viva, e em ti creada!»


E Marános, confuso e mal sabendo
Se era a propria Donzela ou sua Imagem
Que lhe falára, assim lhe disse: (O vento
Era a voz mysteriosa da Paisagem)


«Eu vejo-te e conheço-te; portanto,
Muito embora tu sejas a Saudade,
O que me importa a mim? se teu encanto
É tão vivo, real e verdadeiro
Que, tendo-te ao meu lado, eu imagino
Que tu és esse corpo adonde Flóra
Pôz todo o seu engenho que é divino
E eu todo o meu desejo que é humano...
E em vez d'essas palavras que trespassam
Meu coração de bruma e de tristeza
E que nos meus ouvidos esvoaçam,
Como as sombrias vozes da noitinha,
Quero ouvir-te palavras amorosas
Que desçam ao mais fundo da minh'alma,
Levando em suas azas voluptuosas
Todo o perfume vivo dos teus beijos!»


E a Saudade, n'um gesto melancolico,
Disse:
 «Falar comtigo d'esse amor,
Para que? Se tu mesmo o abandonaste
N'um desejo febril de angustia e dôr?
Ah, porque foi que tu de ao pé de mim
Partiste? Nem tu sabes que alegria
Seria a nossa vida descuidada
N'aqueles verdes bosques, onde o dia
Entra com pés de sombra e de segredo!
E onde as aves em canticos celebram
O claro sol nascente e o tôrvo medo
Que dos passos humanos se alevanta...
Porque deixaste, dize, os meus abraços
E os beijos de meus labios que sabiam
A sol, a primavera, e como os sonhos
E as estrelas, á noite, renasciam?
Tu não sabes, acaso, o que perdeste?
Por certo, não! Os homens nada sabem!
Ha Deuses nas florestas, e um celeste
Mensageiro lhes fala ... De que serve?
Ah, nada, nada sabe a Creatura;
Sol que nasceu já prestes a ocultar-se!
E a própria alma é feita d'esse fumo
Que a luz dos astros deixa, ao apagar-se...
Porque foi que partiste? Que desejo
Te fez abandonar meu corpo amado
Por esta Imagem triste que tu vês,
Tão remota, tão palida ... e ao teu lado!...»


«Ah, tu não compreendes o Destino,
Marános respondeu; a estranha Força,
O Fado impenetrável e divino
Que me trouxe e chamou para a Montanha!
Ah, tu não percebeste nem ouviste
A Voz que me falou, porque és ainda
Dôr escrava a sofrer, Tristeza triste;
Ha corpo e morte ainda em teu espirito...
És a Saudade, sim! Não és apenas
Sobrehumana Tristeza espiritual;
Essa Dôr que é sofrida e que não sofre...
És ainda o Outomno e a arvore outomnal...
Por isso, não entendes a razão
Porque te disse adeus e te deixei!
Tu és ainda o Amor e o Coração,
E foi sómente o Amor que me chamou!


«Meu destino é seguir a Voz eterea
Do Sêr Espiritual que vive em mim
E no qual minha dôr, minha miseria,
Está liberta, alegre e redimida.
Sigo o Espirito amado e que não ama,
E de quem te aproximas; mas ainda
Teu doce vulto animico derrama
Negra sombra de amor que me entristece...»


«Então és mais feliz, baixando os olhos,
Respondeu a Saudade; muito embora
Eu seja um sêr divino e transcendente,
Mal o riso me fala, sem demora,
A lagrima responde ... E a minha Imagem
Sente-se prêsa á terra onde nasceu,
Como um phantasma ás sombras da Paisagem!»


E Marános responde pensativo:


«Em verdade te digo que em mim próprio
Não posso ser feliz. E todavia,
Eu sinto que em meu vulto é que se forma
A perpetua e impassível Alegria!...
Eu não sou a Alegria, mas apenas
A tragica materia que a produz.
Na grande escuridão sou facho a arder,
E a que distancia estou da minha luz!
Emquanto eu ardo e sofro e me consumo,
Em que altura suprêma andarás tu,
Sem desmaios de nuvem ou de fumo,
Divina claridade do meu corpo?...
E por isso que a chama realisa,
Em sua luz, um gráu de perfeição,
Tambem eu só me elevo em minha animica,
Já liberta e perfeita Creação!
Mas no meu sêr, o Espirito ainda existe
Em pêso bruto e densa escuridade.
Sou a Tragedia viva, a Dôr que sofre
E que Deus fez da sua Eternidade!
E tu de minha fragil natureza
Participas ainda; mas tambem
Já és d'aquele Reino, onde a Beleza
Se torna espiritual e sobrehumana!»


E a Saudade, inclinando a branca fronte,
Melancolica ouvia, emquanto a luz,
Manando de abrazada e etérea fonte,
Seus olhos florescia e saciava.
E Marános olhando a sua face,
Vira o seu coração. E na embriaguez
De quem vê, surprehendido, o sol que nasce,
Ao abrir as janelas, de manhã:


«Tu és o amor carnal já transcendente,
Já pela aza do Espirito tocado!
Virgem que sob os pés tem a Serpente,
E sobre a fronte o resplendor do Sol!
E nos labios o beijo que se chora;
E a lagrima infinita que se beija
Nos olhos...
 Virgem mystica da Aurora,
Na Capelinha triste do Crepúsculo...
Virgem dos sitios êrmos, onde reza
O Vento, quando as árvores ajoelham.
Virgem da estrela de alva e da tristeza
Celeste e amanhecente em que ela nasce.
És a Virgem do mundo lusitano,
A Virgem dos pinhaes, á beira-mar...
És a Virgem das ondas do Oceano,
Sobre um altar de nuvens e de espumas!
És a Virgem da tarde, quando em nevoa
Sobem da terra ao ceu as claras fontes...
Virgem da Lua Nova alumiando
Meu coração e as pedras que ha nos montes...
E as árvores do vale que a emoção
Reverdece melhor que a luz do sol...
Viagem da Lua Nova e da canção
Dos rouxinoes na sombra dos salgueiros!
Virgem das altas serras coroadas
De neve e de silencio! Ó doce Virgem
Da solidão pagã das madrugadas,
Quando a Tristeza e a Noite ainda vão perto...
Ó dolorosa Virgem da distancia!
Ó Senhora do Longe e da Aventura,
Na solitaria Ermida sobre as rochas
Que dominam o mar e a noite escura!
És a Virgem Saudade, a Dôr que sofre,
Ai d'ela, ao mesmo tempo que é sofrida;
Beijou-te n'uma face a propria Morte,
N'outra face beijou-te a propria Vida!
És o Estigma da Raça, o seu perfeito
E limpido Signal de santidade!
Seu destino e futuro em ti existem,
Pois participas, sim, da Divindade!
Ó Virgem Lusitana! Ó Escolhida
Do Mensageiro alado que o Senhor
Já te enviou dos Céus; e, humilde e triste,
Disseste: sim! corada de pudôr.
Ó Saudade! Ó Saudade! Ó Virgem Mãe,
Que sobre a terra santa portugueza,
Conceberás, isenta de pecado,
O Christo da Esperança e da Beleza!
Ó nova Divindade, eu quero erguer-te,
No mais alto da Serra, um belo altar
Feito de terra e lagrimas e rosas,
Alumiado do Sol e do Luar!
Aqui será Bethlem. E estes pastôres
Se hão de ajuntar em grande romaria,
Na adoração do novo Deus Menino
Resado pela Nova Profecia.»


Disse. E logo a Saudade mysteriosa
Ali se transfigura, ante os seus olhos...
E a urze, o tôjo, a fraga dolorosa,
Sob os seus pés, em nuvem se mudaram...
E eis que subindo a Nuvem envolvente,
Escondendo-a no seio, iluminou-se...
E então ficou Marános, de repente,
Sobre a terra, prostrado e deslumbrado.