Marmores (1895)/Musa impassivel

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Musa impassivel
por Francisca Júlia
Poema publicado em Marmores (1895).
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I
Musa impassivel

Musa! um gesto siquer de dor ou de sincero
Lucto jamais te afeie o candido semblante!
Deante de um Job, conserva o mesmo orgulho, e deante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lagrima; não quero
Em tua bocca o suave e idyllico descante.
Celebra ora um phantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistichio d’ouro, a imagem attractiva;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrophe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus barbaros ruidos,
Ora o aspero rumor de um calhão que se quebra,
Ora o surdo rumor de marmores partidos.