Mater (Ernesto Pires)

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Mater
por Ernesto Pires
Poema publicado em Scintillações e sombras.




I


Vou empunhar a lyra e dedilhar tremendo
          Um harpejo d′amor.
Para este fim augusto era attentado horrendo
          Calar-se o trovador.
Embora o canto meu seja modesto e pobre
          Tem rica inspiração;
Dedico-o a minha Mãe: — o sentimento é nobre,
          Nasceu no coração.
Minha Mãe! minha Mãe! que favos de doçura
          E que harmonia vae
No teu nome — Maria! És outra Virgem Pura,
          Minha Mãe! minha Mãe!
Quando eu era no berço, a tua voz maviosa
          Erguia um canto assim:

—« Dorme, meu filho, dorme o teu somno de roza,
          Que estás junto de mim!
Depois eu fui crescendo e ensinaste-me, rindo,
          As tuas orações.
Esse tempo, meu Deus, foi fugindo... fugindo...
          Que tempo d′illusões!
Meu Pae, ao ver-te e a mim, sorria de contente,
          Como elle era feliz!
Ai! breve nos deixou... Era velho e doente;
          Foi Deus que assim o quiz.
Aquella fronte eburnea, aquelle olhar altivo
          Penderam para o chão;
Mas elle não morreu! Eternamente é vivo
          No nosso coração.
— Vive, descança em paz, Progenitor honrado
          Aos pés do bom Jesus;
Tua esposa viuva e teu filho orphanado
          Oram por ti á cruz.

II


Quantos momentos na vida
Voam na aza do soffrer!
Quanta esperança perdida
Nos faz do mundo descrêr!
Por uma hora de alegria
Eternidades de dôr,
Chamem á vida — magia!
Que en chamo ao mundo — traidor!

Hoje, gala, pompa, festa,
Prestigio, vaidade só!
— Amanhã d'isto que resta?
— Túmulos cheios de pó!
As garras da crua morte
Vestem de crepe o prazer;
É lei tyranna da sorte:
— Rico e pobre hão de morrer.

Ó, minha lyra, calemos
Os teus lastimosos sons.
E nós, minha mãe, choremos,
Só podem chorar os bons.
Deus, déste a lagrima ao triste
Para lhe mitigar a dôr,
Em nós só a dôr existe,
Nós choraremos, Senhor!

III


Passaremos assim este mundo, Senhora,
Às nossas afflicções carpindo mutuamente
          Té que a mão da sorte
Venha disseminar em nosso peito frio
A esperança feliz de nos juntarmos todos,
          Unidos pela morte.


1877.