Memorial de Aires/1888/CII

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Memorial de Aires por Machado de Assis
1888, 12 de outubro


Aguiar e D. Carmo foram ontem levar a amiga a Botafogo, e voltaram cedo. Assim o soube hoje por ele, à porta do banco, onde me achava a conversar com o corretor Miranda. Nenhuma notícia de Tristão, mas o bilhete do padrinho já está no correio, e segue hoje mesmo para Santa-Pia.

Que as asas postais o levem, digo eu aqui neste cantinho de papel, sem advertir no rebuscado da imagem. Advirto agora, e não a risco nem substituo; asas postais servem, uma vez que vão ter à fazenda e não percam o bilhete em caminho. Quer-me parecer que também eu estou curioso de saber o que trazem as tais cartas de Lisboa, curioso apenas, e aliás não admira que desta vez são numerosas e bastas; escrevem-se geralmente pouco. Seja o que for os dois velhos estão ansiosos de saber se o mandam voltar de cá. Não o dizem, mas vê-se.

Miranda continuou a dizer das saudades que a mulher, a cunhada Cesária, o cunhado Faria, toda a casa dele tem de mim; — coisas que ouvi agradecido, prometendo ir devolvê-las em pessoa um dia destes. Em suma, o corretor não é mau homem, e já me serviu uma vez em negócio do seu ofício. Usa a nota alegre, sem juvenilidade, e acha grande interesse em coisas que nenhum tem.