Memorial de Aires/1888/CXII

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Memorial de Aires por Machado de Assis
1888, 2 de novembro


Mana Rita foi hoje ao cemitério levar flores aos nossos.

— Você não imagina; acordei às cinco e meia para me vestir e estar cedo em São João Batista. Cheguei às oito e pouco; achei muita gente, não tanta, porém, como há de ser logo, à tarde. Não vim buscar você, porque sei que não iria.

— Pois eu fui à missa da Glória.

— A igreja é perto.

— Talvez fosse ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?

— Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita.

— Vocês falaram-se?

— Não; ela já tinha saído.

— Como sabe você que ela é que foi levar as flores e coroas?

— Adivinha-se pela disposição.

— Sim?

— Decerto, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de mulher. Há dessas coisas que mão de homem não faz; mão de homem é pesada ou trapalhona, e mais se é de desembargador, como ele. Por exemplo, o nome do marido, o nome próprio só, não todo, estava cercado de perpétuas; isto é coisa que só uma senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e papoulas, distribuíam-se com tal simetria que pediu tempo e gosto. Um homem chegava ali, pegava das flores e espalhava-as à toa.

— Admira que você a não visse.

— É que foi muito cedo.

— Mas num dia como o de hoje, tendo tanta coisa que arranjar. Daquela vez que a encontramos era mais tarde.

— Era, mas o dia era outro; hoje havia muita gente, não quis que a vissem, é o que foi.

Mana Rita desenvolveu esta idéia, que achei aceitável; depois falou de outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministério e a D. Cesária não me lembra, mas falamos dele e dela com interesse, e a mana com graça. Tinham estado juntas as duas, ontem à tarde; Rita desculpara-se de não ter lá ido no dia 28. Contou-me parte do que lhe ouviu acerca de duas pessoas que lá estiveram...

— Que lá estiveram?

— Parece que sim.

E entrou a repetir uma série de anedotas e ditos, que ouvi durante uns dez minutos, com atenção. A maledicência não é tão mau costume como parece. Um espírito vadio ou vazio, ou ambas estas coisas acha nela útil emprego. E depois, a intenção de mostrar que outros não prestam para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é, e basta que o seja alguma vez para justificar as outras. Disse isto a Rita por palavras graciosas, que ela reprovou e deitou à conta da minha perversidade.