Memorial de Aires/1888/XCI

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Memorial de Aires por Machado de Assis
1888, 12 de setembro


Quando cheguei hoje à cidade, eram duas horas, e ia a sair do bonde, chegou-se a ele a bela Fidélia, com o seu gracioso e austero meio-luto de viúva. Vinha de compras, naturalmente. Cumprimentamo-nos, dei-lhe a mão para subir. Perguntou-me pela mana, eu pelo tio, ambos por nós, e ainda houve tempo de trocar esta meia dúzia de palavras. Ela:

— Ainda agora?

— A minha preguiça de aposentado não me permitiu sair mais cedo, disse eu rindo, e afastei-me.

O bonde partiu. Na esquina estava não menos que o Dr. Osório sem olhos, porque ela os levava arrastados no bonde em que ia; foi o que concluí da cegueira com que não me viu passar por ele... Ai, requinte de estilo!

Entrei nesta dúvida, — se teriam estado juntos na rua ou na loja a que ela veio, ou no banco, ou no inferno, que também é lugar de namorados, é certo que de namorados viciosos, del mal perverso. Achei que não, e compreendi que ele, se acaso a cumprimentou na rua, não ousou falar-lhe, apenas a acompanhou de longe, até que a viu meter-se no bonde e partir.

Também achei outra coisa; é que a paixão antiga e recusada não estava morta nele, ou revivia com a vista nova da pessoa. Não era por ser agora a dona rica, já antes era ela herdeira única, e vivia de si mesma. Não, ele é bom, e o próprio Aguiar afirma que os dois se merecem.

Ia nessas conjeturas, em direção à Escola Politécnica, e vi-o passar por mim, cabisbaixo, não sei se triste ou alegre; não pude ver-lhe a cara. Mas parece que a tristeza é que é cabisbaixa, a alegria distribui os olhos felizes à direita e à esquerda; alguma vez ao céu também. É suposição minha, e pode não ser verdade. A verdade certa é que, às duas horas da tarde, aquele advogado andava atrás das moças, em vez de estar no foro; ou mau advogado, ou feliz namorado.