Memorial de Aires/1888/XLVI

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Memorial de Aires por Machado de Assis
1888, 9 de junho


Este mês é a primeira linha que escrevo aqui. Não tem sido falta de matéria, ao contrário; falta de tempo também não; falta de disposição é possível. Agora volta.

A matéria sobra. Antes de mais nada, Osório recebeu carta do pai, pedindo-lhe que o fosse ver sem demora; está doente e mal. Osório preparou-se e embarcou para o Recife. Não o fez logo, logo; parece que a imagem de Fidélia o prendeu uns três dias, ou porque se não pudesse separar dela, ou por temor de a perder às mãos de terceiro; ambas as causas seriam.

Os pais fazem muito mal em adoecer, mormente se estão no Recife, ou em qualquer cidade que não seja aquela onde os filhos namorados vivem perto das suas damas. A idéia é um direito, a mocidade outro; perturbá-los é quase um crime. Se eu tenho podido dizer isto ao Osório, talvez ele não partisse; acharia na minha reflexão um eco do próprio sentimento, e escreveria ao pai uma carta cheia de piedade; mas ninguém lhe disse nada.

Haveria também outro recurso, que conciliaria a piedade e o amor, era escrever a Fidélia dizendo-lhe que embarcava e pedindo-lhe alguns minutos de atenção. A carta, se levasse um ar petulante, aguçaria naturalmente a curiosidade da viúva, e a entrevista se realizaria em presença ou na ausência do desembargador; é indiferente. Talvez ele preferisse sair da sala.

— Titio pode ficar, diria ela ao receber o cartão de Osório.

— Não, é melhor sair. Provavelmente é algum caso de advocacia, continuaria ele sorrindo, e eu sou magistrado, não devo ouvir nada por ora; mais tarde terei de ser juiz.

Osório entraria, e depois de alguns cumprimentos, pediria a mão da viúva. Suponhamos que ela recusasse, fá-lo-ia com palavras polidas e quase afetuosas, dizendo que sentia muito, mas resolvera não casar mais. Pausa longa; o resto adivinha-se. Osório talvez lhe perguntasse ainda se a resolução era definitiva, ao que ela, para evitar mais diálogo, responderia com a cabeça que era, e ele iria embora. Fidélia correria a contar a novidade ao tio. Quero crer que este defendesse a candidatura do advogado, e dissesse das boas qualidades dele, da carreira próspera, da família distinta e o resto; Fidélia não se arrependeria da recusa.

— Resolvi não casar, diria pela terceira vez naquela tarde.

Três vezes negou Pedro a Cristo, antes de cantar o galo. Aqui não haveria galo nem canto, mas jantar, e os dois iriam pouco depois para a mesa. Não diriam nada durante os primeiros minutos, ele pensando que teria sido vantajoso à sobrinha casar com o rapaz, ela remoendo a impressão do amor que este lhe tinha. Por muito que se recuse deixa sempre algum gosto a paixão que a gente inspira. Ouvi isto a uma senhora, não me lembra em que língua, mas o sentido era este. E Fidélia deixaria a mesa sem chorar, como Pedro chorou depois do galo.

Tudo imaginações minhas. A realidade única é que Osório embarcou e lá vai, e a viúva cá fica sem perder as graças, que cada vez me parecem maiores. Estive com ela hoje, e se não a arrebatei comigo não foi por falta de braços nem de impulsos. Quis perguntar-lhe se não sonhara com o pretendente despedido, mas a confiança que começo a merecer-lhe não permite tais inquirições, nem ela contaria nada de si mesma. Contou-me, sim, que as pazes com o pai estarão concluídas daqui a pouco, ainda que lhe seja preciso ir à fazenda. Naturalmente aprovei este passo. Fidélia disse-me que o pai já na última carta ao irmão lhe mandou lembranças, não nominalmente, mas por esta forma coletiva: "lembranças a todos".

— Há de custar-lhe a dar o primeiro passo, mas a mim não me importa fazê-lo, concluiu ela.

— Naturalmente.

— A separação que se deu entre nós era impossível impedi-la. Conselheiro, o senhor que viveu lá fora a maior parte da vida não calcula o que são aqui esses ódios políticos locais. Papai é o melhor dos homens, mas não perdoa a adversário. Hoje creio que está tudo acabado; a abolição fê-lo desgostoso da vida política. Já mandou dizer aos chefes conservadores daqui que não contem mais com ele para nada. Foram os ódios locais que trouxeram a nossa separação, mas pode crer que ele padeceu tanto como eu e meu marido.

Confiou-me, em prova do padecimento de ambos, várias reminiscências da vida conjugal, que eu ouvi com grande interesse. Não as escrevo para não acumular notícias, vá só uma.

Um ano depois do casamento, pouco mais, tiveram eles a idéia de propor aos pais a reconciliação das famílias. Primeiro escreveria o marido ao pai dele; se este aceitasse de boa feição, escreveria ela ao seu, e esperariam ambos a segunda resposta. A carta do marido dizia as suas felicidades e esperanças, e concluía pedindo a bênção, ou, quando menos, que lhe retirasse a maldição. Era longa, terna e amiga.

— Meu marido nunca me mostrou a resposta do pai, concluiu Fidélia, ao contrário, disse-me que não recebera nenhuma. Eu é que a achei depois de viúva, seis ou oito meses depois, entre papéis dele, e compreendi por que a escondera de mim...

Parou aqui. Tive curiosidade de saber o que era, e, evocando a musa diplomática, lembrou-me induzi-la à confissão ou retificação, dizendo à minha recente amiga:

— Dissesse o que fosse a seu respeito ou de seu pai, era natural da parte de um inimigo...

— Não, não, acudiu Fidélia; não teve nenhuma palavra de ódio. Não gosto de repetir o que foi, uma simples linha ou linha e meia, assim: "Recebi a tua carta, mas não recebi o teu remédio para o meu reumatismo". Só isto. Ele era reumático, e meu marido, como sabe, era médico.

Ri comigo. Não esperava tal remoque da Paraíba do Sul, e compreendi também a reserva do marido. Não compreendi menos a confidência da viúva; cedia, além do mais, à necessidade de contar alguma coisa que distribuísse ao sogro parte grande na culpa que cabia ao pai. Não podia tolher que falasse em si o sangue do fazendeiro. Tudo era Santa-Pia.