Memorial de Aires/1889/XVII

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Memorial de Aires por Machado de Assis
1889, 18 de fevereiro


Telegrama dos pais de Tristão, dizendo-lhe que sim, que aprovam, que os abençoam. O estilo telegráfico é mais conciso, mas foi assim que Tristão mo traduziu de cor; contentamento traz derramamento. Apertei-lhe a mão com prazer; ele quis um abraço. Foi aqui em casa, quando eu ia a sair, duas horas da tarde. Saímos juntos, e tive de ouvir três panegíricos, um dos pais, outro dos padrinhos, e o terceiro (aliás vigésimo) da própria dama dos seus pensamentos.

— D. Fidélia ficou contentíssima; diz que nunca duvidou da resposta, mas a declaração telegráfica mostra que os velhos não se puderam guardar para o correio, e responderam logo. Agora esperamos cartas, mas a publicação do casamento faz-se já.

Ao sair do bonde ouvi um quarto panegírico, o dos seus chefes políticos que estão ansiosos por vê-lo na Câmara dos Deputados e escreveram-lhe. Um deles chegou a confessar-lhe que abandonaria a política, se ele a deixasse também.

— É exagero, concluiu Tristão sorrindo, mas isto prova que me querem. Também pode ter sido um meio de me chamar depressa; o outro limitou-se a dizer que a minha eleição é certa, e a candidatura vai ser apresentada.

— Sim? Felicito-o.

— Não já, nem publicamente. Não disse nada disto aos padrinhos; a D. Fidélia, sim, contei-lho em particular, e agora a V. Ex.a, pedindo-lhe a maior reserva.

Provavelmente eram as duas cartas do outro dia. Mas, de fato, partirá ele, ou ainda está incerto se cederá ou não à esposa, caso ela pense em ficar? A reserva que me pediu explicará uma e outra solução...