Memorias de José Garibaldi/I/I

Wikisource, a biblioteca livre

Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


I

Meus paes

 

Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d’aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.

Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.

Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua educação em uma escola especial, mas sim nos navios de meu avô.

Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos legou.

Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n’este mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saiu das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era obrigado a fazer.

Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d’armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gaúchos.

O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho em mim é escusado dizer que nunca hesitei em me atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.

Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos. N’estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o futuro.

Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça do que eu.

Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia dos meus compatriotas?

Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante anjo orava por mim.

II

Os meus primeiros annos

 

Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d’esse coração eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.

Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d’um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n’aquelle momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo — tinha então oito annos — atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.

Entre os professores que tive n’esta epocha da minha vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento particular.

Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna pela constante leitura da historia romana.

A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus pensamentos.

Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.

Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi o denunciante. D’este facto é que provavelmente vem as poucas sympathias que sinto pelos abbades.

Os meus companheiros n’esta aventura eram, se bem me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.

III

As minhas primeiras viagens

 

“Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!” disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!

Foi illuminado por esse bello sol que tu linda Constanza, primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob os remos!

Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções populares.

Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma patria a vingar e a tornar livre?

Ninguem!

Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida não tem senão um fim — fazer fortuna.

Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.

A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na Constanza de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria para a patria.

Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.

A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a acompanhar-me.

Fizemos a viagem na sua tartana a Santa Reparata.

A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado, a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram immensas, gigantescas e d’ellas sae a memoria de tudo quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas o berço d’essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d’essa religião de que os primeiros apostolos foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, guiados por ella á civilisação.

Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu coração como um precioso deposito.

O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia ao Senhor como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.

 

IV

As minhas primeiras aventuras

 

Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a Cagliari no bergantim Etna, de que era capitão José Gervino.

N’esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d’esse vento a que os nossos marinheiros chamam Libieno, por que antes de chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.

A falúa de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falúa, do que dos nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem incidente.

De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.

Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n’estes ataques que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson, podia como elle perguntar: — O que é o medo?

Foi n’uma destas viagens, no bergantim Cortese, capitão Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito falto de recursos.

Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.

Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.

Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.

Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de lançar ao papel.

A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim Notre-Dame-de-Grace, de que tinha sido capitão Casanova.

Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.

Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro annos todo o trabalho foi inutil.

Emfim, n’uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os negocios de Italia.

Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.

Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a palavra patria, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza de 1830.

Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!

Em outra viagem, transportei no Clorinde, a Constantinopla alguns Simoniacos, conduzidos por Emilio Parrault.

Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.

Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo d’esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia, e a cada provincia — mas até a grande questão da humanidade.

Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no segundo, — mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado — é um heroe.

Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre os diversos paizes, mas o mensageiro do Senhor. Havia partido avido de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo do futuro.

V

Os acontecimentos de S. Julião

 

O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.

Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.

Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a Mazzini.

Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.

Escreveu na sua Joven Italia: «Italianos, é tempo de nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»

Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d’estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e a retirar-se a Genova.

N’esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho, — alguns mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.

Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.

Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um chefe.

Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas na Polonia.

Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.

Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.

Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o vigiar.[1]

Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.

Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava prompta senão em janeiro de 1834.

Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se mostrado firme.

Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um ajudante de campo.

A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido ao movimento.

Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.

Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.

Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.

O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.

Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.

Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro armas.

Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.

Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.

Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um estado deploravel.

Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.

A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou indifferentes.

Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.

Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas intenções, e que caminho seguia.

As respostas do general nunca o haviam satisfeito.

Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.

Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.

— Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á Italia que sabemos morrer.

— Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general, para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.

— Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.

Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria se ouviu.

Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n’uma carabina, agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.

Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.

Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais longe e ordenou a retirada.

Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da Saboya.

O perfeito francez preveniu as autoridades sardas: os republicanos foram atacados de noite e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d’um combate que durou uma hora.

N’este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava fumegante o sangue de Elfico Tolla.

Por este modo terminou aquella expedição.

VI

O Deus dos bons

 

Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.

Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe da fragata Eurydice. A minha missão era alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.

Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos republicanos.

Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este papel. Tinha ouvido dizer zer que um movimento teria logar em Genova, devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava situado o quartel.

Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido feitas.

Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do Eurydice, começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.

No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a praça.

Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.

A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades, ainda não finalisou.

Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.

Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.

Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.

Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.

Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade a vau.

Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.

Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.

N’esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.

Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.

Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.

Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.

Aproximei-me d’ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.

Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n’esse grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.

Entrei n’uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.

Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum alimento.

O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua mulher. Acceitei.

A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente. Senti então um d’esses momentos de bem estar e felicidade, como só se experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada a receiar.

O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.

Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz — e em França á prisão.

Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei tudo.

Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.

— Que tem? lhe perguntei.

— É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não tenho remedio senão prendel-o.

Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.

— Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do dessert. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.

Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe faltavam.

A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.

A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.

O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me perdia de vista.

É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.

Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que pareceu socegar o meu homem.

No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:

— Agora pertence-me, disse eu:

E comecei a cantar o Deus dos bons.

Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.

Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o auditório.

Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando acabei, gritaram — Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!

Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.

Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.

Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me prestou.

VII

Entro ao serviço da republica do Rio Grande

 

Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado Genova.

Engano-me, um incidente, que li no Povo Soberano, me succedeu.

Estava condemnado á morte.

Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um jornal.

Como desde então era perigoso continuar a usar d’elle, comecei a chamar-me Pane.

Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da hospitalidade do meu amigo José Paris.

Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no navio Union, capitão Gozan.

No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que faltando-lhe um pé caíu ao mar.

Estava vestido á domingueira, mas apesar d’isso, ouvindo os gritos dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido. Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu recebido no meio dos seus applausos e bravos.

Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que tinha tomado.

Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.

Fiz na Union a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em 1720 quando ali grassava a febre negra.

O cholera fazia então estragos horriveis.

Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes. Marselha tinha o aspecto d’um vasto cemiterio.

Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.

Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.

Este serviço durou quinze dias. No fim d’este tempo, como o cholera diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos paizes, embarquei-me, como segundo no brigue Nantonnier, de Nantes, capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de Janeiro.

Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.

Se para ser poeta é necessario escrever a Iliada, a Divina Comedia, as Meditações de Lamartine, ou os Orientaes, de Victor Hugo, eu não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no amor filial, nas recordações infantis, ou n’um amor juvenil no meio das ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha de acabar pela cabeça ou por um braço quebrado — então sou poeta.

Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia quarenta horas, e morto de cançaso costeava Urbano e os seus doze mil homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o perigo para ouvir um rouxinol.

Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.

Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva chamam Niterohoy, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando na margem occidental d’esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada Pão d’Assucar, immenso rochedo conico que serve não de pharol, mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos contemplavam.

Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.

Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous irmãos.

Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso e valente cidadão.

Depois de termos passado algum tempo na ociosidade — Chamo ociosidade o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não tinhamos disposição alguma — o acaso fez com que travassemos relações com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n’uma fortaleza que se eleva á direita á entrada do porto d’onde chamam os navios á falla. Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n’uma viagem á Syria e de que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu a carta para poder piratear os navios brasileiros.

Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando livres de todo o perigo ao Rio Grande.

VIII

Corsario

 

Armámos em guerra o Mazzini, pequeno navio de trinta toneladas, e fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim eramos corsarios.

Com dezeseis homens de equipagem e um navio um navio eramos capazes de declarar a guerra a um imperio.

Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos negros.

Naveguei para a maior d’estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.

Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no mais alto dos ares.

O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.

A occasião de o exercer não se fez esperar.

Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro.

Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci á praia.

Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.

Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo. Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em troca da vida.

Fechei a caixa e entreguei-lh’a, dizendo-lhe que a sua vida não corria perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes para melhor occasião.

Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da galeota e affundámos o Mazzini que como se vê, tinha tido uma curta, mas gloriosa existencia.

A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e estava carregada de café que era enviado á Europa.

O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa, porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu fazia a guerra na America.

Dei á galeota o nome de Farropilha, derivado de Farrapos, nome que no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do Sul, assim como Filippe II chamava mendigos de terra ou de mar, aos revoltosos dos Paizes Baixos.

Até então a galeota chamava-se Luiza.

O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d’elles, não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.

Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que punir.

Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.

Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade engajaram-se como marinheiros.

Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á republica oriental de Uruguay.

Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.

Nós ficámos em Maldonato, — quer dizer á entrada d’esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas de largo — durante oito dias que se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.

Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a tractar em terra.

Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n’aquella mesma noute, e querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo a perder.

Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me tranquillamente para casa do negociante.

Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida corria risco.

Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação apresentei-lhe uma pistola aos peitos:

— O meu dinheiro, lhe disse eu.

Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil patacões que me devia.

Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.

Ás onze horas da noute levantámos ancora.


IX

O Rio Prata

 

Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos cachopos das Pedras Negras.

Como me achava em tal situação é que eu não poderia explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa, consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas indicações, e apezar d’isso achava-me no perigo que queria evitar.

Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d’ahi mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.

Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.

Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia sido lançado no meio d’esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos quaes julgava estar quando me achava no meio d’elles.

Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo:

Em pouco tempo tudo me foi explicado.

Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador do café, tinha mandado pôr no tombadilho os sabres e fuzis, para estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitacula.

Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe, tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola continuou a andar regularmente.

Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato.

A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos comestiveis.

Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.

Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse, havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado com um croque, embarquei n’esta embarcação de novo gosto com um unico marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi: o seu pronome era Mauricio.

O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos pampeiros que eram mui violentos.

Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e desembarquei.

X

As planicies orientaes

 

O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes das — planicies orientaes — assim chamadas porque estão no lado oriental do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo cheio de novidade para um homem chegado do outro lado o Atlantico, e sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.

Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia sahido das suas mãos no dia da creação.

Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de arvores com folhas luxuriantes.

Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de creaturas humanas os habitantes d’essas immensas solidões, que só são atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes, as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.

Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus, cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho.

, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa creatura!?

Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão joven, e tão cheio de esperanças!

Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua companhia, a presença dominadora do homem!

Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade.

Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes. Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a flecha, e chegando ao alto d’um montezinho voltaram-se para verem se eram perseguidas.

N’este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.

XI

A poetisa

 

Continuei dirigindo-me para uma estancia.[2] Ahi encontrei só a mulher do capataz.[3] Como não podia vender-me ou dar um boi sem consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao mar.

Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio d’este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e Tasso.

Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola, fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d’essas poesias, dizendo-me que m’o dava para aprender por sua causa o hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa.

— Ha alguem, me respondeu, que diante d’esta natureza não seja poeta?

E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi.

Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude, mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito, receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs n’esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os touros.

No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.

Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio, isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas.

Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.

Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo: uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.

Deitámos a jangada ao mar, puzemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.

A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos.

Felizmente atravessamo-la sem novidade.

Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.

Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era impossivel dirigir a embarcação. Alem d’isso a corrente tornando-se mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe da galeota.

Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.

Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava de terra a galeota bem depressa nos alcançou.

Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo. Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a exercer as suas funcções habituaes.

Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente recompensados das nossas fadigas.

Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d’um navio que cruzava n’estas paragens.

Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.

XII

O Combate

 

Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham o pavilhão encarnado, signal convencionado entre nós, julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d’isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.

Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n’um fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com todo o pano mandei. — Ás vélas de diante.

Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que n’aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.

Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de fuzil e sabre nos livraram d’elles.

Depois de ter coadjuvado os meus companheiros iros a repellir esta abordagem agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.

O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a subir o rio.

Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil durante o resto do combate.

Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados — os italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os — e receiando serem presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada tronco d’arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado em sua perseguição.

O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as cerimonias costumadas n’estas occasiões, por que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte alguma.

Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.

No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes versos de Foscolo:

«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d’aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»

O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que era a minha unica esperança!

Quem diria ao meu caro Luiz que antes d’um anno era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um carinho paternal.

XIII

Luiz Garniglia

 

Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe heide dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era a era bastante nobre para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas piedosas que me consagrou.

Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por elles!

XIV

Prisioneiro

 

Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.

No fim d’este tempo chegámos a Gualeguay.

Tinhamos encontrado na embocadura do Ibicuhy, um navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.

Aceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não admirava, porque a bala atravessando-me o pescoço de lado a lado tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito dias n’este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo grandes melhoras.

D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação para Gualeguay, — fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada, biscainho, que se achava estabelecido na America — e particularmente para o governador da provincia d’Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha ferida, e tendo sentido a bala do lado opposto áquelle por que tinha entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os cuidados mais affectuosos e desinteressados.

Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de y em casa de D. Jacintho Andreas, que teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.

Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma.

O dictador de Buenos-Ayres era n’esta occasião Rosas, de quem tratando de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar.

Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto não valia a minha liberdade.

Provavelmente esta despeza d’um escudo por dia parecia muito elevada ao governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas, eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me queixar d’elle.

Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de tempestade dirigi-me para casa d’um excellente homem que costumava de quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.

Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que me procurasse um guia e cavallos, esperando chegar a uma «estancia» pertencente a um inglez, situada na margem esquerda do Paraná, onde eu provavelmente encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e começámos a andar por meio dos campos para não sermos descobertos. Tinhamos que caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este espaço em meia noite.

Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, na distancia de meia milha do rio. O guia disse-me então que parasse ali em quanto elle ia saber que caminho deviamos seguir.

Fiquei pois só.

Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, até que vendo que o meu guia não apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro. Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre em punho. Estavam já entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel defender-me ou fugir.

Entreguei-me.

XV

A Apoleação

 

Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois ligaram-me tambem os pés como o haviam feito ás mãos, sujeitando-os á cilha do animal.

Foi n’este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vêr, me esperava um peor tratamento.

Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, os, estremeço quando penso n’esta circumstancia da minha vida.

Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado por elle para denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga. É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado e executado. Então como me achava ligado e Leonardo não tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que da primeira vez.

Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa algumas palavras ao ouvido d’um dos guardas.

Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.

Chegando á camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda, e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou cinco pés do chão.

Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de novo se estava resolvido a dizer a verdade.

A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz.

— Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a confissão podem pol-o no chão.

Depois sahiu.

Fiquei duas horas n’esta horrivel posição. O peso do meu corpo sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros deslocados.

Parecia-me estar sobre brasas.

A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que o meu carrasco davam-me, mas ella não me matava a sede devoradora que soffria. Pode-se fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me morto desceram-me.

Cahi no chão sem movimento.

Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda dôr — era quasi um cadaver.

N’este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.

Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n’esta estação tinham-me tornado o rosto e as mãos n’uma grande chaga. Havia soffrido durante duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a um assassino.

Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do paiz estavam cheios de espanto.

Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos. Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o que eu necessitava.

Chamava-se Allemand.

Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d’esse dia, tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo do o reconhecimento que lhe consagro pelos serviços que me prestou.

Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes militares da provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe fazer a menor offensa, nem a elles nem ás suas propriedades.

Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com receio que a sua presença, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a praticar alguma acção indigna de mim.

XVI

Viagem na provincia do Rio Grande

 

Em Bajada embarquei n’um bergantim italiano, capitão Ventura. Este maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco, capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.

Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem admiravelmente.

A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções; estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem interrupção.

A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez.

Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada pelas visitas de muitos itos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d’elles e de feliz que era tornou-l’ha não só má, porém pessima. Pobres homens! bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do que lamental-os!

Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me deu muito prazer. Viajavamos á escotero.

Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.

Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do cavalleiro.

O pouco tempo que os cavalleiros gastam n’estas mudas, os cavallos o aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á noite.

D’este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.

Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa.

As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana d’assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes cães do monte de S. Bernardo.

A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza; colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos como os mastros dos navios, e d’altura de duzentos pés, e dos quaes talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra d’esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a oitenta pés d’altura, e das quaes na base não excedem a grossura do corpo d’um homem; existe tambem ali a barba de pau, litteralmente dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem portugueza, e essencialmente hospitaleira.

O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem despedir-se nem agradecer; e apesar d’esta descortesia, outro que venha depois d’elle não é recebido com menos agrado.

É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.

XVII

A lagôa dos Patos

 

Chegando a Piratiny, fui magnificamente recebido pelo governo da republica. Bento Gonçalves — verdadeiro cavalleiro andante do seculo de Carlos-Magno, irmão, pelo coração, dos Oliveiros e dos Roldões vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um cavallo como ainda não vi manejar senão ao general Netto — modelo completo para um cavalleiro — estava ausente e em marcha com uma brigada de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo atravessado o canal de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia Piratiny, séde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, guarnecida por uma população bellicosa e essencialmente dedicada á causa da liberdade.

Na ausencia d’aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as honras da cidade.

Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio propriamente dito.

O Rio Grande é um canal que liga com a lagôa dos Patos, tendo alguns baixios muito extensos, dos quais mais tarde dos quaes mais tarde fallaremos. Esta lagôa é formada por cinco rios, que terminando na extreimidade norte, apresentam a disposição de cinco dedos da mão.

Ha um ponto d’onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que por essa razão se chamava Viamão — Vi a mão.

Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se Setembrina em commemoração de haver sido em setembro proclamada a republica.

Achava-me em Piratiny sem ter em que me occupar; pedi então para fazer parte da columna de operações, que se dirigia sobre S. Gonçalo, e era commandada pelo presidente da Republica.

Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza — que lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro heróe. — Bento Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esbelto, montava a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade admiraveis. N’aquella posição ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco annos. — Valente e feliz, não teria hesitado um momento, como um cavalleiro de Ariosto, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de Polyphemo ou a armadura de Ferragus.

Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho d’aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das campinas; isto é, com a carne assada e agua pura. — No dia em que nos encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversámos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de infancia e eguaes em posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos, Bento Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa estranha, foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz acreditar que o acaso é superior ao genio para os successos da guerra, e para a fortuna dos heróes.

Acompanhei a columna até Canudos, — passagem do canal de S. Gonçalo que liga a lagôa dos Patos á Merim.

Silva Tavares havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da aproximação de uma columna do exercito republicano.

Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. deu. Fiz outro tanto, tomando o caminho de Piratini.

N’esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o exercito imperial fôra completamente destroçado pelos republicanos.


Armamento de lanchões em Camaquam

 

Fui encarregado do armamento de dois lanchões que existiam nas aguas do Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de S. Gonçalo, e que como este vae desaguar no lago dos Patos.

Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas nações. Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia. Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por nome Francisco, verdadeiro corsario, e digno irmão da costa.

Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano John Griggs, que habitando n’uma herdade pertencente a Bento Gonçalves estava encarregado de vigiar o acabamento de dois sloops.

Fui nomeado chefe d’essa frota ainda em construcção, com o posto de capitão-tenente. Era curioso aquelle methodo de construcção que fazia honra á bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se á madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim que se fabricaram os dois sloops, desde os pregos até aos circulos de ferro dos mastros. stros.

No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram aggregados aos trinta europeus, formando d’esse modo duas equipagens que comprehendiam setenta homens.

O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze a quinze tonelladas.

Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de Rio-Pardo.

John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou — O Republicano.

Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção do jornal O Povo.

Começaram então as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes.

Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois sloops, de vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor.

Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.

O lago não era navegavel para os grandes barcos, se não n’uma especie de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente.

No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes encalhados antes de tocar na margem.

Os bancos d’areia estendiam-se pela lagôa á similhança dos dentes de um pente, e só havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns dos outros.

Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos navios de guerra ou do vapor nos incommodavam, dizia:

— Ávante, meus patos, saltemos á agua.

E os meus patos cahiam n’agua, e á força de braços erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do banco de areia.

No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos um barco ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de havermos tirado tudo o que era aproveitavel.

Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.

Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não perdendo occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender qual era a nossa importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios para protegerem o seu commercio.

A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razão da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter. Não eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos quizessemos, e formariamos um esquadrão se não elegante, ao menos temivel.

Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, pela aproximação da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento; por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes laranjas; que são as melhores de toda a America do Sul.

A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta de homens de todas as côres e de todas as nações. Tratava-os com uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porém posso affirmar uma coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d’essa bondade — todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca me fatigaram, nem me vi na necessidade de os punir.

XIX

A estancia da barra

 

Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d’onde sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extensão de terreno as familias dos irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n’esta magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao abrigo do seu poder destruidor.

As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta abundancia, como não tenho idéa de vêr em parte alguma da Europa.

Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra hospitalidade mais franca e cordeal do que n’este paiz; e foi o que nós achámos em todas as familias, nas quaes existia por nós a mais decidida sympathia.

As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente. Aquella situada á margem do Camaquam, e esta nas do Arroio Grande.

Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por um privilegio dos meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e posso assegurar que nenhuma época da minha vida está como esta tão ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que este periodo que recordo com prazer.

A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que já não fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre.

Tinha em sua companhia uma familia inteira, ira, emigrada de Pelotas, cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d’este delicioso recinto. Uma d’essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, ainda assim não podia deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves.

Em um momento de perigo tive occasião de conhecer que não era totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; e a certeza que obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever pertencer-me.

Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e os meus homens tornaram-se facilmente escravos d’essas bellezas; porém conscienciosamente affirmo que nenhum d’elles tinha pelo seu idolo um culto tão puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição nos levava ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós dia de festa; o pequeno bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados por uma triplicada salva de hourras, que mostravam a força do nosso enthusiasmo amoroso.

Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcações, descançavamos na estancia de D. Antonia, irmã do presidente, a pouca distancia de uma d’essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás quaes dão no paiz o nome de galpon de chargueada, quando me vieram dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado Mouringue, isto é, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e oitenta de infanteria.

Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma boa vingança.

Esta noticia encheu-me de alegria.

Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemães ou austriacos aos quaes ainda eu não estava enfastiado de fazer pagar a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmãos da Europa.

Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses sessenta homens, e com elles era capaz de fazer frente não só a cento e cincoenta austriacos, mas a trezentos.

Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns cincoenta homens junto a mim.

Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a uma voz:

— Não vimos cousa alguma,

Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo poude subtrahir-se ás suas pesquisas.

Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz interrogar tambem o instincto dos animaes.

Ordinariamente, quando qualquer expedição d’este genero se aproxima, e homens d’outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma estancia, os animaes que sentem ruido estranho, dão signaes de inquietação, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.

Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram a andar mui socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se passava nas proximidades.

Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, ordenei á minha gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munições nos cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo de segurança, começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro tanto.

Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.

Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca nos faltavam.

Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua occupação.

Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto é, sempre com boa vontade: não se fazendo rogar: uns foram para os lanchões que estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar madeira para queimar, e aquelles finalmente para a pesca.

Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua cosinha á luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas marmitas.

Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu mate, especie de chá do Paraguay, que se toma de uma cabaça com o auxilio de um canudo de vidro ou de pau.

Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz, tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, não causando a sua presença sobresalto aos animaes, e que estaria talvez com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a quinhentos ou seiscentos passos de nós.

Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi por detraz de mim, tocar a carregar.

Voltei-me.

Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia um homem na garupa. Os que não tinham cavallos corriam a pé agarrados ás crinas. Dei um salto e achei-me no galpon; fui seguido pelo cosinheiro mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento em que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por uma lança.

Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha sessenta.

Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com tanta rapidez, que não se poderia julgar que me achava só, e com tanta felicidade que tres homens cahiram.

Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo, todos eram funestos.

Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o galpon estaria tudo acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que todos nós estavamos reunidos.

Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do alpendre, e começou a fazer alguns tiros de quando em quando.

Foi o que me salvou.

Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa situação cada tiro perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em carregar os fuzis que eu os iria descarregando.

Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando já que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria, comprehenderia tudo e viria em meu auxilio.

Não me enganava.

O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as nuvens de fumo que existiam entre o galpon e a tropa inimiga que fazia um fogo infernal.

Depois d’elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano chamado Lourenço. N’um momento estavam a meu lado, e começaram a imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru, Nascimento Raphael e Procopio — estes dois ultimos eram negros — e Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no bronze os nomes d’estes valentes companheiros, que no numero de treze se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos.

O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos rodeavam, fazendo-nos d’ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos tiros pelos buracos e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, dois ou tres cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do galpon, e por ahi faziamos fogo quasi cobertos.

Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz: quebrou um braço ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no campo da batalha.

Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho achado.

Estes combates eram tanto mais funestos para nós que não tinhamos nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras eram pensadas com agua fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel.

Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua, não se nos pôde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e não tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto.

Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, deu uma grande confiança aos meus homens e aos habitantes d’este lado do paiz, expostos ha muito tempo ás excursões d’este inimigo aventureiro e intrepido.

Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de Fuinha, se já o não tivesse.

Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, e dotado de uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida vida alguma a melhor parte na submissão d’esta corajosa provincia.

Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na sua estancia, distante doze milhas do galpon, em que tinha tido logar o combate.

Foi n’esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim, do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho. Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que não fosse senão pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. Não era só nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre coração da mãe de meus filhos.

Annita! cara Annita!

XX

Expedição a Santa Catharina

 

Depois d’este successo nada de importante nos succedeu no lago dos Patos.

Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança.

Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra, quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que então sitiava Porto-Alegre, capital da provinc ia. O exercito e nós não fizemos cousa alguma em quanto estivemos n’esta parte do lago.

Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos reconheciam um grande merito como soldado, como general e como organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos imperiaes.

Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para tomar parte n’ella, debaixo das ordens do general Canavarro.

Havia no cumprimento d’este projecto uma grande difficuldade que era o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos imperiaes.

Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena, mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre, achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição.

Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia comtudo coisa alguma impossivel.

Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino d’Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.

Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.

Propuz então que se construissem duas carretas d’um tamanho e solidez necessaria para collocar em cada uma d’ellas um lanchão, devendo-se atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as poderem puchar.

A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução.

Pensando então maduramente n’este projecto fiz-lhe as seguintes modificações.

Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o extraordinario peso que devia supportar.

N’uma das extremidades do lago — a que é opposta ao Rio Grande do Sul — isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual tratavamos de transportar os dous lanchões.

Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos lanchões caminhar como se fosse uma penna.

O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um exito feliz.

Os habitantes gosaram então d’um espectaculo curioso e desusado, isto é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas, sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.

Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.

O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes d’Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores enchentes só tem quatro ou cinco pés d’agua. N’esta parte da costa reinam sempre grandes tempestades.

O estrondo que o mar faz batendo n’estes rochedos, chedos, que os marinheiros chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d’elles, ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo rumor da tormenta.

XXI

Partida e naufragio

 

Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da tarde.

Foi n’esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d’entre os rochedos, ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz conseguindo deitar ancora no Oceano.

Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que sahiram do lago Tramandai.

Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem.

No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso, e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres e Santa Maura.

De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.

Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.

No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer. Corriamos parallelos á os á costa. O Rio Pardo tinha, como já disse, trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.

O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa.

Estava n’essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete, d’onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de distancia.

Ainda que estivesse n’uma posição perigosa, a confiança que tinha nas minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros, e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados; em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se lançassem ao mar e que apanhassem alguns d’aquelles objectos, tratando de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de bombordo fóra de agua.

O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha recommendando-lhe que o não alargasse.

Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.

Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio. Infelizmente estava n’esta occasião vestido com uma jaqueta de uma enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle começou a gritar.

— Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.

Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto d’elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os homens que ainda se conservavam a bordo.

Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.

Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo aturdido, mas tendo uma unica idéa — a de soccorrer ao meu charo Luiz. Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.

No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n’este momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim tratando unicamente dos outros.

Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas como montanhas.

Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia, deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma força invencivel.

Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira esperança.

Póde ser, ir vêr Luiz.

Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma resposta. Já não me restava esperança alguma.

Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No fim d’um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo.

— Coragem... Coragem, lhe disse eu.

Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o pedaço de madeira salvadora desappareceu.

Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei de novo e de novo voltei ao cimo d’agua. Dei gritos desesperados, mas tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me, servir a causa dos povos.

Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz!

Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n’este desastre, fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre os quatorze que haviam escapado e que n’este momento estavam na praia, um rosto amigo, uma figura italiana.

Nenhuma!

Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto.

Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas memorias doze annos depois d’estes successos terem logar, bem sei que muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do extremo d’Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, um amor — a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar d’esse nome.

E comtudo não o sei!!

Tanger, março de 1857. —

XXII

João Griggs

 

Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na sua habilidade, não se tinham querido apoderar dos restos do navio, esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao contrario, entre os que via sãos e salvos estavam alguns americanos que em muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de atravessar um pequeno rio de dez a doze pés de largo.

Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.

O mundo era para mim um deserto.

Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos julguei que ia chorar.

No meio da minha atonia ouvi um gemido.

Lembrei-me então que não obstante serem-me esses homens desconhecidos, visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem sel-o na desgraça.

Ergui a cabeça.

— Que tem, perguntei, e quem se queixa?

Duas ou tres vozes me responderam:

— Tenho frio.

Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o.

Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam já assentados ou deitados para nunca mais se levantarem.

Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mão, e disse aos que ainda não haviam perdido totalmente as forças que fizessem outro tanto, gritando:

— Corramos!

E dei ao mesmo tempo o exe mplo.

No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer, uma grande dôr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo começámos a sentir algum calor.

Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d’este espaço, o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado a sua circulação.

Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem direita, e a quatro milhas encontrámos uma estancia, e n’ella a hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas.

O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, chamado o Seival, um pouco maior que o Rio Pardo, mas de construcção differente, póde luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem.

É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.

Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho actualmente. Não sei pois se mais tarde terei occasião de dizer d’este excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d’elle, vou pois, aproveitando esta occasião, pagar o tributo que devo á sua memoria.

Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter? Nascido d’uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua intelligencia, e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d’um dos seus parentes da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herança enorme. Mas Griggs já havia recebido a mais bella herança que se póde dar a um homem de convicção e fé, — a corôa do martyrio. Tinha morrido defendendo um povo desgraçado, mas generoso e valente.

E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo á esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga.

Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde encher de orgulho por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!!

XXIII

SANTA CATHARINA

Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que souberam da aproximação das tropas republicanas. Em logar pois de encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispôr.

O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos immediatamente em marcha para alcançar a guarda avançada do general Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[4]

Devo confessar que não tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome. A guarnição fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra renderam-se dep ois de um fraco combate. Passei então com os meus naufragos para bordo da goleta Itaparika, que estava armada com sete canhões.

Durante os primeiros dias d’esta occupação, a fortuna parecia ter feito um pacto com os republicanos. Não temendo uma invasão tão repentina da nossa parte, de quem só tinham noticias de quando em quando, os imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, armas e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de estarmos senhores da cidade.

Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, titulo que infelizmente não soubemos justificar em quanto estivemos n’esta povoação amiga.

Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina, chamada pelos republicanos Giuliana, por que tinham ali entrado no mez de julho. O general permittiu a creação de um governo provincial de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os empregos!

Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna avançada tinha perseguido o inimigo até o encerrar na capital da provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos recebidos com os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam desertores imperiaes.

O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude na apparencia, excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse razão se houvessem olhado para esta expedição com mais juizo e attenção. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa disposição fizeram perder o fructo d’esta brilhante campanha.

XXIV

Uma mulher

 

Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos, achava-me n’um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.

Não me havia ficado um só d’esses amigos de que o coração tem necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande intimidade. N’esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d’uma alma que me amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão; mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade d’alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d’alma.

Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo consolador, a or, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado.

Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do Itarapika, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D’ahi descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos domesticos. Uma d’ellas, principalmente, attraia-me a attenção. Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração batia-me apressado, mas tinha formado uma d’essas resoluções que uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem. — Um homem convidou-me a entrar, — teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse — tinha-o visto uma vez — vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!» Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia quebrar. — Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!... Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence; se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um innocente.

Mas ella está morta e elle vingado — Onde conheci a grandeza da minha falta? — Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando lagrimas de desesperação.[5]

XXV

O Cruzeiro

 

O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil. Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o Rio Pardo, commandado por mim — a Cassapara, por Griggs, ambos goletas e o Seival commandado pelo italiano Lourenço. A embocadura do lago estava bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d’isso sahimos de noute e sem ser incommodados. — Annita, então companhia de toda a minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido acompanhar-me.

Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta imperial, que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. No segundo dia aproximamo-nos da ilha do Abrigo onde tomámos duas sumacas carregadas de arroz. Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.

Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava, visto que antes da nossa partida já um certo descontentamento se manifestava contra nós. Estava além d’isso prevenido da aproximação d’um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa a quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande reputação.

Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrámos um patacho de guerra brasileiro. — Tinha unicamente comigo dous navios o Rio Pardo e o Seival, porque a Cassapara havia muitos dias que se tinha separado de nós por causa d’um grande nevoeiro. Quando descobrimos, imos o navio inimigo estava na nossa prôa, por isso não havia meio de o evitar. Navegámos então direitos a elle e o atacámol-o resolutamente. Começámos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar. — O seu resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os pavilhões. — Outros deram á costa.

Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbáo, o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que então se achava em nosso poder. O Seival tendo a peça desmontada e fazendo agua, tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com mui poucas forças para andar só no mar.

Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes estacionados em Santa Catharina, informados pelo Andorinha, assim se chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam a vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O canhão desmontado do Seival foi içado n’um promontorio que fechava a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com cestões.

Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios dirigindo-se para nós. O Rio Pardo, começou então um combate mui desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero.

Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha consentido, e como do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso pelo seu valor, cedi aos seus rogos.

O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que então fazia, manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. Podia d’esta maneira aproveitar todos os seus canhões dirigindo todo o seu fogo contra a nossa goleta. Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos servir das nossas clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas comtudo eram mais numerosas em razão da inferioridade numerica, e a coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto, apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não ceder deixando-nos matar até ao ultimo. É verdade que eramos conservados n’esta resolução pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos admiravelmente. Eramos tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra.

O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra a goleta. Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para tudo.

No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande admiração nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capitão da Bella-Americana tinha sido a causa.

Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoções da minha vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais que um cadaver, mas Annita levantou-se sãa e salva; os dous homens estavam mortos; suppliquei-lhe então que descesse para a camara.

— Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar os poltrões que lá se foram esconder.

E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres marinheiros envergonhados nhados, por serem menos bravos que uma mulher.

Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias, que não eram pequenas, causadas á goleta pelo fogo do inimigo. No dia seguinte os imperiaes não appareceram, porque sem duvida se preparavam para algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão e levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago.

Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a perseguir-nos, mas só no dia seguinte é que nos poude enviar algumas ballas que não nos causaram prejuizo algum. Entrámos, pois, sem outro incidente no lago onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado a um inimigo tão superior em numero.

XXVI

Saque de Imaruhy

{[dhr}}

Outros acontecimentos nos esperavam no lago.

Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em tal numero que era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, situada na extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que fosse castigar este desgraçado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me obrigado obedecer a esta ordem.

Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos de defeza pelo lado do mar, desembarquei então a tres milhas de distancia, e assal ltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da montanha. Surprehendida e batida a guarnição, foi posta em fuga, achando-nos senhores da cidade.

Desejo não só para mim, para todos os individuos, o não receber uma ordem igual á que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante, que não havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas relações de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas não tenho em toda a minha vida, successo que me deixasse tão amargas recordações como o saque de Imerui. Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar que, deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra a vida de pessoa alguma, limitando a destruição ás coisas inanimadas, alcancei o que pertendia, mas emquanto ás propriedades foi impossivel evitar a desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a volta do inimigo.

Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços vinha atacar-nos; mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade, anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos armazens cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, porque não bebo senão agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao pé de mim, tudo se achava embriagado. Além d’isso os meus soldados eram na sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de improviso teria-nos desbaratado. Emfim á força de ameaças e esforços consegui reembarcar estes animaes selvagens.

Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem, destinados á divisão e voltamos ao lago.

Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se diante do inimigo que avançava rapido e vigoroso.

Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as bagagens á margem direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as.

XXVII

Novos combates

 

Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso as bagagens pareciam não ter fim. — Na parte mais estreita do rio a corrente redobrava de violencia. — Trabalhámos pois desde o nascer do sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.

Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes, mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem d’isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade tendo sido mandada para terra para coadjuvar a pa ssagem das tropas, não se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.

Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a bordo do Rio Pardo, onde já a minha corajosa Annita tinha começado o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um pouco atemorisados.

O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei são e salvo.

Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo, quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo.

Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei encontrar um meio de affastar.

Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:

«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas e munições.»

Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento, conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um d’elles, o fogo que o devia devorar.

Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se por cima de montões de cadaveres. O commandante do Itaparika João Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado.

N’um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d’elles.

Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n’um pequeno barco com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel, para evitar as ballas.

Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção.

Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela victoria.

XXVIII

XXVIII

A cavallo

 

No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava não parecesse á primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata lembrança, foi ao menos cheia de emoções.

Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com justa rasão merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admiração. Estava lançado n’uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que me importava pois, como o philosopho grego, não possuir senão o que tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que não pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu não teria acceitado cousa alguma? Não tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez do arção do meu cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro, caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? Não encarava ella os combates como um divertimento, como uma simples distracção? O futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas e bellas me pareciam.

Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o lago, não nos perseguindo.

A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a divisão Andrea, dirigiam-se para Cimo da Serra, provincia da montanha pertencente ao Rio Grande.

Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro, que mandou em seu auxilio uma expedição ás ordens do coronel Teixeira. Fizemos parte d’esta expedição. Recebidos pelos serraminhos, commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das suas tropas ficou prisioneira.

Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de Vaccaria e das Lages, e nós entramos em triumpho na principal povoação d’esta ultima.

A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o partido brasileiro, e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de cavallaria, composto quasi de quinhentos homens.

O general Bento Manoel, encarregado de o atacar não o tinha podido fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel Portinko em perseguição de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.

A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos não só oppor-nos á passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a fortuna não o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos, enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto que nós com a infanteria e só com alguns soldados de cavallaria, tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo.

Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente victoria, o caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia.

Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e acampámos a pouca distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que julgamos convenientes, e ficamos mui descançados.

Em quanto a mim, o habito que tinha d’estas guerras fez com que, como se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado.

Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando alguns tiros com o inimigo.

Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando o grito de «Ás armas.» Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate. Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios para chamar em seu auxilio a segunda divisão, mas Teixeira temendo que elle se retirasse sem ter occasião de combater, lançou-se no combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posição vantajosa que o inimigo occupava.

Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido a sua linha de batalha n’uma collina mui elevada, diante da qual existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha além d’isso embuscado nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então fingiu retirar-se. Os nossos soldados começaram a perseguil-os sem cessar a fazillaria, mas repentinamente foram atacados pelos pelotões embuscados que elles não tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar o vale em desordem. Perdemos n’este combate um dos nossos melhores officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal impetuosidade, que foi posto em retirada.

O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso, porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas.

O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em sua perseguição com grande encarniçamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria não podémos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se do Passo de Maromba o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria continuar a retirar-se. Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me que o seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria.

A retirada do inimigo não era comtudo senão uma astucia, e infelizmente esta astucia teve para nós terriveis resultados. Por causa das irregularidades do terreno e pela precipitação com que o tinha atravessado o inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio, havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos por detraz de collinas que os escondiam completamente á nossa vista.

Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão para sustentar a sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e repentinamente os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.

O nosso pelotão que perseguia o inimigo na sua fuga simulada, foi o primeiro a conhecer o laço, mas infelizmente não teve tempo para o evitar. Atacado pelos flancos foi completamente destroçado. Os tres outros esquadrões de cavallaria tiveram a mesma sorte, não obstante a coragem e resolução de Teixeira e de alguns de nossos officiaes do Rio Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria estava espalhada em todas as direcções.

Os soldados de cavallaria eram, como já disse, na sua maioria, prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito mal em contar tanto com elles, porque na realidade não podiam ser muito affeiçoados á nossa causa, e além d’isso sendo soldados novos vindos da provincia, estavam pouco acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar o primeiro choque, fugiram.

Montado n’um excellente cavallo, depois de ter excitado a minha infanteria a marchar o mais rapidamente possivel, tinha-lhe tomado a frente e chegado ao alto de uma collina, d’ahi vi o triste resultado d’este combate.

Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a tempo, mas tudo foi em vão. Do alto da eminencia onde me achava julguei que era muito tarde para que elles nos podessem dar a victoria, mas muito cedo para ainda a não julgarmos perdida. — Chamei uma duzia dos meus antigos companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando o major Peixoto encarregado dos restantes, tomei com este punhado de valentes, uma forte posição no cimo d’uma collina fortificada por muitas arvores. — D’ahi fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda não era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio aquelles dos nossos que não tinham perdido completamente a coragem. — O coronel veiu para o nosso lado com alguns cavallos depois de ter obrado milagres de coragem. — O resto de infanteria uni-se-nos então e a defeza começou terrivel e mortifera.

Fortes na nossa posição e no numero de setenta e tres lutamos com vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria e pouco habituado a combater contra esta arma dava cargas inutilmente: quinhentos homens de excellente cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria cançaram-se inutilmente diante de um punhado de homens sem alcançar vantagem alguma. Comtudo apesar d’esta vantagem momentanea era necessario não dar ao inimigo tempo de reunir as suas forças, de que a metade estava ainda empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo era necessario procurar um refugio mais seguro do que aquelle em que nos achavamos. — Uma floresta se nos apresentava á vista na distancia de quasi uma milha; começámos então a nossa retirada dirigindo-nos para ella. — Em vão o inimigo tentava romper o nosso quadrado, em vão nos dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, tudo foi inutil.

Foi para nós uma grande fortuna, o estarem os officiaes armados de clavinas, e como todos eramos homens aguerridos, conservamo-nos unidos fazendo face ao inimigo por qualquer lado que se apresentava e recuando em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, ganhámos o nosso refugio onde o inimigo não se atreveu a penetrar. Uma vez na floresta encontrámos um claro e sempre unidos e de fuzil na mão, esperámos pela noute.

O inimigo gritava-nos a todos os momentos — Rendam-se, mas nós só lhe respondiamos com o silencio.

XXIX

A retirada

 

Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo o nosso disignio o tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia coadjuvar, porque tinha um pé atravessado por uma balla.

Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor possivel, começámos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo, se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: não conheço a sua extensão em longitude, mas deve ser immensa.

As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria caria e Lages, são segundo julgo ter já dito situadas no crados d’esta floresta. Coritibani, especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado, para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos juntarmos á divisão de Aranha, que se havia infelizmente separado de nós.

Á sahida do bosque aconteceu-nos um d’esses successos que provam como o homem é filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á nossa situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse á nossa retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu.

Ouviu-se então gritar uma voz:

— É o inimigo!

No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo dando-lhe o signal de alarme.

Consegui com muito trabalho reunir alguns d’elles ao qual pouco a pouco se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.

O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente no dia seguinte.

No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as tratar, lançaram-nos na desanimação.

Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario descrever a fadiga que tivemos para achar n’esta floresta um caminho onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda faz a cada passo encontrar barrancos enormes.

Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei. Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em desertar e a confiança voltou a todos.

Cinco dias depois do combate encontrámos uma picada, atalho de largura d’um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa onde nos refrescámos matando dois bois.

Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n’um dia de perfeito inverno.

XXX

ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES

Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado de opinião, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder imperial. Estes fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte d’elles eram negociantes, tinham deixado os seus arma zens providos de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgámos poder sem remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graças á variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.

Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe que se nos unisse, tendo por este tempo a noticia da chegada do coronel Portinko que tinha sido enviado por Bento Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello, encontrado desgraçadamente por nós em Coritibani.

Tinha servido sinceramente na America a causa dos povos, e havia lá sido como na Europa o adversario do absolutismo. Tenho algumas vezes admirado os homens, muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os tenho encontrado egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraçada natureza. Como estou afastado duas mil leguas do logar onde estes acontecimentos tiveram logar, e já são passados doze annos póde-se por isso acreditar na minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus amigos como pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente americano.

Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra um inimigo dez vezes superior, e além d’isso orgulhoso pela recente victoria. Separados d’elle pelo rio Canoas, que nós não tinhamos podido guarnecer sufficientemente, esperámos durante muitos dias a juncção de Aranha e Portinko, e durante este periodo o inimigo foi sustentado por um punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram os reforços, mas foi elle que se retirou sem acceitar o combate para a provincia visinha de S. Paulo, aonde esperava encontrar um poderoso soccorro.

Foi n’esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente imputados ao exercito republicano, que se compunha de homens cheios de patriotismo e coragem, mas que não ficam juntos ás bandeiras, senão quando o inimigo os ameaça, abandonando-as quando este se affasta. Este costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a nossa perda n’estas circumstancias, porque se o inimigo tivesse mais paciencia, teria podido destruir-nos totalmente.

Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. Os soldados de Portinko em breve os seguiram. Note-se bem que os desertores não só levavam os seus cavallos, mas os da divisão. Em poucos dias as nossas forças se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados a abandonar Lages, retirando-nos para a provincia do Rio Grande, temendo a presença d’esse inimigo, que tinha sido obrigado a fugir diante de nós, e de que a fuga nos tinha feito vencedores.

Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser livres, e que não é com flores, festas e illuminações que se combatem os soldados aguerridos do despotismo, mas com soldados mais disciplinados e mais aguerridos do que elles, não querendo para generaes os que não são capazes de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.

É verdade que tambem ha povos que não merecem a pena de serem sublevados: a gangrena não tem cura.

O resto das nossas forças assim dissimadas — quando estavam privadas das cousas mais necessarias e principalmente de vestidos — privação terrível na aproximação do inverno sombrio e rude n’estas regiões elevadas, — o resto das nossas forças, começou a desmoralisar-se e a pedir para se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a ceder a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha e de me reunir ao exercito, em quanto se preparava a fazer outro tanto. Esta retirada foi rude por causa da escabrosidade dos caminhos e das hostilidades occultas dos habitantes da floresta, inimigos encarniçados dos republicanos.

Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos a Picada di Peloffo — já disse o que era uma picada — e tivemos que affrontar emboscadas repetidas e imprevistas que nós atravessamos com uma felicidade incrivel devida á resolução dos homens que eu commandava, e um pouco á confiança que geralmente inspiro aos que me seguem. O atalho que atravessavamos era tão estreito que unicamente podiam passar dois homens a par, e como o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos e dando gritos horriveis, em quanto que um circulo de chammas nos cercava, sem que nós podessemos vêr os atiradores, que felizmente faziam mais barulho do que obra. De resto a união que os meus homens tiveram no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo só um cavallo morto.

Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas de Tasso, aonde as arvores viviam.

Chegámos então a Mala-Casa aonde se achava Gonçalves, que reunia as funcções de presidente ás de general em chefe.

XXXI

BATALHA DE TAQUARI

O exercito republicano preparava-se para se pôr em marcha. O inimigo depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se refeito em Porto Alegre, d’onde tinha sahido debaixo das ordens do velho general Georgio, e havia estabelecido o seu acampamento nas praias de Cahé, aonde esperava a juncção do general Calderon, que com um corpo consideravel de cavallaria se lhe devia reunir.

O grande inconveniente da dispersão das tropas republicanas quando não estavam em face do inimigo, dava-lhe facilidade em tudo que elle queria emprehender, de modo que no momento em que o general Netto, que commandava as forças, teve reunido um numero sufficiente de soldados para bater Calderon, este tinha já reunido no Cahe a maior parte do exercito imperial.

Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria bater o inimigo, o reunir-se á divisão Netto, e foi por isto que elle levantou o cerco. Esta manobra e a juncção que se lhe seguiu, tiveram um feliz resultado e fizeram grande honra á capacidade militar de Bento Gonçalves. Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direcção de Leopoldo, passando a duas milhas das forças inimigas, e depois de dous dias e duas noites de marcha continua, nas quaes quasi que não comemos nem bebemos chegámos perto de Taquari onde encontrámos o general Netto que nos procurava.

Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse a verdade. Logo que o inimigo soube da nossa aproximação, marchou resolutamente ao nosso encontro e muitas vezes nos alcançou em quanto descançavamos um momento e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso unico alimento. Por dez vezes estando a comida quasi prompta as sentinellas gritavam ás armas, e era por isso necessario ir combater em logar de jantar ou almoçar. Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de Taquari, e ahi tomámos todas as disposições para o combate.

O exercito republicano forte de mil homens de infanteria e cinco mil de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, montanha coberta de pinhos, como indica o seu nome, pouco elevada, mas dominando as montanhas visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general Netto e a ala esquerda a Canavarro. As duas alas eram compostas unicamente de cavallaria que sem exaggeração era a melhor do mundo. A infanteria era tambem excellente, e o desejo de começar o combate era geral.

O coronel Santo Antonio formava a reserva com um corpo de cavallaria.

O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de infanteria, tres mil de cavallaria e algumas peças. Estava do outro lado da pequena torrente que nos separava e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O exercito compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas por um general velho e experimentado.

O general inimigo tinha até então marchado ardentemente em nossa perseguição, e havia tomado todas as posições para um ataque em quanto as suas peças metralhavam a nossa cavallaria. Os nossos valentes da primeira brigada ás ordens de Netto, tinham tirado os sabres da bainha e não esperavam senão pelo signal para se lançarem aos dous batalhões que tinham atravessado a corrente. Estes bravos estavam convencidos que ficavam victoriosos porque nunca nem elles nem Netto tinham sido batidos. A infanteria collocada em divisões no alto da colina, e coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo momento do combate.

Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham já feito um movimento envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o por isso a mudar de posição, mudança que se tinha feito em desordem.

Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de negros libertos da republica, e escolhidos entre os melhores domadores de cavallos de provincia, tinha unicamente os officiaes superiores brancos, e nunca o inimigo tinha visto as costas d’estes filhos da liberdade. As suas lanças que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos pretos como azeviche, os seus robustos membros e a sua perfeita disciplina tornava-os o terror dos inimigos.

A voz animadora do chefe já havia feito tremer todos aquelles corações. «Que todos combatam como se tivessem quatro corpos para defender a patria e quatro almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha todas as qualidades de um grande capitão menos a felicidade.

Quanto a nós sentiamos, por assim dizer, as palpitações da batalha, e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. Nunca em minha vida tinha visto um mais bello, mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da nossa infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de batalha. As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, estavam semeadas de plantas baixas e raras, não fazendo pois nenhum obstaculo nem aos movimentos estrategicos nem ao olhar que os seguia, e podia dizer que aos meus pés em poucos momentos seriam resolvidos os destinos da maior parte do continente americano.

Esses corpos tão compactos, tão unidos uns aos outros vão ser dispersos e derrotados? Todos esses homens serão em um momento cadaveres? Toda essa bella e vigorosa mocidade verá destruidas as suas mais bellas esperanças? Vamos! Tocae fanfarras, troae canhões, e que tudo seja decidido como em Zama, Pharsale e Actium.

Mas não era ainda n’esta planicie que devia ter logar o combate. O general inimigo intimidado pela forte posição que occupavamos e pela nossa firmeza, hesitou e fez repassar o rio aos dois batalhões, tomando a defensiva em logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto no começo do combate e d’ahi provinha, talvez, a hesitação de Georgio. No momento em que elle não nos atacava, não deviamos nós atacal-o? Tal era a opinião da maioria. Seriamos bem succedidos? Travando-se o combate nas condições primitivas e conservando a nossa excellente posição todas as probabilidades eram por nós, mas abandonando-as para seguir um inimigo que nos era quatro vezes superior em infanteria, era necessario dar a batalha no outro lado da corrente.

Era escabroso, ainda que tentador.

Passámos todo o dia em frente do inimigo, fazendo conjecturas e disparando alguns tiros.

Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria principalmente soffria muito com essa falta. A agua tambem se nos tinha acabado, e a sua falta era-nos mais sensivel que a dos viveres. Á nossa vista existia uma grande quantidade d’agua, mas que infelizmente se achava em poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam habituados a soffrer toda a sorte de privações, e por isso uma só queixa sahia dos seus labios — era a demora em começar o combate.

Ó italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e sobrios, no dia em que possaes soffrer todas as privações como os habitantes do continente americano, o estrangeiro, estae certo, não escravisará a vossa patria, nem enxovalhará os vossos lares. N’esse dia a Italia terá retomado o seu logar não só no meio; mas á frente das nações do universo.

Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, e ao raiar da aurora foi em vão que o procurámos; só ás dez horas, quando se dissipou o forte nevoeiro, foi que o avistámos nas posições de Taquari.

Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria atravessava o rio. Os imperiaes estavam pois em completa retirada, era necessario atacal-os e o nosso general não hesitou.

A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida por alguns dos navios imperiaes, mas a infanteria tinha ficado na margem esquerda, protegida por esses mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a sua posição a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada de infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalhão, era a destinada a começar o combate, effectuando-o com a sua costumada bravura. Mas o inimigo era tão superior em numero que estes bravos, depois de terem praticado prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se, sustentados pela segunda brigada e primeiro batalhão de artilharia — sem canhões — e de marinha. O combate foi terrivel, especialmente na floresta onde o estrondo da fuzilaria e arvores despedaçadas, no meio d’um espesso fumo, parecia o d’uma infernal tempestade.

De cada lado não contámos menos de quinhentos mortos e feridos. Os cadaveres dos nossos valentes republicanos foram até encontrados na ribanceira do rio, para onde elles tinham arrojado o inimigo. Infelizmente estas perdas foram sem resultado relativamente á sua importancia, porque logo que começou a retirada da segunda brigada a batalha finalisou.

Tendo chegado a noite o inimigo pôde tranquillamente acabar de passar o rio.

No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo ter já fallado, citarei alguns dos deffeitos do general Bento Gonçalves: o mais deploravel d’entre elles era uma certa hesitação, razão provavel dos resultados funestos das suas operações. Teria sido melhor que em logar de lançar esses quinhentos homens tão inferiores em numero aos que elles atacavam, tivessem enviado não só toda a infanteria, mas tambem a sua cavallaria, a pé, visto que a difficuldade do terreno não lhe permittia combater a cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em resultado uma esplendida victoria, e fazendo perder pé ao inimigo nós conseguiriamos lançal-o no rio; mas infelizmente o general teve receios de aventurar toda a sua infantaria, a unica que elle teve, e que teve a republica.

Em todo o caso o resultado foi para nós pessimo, porque não sabiamos como reparar as faltas que havia soffrido a infanteria, arma em que o inimigo nos era mui superior, e se achava todos os dias recebendo novos reforços.

O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por isso senhor de todo o campo. Nós tomámos então o caminho de Mala-Casa.

Todas estas falsas manobras peioraram a situação da republica. Voltámos a S. Leopoldo e a Settembrina e depois ao nosso antigo acampamento de Mala-Casa, que foi abandonado em alguns dias pelo da Bella-Vista.

Uma operação concebida n’este tempo pelo general, teria podido pôr-nos em excellente posição, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os esforços d’este homem tão superior e tão desgraçado.

XXXII

ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE

O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos campos, havia sido obrigado a desguarnecer de infanteria as suas praças fortes. Principalmente S. José do Norte tinha um pequeno numero de soldados.

Esta praça, situada na margem septentrional da embocadura da lagôa dos Patos, era uma das chaves da provincia, não só commercialmente, mas politicamente; a sua posse teria mudado completamente a nossa posição, que n’esta occasião era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, pois, mais que util, era necessaria. A cidade encerrava objectos de toda a qualidade, indispensaveis para o vestuario dos soldados, que do nosso lado estavam no mais deploravel estado. Não só por esta razão, mas tambem por dominar o unico porto da provincia, S. José do Norte, merecia que fizessemos todos os esforços para nos apoderarmos d’ella, mas tambem porque só d’este lado se encontrava a atalaia, isto é, o mastro dos signaes dos navios, que servia para lhe indicar a profundura das aguas na embocadura.

N’esta expedição succedeu infelizmente o mesmo que tinha acontecido em Taquari. Pre parada com admiravel sciencia e profundo segredo, perdeu-se todo o trabalho por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.

Uma marcha forçada de oito dias, a vinte e cinco milhas por dia, nos conduziu defronte dos muros da praça.

Era uma d’essas noites de inverno, durante as quaes um abrigo e um bom fogo são um beneficio da Providencia, e os nossos pobres soldados da liberdade, esfaimados, vestidos de pedaços, tolhidos pelo frio e gelados pela chuva d’uma horrivel tempestade, avançavam silenciosos contra os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.

A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes foram confiados á guarda d’um esquadrão de cavallaria commandado pelo coronel Amaral, e todos nos preparámos para o combate.

O quem vive da sentinella foi o signal do assalto, e a resistencia foi pequena e de pouca duração sobre as muralhas. Á hora e meia da manhã démos o assalto, e as duas horas estavamos senhores das trincheiras e de tres ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram tomados á bayoneta.

Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado na cidade parecia impossivel que ella nos escapasse. Entretanto ainda esta vez o que parecia impossivel nos estava reservado. — Uma vez dentro dos muros, uma vez nas ruas de S. José, os nossos soldados julgaram que tudo estava acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada pelo appetite da pilhagem. Durante este tempo os imperiaes voltando a si da sua surpreza reuniram-se n’um bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar, mas repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados os soldados para continuar no ataque, mas era inutil, porque se se encontravam alguns, eram carregados dos despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os fuzis á força de despedaçar as portas das casas.

O inimigo do seu lado não perdia o tempo: muitos navios de guerra que se achavam no porto tomaram posição, varrendo com o fogo dos seus canhões as ruas onde nos achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do Sul, cidade situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto um unico forte que haviamos desprezado servia de refugio ao inimigo. O primeiro d’estes fortes, o do imperador, do qual a tomada nos tinha custado um glorioso e mortifero assalto, foi destruido por uma explosão terrivel de polvora, que nos matou bom numero de soldados. — Emfim o mais glorioso dos triumphos estava mudado, ao meio dia, na mais vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de desesperação.

A nossa perda, comparativamente á nossa situação, foi enorme.

Desde este momento a nossa infanteria não foi senão um esqueleto; emquanto á pouca cavallaria que tinha vindo na expedição serviu para proteger a retirada.

A divisão entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e eu fiquei em S. Simão com a marinha.

Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta homens, contando tambem os officiaes.

XXXIII

ANNITA

O motivo da minha partida para S. Simão teve por fim, o mandar fazer algumas d’essas canôas, construidas d’um só tronco d’arvore, com a ajuda das quaes eu queria abrir communicações com a outra parte do lago. Mas durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas não chegaram, e o nosso projecto por consequencia não se pôde realisar. Como eu tinha um grande horror pela ociosidade, não podendo construir barcos, dediquei-me a ensinar cavallos. Em S. Simã o havia uma grande quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros dos meus marinheiros.

S. Simão era uma bella e espaçosa herdade, que se achava então abandonada. Pertencia ao conde de S. Simão, antigamente exilado, e de quem os herdeiros estavam tambem exilados como inimigos da republica. Eu não sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simão, fundador d’essa religião de que os adeptos me tinham iniciado na paternidade universal; mas n’esta occasião, como a familia de S. Simão era considerada por nós como inimiga, tratámos a sua herdade como uma conquista; isto é, apoderámo-nos das casas para ahi habitarmos, e dos animaes domesticos que ahi havia para fazermos o nosso sustento.

Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos poltros, ou, para melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.

Foi n’esta occasião que a minha chara Annita deu á luz o primeiro filho. Em logar de lhe dar o nome d’um santo, dei-lhe o nome d’um martyr.

Chamou-se Menoti.

Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no mesmo dia em que fazia nove mezes que tinha tido logar o combate de Santa Victoria. A sua apparição n’este mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois das privações e dos perigos soffridos por sua mãe. Essas privações e esses soffrimentos de que eu ainda não fallei, afim de não interromper a minha narração, devem aqui achar logar, e é do meu dever fazer conhecer se não ao mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este jornal a admiravel creatura que perdi.[6]

Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me acompanhado na campanha que acabavamos de fazer, e que acabo de contar.

O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, commandados pelo coronel Aranha, nós batemos em Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de tal modo que a divisão inimiga foi completamente destruida. Durante o combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora da victoria e derrota dos imperiaes. Foi ella n’esse dia o anjo providencial dos nossos feridos, porque não tendo nós nem cirurgião nem ambulancia, eram curados, sabe Deus como, por nós mesmos. Esta victoria submetteu de novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, Lages, Vaccaria e de Cima da Serra á authoridade da republica, e já contei como no fim d’alguns dias entrámos triumphantes em Lages. O exito do combate de Coritibani longe esteve de ser egual.

Já disse a maneira por que, apesar da bravura de Teixeira, a nossa cavallaria foi rota, e como com os meus sessenta e tres infantes me vi cercado por mais de quinhentos homens de cavallaria inimiga. Annita devia n’este dia assistir ás mais terriveis peripecias da guerra. A muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora do combate, Annita apressava a marcha das munições receiosa de que os cartuxos faltassem aos combatentes: com effeito o fogo que nos viamos obrigados a fazer era tão violento que dava margem a suppor-se, com toda a razão, que se as nossas munições não fossem renovadas bem depressa, não teriamos um unico cartuxo; com este fito aproximava-se do logar onde o combate era mais renhido, quando um esquadrão de vinte cavallos inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, cairam de improviso sobre os soldados que conduziam a bagagem.

Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, bem poderia Annita ter fugido; mas dentro d’esse peito de mulher batia o coração d’um heroe: em logar de fugir animava os nossos soldados a defenderem-se, e n’um momento se viu cercada pelos imperiaes.

Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e d’um salto passou pelo meio do inimigo, não tendo recebido mais do que uma unica balla que lhe atravessou o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe tocar no craneo. Talvez ella podesse fugir se o cavallo não caisse ferido mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se foi apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem no perigo, Annita maior vulto tomava ainda, se é possivel, na adversidade; de sorte que na presença d’esse estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que não teve o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual despreso pelos republicanos, e tão vigorosamente combateu com a palavra como já o fizera com as armas. Annita julgava que eu tinha morrido. N’esta persuasão pediu e obteve licença de ir ao campo de batalha procurar o meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal passeando sobre campina ensanguentada, Annita errou só e por muito tempo procurando aquelle que ella receiava de encontrar, voltando os mortos que tinham caido de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela altura ella imaginava terem alguma similhança comigo.

Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario que sorte reservava a dôr suprema de banhar com as minhas lagrimas suas faces gelidas, e quando esse momento de angustia chegou impossivel me foi de lançar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia a mãe de meus filhos.

Desde que Annita esteve segura de que eu existia, não teve senão um pensamento, o de fugir, e a occasião não tardou a apresentar-se-lhe. Aproveitando-se do delirio do inimigo victorioso, passou para uma casa perto d’aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, que eu havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caido em poder de um soldado inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era de grande valor. Quando chegou a noute Annita lançou-se na floresta e desappareceu. Era necessario possuir um coração de leão para assim se arriscar. Só quem já viu as immensas florestas que cobrem os cimos de Espinasso, com os seus pinheiros seculares que parecem destinados a sustentar o ceo, e que são as columnas d’esse esplendido templo da natureza, as gigantescas cannas que povoam os intervallos e que estão cheias de animaes ferozes e de reptis de que a mordedura é venenosa, poderá fazer uma idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades que teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. De Caritibani a Lages são vinte legoas. Como ella atravessou esses bosques impenetraveis, só, e sem alimentos, só Deus o sabe.

Os poucos habitantes d’esta parte da provincia que ella tinha a atravessar eram hostis aos republicanos, e logo que souberam da nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos, e principalmente nas picadas que os fugitivos tinham a atravessar de Caritibani ás Lages.

Nos cabecaes, isto é, nos sitios quasi impraticaveis destes atalhos, teve logar uma horrivel carnagem nos nossos desgraçados companheiros. Annita atravessou de noite estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa estrella ou a admiravel resolução com que os atravessou, o seu aspecto fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, perseguidos por um ser mysterioso!

Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada n’um ardente cavallo, pedido e obtido n’uma casa onde havia recebido a hospitalidade durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos á claridade dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem do rio Canoas, fugiram á vista d’esta visão, escondendo-se atraz das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo Annita chegara á margem do rio, tornado mui tempestuoso por causa das muitas cheias, e atravessou-o, não como o tinha feito dias antes, n’um excellente barco, mas sim a váu, animando com a voz o seu magnifico cavallo.

As ondas precipitavam-se furiosas, não n’um estreito espaço, mas n’uma extensão de quinhentos passos, e apesar d’isso Annita chegou sãa e salva á outra margem.

Uma chavena de café foi o unico alimento que a intrepida viajanta tomou durante os quatro dias que gastou em alcançar na Vaccaria a tropa do coronel Aranha.

Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de uma separação de oito dias e de nos julgarmos mortos.

Que alegria não foi a nossa! Maior foi ainda a que senti no dia em que Annita, na peninsula que fecha a lagoa dos Patos do lado do Atlantico, deu á luz n’uma casa que nos dava hospitalidade o meu querido Menotti, que veiu ao mundo com uma cicatriz na cabeça procedida pela queda do cavallo que tinha dado sua mãe.

Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos ás excellentes pessoas que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe um reconhecimento eterno. No campo onde nos faltavam todas as cousas mais necessarias, e onde eu não lhe teria podido dar um unico lenço, Annita não teria podido triumphar n’este momento supremo onde a mulher tem tanta necessidade de forças e cuidados.

Decidi-me então a fazer uma viagem a Settembrina para ahi comprar muitas cousas de maior urgencia que faltavam aos meus entes queridos. Tinha ali bons amigos, e entre elles um excellente homem chamado Blingini. Comecei então a minha viagem atravez os campos innundados, onde eu tinha a agua até ao ventre do cavallo; passei por meio d’um campo antigamente cultivado chamado Rocha velha, onde encontrei o capitão de lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei a sua hospitalidade durante dois dias, por causa do pessimo tempo não me deixar continuar a jornada.

No fim d’elles quiz partir, apesar de todos os esforços que fez o bom capitão para me conservar na sua companhia.

Mas o fim para que tinha partido era para mim mui sagrado para que me demorasse mais, e não obstante as observações d’este bom amigo, puz-me a caminho por essas planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia de algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o estrondo da fuzilaria, concebi então algumas suspeitas cheias de angustias, mas não podia voltar atraz.

Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de que tinha necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria que tinha ouvido, puz-me logo a caminho para São Simão. Descançamos em Rocha Velha, onde soube a causa d’esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.

Morinque — o mesmo que me havia surprehendido em Camacua e que eu e os meus quatorze homens tinhamos obrigado a fugir com um braço quebrado, tinha surprehendido o capitão Maximo, todos os seus soldados feitos prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem tomados, e os mais mortos.

Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns navios de guerra e infanteria. Embarcou depois a infanteria, e dirigiu-se com a cavallaria para o Rio Grande do Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas guerrilhas republicanas, que julgando-se em segurança se haviam espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os meus marinheiros que foram obrigados a refugiar-se na floresta.

O meu primeiro grito foi como se deve julgar: «Annita! onde está Annita?»

Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, tinha sido obrigada a montar a cavallo, e meio nua, com o seu pobre filho nos braços, tinha sido obrigada a refugiar-se na floresta.

Não encontrei pois no rancho nem Annita, nem os nossos hospedeiros, mas alcancei-os na ourela d’um bosque onde elles se conservavam não sabendo onde se achava o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a receiar d’elles.

Voltamos a São Simão, e ahi nos demoramos algum tempo, depois mudamos o nosso acampamento, estabelecendo-nos na margem esquerda do Capivari, isto é, no mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado os nossos lanchões em carros para a expedição de Santa Catharina, expedição que tão mau exito teve.

N’essa occasião tinha sentido bastantes esperanças que infelizmente haviam desapparecido.

O Capivari é formado de differentes riachos que tem a sua nascente nos lagos numerosos que guarnecem a parte septentrional da provincia do Rio Grande, sobre as costas do mar e sobre a vertente oriental da cadea de Espinasso. Toma este nome da capinara, especie de canniços muito communs na America meridional e que nas Colonias se chamam capineios.

De Capivari e de Sangrador d’Abreu canal que serve de communicação entre um charco e um lago onde tinhamos reunidas com muito trabalho algumas canôas, fizemos algumas viagens á costa occidental do lago, estabelecendo communicações entre as duas margens e transportando os passageiros.

XXXIV

LEVANTA-SE O CERCO. — ROSSETTI

Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia; as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações como succede n’estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava proximo o momento de tudo se acabar.

N’este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco seria abandonado e que todos se retirariam.

A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com o resto do exercito formaria a retaguarda.

A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a cidade foi tomada.

Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.

Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor, ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o matassem do que entregar a sua espada.

Ainda uma outra ferida para o meu co ração. Já fallei muitas vezes de Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus filhos mais generosos.

Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e prodigo dos homens, e com taes vicios não se faz fortuna, mas antes se caminha a grandes passos para a ruina.

Foi o que aconteceu com Rossetti.

Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente, e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de todos, e por isso quando se achava n’estes piedosos embaraços, todos o coadjuvavam com prazer.

A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros, e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achavase o nosso capitão Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.

Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos de vista.

Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o devoram.

XXXV

A PICADA DAS ANTAS

Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por um paiz montanhoso e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa que tenho visto.

Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no caminho que tinhamos a atravessar não encontrariamos comestiveis alguns.

Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, mas infelizmente sem a podermos alcançar. Só os selvagens manifestavam as suas sympathias por nós, atacando-lhe a guarda avançada. Tivemos occasião de vêr de perto esses homens da natureza que não nos foram hostis.

Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de privações e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel.

É necessario ter algum conhecimento das florestas d’esta parte do Brazil para fazer idéa das privações soffridas por uma porção de homens sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o laço, arma mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil n’essas expessas florestas abundantes em tigres e leões.

Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos outros n’estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de fome, e principalmente as mulheres e creanças que não podiam supportar tanto as privações. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma sanguinolenta batalha.

A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque não tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres e menos creanças sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os cavallos, tiveram dó d’aquelles pequenos entes, abandonados por suas mães mortas de fome, frio e fadiga.

Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que foi salvo unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso ao meu pescoço por um lenço, podendo aquecel-o d’este modo com o meu alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de fadiga. Para completar a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel floresta das Antas.

Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d’esta picada maldita. Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome. Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho, afim de que elle procurasse o fim d’esta interminavel floresta e algum alimento.

Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello fogo, o que não era commum pelo tempo que fazia.

Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns vestidos de lã, embrulharam n’elles a creança, aquecendo-a e chamando-a por este modo á vida, quando já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: estes excellentes rapazes começaram então a procurar com uma grande sollicitudde alguns alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas que agora procuravam por minha causa.

O que d’entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado.

Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava, a atravessar o resto da floresta a pé.

No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus companheiros tinham feito por causa d’ella.

Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos precedia, fugindo diante de nós, tinha deixado duas peças de artilheria na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as vi.

As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d’ella e nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo começou, caindo então em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.

Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão de Bento Gonçalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um terço dos soldados.

O infatigavel Morinque sabendo da retirada d’esta divisão, tinha começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a em todas as occasiões, alliando-se para esta obra de destruição aos montanhezes, sempre hostis aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer a sua retirada, e depois a sua juncção com o exercito imperial, tendo apenas, apezar d’isto, algumas centenas de homens á sua disposição. Então as mesmas dificuldades que haviam existido para nós, appareceram para elles que tiveram além d’isso a vencer um obstaculo imprevisto, e que eu noto por causa da sua raridade.

O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d’essas tribus indigenas chamadas de Bragis, que são as mais selvagens que se conhecem no Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a nós não nos causaram a mais pequena inquietação e ainda que houvesse no caminho muitos d’esses alçapãos, que os indios collocam na passagem dos seus inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados com ramos de arvores, segundo o costume.

Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d’esses bosques gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presença para fugir.

A pobre mulher achava-se n’um deploravel estado.

Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos, continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque não possuiamos cavallos, e era necessario ir domando os poltros.

O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão dos poltros.

Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que repetido todos os dias, o vêr esses jovens e robustos negros que mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio dá a Pelops. Era necessario vêl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto, que não conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o quadrupede se confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal não se rendia senão depois de ter exgotado todas as forças em se desembaraçar do seu tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando senão depois de o ter domado.

Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos para que o animal o mais rebelde possa sofrer o freio.

Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados pelos soldados, sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de lhe prestar todos os cuidados necessarios.

Tendo passado os Mattos atravessámos a provincia das Missões, dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d’esta pequena provincia, depois de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.

Seis annos d’esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia, fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não tinha noticias da minha outra mãe, da Italia!

Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a venda devia servir para me sustentar durante a jornada.

XXXVI

CONDUCTOR DE BOIS

Eis-me pois truppiere, isto é conductor de bois.

Em consequencia n’uma estancia chamada o Casal das Pedras, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos capatazes, mercenarios que tinha alugad o como conductores, salvei com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.

Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.

É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais charos e melhores amigos.

Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America do Sul.

Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes disse:

— Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.

Chamava-se Anzani.

Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que tinham feito d’elle o seu factotum.

Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de confiança, emfim era o bom genio d’esta casa.

Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado de um excellente genio.

A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d’essas casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo o que é possivel imaginar.

A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.

Um dos chefes d’estes indios tinha-se tornado o terror d’esta pequena villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando quanto queria sem encontrar a menor resistencia.

Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe recusasse obedecer.

Anzani tinha ouvido fallar d’este homem e tinha escutado tudo o que se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia d’este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.

Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o chefe dos Mattos todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se na villa andassem alguns cães damnados.

O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia — abrindo-se logo com a rapidez do relampago — e roubava tudo sem encontrar a menor resistencia.

Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:

— O chefe dos Mattos!

Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.

Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.

O indio parou espantado diante d’essa casa que no meio do terror geral que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.

Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as suas contas. Parou diante d’elle de braços cruzados e olhando-o com espanto.

Anzani levantou a cabeça.

Anzani era a politica em pessoa.

— Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.

— Como! que quero?! disse este.

— Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n’um armazem é que se quer comprar alguma cousa.

O indio começou a rir.

— Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.

— Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!

— Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.

— Então que queres?

— Beber.

— O que?

— Um copo de agua-ardente.

— Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente que quizeres.

O indio começou a rir de novo.

Anzani franziu as sobrancelhas.

— Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra da porta.

Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha a tratar.

Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.

— Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle batendo com o punho no balcão.

— E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não, não a bebes.

O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d’este encontrou o seu, — o relampago havia encontrado o relampago.

Anzani dizia muitas vezes:

— A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d’elle, mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.

O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d’este poder desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.

— Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.

— É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.

E deu ao indio um copo de agua-ardente.

O indio bebeu.

— Outro, disse elle.

Anzani deu-lhe outro copo.

O indio bebeu-o como o primeiro.

— Ainda outro, disse elle.

Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.

— Então? perguntou o selvagem.

Anzani fez-lhe a sua conta.

— Depois? insistiu o selvagem.

— Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente, respondeu Anzani.

O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia perdido com o olhar de Anzani.

— Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas, agua-ardente, ou morres.

Anzani que já previa o final d’esta scena, estava preparado. Tinha cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.

O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e poz-lhe o pé no peito.

Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta deitando-o no meio de um grande lamaçal.

O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.

Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal. Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d’ellas.

A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.

A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.

Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram dois entes differentes.

Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.

Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava conhecer e ter por amigo.

Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.

No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o peito nú lavando uma camisa — vi que era este o homem que procurava.

Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.

Desde este momento fomos irmãos.

Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava o serviço e dirigia-se aos saltos.

Depois de um dia passado juntos, demos os nossos adresses respectivos e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o participarmos mutuamente.

Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa miseria e a nossa fraternidade.

Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha mais um par de calças.

Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem se despedir.

Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois pares de calças.

Conhecia apenas Anzani, mas era um d’esses homens que se apreciam á primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.

Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.

XXXVII

Professor de mathematica e corrector de commercio

 

Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleão Castellini. Ao seu excellente coração sou devedor de muito, para jámais me esquecer, assim como a G. D. Cunes, — amigo de toda a minha vida, — e aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.

Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de bois, e para não ficar com minha mulher e filho ás sopas dos meus amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam apenas para satisfazer as minhas necessidades.

A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei.

Este modo de vida durou até á minha entrada na legião oriental.

Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se e a arranjar-se, não tendo eu pois nada a esperar d’este lado. A republica oriental — é assim que se chamava a republica de Montevideo — sabendo que me achava livre não tardou em me offerecer uma occupação mais em harmonia com os meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e corretor.

Offereceram-me e acceitei o commando da corveta — Constituição.

A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a de Buenos-Ayres ás ordens do general Brown.

Muitos encontros e muitos combates tinham tido logar entre as duas esquadras, tendo sempre obtido mediocres resultados.

Por este tempo um certo Vidal, de triste memoria,

  1. Estes successos que tinham logar em um ponto aonde não estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.
  2. Nome das herdades na America do Sul.
  3. Dono do estabelecimento.
  4. A provincia de Santa Catharina foi dada em dote pelo imperador a sua irmã, quando ella casou com o principe de Joinville.
  5. Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:
    — Lê isso, acho ahi uma grande falta.
    Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:
    — É necessario que isso fique como está.
    Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado — Annita Garibaldi.
  6. É escusado repetir que estas Memorias tinham sido escriptas por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns amigos.