Memorias de José Garibaldi/Prologo

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Como todo o presente tem ligação com o passado é impossivel começar qualquer narração, ainda que seja a historia de um homem ou de um successo, sem lançar os olhos para esse mesmo passado.

Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que começamos hoje a publicar as memorias, seremos muitas vezes forçados a ir ao Piemonte, patria de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando pertencem ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem necessidade para recobrar novas forças de tocar n’essa terra patria que Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. É pois mui importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar no Piemonte de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.

As guerras da republica e as invasões do imperio tinham trazido á Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e voltavam velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos Felix.

Ambos reinaram.

O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadéro.

Em 1840 n’uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de granadeiro, e as dragonas de lã encarnada que conservava como reliquias da mocidade.

Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente não lhe fora dado senão com esta condição, havia promettido aos soberanos seus alliados, o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que se encontrasse a mais pequena concessão.

Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em 1821.

Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um livro que é mais uma historia do que um romance, no José Balsamo dissemos as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.

Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P. D. (Lilia Pedibus Destrue) tiveram uma grande parte na revolução franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III, era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de cordeliers eram maçons, Philippe-Egalité era do grande oriente. Napoleão tomou a maçonaria debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, desvirtuou-a, desviando-a dos seus fins, torcendo-a á sua conveniencia e fazendo d’ella um instrumento de despotismo. Não foi esta a unica vez que se forjaram cadeias com espadas.

José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacéres grão-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em 1805, presidiu á festa da adopção da loja dos franco-maçons de Paris. Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia com a dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milão o nomeou grão-mestre e soberano conservador do supremo conselho do gráo XXXII, isto é, concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se póde dar.

Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar foi grão-mestre da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do senado, conde de Lacépêde presidia ao grande Oriente de França de que eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes, os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posição ambicionavam a honra de serem maçons. As proprias mulheres quizeram ter as suas lojas maçonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont, de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras pertencentes á alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, não com o titulo de irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, a quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadrão.[1] Mas não era só em França que n’essa época florescia a maçonaria.

O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maçonaria. Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho de 1800 approvado a constituição da grande loja de Berlin. O principe de Galles não cessou de governar a ordem em Inglaterra, senão quando em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se declarou-se protector da maçonaria, e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.

Depois da volta dos Bourbons á França o marechal Bournonville pediu a Luiz XVIII para collocar a maçonaria debaixo da protecção d’uma pessoa da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria, e não havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de 1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual fosse.

Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento libertador.

Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.

Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica romana, e a outra a Consistorial.

Os socios da Congregação tinham, como signal de reconhecimento, um cordelinho de seda amarella com cinco nós. Os pertencentes aos gráos inferiores não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. Dos segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, só se podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso um terceiro chegava, a conversação cessava immediatamente. A palavra de passe dos confrades era éleutheria, isto é, liberdade, a palavra secreta era ode, isto é, independencia.

Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, e a que pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos, tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia. Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, não tardando muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcançado em Genova os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e signaes de reconhecimento.

A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos. Á sua frente se achavam os principaes principes da Italia que não pertenciam á casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico principe que não foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta liga foi conhecida começaram as terriveis perseguições d’este principe contra os patriotas. É que elle queria obter da Austria o perdão da sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na conspiração para o alcançar.

Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a entre si.

Além de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana. A ilha de Elba e as Marchés passavam para o poder do rei de Napoles; Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o imperador Alexandre da Russia que pela sua aversão á Austria protegia esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta fórma sem se consultar a vontade dos povos nem as demarcações territoriaes, dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe esse direito de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito.

Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios, parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se.

Os carbonarios em quem unicamente havia esperança augmentavam consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido á seita dos guelfos que tinham a sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.

Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre da ordem. Nas reuniões secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder que haviam alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os animos á revolta.

Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, obtendo o funesto resultado que todas as primeiras tentativas d’este genero costumam alcançar. Toda a religião que deve ter apostolos, começa por ter martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados ás galés perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados por dez annos em uma fortaleza.

Então a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, começando a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasião a mesma sociedade conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da Italia. No meio d’um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte criminoso d’alta traição todo o individuo que se filiasse nas lojas dos carbonarios.

Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com mais violencia. Cobetta affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios nas Duas Sicilias diz este documento contam mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura tentar anniquilal-os.»[2]

Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em Napoles, Riego, outro martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em canção de victoria, levantava no 1.o de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade, e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a vontade do povo, estava prompto a jurar a constituição proclamada pelas côrtes geraes e extraordinarias de 1812.

As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.

Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia, ficando rei absoluto, jurar obediencia á constituição hespanhola. Teve então logar uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata e em Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou algumas refórmas insufficientes que não impediram o general Pepe de fazer uma revolução. Napoles teve então como 1798, um governo provisorio e uma camara de deputados.

Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revolução piemonteza. Na manhã de 10 de março o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e a constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento de Genova.

No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do reino de Italia declarava a guerra á Austria.

D’este modo a revolução partindo d’Ancona tinha chegado a Napoles voltando a Turim. Tres volcões se tinham aberto na Italia sem contar a Hespanha; agitando-se a Lombardia n’um triangulo de fogo.

O rei Victor Manuel havia promettido, como já dissemos, á santa alliança não fazer ao seu povo nenhuma concessão.

No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o rei Victor Manuel abdicou em favor de seu irmão Carlos Felix que se achava então em Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei Carlos Alberto.

Para todos os patriotas esta abdicação de um rei dedicado aos italianos em um principe dominado pela côrte de Austria era uma grande desgraça.

Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião diz:

«A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal para minha patria. Foi n’essa noute que perdemos todas as nossas esperanças, foi n’essa noute que milhares de espadas erguidas para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel a patria estava no rei, ella se personalisava n’esse coração leal, e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! O rei talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis milhões de italianos.»

Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a começar de novo os seus trabalhos.

Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.

No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado regente appareceu á janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituição de Hespanha.

Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, é necessario não só citar o facto da constituição proclamada em alta voz, mas tambem dar uma cópia do edital que foi affixado nos muros de Turim.

Eis a traducção fiel:

«Nas circumstancias difficeis em que nos achamos é necessario sahir fóra dos limites que a nossa qualidade de regente nos impõe. O nosso respeito e submissão a sua magestade Carlos Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos alguma alteração nas leis fundamentaes do estado, até que soubessemos as intenções do nosso novo soberano, mas como as circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas por todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e feliz e não despedaçado pela guerra civil, decidimos, ouvido o nosso conselho e na esperança de que sua magestade levado pelas mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação da sua approvação soberana, que a constituição de Hespanha seja reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alterações que o rei e a representação nacional entenderem.»

Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu estabelecimento em Italia: uma constituição em Hespanha, outra em Napoles, e outra no Piemonte.

Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser destruida.

Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar de approvar as liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler:

«Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor vontade á ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso poder só de Deus, só a nós pertence escolher os meios que julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que em consequencia não teremos como subdito fiel aquelle que se atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario adoptar, ficando conhecidos só como vassallos fieis aquelles que se submetterem immediatamente, impondo esta submissão como condicção para voltarmos aos nossos estados.»

Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de cegueira e asneira, nomeava uma commissão militar encarregada de tomar conhecimento dos crimes de traição, rebellião e insubordinação que tinham sido commettidos.

Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles de que os nomes são hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga.

A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu o tempo. Em cinco mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta e tres foram condemnados á morte e ao fisco, e os outros á prisão e galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes e foram enforcados em effigie.

Julgamos conveniente dizer os nomes d’esses homens para que se conheçam aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde Tarquino não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes e elevadas.

Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capitão Baroni, o conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio, o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, o coronel Morozzo, o principe della Cisterna, o capitão Ferraso, o capitão Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o advogado Ravina.

Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos, cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela intelligencia e pelas qualidades moraes.

Dois tinham sido presos e executados.

Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari e o capitão Jacome Garelli.

Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto.

O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia proclamado a constituição, não como dizem os seus partidarios, salvo a approvação de Carlos Felix, mais n’estes termos que estão mui longe de serem reservados:

«Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál eistesse considerazioni SARA PER RIVESTIRE questa deliberazione della sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna SARA PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.»

Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus estados.

O principe de Carignan retirou-se para Florença para o lado do grão duque de Toscana.

Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de um simples exilio, ou d’um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte. Espalhou-se então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de Modena, e este que não a havia alcançado na conspiração dos principes italianos contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambição.

O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro em Florença, qual era a sua posição, e este escreveu a Luiz XVIII relatando-lhe tudo.

Eis um fragmento da carta d’este ministro:

«Para despojar o principe de Carignan da sua herança é necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratidão, exemplo do seculo em que vivemos, não póde ser partilhada pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A França pois não póde seguir esta politica, porque tem ao menos o direito de exigir a completa independencia do soberano que possue a chave da Italia.»

Luiz XVIII foi de opinião do seu ministro, e escreveu ao principe offerecendo-lhe um refugio na côrte de França. A conducta de Luiz XVIII era o mesmo que dizer — Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo da minha protecção e não consentirei que outro seja rei do Piemonte.

E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, não podia criminar um principe por ter promettido uma constituição que não havia reconhecido.

Das tres constituições creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia sido destruida pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente ia desapparecer com a invasão franceza.

Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a constituição hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituição a Madrid.

Na realidade era uma posição difficil para o principe, mas a corôa do Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas.

O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de Trocadéro. D’esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de 1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos carbonarios como um traidor.

A Austria mentia.

Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação em que concedia a constituição mostrava que a dava contra sua vontade.

Carlos Alberto não era um traidor, era um principe que ambicionando o titulo de rei, não havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir abolir á Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, tinha desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o principe.

D’esta sorte a sua acclamação foi saudada com alegria pelos patriotas italianos.

Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado:

«Os meios termos e as medidas incompletas na politica não servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei constitucional.»

Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha:

«Colloque-se á frente da nação, escreva na sua bandeira — União, liberdade e independencia — declare se vingador e interprete dos direitos populares, trate de regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando no futuro dê o seu nome a um seculo, e seja o Napoleão da liberdade italiana.

«Atire á Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que com este escudo fará prodigios. Appelle para tudo o que ha de grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, o odio e a gloria, vive ha muito tempo com um só pensamento, e o seu mais ardente desejo é realisal-o.

«Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades e fortalezas debaixo da guarda dos cidadãos, e livre por este modo de todo e qualquer cuidado que não seja o vencer, reuna em volta de si todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire confiança ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenções, chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a verdade: os verdadeiros patriotas hão-de avalial-o pelas suas acções, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a posteridade verá em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos tyrannos.

«Escolha.»

O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor é que só a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida começado por Goita, mas talvez não tivesse finalisado por Novara.

Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa d’onde poucos teem saido incolumes.

Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella então? De José Mazzini o infatigavel promotor da união italiana. José Mazzini apenas conhecido n’esta epocha por algumas publicações politicas vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua Joven Italia.

A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de Carlos Alberto, começaram a receiar pelo seu poder. Havia dois annos que se tinham estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual elle era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo que um dia lhe apparecesse, não alguma sombra de liberdade, mas sim uma idéa ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n’essas noites de febre, como só os reis teem, sonhava com o throno da Italia.

Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar a revolução. O throno de Italia não estava á disposição dos reis, mas sim do povo.

Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas.

Um dia alguem disse:

É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.

No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande conspiração se tramava com o fim de lhe tirar o throno.

Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das monarchias.

Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.

Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal.

Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar.

Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:

«Que um conselho de investigação militar se devia declarar incompetente para julgar cidadãos.»

— Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos declarassemos competentes.

D’esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.

O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime de lêr aos seus soldados a Joven Italia. O segundo foi o tenente Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.

Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de Junho foram tão bem fuzillados pelas costas o sargento Miglio, José Deglia e Antonio Gaortti.

Todos morreram com uma coragem admiravel.

Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente, por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão, afiou-a e degolou-se com ella.

Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha com letras de sangue:

«Lego á Italia a minha vingança.»

Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n’o morto.

Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.

Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.

Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos de Jacopo Rufini.

Um condemnado d’Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle, deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri:

«Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.

«Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n’este medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.

«Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á morte.»

O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo perdesse a coragem e fizesse algumas revelações.

Vochieri sorriu tristemente:

— Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia!

Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra:

— Vamos!

Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.

Havia n’essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a sua vida ao culto d’essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.

Esse mancebo era GARIBALDI.

 

Alexandre Dumas

  1. Giuseppe La Farina, Storia d’Italia.
  2. Storia Italia. — La Farina.