Memorias de José Garibaldi/I/XII

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XII

O Combate

 

Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham o pavilhão encarnado, signal convencionado entre nós, julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d’isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.

Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n’um fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com todo o pano mandei. — Ás vélas de diante.

Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que n’aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.

Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de fuzil e sabre nos livraram d’elles.

Depois de ter coadjuvado os meus companheiros iros a repellir esta abordagem agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.

O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a subir o rio.

Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil durante o resto do combate.

Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados — os italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os — e receiando serem presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada tronco d’arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado em sua perseguição.

O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as cerimonias costumadas n’estas occasiões, por que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte alguma.

Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.

No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes versos de Foscolo:

«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d’aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»

O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que era a minha unica esperança!

Quem diria ao meu caro Luiz que antes d’um anno era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um carinho paternal.