Memorias de José Garibaldi/I/XIII

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XIII

Luiz Garniglia

 

Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe heide dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era a era bastante nobre para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas piedosas que me consagrou.

Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por elles!