Meu capitão, meu amigo

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Ao mesmo capitão pede o poeta licença para o ir visitar na sua Fazendo do Caippe, onde assistia. Em companhia de seus pays, e irmãos.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsEspada e Espadilha

Meu capitão, meu amigo,
mui entendido e bizarro,
aceio sem artifício,
galanice sem cuidado:
Benquisto por graça própria,
não por estudo, ou trabalho,
sem presunção valeroso,
sem afetação fidalgo:
Imitador dos brasões
de Avoengos tão preclaros,
que a não seres vós nascido,
não foram nunca imitados.
Deixou-nos a vossa ausência
tão tristes, tão solitários,
que todos nos persuadimos,
que em um deserto habitamos.
Faltou-nos vossa alegria,
riso, prazer, desenfado,
e porque o digo de um golpe,
de vós mesmo estamos faltos.
Subindo por este oiteiro
ver a Deus no templo sacro,
nem pé de pessoa vemos,
nem com viva alma encontramos.
O Ilustríssimo Isidoro,
e o valeroso Carvalho
parecem padres de ermo,
ou ermitães do Busaco.
Porque apartado um do outro
andam por estes mentrastos
como dentes de caveira
dous somente, e afastados.
Lourenço, que foi convosco,
veio aqui como um pasmado,
tudo, o que diz, são caipes
em assuntos mui contrários.
O Padre anda como um doudo,
e jura aos dedos sagrados,
que as festas, que embora vêm,
hão de durar de ano a ano.
Para prender-vos consigo
fará ele piores caos,
diz, que sois o seu feitiço,
e eu tenho zelos, que raivo.
E pois a Cururupeba
desde então se tem trocado
uma Tebaida, um deserto,
uma Arrábida, um Busaco.
Eu sou alegre de brio,
quanto risonho de cascos,
e não sofro vida, em que
da solidão me acompanho.
Haveis de me dar licença,
para que vá visitar-vos,
ou mandai-me uma mortalha,
hissope, e gatos pingados.
Mandai-me com que me enterrem,
porque de vós apartado
deveis (pois morro por vós)
fazer-me do enterro os gastos.
Não venha cá vosso Tio,
porque em se pondo de um lado
a lançar-me a água benta,
estou com ele de um salto.
Demais que se há de encontrar
aqui co Padre Gonçalo,
e hei medo, que se renove
o sucesso do seu barco.
E hão de ferver os muquetes,
porque estão desconfiados,
um, porque a vela vá acima,
e outro, porque venha abaixo.
Eu sou defunto de prendas,
e quando este mundo largo,
brigas não quero em lugar
de um parce mihi cantado.