Minha formação/XXV

Wikisource, a biblioteca livre
< Minha formação
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Minha formação
por Joaquim Nabuco
O barão de Tautphœus
Edição de referência: Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-editor, 1900. páginas 284-299.
Nenhuma influência singular atuou sobre mim mais do que a de meu mestre, o velho barão de Tautphoeus. Com sua imaginação toda tomada pela história, ele costumava nos anos de meu ardente liberalismo chamar-me Alcibíades. Certamente ele realizava para mim o tipo de Sócrates. Se não trazia a máscara de Sileno emprestada ao grande ateniense, mesmo fisicamente, sobretudo para a velhice, ele tinha muitos dos traços socráticos: a coragem fria, a calma imperturbável, a resistência à fadiga, o gosto da palestra, da conversação intelectual, da companhia dos moços, a completa abstração de si, a modéstia, a alegria de viver como espectador do universo, cedendo sempre todavia aos outros o melhor lugar, o forte espiritualismo, a indiferença pelo ridículo, o respeito da ordem social, quem quer que a encarnasse. Sua mocidade é um tanto legendária ainda, e nada seria mais interessante do que apurar os fatos a respeito dela. O que ouvi por vezes a meu irmão Sizenando – esse tinha por Tautphoeus uma admiração entusiástica e conviveu com ele muito mais intimamente do que eu, a quem em compensação ele deu o melhor de seus últimos dias, suas derradeiras tardes – foi que, jovem, Tautphoeus, antes forçado a expatriar-se da Baviera por motivo revolucionário, acompanhara o rei Othon à Grécia, depois viera viver em Paris, nas vizinhanças do ano 30, e freqüentava a plêiade liberal do Journal des Débats até que emigrou para o Brasil.

Muito míope, usava de um vidro quadrado, que pelo hábito contínuo da leitura como que se colocava automaticamente; e ainda menos do que o monóculo, deixava ele o charuto... Sempre com um grosso volume alemão debaixo do braço, caminhava horas inteiras no mesmo andar, alheio ao mundo exterior... Era um homem que sabia tudo. Sua conversação era inesgotável, e raro ele mesmo a dirigia. O assunto lhe era indiferente, e até o fim, anos seguidos, dia após dia, nunca ele se encontrou senão com interlocutores curiosos de ouvi-lo sobre os pontos que mais lhe interessavam. Era literalmente como um dicionário que a cada instante alguém manuseasse, ou uma enciclopédia que um abrisse no artigo Babilônia, logo outros nos artigos Invasão dos Bárbaros, Adam Smith, Lutero, Hieróglifos, Amazonas, Arquitetura Gótica, Liberdade de Testar, Raízes Gregas, Papel Moeda, Culturas Tropicais, Alberto Dürer, Divina Comédia, ao acaso. Era somente ferir a tecla, pôr a pergunta no aparelho, e esperar o desenrolar da resposta, como a que daria o Lexicon de Meyr, ou a História Universal de Cesar Cantu. Ele falava de um modo uniforme, sem ênfase, sem colorido, sem expressão mesmo, mas era um jorrar sem fim de ciência, de erudição, como se naquele mesmo dia tivesse estado a estudar o assunto. Nada mais diferente da ostentação frívola de ciência com que tanta gente se apraz em deslumbrar o ouvinte que lhe oferece inadvertidamente um assunto ao seu alcance, do que essas dissertações científicas, up to date, a que Tautphoeus se entregava perante os seus discípulos, que todos o ficavam sendo, para sempre, jornalistas, professores, ministros de Estado que fossem...

A abundância de idéias gerais, de ponto de vista sugestivos, de matéria para reflexão em sua conversa, era notável. Pode-se dizer que esse homem que não escreveu nunca, pelo menos no Brasil, publicou maior número de ensaios, de teses históricas e outras, do que todos os nossos escritores juntos: unicamente suas contínuas edições tiradas a pequeno número de exemplares dissipavam-se como a palavra, quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava isto? Ele era destituído de ambição. Esse respeitador por sistema da ordem hierárquica e da pragmática social, que nunca levou a mal que os poderes de um dia se considerassem seus superiores, que os afidalgados da véspera olhassem com desdém para o seu título hereditário, vendo-o mestre de meninos, era um sábio da Grécia, praticando com o espírito e a inteireza pagã a filosofia do Eclesiaste: Vanitas vanitatum... Desde muito cedo ele adquiriu a esse respeito a perfeita imunidade. Tendo que ganhar a vida em país estrangeiro por meio de lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe dos velhos preconceitos aristocráticos de seu país, das aspirações à elegância, à vida de prazer, ostentação, e sucessos mundanos da sua mocidade em Paris, entrou no papel que lhe fora distribuído com a mesma simplicidade como se o recebesse por herança... em uma palavra, sem ressentimento, sem queixa, sem murmúrio. Bebeu a água da carioca com o mesmo espírito de conformação com que teria bebido a água de Lethes... Esqueceu-se de si mesmo para entrar em seu novo destino... Mas também desde logo como ele penetrou os mais íntimos refolhos e singularidades do país que devia ser sua segunda pátria, e que ele amou como tal! Sua posição era involuntariamente considerada subalterna ainda pelos mais capazes de compreender – o que não é o mesmo que sentir – a profissão do criador intelectual como essencialmente nobre. Ele, porém, mostra-se indiferente no meio da arlequinada social sabendo bem que no mundo, ninguém o disse melhor do que Calderon, todos sonham o que são.

Mas que profundeza no sentir! Se todo o mundo estava fora do seu lugar – ele não pretendia isso, pelo contrário, pensava que a distribuição era justa, que as posições e responsabilidades eram dadas aos melhores, somente estes não faziam o melhor, não procuravam dar o mais que podiam – quando todo o mundo estivesse, ele ao menos queria estar no seu... Conservador e católico, conheci-o muito abalado como o Kulturkampf, por sua idéia alemã de que o maior político do mundo – para ele Bismarck certamente o era – não podia ser atraiçoado naquela questão ao mesmo tempo pelo seu faro nacional e pelo seu instinto conservador. O seu conservantismo entranhado era também parte da sua filosofia, por isso ele tinha pelas nossas instituições um sentimento de que nós mesmos éramos incapazes: o de veneração idealista. Desse simples funcionário do Estado, que não tinha de seu senão seu modesto ordenado de cada dia, e além disso, estrangeiro de origem, partiu talvez o único grito de: Viva a Constituição do Império! que se ouviu – tão fraca era já a voz – em 15 de novembro ao desfilar das tropas do general Deodoro pela rua do Ouvidor. Talvez alguém olhando para o velho que fazia sem medo tal protesto, pensasse que era um protegido do imperador alucinado pela catástrofe que o tragaria também. Não o era porém; favores, ele o não devia, nem gratidão; tudo o que tivera fora em concurso, do qual os competidores desistiam, louvando-se em sua fama... Não era um despeitado, era um filósofo, era o homem que melhor estudara a psicologia do nosso país e que mais se conformara a ela até aquele ato, que lhe pareceu nacionalmente fatídico, como para os judeus o partir-se ao meio do véu do templo...

Um traço dessa sua penetração já assinalei uma vez, lembrando que foi ele quem me fez notar que o nosso interesse pelas coisas públicas é tanto menor quanto o assunto mais de perto nos concerne. É assim, dizia-me ele, que os negócios do município nos interessarão sempre a todos menos que os da Província, os da Província menos que a política geral. Para mostrar quanto era precário o nosso self-government, não bastava essa diferença que cresce na razão direta do interesse que devíamos sentir? Outra observação dele que revela a prontidão do seu espírito, foi a nossa conversa sobre a impermeabilidade inglesa a idéias e concepções alheias. Eu dava a lentidão dos ingleses em apanhar e compreender o ponto de vista, a novidade estrangeira, como um sinal talvez de menor vivacidade intelectual do que a dos povos continentais: “Pelo contrário, observou-me ele, as palavras serão minhas, a idéia é dele, essa repugnância ao que vem de fora do país, essa suspeita contra o que não é conforme ao instinto da raça, prova antes a originalidade dela, a força de sua própria produtividade, o orgulho das suas criações nacionais... Essa resistência foi que permitiu à Inglaterra dar ao mundo um Shakespeare”. Foi essa reflexão talvez que me levou a pensar que o cosmopolitismo, na esfera da concepção intelectual, não é um elemento criador, nem uma superioridade invejável: pelo contrário, a dificuldade de assimilar, de sentir o que não tem afinidades com a nossa própria produção, é antes uma virtude do que um defeito; a permeabilidade prejudica a solidez e conservação das qualidades próprias, isto é, da própria natureza.

Se eu tivesse que precisar o que devo a Tautphoeus, assinalaria, entre tantos outros trabalhos de lapidação que acredito serem dele, duas aquisições, a que em certo sentido se poderiam chamar transformações íntimas. A primeira, sem que aliás a sugestão partisse dele, nem mesmo que ele tivesse consciência deste ponto de vista meu – quem sabe se ele o não combateria? – é que diante dele, pensando nele, me habituei a considerar o juízo do historiador como o juízo definitivo, o que importa, final, e por isso aquele que se deve desde logo visar. Não pode haver maior revolução para o espírito do que essa, de colocar-nos espontaneamente em frente do solitário juiz de biblioteca do futuro e não dos juízes sem número de praça pública do momento atual. Perante aquele juiz o nosso nome pode não ser citado, os testemunhos incompletos podem ser-nos injustamente favoráveis ou desfavoráveis, mas a sua opinião é a que conta, é a que vale.. O juízo da multidão que hoje nos eleva ou nos deprime, esse representa apenas a poeira da estrada. Não é preciso que sejamos atores, para que essa concepção da verdadeira instância que decide das reputações nos afete, por assim dizer, em cada um dos nossos móveis de ação, estímulos e afinidades morais: o efeito é o mesmo sobre o espectador, o curioso, o transeunte, o indiferente. É, em menor escala, está visto – porque esta é a maior de todas as possíveis diferenças nos motivos de inspiração e de conduta – como a mudança da concepção pagã, que o importante é a vida, para a concepção cristã, que é a eternidade. Feita a redução das aspirações da própria alma para as da inteligência ou do espírito, a metamorfose é também profunda entre viver, ou ver viver, tendo-se em vista os contemporâneos e tendo-se em vista a posteridade. Tratando-se da posteridade, está claro que é sempre preciso imaginar o espaço de algumas gerações, dar toda a margem ao esquecimento... No momento atual são milhares, milhões que julgam; pouco a pouco o tribunal se vai reduzindo, até que os grandes personagens vêm a depender da sentença de um juiz singular, um Mommsen, um Ranke, um Curtius, um Macaulay, encerrado em sua livraria, procurando animar-se para com eles de uma paixão retrospectiva, toda ela puro entusiasmo, ilusão de ator, na qual não figura nenhum dos sentimentos, um único sequer, nem das paixões verdadeiras que eles inspiram...

Outra transição que lhe devi... Como hei de explicá-lo que se entenda somente a nuança, e não mais? Porque quero crer que os germes se desenvolveriam por si mesmos, mas sinto que o seu influxo benéfico penetrou até o terreno onde eles se estavam talvez formando sem eu o sentir...

Nós tínhamos nos últimos tempos da vida de Tautphoeus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castelo, em um remanso daquelas encantadoras paragens. Era uma antiga casa térrea a que um dos proprietários, um inglês, juntara uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pitoresco de residência estrangeira. A frente deitava para o mar, e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande tabuleiro de grama, cuidadosamente tratado, como em um parque. A ilha de Paquetá é uma jóia tropical, sem valor para os naturais do país, mas de uma variedade quase infinita para o pintor, o fotógrafo, o naturalista estrangeiro. Para mim ela tinha a sedução especial de ser uma paisagem do Norte do Brasil desenhada na baía do Rio. Enquanto por toda parte à entrada do Rio de Janeiro o que se vê são granitos escuros cobertos de flores contínuas guardando a costa, em Paquetá o quadro é outro: são praias de coqueiros, campos de cajueiros, e à beira-mar as hastes flexíveis das canas selvagens alternando com as velhas mangueiras e os tamarindos solitários. Ao lado, entretanto, dessas miniaturas do Norte encontram-se na ilha a cada canto do mar rochas revestidas com a mesma característica vegetação fluminense.

Tautphoeus fora sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que chegara ao Brasil tinha sido um explorador de suas belezas. A madrugada, a alta noite, a distância não eram impedimento para ele, tratando-se de um nascer do sol, um efeito de luar, um fio de água descendo pela pedra, um jequitibá escondido na mata virgem. Toda a vida ele vivera nesse colóquio íntimo de namorado com a luz e a terra do Brasil; um raio de sol iluminando o Corcovado ou o Pão de Açúcar era uma saudação misteriosa do poder criador a que ele sempre respondia... Ao vê-lo sentado, a escutar os pássaros na mata ao lado, eu associava insensivelmente o mestre com as minhas primeiras lições de inglês e lembrava-me do vizir do sultão Mahmud. Os arredores do Rio de Janeiro especialmente o seduziam. Ele era de todos os passeios a que o convidassem para qualquer dos pontos pitorescos, que aí são sem número. Passar a tarde sob o arvoredo secular que se encontra em tantas das ilhas, observando o glorioso colorido das montanhas ao pôr do sol, era uma verdadeira volúpia para ele. A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar, com o silêncio e isolamento que cercava a biblioteca, a escolha, à vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta acessível, a planície atapetada, se lhe agradava passear; a água serena, o mar fechado à vista, como um lago suíço, se queria tomar o nosso barco e mandar o Mudo, o nosso saudoso remador, abrir a vala para os pequenos ilhotes de onde se avistam de um extremo os Órgãos de Teresópolis, e no outro a serrania da cidade...Ele vinha sempre aos sábados e ficava o domingo, e às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos... Era visivelmente a despedida. Suas faculdades estavam intatas, ele era desses em que se sente que o espírito não sofrerá deperecimento, que se apagará de repente no meio de uma contemplação ou meditação mais intensa e prolongada; mas as forças físicas estavam em declínio, via-se o cansaço de ter pensado tanto e o involuntário tributo à dúvida: se teria bem aproveitado o tempo, ou se teria vivido em vão. Ele tomara muito a sério o gosto da obscuridade, a modéstia, o retraimento; cortejara demais o esquecimento, e via talvez que este estava a ponto de envolvê-lo, exceto em alguns raros espíritos, onde sua lembrança duraria mais algum tempo, até eles mesmos serem por sua vez envolvidos...

Como foram suaves esses dias finais que ele nos deu, tão penetrantes, tão profundamente melancólicos, da melancolia, porém, dos momentos que quiséramos tornar eternos, ou que outros viessem gozar deles ao nosso lado para não se esvaecerem de todo, como um meteoro deslumbrante!... O seu prazer, muitas vezes, era sentar-se em um banco à beira do mar, do lago, eu devia dizer pela impressão que dava, e dali assistir à tarde, cujas cambiantes no ar, no céu, na água, nas cores do horizonte, no murmúrio e no silêncio da solidão, eram uma gama de que ele não perdia a mais insignificante transição... Quantas outras vezes, de dia, ao passarmos na mata ao lado da casa, quando se ia abrindo caminho para passarmos, não me pedia ele que não tocasse na natureza, que respeitasse o intricado, o selvático, o inesperado de tudo aquilo, porque aquela desordem era infinitamente superior ao que a arte pudesse tentar... Ele achava a mais pobre e árida natureza mais bela do que os jardins de Salústio ou de Luiz XIV. Ah! Se tem sido ele o descobridor e possuidor da América, o machado nunca teria entrado nela... E o tição? Uma queimada era para ele igual a um auto de fé. O incêndio ao lamber essas resinas preciosas, essa seiva, esses sucos de vida, esse sem-número de desenhos caprichosos de artistas inexcedíveis cada um no seu gênero, modelos de cor e de sensibilidade todos eles únicos, parecia consumir com uma dor cruel, vibrante, todas as suas ligações sensíveis com a natureza e a vida universal, os nervos todos de sua periferia intelectual.

O seu amor pela nossa natureza foi muito grande. Quantas vezes introduzi em nossas conversas a idéia de uma viagem à Europa para ver se despertava nele afinidades esquecidas, recordações latentes. Toda essa parte européia, porém, estava morta, atrofiada; em vez dela o que havia, esta, vivaz e peregrina, era uma sensibilidade nova, americana, a brasileira... Era um eterno encantado da nossa terra. Ela lhe dizia o que a nós não diz, e que talvez seja preciso ter tido e renunciado por ela uma primeira encarnação, um outro mundo, para se poder sentir. Se nós brasileiros pudéssemos ter aquele amor! Esse perene envelhecimento de Tautphoeus foi uma das influências que desenvolveram em mimo gosto, o encanto, ainda que de minha parte puramente sentimental e ingênuo, que o contato de nosso país tem hoje para mim... Em Tautphoeus aquele amor era diferente: era fino, espiritual, intelectual, estético... em mim será uma simples afinidade do coração, uma ternura, uma saudade da vida, mas esta afinidade deverá muito ao espetáculo do carinhoso devaneio daquele sábio, daquele grego antigo, daquele filósofo nascido e formado em outros climas, perante a amenidade, a doçura dos trópicos, o pitoresco da nossa moldura agreste, os toques de mutação de nossa cenografia natural, a modulação, o colorido, a solidão íntima de nossa paisagem.

No tempo da minha vanglória literária duas coisas me feriam nele: que com toda sua ciência ele não escrevesse nada e que pudesse ser tão submissamente católico. Agora em nossos passeios pela floresta, em nossas soirées à beira da minha pequena enseada, dourada pelo luar, era sobre a religião que versavam nossas conversas... Oh! que admiráveis monólogos os dele! A última vez que atravessou o nosso mare clausum voltou para casa para morrer. O vestígio do seu pensamento ficou por muito tempo comigo, e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com ele que compreendi por fim que um grande espírito podia ficar à vontade, livre, em uma religião revelada, do mesmo modo que foi graças a ele que compreendi que os escritores não formam por si sós a elite dos pensadores, que há ao lado deles, talvez acima, uma espécie de Trapa intelectual votada ao silêncio, e onde se refugiam os que experimentam o desdém da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frívolo, de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de sinceridade interior. O horror da cena, hoje do mercado, não pode ser um sinal de inferioridade intelectual.

O resumo da impressão que eu guardo dele está feito por Goethe conversando com Eckermann sobre Alexandre de Humboldt: “Que homem ele é! Há tanto tempo, tanto, que o conheço, e ele é sempre novo para mim. Pode-se dizer que não tem igual, nem em ciência, nem em experiência. Além disso, há uma variedade de aspectos nele como não encontrei em ninguém. Qualquer que seja o assunto de conversa que se procure, está sempre no seu próprio terreno e despeja sobre nós tesouros de informações. É como uma fonte de várias bicas, sob as quais basta colocar um cântaro para logo o encher, e donde estão sempre a correr jorros de água fresca inesgotável. Ele passará aqui alguns dias, e já me parece que há de ser para mim como se tivesse vivido muitos anos”. Ouvi-lo, vê-lo, viver com ele, era literalmente esquecer o presente e reunir-se à comitiva de Sócrates... Ele era uma dessas cópias, que nem por serem cópias, nem por se reproduzirem seguidamente de época em época entre diferentes nações, deixam de conservar a superioridade, a primazia do original, o mais nobre dos modelos humanos.