Miss Dollar/II

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II.


Quaes as razões que induzírão o Dr. Mendonça a fazer collecção de cães, é cousa que ninguem podia dizer; uns querião que fosse simplesmente paixão por esse symbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavão antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendonça achou que era de boa guerra adorar os cães.

Fossem quaes fossem as razões, o certo é que ninguem possuía mais bonita e variada collecção do que elle. Tinha-os de todas as raças, tamanhos e côres. Cuidava d’elles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava melancolico. Quasi se póde dizer que, no espirito de Mendonça, o cão pesava tanto como o amor, segundo uma expressão celebre : tirai do mundo o cão, e o mundo será um ermo.

O leitor superficial conclue d’aqui que o nosso Mendonça era um homem excentrico. Não era. Mendonça era um homem como os outros; gostava de cães como outros gostão de flôres. Os cães erão as suas rosas e violetas; cultivava-os com o mesmissimo esmero. De flôres gostava tambem; mas gostava d’ellas nas plantas em que nascião : cortar um jasmim ou prender um canario parecia-lhe identico attentado.

Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro annos, bem apessoado, maneiras francas e distinctas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a clinica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excellente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a familia. A familia compunha-se dos animaes citados acima.

Na memoravel noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendonça para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadellinha entrou a acompanhal-o, e elle, notando que era animal sem dono visivel, levou-a comsigo para os Cajueiros.

Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadellinha. Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as fórmas delgadas e graciosas da sua fidalga raça; os olhos castanhos e avelludados parecião exprimir a mais completa felicidade d’este mundo, tão alegres e serenos erão. Mendonça contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o distico do cadeado que fechava a colleira, e convenceu-se finalmente de que a cadellinha era animal de grande estimação da parte de quem quer que fosse dono d’ella.

— Se não apparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos cães.

Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, emquanto Mendonça planeava um bom futuro á nova hospede, cuja familia devia perpetuar-se na casa.

O plano de Mendonça durou o que duram os sonhos : o espaço de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornaes, vio o annuncio transcripto acima, promettendo duzentos mil réis a quem entregasse a cadellinha fugitiva. A sua paixão pelos cães deu-lhe a medida da dôr que devia soffrer o dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a offerecer duzentos mil réis de gratificação a quem apresentasse a galga. Consequentemente resolveu restituil-a, com bastante mágoa do coração. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal vencêrão os sentimentos de probidade e compaixão, que erão o apanágio d’aquella alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, dispôz-se a leval-o elle mesmo, e para esse fim preparou-se. Almoçou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia feito a mesma operação, sahírão ambos de casa com direcção a Matacavallos.

N’aquelle tempo ainda o barão do Amazonas não tinha salvo a independencia das republicas platinas mediante a victoria de Riachuelo, nome com que depois a camara municipal chrismou a rua de Matacavallos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que não queria dizer cousa nenhuma de geito.

A casa que tinha o numero indicado no annuncio era de bonita apparencia e indicava certa abastança nos haveres de quem lá morasse. Antes mesmo que Mendonça batesse palmas no corredor, já Miss Dollar, reconhecendo os patrios lares, começava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e gutturaes que, se houvesse entre os cães litteratura, devião ser um hymno de acção de graças.

Veio um moleque saber quem estava; Mendonça disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expansão do rosto do moleque, que correu a annunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendonça a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.

Na sala não havia ninguem. Algumas pessoas, que têm salas elegantemente dispostas, costumão deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. É possivel que esse fosse o costume dos donos d’aquella casa, mas d’esta vez não se cuidou em semelhante cousa, porque mal o medico entrou pela porta do corredor surgio de outra interior uma velha com Miss Dollar nos braços e a alegria no rosto.

— Queira ter a bondade de sentar-se, disse ella designando uma cadeira a Mendonça.

— A minha demora é pequena, disse o medico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadellinha que está comigo desde hontem……

— Não imagina que desassocego causou cá em casa a ausencia de Miss Dollar…

— Imagino, minha senhora; eu tambem sou apreciador de cães, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar…

— Perdão! interrompeu a velha; minha não; Miss Dollar não é minha, é de minha sobrinha.

— Ah !…

— Ella ahi vem.

Mendonça levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em questão. Era uma moça que representava vinte e oito annos, no pleno desenvolvimento da sua belleza, uma d’essas mulheres que annuncião velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce á côr immensamente branca da sua pelle. Era roçagante o vestido, o que lhe augmentava a magestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o collo; mas adivinhava-se por baixo da seda um bello tronco de marmore modelado por esculptor divino. Os cabellos castanhos e naturalmente ondeados estavão penteados com essa simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas conhecidas; ornavão-lhe graciosamente a fronte como uma corôa doada pela natureza. A extrema brancura da pelle não tinha o menor tom côr de rosa que lhe fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expressão imperiosa. Mas a grande distincção d’aquelle rosto, aquillo que mais prendia os olhos, erão os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.

Mendonça nunca víra olhos verdes em toda a sua vida; disserão-lhe que existião olhos verdes, e elle sabia de cór uns versos celebres de Gonçalves Dias; mas até então os taes olhos verdes erão para elle a mesma cousa que a phenix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a proposito d’isto, affirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria d’elles com terror.

— Porque? perguntou-lhe um dos circumstantes admirado.

— A côr verde é a côr do mar, respondeu Mendonça; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.

Eu deixo ao criterio do leitor esta singularidade de Mendonça, que de mais a mais é preciosa, no sentido de Molière.