Miss Dollar/III

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Miss Dollar por Machado de Assis
Capítulo III


III.


Mendonça cumprimentou respeitosamente a recem-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.

— Agradeço-lhe infinitamente o ter-me restituido este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.

— E eu dou graças a Deos por têl-o achado ; podia ter cahido em mãos que o não restituissem.

Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadellinha, saltando do regaço da velha, foi ter com Margarida ; levantou as patas dianteiras e pôz-lh’as sobre os joelhos ; Margarida e Miss Dollar trocárão um longo olhar de affecto. Durante esse tempo uma das mãos da moça brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendonça admirasse os seus bellissimos dedos armados com unhas agudissimas.

Mas, comquanto Mendonça tivesse summo prazer em estar alli, reparou que era exquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratificação. Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplação da moça ; levantou-se dizendo :

— A minha missão está cumprida……

— Mas… interrompeu a velha.

Mendonça comprehendeu a ameaça da interrupção da velha.

— A alegria, disse elle, que restitui a esta casa é a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora peço-lhes licença……

As duas senhoras comprehendêrão a intenção de Mendonça ; a moça pagou-lhe a cortezia com um sorriso ; e a velha, reunindo no pulso quantas forças ainda lhe restavão pelo corpo todo, apertou com amizade a mão do rapaz.

Mendonça sahio impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, além da belleza, que era de primeira agua, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquillo era caracter da moça, dava-se bem com a indole de medico ; se era resultado de algum episodio da vida, era uma pagina do romance que devia ser decifrada por olhos habeis. A fallar verdade, o unico defeito que Mendonça lhe achou foi a côr dos olhos, não porque a côr fosse feia, mas porque elle tinha prevenção contra os olhos verdes. A prevenção, cumpre dizêl-o, era mais litteraria que outra coisa ; Mendonça apegava-se á phrase que uma vez proferíra, e foi acima citada, e a phrase é que lhe produzio a prevenção. Não m’o accusem de chofre ; Mendonça era homem intelligente, instruido e dotado de bom senso ; tinha, além d’isso, grande tendencia para as affeições romanticas; mas apezar disso lá tinha calcanhar o nosso Achilles. Era homem como os outros ; outros Achilles andão por ahi que são da cabeça aos pés um immenso calcanhar. O ponto vulneravel de Mendonça era esse ; o amor de uma phrase era capaz de violentar-lhe affectos; sacrificava uma situação a um periodo arredondado.

Referindo a um amigo o episodio da galga e a entrevista com Margarida, Mendonça disse que poderia vir a gostar d’ella se não tivesse olhos verdes. O amigo rio com certo ar de sarcasmo.

— Mas, doutor, disse-lhe elle, não comprehendo essa prevenção; eu ouço até dizer que os olhos verdes são de ordinario nuncios de boa alma. Além de que, a côr dos olhos não vale nada, a questão é a expressão d’elles. Podem ser azues como o céo e pérfidos como o mar.

A observação d’este amigo anonymo tinha a vantagem de ser tão poetica como a de Mendonça. Por isso abalou profundamente o animo do medico. Não ficou este como o asno de Buridan entre a celha d’agua e a quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendonça não hesitou. Acudio-lhe de prompto a lição do casuista Sanchez, e das duas opiniões tomou a que lhe pareceu provavel.

Algum leitor grave achará pueril esta circumstancia dos olhos verdes e esta controversia sobre a qualidade provavel d’elles. Provará com isso que tem pouca pratica do mundo. Os almanachs pittorescos citão até á saciedade mil excentricidades e senões dos grandes varões que a humanidade admira, já por instruidos nas lettras, já por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos varões. Não queira o leitor abrir uma excepção só para encaixar n’ella o nosso doutor. Aceitemol-o com os seus ridiculos; quem os não tem? O ridiculo é uma especie de lastro da alma quando ella entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra especie de carregamento.

Para compensar essas fraquezas, já disse que Mendonça tinha qualidades não vulgares. Adoptando a opinião que lhe pareceu mais provavel, que foi a do amigo, Mendonça disse comsigo que nas mãos de Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou n’esse sentido um plano de felicidade; uma casa n’um ermo, olhando para o mar ao lado do occidente, afim de poder assistir ao espectaculo do pôr do sol. Margarida e elle, unidos pelo amor e pela Igreja, beberião alli, gotta a gotta, a taça inteira da celeste felicidade. O sonho de Mendonça continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui. Mendonça pensou n’isto alguns dias; chegou a passear algumas vezes por Matacavallos; mas tão infeliz que nunca vio Margarida nem a tia; afinal desistio da empresa e voltou aos cães.

A collecção de cães era uma verdadeira galeria de homens illustres. O mais estimado d’elles chamava-se Diogenes; havia um galgo que acudia ao nome de Cesar; um cão d’’agua que se chamava Nelson; Cornelia chamava-se uma cadellinha rateira, e Caligula um enorme cão de fila, vera effigie do grande monstro que a sociedade romana produzio. Quando se achava entre toda essa gente, illustre por differentes titulos, dizia Mendonça que entrava na historia; era assim que se esquecia do resto do mundo.