Miss Dollar/IV

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Miss Dollar por Machado de Assis
Capítulo IV


IV.


Achava-se Mendonça uma vez á porta do Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um individuo, amigo d’elle, quando vio passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe parecêrão as senhoras de Matacavallos. Mendonça fez um movimento de espanto que não escapou ao amigo.

— Que foi? perguntou-lhe este.

— Nada ; pareceu-me conhecer aquellas senhoras. Viste-as, Andrade?

— Não.

O carro entrára na rua do Ouvidor; os dous subírão pela mesma rua. Logo acima da rua da Quitanda, parára o carro á porta de uma loja, e as senhoras apeárão-se e entrárão. Mendonça não as vio sahir; mas vio o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando percebe algum segredo occulto.

Poucos instantes depois estavão á porta da loja; Mendonça verificou que erão as duas senhoras de Matacavallos. Entrou afouto, com ar de quem ia comprar alguma cousa, e approximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia. Mendonça comprimentou-as respeitosamente. Ellas recebêrão o comprimento com affabilidade. Ao pé de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admiravel faro que a natureza concedeu aos cães e aos cortezãos da fortuna, deu dous enormes saltos de alegria apenas vio Mendonça, chegando a tocar-lhe o estomago com as patas dianteiras.

— Parece que Miss Dollar ficou com boas recordações suas, disse D. Antonia (assim se chamava a tia de Margarida).

— Creio que sim, respondeu Mendonça brincando com a galga e olhando para Margarida.

Justamente n’esse momento entrou Andrade.

— Só agora as reconheci, disse elle dirigindo-se ás senhoras.

Andrade apertou a mão das duas senhoras, ou antes apertou a mão de Antonia e os dedos de Margarida.

Mendonça não contava com este incidente, e alegrou-se com elle por ter á mão o meio de tornar intimas as relações superficiaes que tinha com a familia.

— Seria bom, disse elle a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.

— Pois não as conheces? perguntou Andrade estupefacto.

— Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia ; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.

Antonia referio a Andrade a perda e o achado da cadellinha.

— Pois, n’esse caso, respondeu Andrade, apresentou-o já.

Feita a apresentação official, o caixeiro trouxe a Margarida os objectos que ella havia comprado, e as duas senhoras despedírão-se dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.

Não citei nenhuma palavra de Margarida no dialogo acima transcripto, porque, a fallar verdade, a moça só proferio duas palavras a cada um dos rapazes.

— Passe bem, disse-lhes ella dando as pontas dos dedos e sahindo para entrar no carro.

Ficando sós, sahírão tambem os dous rapazes e seguírão pela rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendonça pensava em Margarida ; Andrade pensava nos meios de entrar na confidencia de Mendonça. A vaidade tem mil fórmas de manifestar-se como o fabuloso Prothêo. A vaidade de Andrade era ser confidente dos outros ; parecia-lhe assim obter da confiança aquillo que só alcançava da indiscrição. Não lhe foi difficil apanhar o segredo de Mendonça; antes de chegar á esquina da rua dos Ourives já Andrade sabia de tudo.

— Comprehendes agora, disse Mendonça, que eu preciso ir á casa d’ella ; tenho necessidade de vêl-a ; quero ver se consigo…

Mendonça estacou.

— Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que não? Mas desde já te digo que não será facil.

— Porque?

— Margarida tem rejeitado cinco casamentos.

— Naturalmente não amava os pretendentes, disse Mendonça com o ar de um geometra que acha uma solução.

— Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e não era indifferente ao ultimo.

— Houve naturalmente intriga.

— Tambem não. Admiras-te? É o que me acontece. É uma rapariga exquisita. Se te achas com força de ser o Colombo d’aquelle mundo, lança-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paixões, que são os ferozes marujos d’estas navegações de descoberta.

Enthusiasmado com esta allusão, historica debaixo da fórma de allegoria, Andrade olhou para Mendonça, que, d’esta vez entregue ao pensamento da moça, não attendeu á phrase do amigo. Andrade contentou-se com o seu proprio suffragio, e sorrio com o mesmo ar de satisfação que deve ter um poeta quando escreve o ultimo verso de um poema.