Miss Dollar/VI

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VI.


Corrêrão assim tres mezes. A corte de Mendonça não adiantava um passo ; mas a viuva nunca deixou de ser amavel com elle. Era isto o que principalmente retinha o medico aos pés da insensivel viuva ; não o abandonava a esperança de vencêl-a.

Algum leitor conspicuo desejaria antes que Mendonça não fosse tão assiduo na casa de uma senhora exposta ás calumnias do mundo. Pensou n’isso o medico e consolou a consciencia com a presença de um individuo, até aqui não nomeado por motivo de sua nullidade, e que era nada menos que o filho da Sra. D. Antonia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil réis por mez, sem os ganhar, graças á longanimidade da mãi. Frequentava as casas dos cabelleireiros, onde gastava mais tempo que uma Romana da decadencia ás mãos das suas servas latinas. Não perdia representação de importancia no Alcazar; montava bons cavallos, e enriquecia com despesas extraordinarias as algibeiras de algumas damas celebres e de varios parasitas obscuros. Calçava luvas da lettra E e botas nº 36, duas qualidades que lançava á cara de todos os seus amigos que não descião do nº 40 e da lettra H. A presença d’este gentil pimpolho, achava Mendonça que salvava a situação. Mendonça queria dar esta satisfação ao mundo, isto é, á opinião dos ociosos da cidade. Mas bastaria isso para tapar a boca aos ociosos?

Margarida parecia indifferente ás interpretações do mundo como á assiduidade do rapaz. Seria ella tão indifferente a tudo mais n’este mundo? Não; amava a mãi, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa musica, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em materia de moda; não valsava; quando muito dansava alguma quadrilha nos saráos a que era convidada. Não fallava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem pretenção nem faceirice.

Quando Mendonça apparecia lá, Margarida recebia-o com visivel contentamento. O medico illudia-se sempre, apezar de já acostumado a essas manifestações. Com effeito, Margarida gostava immenso da presença do rapaz, mas não parecia dar-lhe uma importancia que lisongeasse o coração d’elle. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.

Não era possivel soffrer por muito tempo a posição em que se achava o medico. Uma noite, por um esforço de que antes d’isso se não julgaria capaz, Mendonça dirigio a Margarida esta pergunta indiscreta:

— Foi feliz com seu marido?

Margarida franzio a testa com espanto e cravou os olhos nos do medico, que parecião continuar mudamente a pergunta.

— Fui, disse ella no fim de alguns instantes.

Mendonça não disse palavra; não contava com aquella resposta. Confiava de mais na intimidade que reinava entre ambos ; e queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da viuva. Falhou o calculo; Margarida tornou-se seria durante algum tempo; a chegada de D. Antonia salvou uma situação esquerda para Mendonça. Pouco depois Margarida voltava ás boas, e a conversa tornou-se animada e intima como sempre. A chegada de Jorge levou a animação da conversa a proporções maiores; D. Antonia, com olhos e ouvidos de mãi, achava que o filho era o rapaz mais engraçado d’este mundo; mas a verdade é que não havia em toda a christandade espirito mais frivolo. A mãi ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, só elle, a conversa, referindo anecdotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendonça via todas essas feições do rapaz, e aturava-o com resignação evangelica.

A entrada de Jorge, animando a conversa, accelerou as horas; ás dez retirou-se o medico, acompanhado pelo filho de D. Antonia, que ia ceiar. Mendonça recusou o convite que Jorge lhe fez, e despedio-se d’elle na rua do Conde, esquina da do Lavradio.

N’essa mesma noite resolveu Mendonça dar um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temerario para quem conhecesse o caracter da viuva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura. Entretanto, não hesitou o medico em empregar a carta, confiando que no papel diria as cousas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escripta com febril impaciencia; no dia seguinte, logo depois de almoçar, Mendonça metteu a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.

A viuva rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e pôz o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abrio, cahio-lhe a carta aos pés. Abrio-a e leu o seguinte:

« Qualquer que seja a causa da sua esquivança, respeito-a, não me insurjo contra ella. Mas, se não me é dado insurgir-me, não me será licito queixar-me? Ha de ter comprehendido o meu amor, do mesmo modo que tenho comprehendido a sua indifferença; mas, por maior que seja essa indifferença, está longe de hombrear com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu coração quando eu mais longe me cuidava d’estas paixões dos primeiros annos. Não lhe contarei as insomnias e as lagrimas, as esperanças e os desencantos, paginas tristes d’este livro que o destino põe nas mãos do homem para que duas almas o leião. É-lhe indifferente isso.

« Não ouso interrogal-a sobre a esquivança que tem mostrado em relação a mim; mas por que motivo se estende essa esquivança a tantos mais? Na idade das paixões fervidas, ornada pelo céo com uma belleza rara, por que motivo quer esconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestaveis direitos? Perdôe-me a audacia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu coração desejaria decifrar. Penso á vezes que alguma grande dôr a atormenta, e quizera ser o medico do seu coração; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma illusão perdida. Parece que não ha offensa n’esta ambição.

« Se, porém, essa esquivança denota simplesmente um sentimento de orgulho legitimo, perdôe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente m’o prohibírão. Rasgue a carta que não póde valer-lhe uma recordação, nem representar uma arma. »

A carta era toda de reflexão; a phrase fria e medida não exprimia o fogo do sentimento. Não terá, porém, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendonça pedia uma explicação que Margarida provavelmente não podia dar.

Quando Mendonça disse a Andrade haver escripto a Margarida, o amigo do medico entrou a rir despregadamente.

— Fiz mal? perguntou Mendonça.

— Estragaste tudo. Os outros pretendentes começárão também por carta; foi justamente a certidão de obito do amor.

— Paciencia, se acontecer o mesmo, disse Mendonça levantando os hombros com apparente indifferença; mas eu desejava que não estivesses sempre a fallar nos pretendentes; eu não sou pretendente no sentido d’esses.

— Não querias casar com ella?

— Sem duvida, se fosse possivel, respondeu Mendonça.

— Pois era justamente o que os outros querião; casar-te-hias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberão em partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se fallo em pretendentes não é por te offender, porque um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.

— Tu?

— É verdade; mas descansa, não fui o primeiro, nem ao menos o ultimo.

— Escreveste?

— Como os outros; como elles, não obtive resposta; isto é, obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, já que lhe escreveste, espera o resto; verás se o que te digo é ou não exacto. Estás perdido, Mendonça; fizeste muito mal.

Andrade tinha esta feição caracteristica de não omittir nenhuma das côres sombrias de uma situação, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despedio-se de Mendonça, e foi adiante.

Mendonça foi para casa, onde passou a noite em claro.