Monte Alverne

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Monte Alverne
por Machado de Assis
Poema publicado em Chrysalidas (1864).

MONTE ALVERNE.


Ao padre mestre A. J. da Silveira Sarmento.


(1888.)


Morreu! — Assim baquêa a esta lua erguida
        No alto do pedestal;
Assim o cedro das florestas virgens
Cahe pelo embate do corsel dos ventos
        Na hora do temporal.

Morreu! — Fechou-se o portico sublime
        De um paço secular;
Da mocidade a romaria augusta
Amanhã ante as pallidas ruinas
        Ha de vir meditar!


Tinha na fronte de propheta ungido
        A inspiração do céu.
Pela escada do púlpito moderno
Subio outrora festival mancebo
        E Bossuet desceu!

Ah! que perdeste n'um só homem, claustro!
        Era uma augusta voz;
Quando essa boca divinal se abria,
Mais viva a crença dissipava n'alma
        Uma duvida atroz!

Era tempo? — a argila se alquebrava
        N'um áspero crysol;
Corrido o véu pelos cançados olhos
Nem via o sol que lhe contava os dias,
        Elle — fecundo sol!

A doença o prendia ao leito infausto
        Da derradeira dor;
A terra reclamava o que era terra,
E o gelo dos invernos coroava
        A fronte do orador.


Mas lá dentro o espirito fervente
        Era como um fanal;
Não, não dormia nesse regio craneo
A alma gentil do Cicero dos pulpitos,
        — Cuidadosa Vestal!

Era tempo! — O romeiro do deserto
        Pára um dia tambem;
E ante a cidade que almejou por annos
Desdobra ura riso nos doridos labios,
        Descança e passa além!

Cahiste! — Mas foi só a argila, o vaso,
        Que o tempo derrubou;
Não todo á eça foi teu vulto olympico;
Como deixa o cometa uma aurea cauda,
        A lembrança ficou!

O que hoje resta era a terrena purpura
        Daquelle genio-rei;
A alma voou ao seio do infinito,
Voltou á patria das divinas glorias
        O apostolo da lei.


Patria, curva o joelho ante esses restos
        Do orador immortal!
Por esses labios não fallava um homem,
Era uma geração, um seculo inteiro,
        Grande, monumental!

Morreu! — Assim baquêa a estatua erguida
        No alto do pedestal;
Assim o cedro das florestas virgens
Cahe pelo embate do corsel dos ventos
        Na hora do temporal!