Montes, eu venho outra vez

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Recatava-se pridentemente esta belleza das demazias de seu futuro esposo, mas elle avaliando este desdem por tyrannia recorre segunda vez aos montes, como escarmentado de amor no primeiro objecto.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsMaria

Montes, eu venho outra vez
aliviar-me convosco,
perdoai, se com meus ais,
vosso silêncio interrompo.
Já sabeis, montes amigos,
que amo, estimo, quero, adoro;
mas de que serve cansar-vos,
já sabeis, montes, que morro.
À conta do que me lembram
aqueles olhos irosos,
que no meu sentir são raios,
e nunca a meu ver são olhos.
Lembra-me o rico cabelo,
que na oficina dos ombros
me reforma estas meninas
de seus anéis preciosos.
Lembra-me o rosto gentil,
e ver eu no gentil rosto
escondido um não sei quê,
que me matou, não sei como.
Lembra-me logo a muita alma,
com que move o airoso corpo,
e nem debalde em o vendo
de ver tanta alma me assombro.
Oh quem pudera dizer-vos
outras mil partes, que escondo
de recatado, podendo
dizê-las de vanglorioso.
Lembra-me Marfida enfim:
mas que digo eu? que vos conto?
porque se dela jamais
me esqueço, como me acordo!
Isto pois venho a dizer-vos,
e a contar, montes, de novo,
que de mil ânsias, que planto,
um só favor não recolho.
Limitar certos favores
com fingidos pressupostos,
se não vai de estorvo alheio,
vai de desapego próprio.
Retorceder as vontades,
e esbulhar da posse os logros
toca em arrependimento,
se acaso não peca em ódio.
Desigualar as ações,
e alterar cad'hora os modos,
se é por acinte, não gabo,
se é por exame, não louvo.
Desdenhar-se a meus carinhos,
quem é afável com todos,
isso é dizer-me na cara,
que é aborrecido seu dono.
Faltar nos prometimentos,
ser pontual nos degostos,
curta nas satisfações,
larguíssima nos opróbrios:
Executar tiranias,
endurecer-se com rogos,
prezar-se de isenções,
enfim matar-me por gosto:
Que há de ser montes amigos,
senão haver feito eu próprio
ingratíssima a Marfida
a puro afeto amoroso.
Que há de ser, se o ser constante
em um fino é desabono,
e assim eu mais me malquisto,
quanto mais fino me mostro?
Que há de ser, se quando as setas
de Amor em Marfida aponto,
ela as solta contra mim,
e em meu próprio amor me corto?
Faz-me mal, o que lhe quero,
dá-me em saber, que a adoro,
e é tarde para escondê-lo
a seu juízo, e seus olhos.
Quisera ingrata chamar-lhe,
porém nem devo, nem ouso,
que em dizer mal do que quero,
desacredito meu gosto.
Tende-me, montes, segredo,
não saibam nestes contornos,
quem é a ingrata Marfida,
e o triste Pastor Ausônio.