Montes, eu venho outra vez

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Montes, eu venho outra vez
aliviar-me convosco,
perdoai, se com meus ais,
vosso silêncio interrompo.
Já sabeis, montes amigos,
que amo, estimo, quero, adoro;
mas de que serve cansar-vos,
já sabeis, montes, que morro.
À conta do que me lembram
aqueles olhos irosos,
que no meu sentir são raios,
e nunca a meu ver são olhos.
Lembra-me o rico cabelo,
que na oficina dos ombros
me reforma estas meninas
de seus anéis preciosos.
Lembra-me o rosto gentil,
e ver eu no gentil rosto
escondido um não sei quê,
que me matou, não sei como.
Lembra-me logo a muita alma,
com que move o airoso corpo,
e nem debalde em o vendo
de ver tanta alma me assombro.
Oh quem pudera dizer-vos
outras mil partes, que escondo
de recatado, podendo
dizê-las de vanglorioso.
Lembra-me Marfida enfim:
mas que digo eu? que vos conto?
porque se dela jamais
me esqueço, como me acordo!
Isto pois venho a dizer-vos,
e a contar, montes, de novo,
que de mil ânsias, que planto,
um só favor não recolho.
Limitar certos favores
com fingidos pressupostos,
se não vai de estorvo alheio,
vai de desapego próprio.
Retorceder as vontades,
e esbulhar da posse os logros
toca em arrependimento,
se acaso não peca em ódio.
Desigualar as ações,
e alterar cad'hora os modos,
se é por acinte, não gabo,
se é por exame, não louvo.
Desdenhar-se a meus carinhos,
quem é afável com todos,
isso é dizer-me na cara,
que é aborrecido seu dono.
Faltar nos prometimentos,
ser pontual nos degostos,
curta nas satisfações,
larguíssima nos opróbrios:
Executar tiranias,
endurecer-se com rogos,
prezar-se de isenções,
enfim matar-me por gosto:
Que há de ser montes amigos,
senão haver feito eu próprio
ingratíssima a Marfida
a puro afeto amoroso.
Que há de ser, se o ser constante
em um fino é desabono,
e assim eu mais me malquisto,
quanto mais fino me mostro?
Que há de ser, se quando as setas
de Amor em Marfida aponto,
ela as solta contra mim,
e em meu próprio amor me corto?
Faz-me mal, o que lhe quero,
dá-me em saber, que a adoro,
e é tarde para escondê-lo
a seu juízo, e seus olhos.
Quisera ingrata chamar-lhe,
porém nem devo, nem ouso,
que em dizer mal do que quero,
desacredito meu gosto.
Tende-me, montes, segredo,
não saibam nestes contornos,
quem é a ingrata Marfida,
e o triste Pastor Ausônio.