Motta Coqueiro/II

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Motta Coqueiro por José do Patrocínio
Capítulo II: O sítio em Macabu


Um tapete de grama, desdobrado sobre uma larga área de terreno, viredecia de um lado uma vasta planície e de outro uma pequena colina, alegrando a aparência da localidade.

Aqui e ali erguiam-se do chão atapetado grandes moitas de arbustos, ou isoladas árvores corpulentas, copadas umas, fluas e esgalhadas outras, projetando sombras extensas ou sacudindo à viração longos flocos de musgo, postiças barbas brancas postas à velhice desses raros representantes das matas virgens.

Na orla horizontal do gramal, o rio Macabu, comprimido entre as margens cobertas de vegetação esplêndida, arrastava a sua pobreza de águas, ora juncado das mortas folhas amarelas das figueiras, ora branqueado pela caduca floração dos ingazeiros.

O cimo da colina servia de base a uma casa avarandada, cujo caio era de distância em distância colorido por uns quadrados e retângulos verdes, a que correspondiam outras tantas portas e janelas envidraçadas.

Cerca de duzentos passos desta casa chamada — a casa grande — estendia-se um lanço estreito, coberto de sapê, de paredes apenas barreadas, atravessadas de espaço a espaço por umas portas baixas e janelas que teriam três palmos de altura sobre dois de largo.

Era uma linha de senzalas, miserável habitação dos escravos.

Entre as senzalas e a casa grande — duas casas — a do feitor e a do fabrico de farinha, ou bolandeira, e além destas, do outro lado da casa grande, uma espécie de barracão coberto de telha, com o caio sujo e as paredes meio esburacadas, completavam o número das edificações, se exceptarmos algumas palhoças colocadas mais para trás e que serviam para guardar os animais domésticos.

Como grande mancha negra no matiz da colina, via-se o curral, cercado por uma curva de baixos paus-a-pique, nos quais prendia-se uma pesada cancela.

A casa grande estava quase sempre fechada, porque o seu dono, Manuel da Motta Coqueiro, residia em Campos e a maior parte do ano passava-a ai, ou então na sua chácara da barra de Macabu.

A alegria dos lugares habitados não era, pois, encontrada senão raramente neste local, onde a primavera desfazia-se em florescências esplêndidas sem que houvesse quem a contemplasse.

Quando o vento indiferente, enredando-se na copa das árvores, transformadas em ramalhetes monstros pela seiva vernal, esfolhava-os desapiedadamente, a chuva de flores e folhas caía sobre o gado, que fugindo à canícula, deitava-se-lhes à sombra, ruminando silenciosamente.

Quando o calor abrasava, colhidas as asas e ocultas na frescura da folhagem, as cigarras e as nuvens de passarinhos chilravam e gazeavam por ali como se estivessem em lugar completamente deserto. Também de vizinhança de homem, só dava sinal uma espiral de fumaça que se erguia por entre as negras telhas do casarão central.

Toda a vida e atividade estavam concentradas em outros pontos, e fácil era ir ter a eles tomando um caminho, que passava perto do curral, e seguindo por ele em direção ao ocidente.

A um quarto de hora de caminho estar-se-ia no meio de compridos aceiros, sombreados por enormes bananeiras que dividiam umas de outras as terras cultivadas.

Ouvir-se-iam então os cantos monótonos e ver-se-iam, com uma saia de riscado e alvas camisas de algodão, expostos ao sol os colos negros das escravas, e vestidos de calças de zuarte, os negros seminus levando para diante o eito, estimulados pelos gritos maquinais de arriba, arriba! bradados pelo feitor, encostado ao cabo do seu rebenque.

Se no meio dos cafezais e mandiocais não fosse encontrada a gente do sítio, o tantã, tantã compassado dos machados no cerne das árvores seculares anunciaria a sua estada nas matas circunvizinhas.

Às vezes o serviço era dirigido pelo senhor em pessoa; mas o aspecto da casa não se alterava, porque vindo só para o sítio, Motta Coqueiro apenas era visto em casa quando de manhã muito cedo ditava ordens ao seu feitor ou à noite ouvia dele a narração do serviço feito. Em face deles quedavam então os escravos alinhados e taciturnos.

Quatro anos antes da época em que nos achamos, primeiros meses de 1852, outra era a vida no sítio.

O campo era quase sempre percorrido por cavaleiros e homens a pé, os quais dirigiam-se de preferência para o velho barracão que descrevemos.

Por esse tempo, a pedido de um amigo, Motta Coqueiro recebeu como seu agregado um desses pobres homens do sertão, que vivem da pequena lavoura e sem meios para ter um terreno próprio, cultivam o alheio para usufruir-lhe as benfeitorias. Francisco Benedito, forte apesar da idade, que subia a mais de 40 anos, vira-se, havia alguns meses, sem um teto sob o qual abrigasse a numerosa família, e recorrendo a Coqueiro por um seu amigo, obteve concessão para estabelecer-se em terras do sítio de Macabu, onde levantaria para si uma casa e cultivaria o terreno que lhe aprouvesse, sem prejudicar o proprietário.

Foi, porém, temporariamente hospedado no barracão contíguo à casa grande até que terminasse os trabalhos preliminares do seu estabelecimento.

A beleza das três filhas mais velhas de Francisco Benedito, a intimidade por ele demasiadamente facilitada, fizeram logo da casa um ponto de reunião, principalmente dos ociosos da vizinhança.

Coincidiram com a chegada de Francisco Benedito e os primeiros tempos da sua morada na casa de Coqueiro as demoras deste e sua família no sítio.

Era causa dessas demoras ter Coqueiro, que negociava em madeiras, resolvido explorar as matas próprias para obter os preços elevados correspondentes à carestia do gênero no mercado.

Para acelerar o trabalho era necessário que ele estivesse presente ao serviço dos escravos e empregados. Isto obrigava-o a demorar-se no sítio e a sua esposa, para não constrangê-lo a ir visitá-la a Campos, resolveu acompanhá-lo.

Entre a família do agregado e a do proprietário travaram-se logo relações e Motta Coqueiro foi na primeira oportunidade escolhido para batizar o caçula de Francisco Benedito.

Cumpre, entretanto, notar que a senhora de Coqueiro manteve sempre uma certa reserva para com o compadre, que não obstante ser bom homem, muito respeitador e trabalhador, tinha o vício da bebida.

Entre os vadios que passavam as semanas assentados ao balcão da venda próxima, tocando viola e desfiando a vida alheia, o compadre assentava-se as vezes, e para matar o tempo e cortar o calor esvaziava tantos copinhos de aguardente, que o resultado era voltar para casa descrevendo ziguezagues.

Demais tinha relações com pessoas, que eram inimigos confessos de Motta Coqueiro, e que, segundo era fama, só não lhe bebiam o sangue porque não podiam.

Era deste número o André inspetor, e o subdelegado Oliveira, que se malquistaram com o compadre de Francisco Benedito desde umas eleições que ele venceu em Carapebus.

Salvo esta queixa, reinava a mais inteira cordialidade entre as famílias.

As filhas e mulher do agregado freqüentavam a casa grande e nunca saíam de lá sem que a senhora pedisse os lenços das pequeninas para amarrar uma trouxinha.

Por seu turno estas de vez em quando traziam uma cestinha cheia de ovos e acercando-se da dona da casa, depois de lhe beijarem a mão, diziam-lhe:

— Eu trouxe isto para a senhora.

A resposta era sempre, à chegada das canoas da cidade, um embrulho de cassa ou chita, ou uns lenços novos, enviados pela esposa de Coqueiro à casa de Francisco Benedito.

Se a consorte de Coqueiro assim tratava a família do seu hóspede, aquele por sua vez teve diversas ocasiões de carregar as suas sobrancelhas salientes, e tomar um tom de voz enérgico para responder aos que falavam do seu compadre:

— O que eu sei é que tirado o defeito da bebida, é muito trabalhador e a sua família é boa gente.

Todas as tardes ao voltar da roça ou da derrubada, Coqueiro parava junto da casa de Francisco Benedito, e ali esperava muitas vezes até a noite, mandando ao moleque, seu pajem, desencilhar o cavalo, porque só iria mais tarde.

Havia três indivíduos a quem tamanha familiaridade incomodava. Eram eles Manuel João, um mulatinho de vinte e poucos anos, bem apessoado e falante, — um pernóstico, segundo o Viana da venda; o Sebastião Pereira, robusto rapaz que morava perto das terras de Coqueiro, e muito conhecido pela perícia em tocar viola e cantar o desafio; e o Viana da venda já meio maduro — como dizia o André inspetor, e creio mesmo que ligado por laços matrimoniais.

Cada um desses três indivíduos suspirava muito em segredo por uma das morenas do Chico Benedito — por pena das pobres raparigas.

O porte airoso de Chiquinha, a filha mais velha, o seu olhar meio escarninho, meio melancólico, o confranger dos lábios para estalar um muxoxo penalizaram muito a Sebastião.

O compassivo rapaz levava a sua sensibilidade a ponto de visitar sempre o Chico Benedito.

A princípio, ao lusco-fusco, com a sua viola a tiracolo, e montado num ossudo cavalo, a que todos chamavam — pangaré, e só ele chamava-o — Suspiro, era visto marchando para a casa, que lhe entristecia o coração.

Mas, devido mesmo ao continuado trabalho, agravaram-se as mataduras do lombo do animal, e o Sebastião tomou o expediente de vir em uma canoa.

Um dia, ao chegar ao porto, Chiquinha estava lavando. O sol revestira-lhe de um anacardino intenso as faces graciosamente túmidas. Os cabelos negros como os frutos da baraúna, reunidos em duas tranças, que cingiam a cabeça pequena, afofavam-se em duas pastas, arqueadas por sobre as têmporas.

Entre as suas mãos delicadas alvejava uma peça branca de roupa, sobre a qual a moça inclinava-se, metida dentro do rio. A posição curva, que tomara, deixava ver pela altura do colo umas saliências pontiagudas, que faziam lembrar a forma dos pêssegos.

Demais a moça, antes de entrar no rio, colhera os vestidos até os joelhos, e atara-os à cintura com um lenço, e para não molha-los, apertou-os entre pernas, de maneira a formar com eles uma espécie de calções apertados.

O remador que ajudava com remadas viris o deslizar espontâneo da canoa pela correnteza do rio conteve a frágil embarcação, parou de remar e deixou que ela ficasse remanseando, enquanto ele envolvia num olhar ardente as formas esculturais de Chiquinha.

Esta, que disfarçadamente observava o canoeiro com um olhar contemplativo, deixou-se ficar curvada, ostentando a cintura fina, acentuada ainda mais pelos amplos contornos dos quadris.

A canoa, entregue a si mesma, pôs-se a boiar à mercê da correnteza, e como se mão misteriosa a guiasse, veio esbarrar num tosco banco de lavagem, que negrejava junto a Chiquinha.

— Que mau popeiro que vosmecê é, ó seu Sebastião, disse esta, eu não me embarcava com vosmecê, nem para o céu.

— Pois é pena, sá Chiquinha, porque eu iria com vosmecê até para o inferno.

— Era preciso que eu quisesse ir, respondeu Cluquinha, sorrindo.

— Está visto; eu não queria nem esta canoa cheia de ouro se fosse contra a sua vontade.

— Deveras? .

— Se duvida, sá Chiquinha, é só experimentar.

Ao pronunciar a palavra Chiquinha tinha-se sentido perturbada e para não trair-se levantou a alva peça que lavava para batê-la no banco, que tinha diante.

O seu braço foi, porém, delicadamente seguro pela mão de Sebastião, enquanto com a outra o moço tentava tirar-lhe a peça da pequenina mão.

— Não me segure, resmungou Chiquinha, fingindo-se amuada; me deixe.

— Não foi por mal, sá Chiquinha!... murmurava Sebastião, ao passo que deixava o braço da moça. que para bater a roupa é preciso força, e eu sou mais forte.

Chiquinha dando uma das francas risadas características dos filhos da roça, exclamou:

— Uê! seu Sebastião subiu a serra, gente!

O rapaz animado pelo dito e a risada de Chiquinha desembarcou, segurando nas mãos a corda que amarrava o banco da proa da canoa, e pôs-se a perfurar o barro do porto com o cabo do remo, dizendo:

— Eu pensei que você tinha-se zangado comigo.

— Não me zanguei, não; foi só para você não se meter no que não sabe.

— Então eu não sei bater roupa?

— Qual sabe o quê; isto não é viola.

— Pois fique sabendo que a gente quando quer sabe tudo; até amar.

— Ora isto. . . tem muito que saber..

— E tem mesmo; como eu você não acha outro.

— Agora, como se faz na caixinha dos três desejos, diga, seu Sebastião — a quem ama?

— A você! ...

— Gentes! como você está adiantado! exclamou Chiquinha, depois de ter contraído os lábios corados num temo muxoxo.

Desde esse dia, Sebastião Pereira começou a sentir grande pena pela família do Chico Benedito, e a ter manifesta aversão pela familiaridade de Coqueiro junto desta família.

A partir de uma noite em que, sobraçado o seu ponche de baeta negra, forrado de flanela vermelha; posto no alto da cabeça o chapéu-do-chile com largas fitas negras pendentes, o Viana da venda entrou na casa de Chico Benedito, a sua alma de tendeiro começou a pesar ouro fio os gêneros da vendola e a recordação de sá Antonica.

A sala sem assoalho, com o chão acidentado por altos e baixos, ornada por uns bancos de pau, umas caixas e uma mesa velha, em que assentava um oratório junto do qual espirravam dois candeeiros de folha-de-flandres; semelhante sala luzia na memória do homem com as cintilações de um paraíso de amor.

É que ao entrar fora recebido por uma estrepitosa ovação, e ouviu à Antonica chamar os seus quase quarenta anos um mocetão bonito.

Não há alma de tendeiro da roça, por menos vaidosa que seja, fortalecida para não penhorar-se com semelhantes saudações.

Naquela noite o Viana, naturalmente folgazão, levou as lampas aos mais pagodeiros; tinha metido no mesmo chinelo o Sebastião e Manuel João, que improvisavam estrofes com a fluência do jorro de uma cascata, e com as mesmas quedas.

Achava-se aí por ter merecido um convite de Francisco Benedito para uma brincadeira de Santo Antônio.

O programa da festa era uma ladainha, e em seguida um fado com muitas raparigas, um leitão assado, dois garrafões de aguardente, ou melhor — de boa cana, e um garrafão de vinho, o qual fora dado de presente à Antonica, pelo compadre capitão, o Motta Coqueiro, que fora passar a festa na cidade.

Na casa não havia nicas, era casa de pobre; e o Sr. Viana estava ali como se estivesse na sua venda. Podia também levar quem lhe aprouvesse.

Cantada a ladainha, começou calorosamente o fado. A viola retinia febrilmente ferida pelos dedos apaixonados de Sebastião Pereira; rufavam entusiasticamente os adufes, e os pares rodavam, sapateavam, peneiravam, enchendo a sala de palmas e castanholas.

Uma das rodas era formada pelo Viana e Antonica, Manuel João e Mariquinhas, a mais nova das três filhas moças de Francisco Benedito.

Era a roda em que se dançava melhor.

Maravilhava pela certeza dos meneios, pela precisa cadência dos sapateados e pela assonância das palmas, às vezes batidas junto da boca aberta, para repercutirem um som cavo, delícia dos dançarinos.

— Excitava-a o entusiasmo do amor.

Invejosos da maestria das damas, os cavalheiros de outros grupos, pela maior parte em mangas de camisa, tentavam freqüentes furtos, que eram habilmente repelidos pelos cautelosos pares.

Em vão, de um pulo, os invejosos realizavam os bem planejados assaltos; era-lhes frustrado o intento, porque encontravam a dama cobiçada bem amparada pela perna do par, inteiriçada e meio sumida entre as saias murmurosas da risonha defendida.

Os assaltos malogrados eram novo incentivo à fertilidade poética dos cantores. Manuel João vitorioso prendia a corrente do desafio, estrofes alusivas e dizia no seu ameno tenor:

— É capricho; hei de guardá-la
Qual na moita o passarinho,
Co'as lindas asas abertas,
Guarda os filhos no seu ninho.

Respondendo rapidamente à volta, o violeiro apaixonado tornava no seu barítono selvagem:

— Eu também morro de zelos
Por uma jóia querida;
— Os sorrisos de Chiquinha,
Cadeias da minha vida.

Continuavam a trocar os prontos improvisos, aludindo cada um à dama que o cativava.

— Quem tem jóias preciosas
Não as deixa assim roubar;
Meu tesouro é Mariquinhas,
Minha jóia é seu olhar.

Mas eu conheço outros olhos
Que têm um brilho melhor;
São negros, a gente os vendo
Fica perdido de amor.

E longo tempo persistiam os cantores rociando de ardentes galanteios os corações agradecidos das suas preferidas.

Descuidos contristadores deram, porém, ocasiões a separarem-se os pares prediletos. Pronta era, entretanto, a junção, porque à retirada dos cavalheiros seguia-se uma frieza visível nas damas; desapareciam os ademanes graciosos, os requebros francos e as zumbaias lascivas e elegantes.

Os intrometidos, despeitados pela súbita mudança, presto retiravam-se e se algum mais rusguento levava a imprudência até a fazer notar que percebera a má vontade das moças, elas, acudindo à censura com o seu melhor sorriso, respondiam com aparente ingenuidade:

— Credo! que luxo; não quer que a gente fique cansada.

Mas, em reaparecendo os dois, o cansaço extinguia-se milagrosamente; a frieza transformava-se em fogo, e a roda girava com tanto garbo, com tanta alegria que algumas das visitas, cobrando páreas à maledicência, resmungavam de mau humor:

— São muito faiscas estas moças.

Francisco Benedito havia-se aproximado do violeiro, e o alegre Sebastião, casando os ais da prima aos soluços do bordão, levantou as despedidas.

Cessou o rufar do adufe, o soar das palmas, e os pares separaram-se.

Era a ceia que vinha sustar por algum tempo o folguedo, e dar azo a expansões que, mal contidas, ameaçaram irromper inconvenientemente durante as alegres danças.

Todas as damas e cavalheiros retiraram-se, precedidos por Francisco Benedito, que não muito em linha reta, alumiava-os com um dos candeeiros que esclareciam a sala.

Só a travessa Antonica ficara, talvez maliciosamente, assentada a uma das caixas a pretexto de que não queria cear, e sim descansar.

A solicitude de Viana não podia resignar-se a mastigar o leitão da brincadeira, quando Antonica, bonita como o diabo, conforme ele dizia, ficara lá na sala sozinha e quem sabe se amuada consigo.

Assim pois, resolveu vir ter com ela acompanhado de um prato com as iguarias da mesa e um copo, o único que havia, até meio de vinho.

Apresentou-lhe o prato e o copo; a moça não quis servir-se, e pediu-lhe que a deixasse descansar.

— Oh! sá Antonica, eu fiz-lhe algum mal? interrogou Viana, ou sou algum bicho que lhe meta medo?

— Não é, não; mas eu não quero ouvir a boca do povo.

— Qual história, si Antonica, eles de mim não falam, porque todos eles têm a barriga lá em casa.

— Já sei, já, seu Viana; mas eu quero ficar sozinha aqui, ou então vou-me embora. Que aborrecimento, home!

— Está bom, eu vou, si Antonica. Mesmo pode estar aqui alguém que vá contar a ele, e depois...

— Contar a quem, seu Viana? não se dá esta? te arrenego!

— E olhe que não seria a primeira vida que ele mandaria tirar. Eu sou pobre e ele é capitão, é rico, é magnata.

— Olhe, seu Viana, eu chamo papai para ouvir o que é que está aí dizendo.

— Não precisa, não, si dona; depois não se arrependa.

— E, vocês todos são assim mesmo; eu dancei com você, e agora fica mal comigo.

— Qual zangado! não estou; é que penso; eu sei lá, o Manuel João é quem diz que você gosta do capitão, e eu já estimo você tanto ...

— E gosto, e agora? nunca me fez mal. Quem manda aquele coisa espiar os outros? Não é o capitão quem nos dá casa?

Vozes partidas do interior gritavam:

— Oh! Viana, onde está este diabo?

Galgando a janela de um salto, e tendeiro agachou-se e coseu-se com a parede correndo, e só depois de alguns minutos gritou de fora:

— Eh tá com o berreiro; já vou, já vou.

As pessoas que entravam na sala encontraram Antonica sentada muito tranqüilamente, e ninguém suspeitou, sequer, a cena que antes se passara.

Recomeçando o fado, o Viana mostrou-se por largo tempo menos expansivo; esquivava-se de dançar, dizendo-se fatigado, e só se achava bem junto dos garrafões, em companhia de Chico Benedito.

Antonica também não figurava nas rodas senão espaçadamente e tinha o ar de quem queria chorar.

O Sebastião Pereira, que ao lado de Chiquinha parecia ter-se alheado de tudo mais, não prestou a principio atenção ao mal-estar dos dois namorados, mas sendo obrigado a chamar alguém para substituir a sua vida que precisava sair, foi ter com Antonica, e as lágrimas represas da moça revelaram-lhe o segredo do seu afastamento e tristeza.

Dirigindo-se a Viana, Sebastião atacou-o logo de frente, sem meias palavras:

— Você parece criança; lá está a Antonica a chorar, seu Viana. O pai já está pronto e se vem a saber disto, temo-la tramada. Vá tirar a rapariga, e o mais corre por minha conta.

No dia seguinte ao retirar-se da casa de Francisco Benedito, o vendilhão levava a roupa e o coração igualmente machucados.

Combinando, porém, algumas palavras de Antonica, pôde abraçar-se a uma esperança, ao passo que dava de mão a uma teimosa soma debitada ao pai da moça.

O sacrifício de seus interesses e o de sua tranqüilidade puseram muito naturalmente o bom do tendeiro na contingência de condoer-se da sorte da família de Chico Benedito.

Mais apressado do que os seus dois companheiros de compunção, andou Manuel João na conquista da sua sensibilidade pela família de Mariquinhas.

A sua posição de feitor no sítio de Motta Coqueiro aplainou-lhe facilmente o caminho da familiaridade, de que ele serviu-se para conquistar o coração benévolo da moça.

Nunca tinha tentado sequer revelar aos quinze anos de Mariquinhas o que lhe ia de ansiedade pelo seu coração, quase sem esperanças.

Acreditava mesmo que seria uma loucura, ele, pobre feitor de roça, e demais disso homem de cor, ir afrontar os escrúpulos da família, quando Mariquinhas era tão bonita que fácil lhe era escolher um marido entre os robustos moços trabalhadores dos arredores.

Limitava-se a obsequiar generosamente, e facilitar a Francisco Benedito os meios ao seu alcance para melhorar as condições de vida no sítio.

Encostado ao seu rebenque, ele nem dava atenção ao serviço; perdera mesmo as asperezas do seu oficio e deixava que os escravos trabalhassem quanto lhes aprazia.

Estes, surpreendendo as distrações e a tristeza do feitor, segredavam-se no eito:

— Seu Manuel está com mandinga; é cousa feita pela gente do agregado.

Aos domingos, Manuel João, pondo a tiracolo o polvarinho e chumbeiro, pegava da espingarda e lá se ia mato dentro, precedido pelo farejar de alguns cães de caça.

Quando voltava, trazendo grandes enfiadas, nas quais misturavam-se a escura cor hidrargirada das asas das juritis, aos tons escarlates dos peitos dos tucanos; Manuel João parava sempre à porta dos fundos da casa de Mariquinhas e, depois de uma conversa, presenteava-a com a sua caçada.

Os presentes contínuos eram o único palpável indício da afeição do moço feitor, mas uma observação mais detida descobriria sem grande trabalho quão intensa lavrava a paixão por aquele espírito.

Quando acompanhava o seu amo, e via-o parar à porta do velho hóspede, ficava de mau humor, principalmente se com a família vinha Mariquinhas, em cujas faces Motta Coqueiro batia brandamente com as pontas dos dedos, exclamando:

— Está já moça, e pior do que isso, bonita.

A jovialidade do amo e o acolhimento grato que lhe fazia Mariquinhas incineravam todos os sonhos de felicidade do feitor: tinha então diante de si um suposto rival, tanto mais digno de ódio quanto era mais poderoso.

Em troca dessas injustiças sem eco, a bela Mariquinhas esmerava-se em patentear a sua simpatia pelo ciumento. Era ela quem lhe trazia a xícara de café, nas noites em que ele vinha conversar-lhe o pai, e dispensava-o do trabalho de fuzilar fogo ao isqueiro, apresentando-lhe um cavaco esbraseado.

Nos dias de brincadeira, só estava verdadeiramente alegre quando o tinha por par; ao contrário mostrava-se aborrecida.

Mas a própria bondade de Mariquinhas era um incentivo à prevenção do seu amante. Aferia o perigo, que julgava-a correndo, pela sua própria bondade, e nas horas em que, no silêncio de sua morada, revolvia os seus anelos e as suas dúvidas, exclamava com voz colérica.

— Ela é um anjo e aquele demônio pode perdê-la.

Há uma força misteriosa e fatal, que insensivelmente atrai e combina os esforços humanos: é a afinidade dos sentimentos e das opiniões.

Contra ela não são resistência séria nem os isolamentos sistemáticos, nem os temores profundos, nem as virtudes imaculadas; uma hora soará em que, ruindo em terra as barreiras, ela se imporá invencivelmente.

Foi por essa força que as afeições timoratas dos três secretos amantes das filhas de Francisco Benedito expandiram-se um dia em plena luz, e formaram um sombrio triunvirato entre o violeiro, o feitor e o tendeiro.

Era domingo de tarde, e três a quatro meses já eram decorridos depois da brincadeira de Santo Antônio.

Em cumprimento ao dever que se havia imposto, Sebastião Pereira dirigia-se à casa de Chiquinha, mas quis primeiro chegar à venda do Viana.

Esta visita tinha por fim premunir-se de contentamento e distração para o velho Francisco Benedito, que não buscava resistir ao sabor do vinho e da aguardente.

Pouco depois da chegada de Sebastião, parava no porto uma canoa, e dela desembarcavam Manuel João, o irmão de Chiquinha e um preto.

— Olé, exclamou Sebastião ao ver Manuel João, você agora aqui é ouro sobre azul.

— Então vá já dizendo quem morreu por cá.

O violeiro abaixando a voz, e aproveitando-se da distância em que estavam os companheiros do feitor, segredou-lhe.

— É cousa só entre nós três.

— Está entendido.

Manuel João interrompeu logo a conversação de Viana com o Juca Benedito, exclamando:

— Aviem-se, rapazes; faz-se tarde e é melhor ir de dia do que de noite. Vocês têm de remar rio acima.

Uma piscadela de olho pôs de sobreaviso o Viana, que tratou de despachar com presteza os fregueses.

Um quarto de hora depois estes despediam-se levando uma encomenda do violeiro, e o Manuel João, que simulara querer ir com eles, fingiu que cedia a insistência de Sebastião e Viana, e disse aos que partiam:

— Vão, vão; estes demônios não me deixam agora, e o melhor é ficar um pouco por aqui.

Estavam sós, Sebastião Pereira, depois de acender o cigarro, convidou os dois companheiros para debaixo de uma mangueira, e começou a falar.

— Vocês me conhecem e eu lhes conheço. Aqui o Viana está pelo beiço com a Antonica e o mestre Manuel João arrasta a asa à Mariquinhas.

— Não senhor, respondeu de chofre o feitor, é menos verdade.

— Deixemo-nos de partes, seu Manuel João, os outros não são cegos.

Manuel João não replicou, e o violeiro continuou.

— Eu cá, se a Chiquinha não for minha, não há de ser de mais ninguém por mais pintado que seja.

Ao dizer estas palavras, a sua mão estava posta sobre a cintura e logo uma grande faca polida luzia fora da bainha, e Sebastião exclamava, brandindo a faca.

— Varo seja Deus, seja o diabo.

— Vocês não ignoram que o malvado do capitão tem maus fins com aquela gente; vamos, pois, acabar com isso. Se vocês ajudarem-me, ele não leva o bocado à boca; ou eu não sou eu.

— E o que havemos de fazer? perguntou Viana.

— Escutem: o Chico já há de ter percebido que nós gostamos das filhas; vamos lá hoje; eu peço a Chiquinha e vocês, se houver vaza, falam logo a ele de estucha.

— Mas nós não nos podemos casar já, resmungaram Manuel João e Viana.

— E quem foi que disse que vocês casassem? Dizer não é fazer. Eu também agora não tenho jeito; mas é um modo de atrapalhar o capitão. Cada um puxa a brasa para sua sardinha.

— Assim vá lá, disse Viana.

— Pois, eu assim não quero: não hei de enganar a moça; tudo menos isso, interveio energicamente o feitor.

— Assim mesmo pedaço de tolo, não queiras; o Manuel João tem boa boca, seu Viana; os outros comem a carne e ele rói os ossos.

— Por Nossa Senhora das Dores, vocês estão zombando. Eu arranco a língua àquele cachorro, se ele se atrever; vá ele para as profundas do inferno. Escoro-o no caminho e mando-o desta para a melhor. E sabe o que mais, o que você quiser que eu faça é só dizer.

— Está dito; está fechado; a ofensa de um é a ofensa de todos: juremos!

— Juramos!

Ao anoitecer estavam os três na casa de Francisco Benedito, que já dava freqüentes risadas, graças à chegada do seu filho, e de umas garrafas que ele trouxera de parte do Sebastião.

Os visitantes foram recebidos somente pelo velho e sua mulher, porque as meninas, desde manhã estavam na casa do compadre.

Depois das primeiras conversas, Sebastião Pereira disse ao velho que vinha a uma cousa de interesse acerca da qual queria falar-lhe, sendo ouvido somente pelos dois amigos.

— Pois venha de lá este gole; disse o velho que tinha nas mãos uma caneca; molhe-se a palavra primeiro.

Sebastião começou por fazer ver que tinha o seu pedacinho de terra, que era bom falquejador, remador e trabalhador de enxada. Nunca tinha passado misérias e ao contrário quando metia a mão no bolso tinha sempre seu vintém. Se não era rico, também não lhe faltava a graça de Deus, e a moça que se casasse com ele não ficaria de mau partido.

— Ora, eu tenho amizade a si Chiquinha, filha de vosmecê, e fazia gosto em casar com ela, se vosmecê quisesse.

O velho, depois de arregalar muito os olhos, e coçar a cabeça, respondeu vagarosamente:

— Homem, eu sei lá, isto é com vocês crianças. A rapariga pode não se arrumar e quem fica mal sou eu, e... no fim de contas, seu Sebastião, eu estou aqui de fresco, e sem fazer escândalo, perdoe que lhe diga, eu não conheço bem você.

— Pois tire indagações, seu Chico; olhe não lhe hão de dizer que eu sou desordeiro, nem ladrão, nem que tenha feito mortes.

— Eu lhe digo já, seu Sebastião, pelo que você me parece, está feito, mas sempre quero ouvir o que me diz o... uma pessoa.

Aquele uma pessoa proferido pelo velho causou um estremecimento nos três; Manuel João principalmente quase perdeu os sentidos.

O velho, porém, ora coçando a cabeça, ora esfregando as mãos desfez a meio a impressão desagradável, murmurando:

— Com que seu Sebastião quer que a gente coma doce breve?

— Sim, senhor, seu Chico, se não tiver contra mim alguma receita de gente de boca amargosa.

— Qual, não há de ser tanto assim.

Um aceno de Sebastião levou o Viana da venda a tartamudear para o Chico Benedito:

— E que diria vosmecê, seu Chico, se eu viesse nas águas de Sebastião?

— Sem escândalo, respondeu o velho com uma longa risada; dizia que a vista faz fé.

— Muito obrigado, seu Chico, eu é com sá Antonica, se vosmecê fizer gosto.

— Olé, quer ver que vocês todos três querem me depenar a casa?

E pôs-se a rir muito, sendo imitado pelos três, e em seguida levantou-se, encheu a caneca e apresentou-a aos triúnviros rústicos.

— Vá este codório à boa harmonia. Eu nada decido; mas vá à saúde.

Na sala imediata ouviram-se neste instante risadas, cochichos, e o rufe-rufe de saias engomadas.

— Oh! meninas venham falar aqui, exclamou o velho.

Ao mesmo tempo entraram na sala Mariquinhas e Antonica, enquanto o velho murmurava com bonomia:

— Andem lá, suas matreiras, velhaquetes de uma figa; aonde está a que falta, fugiu?

— Não senhor, responderam as moças ao mesmo tempo que lhe beijavam a mão; vem aí com seu capitão!

Um pigarro impertinente começou a impacientar Sebastião Pereira, e este inclinou-se na janela para escarrar, porém logo voltando-se para dentro, disse:

— Mas eu não os vejo por aqui.

— É que nós fomos à roça, respondeu Mariquinhas; eles ficaram mais atrasados colhendo limas, e nós com a família de seu capitão viemos andando. Mas eles já devem estar ai pela baixada.

— Qual o quê, quando vierem, vieram, respondeu o velho. Está em muito boas mãos.

— Lá isso é, acrescentou Sebastião inteiramente despeitado e olhando para os seus companheiros.

— Aquele compadre é um folgazão, riu o velho, que fazia uma libação à caneca; brinca com essas raparigas como se fossem todos crianças.

— E é bem de ver, rosnou Sebastião.

— Está vendo, Mariquinhas, aquele malvado tem dor de canelas; resmungou Antonica.

— Deus esteja nesta casa, exclamou fora a voz grossa de Motta Coqueiro; licença para dois.

Chiquinha entrou apressada e foi beijar a mão paterna e em seguida cumprimentar os hóspedes.

Estes de pé responderam à saudação da moça e a de Motta Coqueiro que, parado ao limiar, todo vestido de branco, arrimado com a mão esquerda a um polido manguá, e tendo na direita o chapéu-do-chile, deixava ver o seu alto porte e a cabeça ao mesmo tempo simpática e severa, ornada de cabelos e barbas grisalhas, esbatidas em faces magras, porém coradas, uma delas marcada por um sinal roxeado e longo. Por debaixo das sobrancelhas salientes as pálpebras meio cerradas coavam-lhe um olhar penetrantemente bom e por entre os bigodes grisalhos riam-lhe os lábios finos um sorriso despretensiosamente austero.

Voltando-se depois para as irmãs, entre risonha e séria, disse-lhes Chiquinha:

— Vocês fizeram da boa; vieram e deixaram-nos sozinhos.

— Moleque, chamou Motta Coqueiro, entrega as limas das moças e leva as outras para casa.

E continuou logo sorrindo:

— Está entregue; agora vou cantar noutra freguesia. Boa noite, meus senhores.

Saiu risonho e aparentemente satisfeito, mas quando estava um pouco distante da casa; repetia em voz baixa: aquele compadre não tem um pingo de juízo.

Logo que se acharam sós, exclamou Chico Benedito para as filhas:

— Então o que andam vosmecês fazendo, que me vêm hoje dois pedidos de casamento aqui; isto é modo, meninas?

As moças nada disseram, e o velho prosseguiu:

— A velhaca da Chiquinha, quem diria que gosta do Sebastião, e a sonsinha da Antonica do seu Viana?! Sua alma, sua palma. Fico ainda com a Mariquinhas e as três pequenas.

— Mas falta ainda a receita, seu Chico, resmoneou Sebastião.

— Não falta nada, gargalhou o velho que tinha esvaziado mais uma caneca. Sabem que mais? conversem pra aí com a mulher e deixem-me ir a um negocio.

Os três acompanharam o velho até a porta e aí permaneceram por algum tempo.

Enquanto a boa da velha entrou para trazer o café aos hóspedes, os três acercaram-se das moças e cada um começou a conversar com a sua predileta.

Manuel João, com a voz trêmula, dizia para Mariquinhas, que empalidecera desde que ouviu ao pai dizer o motivo da visita de Sebastião e Viana:

— Só sá Mariquinhas é que ainda não tem noivo.

— Eu não posso obrigar ninguém a querer casar comigo, e eu mesma não quero.

— Talvez, si Mariquinhas, haja quem queira e não possa.

— Boas; quem quer pode sempre.

— E se fosse um pobre feitor, sem eira nem beira.

— Eu também não sou princesa, e, trabalhando nós dois, havíamos de viver.

— E se seu pai não quisesse; se ficasse zangado com vosmecê?

— Paciência; mas eu queria sempre.

Esta ingênua revelação do amor puro de Mariquinhas quase enlouqueceu o desventurado feitor; sorria enquanto que as lágrimas lhe escorregavam pelas faces. Por sua vez Mariquinhas tinha os olhos pregados no chão e com as pontas do indicador e polegar beliscava o vestido sobre os joelhos.

Não havia dúvida, o feitor era amado, e isto era para ele a maior de todas as venturas.

— Ficou zangada comigo, pelo que eu fiz, si Antonica? murmurava Viana.

— Eu o que não quero depois é estralada; vocês voltam a cabeça da gente e depois... passe muito bem, porque os pobres não regulam.

— Não diga isto, si Antonica; o diabo não é tão feio como se pinta.

— Não digo, não: está lembrado do que me disse na brincadeira de Santo Antônio? Case e depois comece com histórias.

— Naquela noite eu estava meio tonto, minha negra; águas passadas não moem moinho.

— E... quem ouve agora o capeta!

Debruçados na janela, conversavam Sebastião e Chiquinha. O violeiro esforçava-se por convencer a moça de que devia ceder a um pedido que lhe fazia.

Tinha cousas que dizer-lhe mas não queria que o ouvissem.

— Ó Chiquinha, dizia ele; que diabo de medo é este? eu não sou bicho; e já pedi você.

— Não é por isso; é que papai pode ficar zangado; você bem sabe o gênio dele, em cismando está tudo perdido.

— Mas ele está lá com o compadre e seca-o toda a noite. Você diz que vai dormir e sai pelos fundos da casa: eu estou no cajueiro da baixada.

— Veremos...

— Eu espero.

A velha consorte de Francisco Benedito entrou trazendo duas xícaras de café, ao passo que Mariquinhas saía da sala e para logo voltava com uma outra xícara, que ofereceu a Manuel João.

— Meu pai foi cavaleiro, disse Sebastião; eu já me fazia na picada e assim aproveito.

— Tão cedo? ...

— Nem todo o dia é dia santo, e amanhã tenho serviço.

Sebastião despediu-se e após meia hora de palestra os outros retiraram-se também.

Lisonjeado com o pedido feito pelo violeiro e pelo tendeiro, dupla face da independência sonhada para as filhas no rendimento de uma vendola e na posse de um sítio, Francisco Benedito quis logo saber o acolhimento que este fato merecia de seu compadre Motta Coqueiro, que melhor conhecia os pretendentes.

O velho firmara-se no propósito de nada resolver, senão de acordo com o seu benfeitor, fosse embora prejudicado, fosse mau grado seu, obrigado a dar de mão à risonha perspectiva de felicidade, que lhe dominava o cérebro aguardentado.

— É minha obrigação, dizia ele; amparou-me e tem sido meu amigo apesar das más línguas; não houve cão nem gato que não me metesse o dente, e ele fez a todos ouvidos de mercador. Hoje, nas horas de Deus, tenho onde meter a cabeça, e com os diabos, se eu não ouvir o compadre não devo ouvir mais ninguém. Tais eram as disposições do velho agregado ao dar o clássico —ó de casa — à porta da sala de jantar da casa grande.

O bom humor de Motta Coqueiro e os modos prazenteiros de sua esposa receberam alegremente a visita em meio da família reunida em torno da mesa de jantar.

Vieram primeiro a narrativa do passeio e os elogios à prosperidade das roças do agregado, tudo isso meio exagerado pela amizade que a dona da casa dedicava às meninas do seu hóspede, que lhe respondia agradecido:

— A gente vai fazendo o que pode, sá comadre; somos só dois a trabalhar: eu que já não presto para nada e o Juca, que ainda não se pode dizer que é um homem. Na plantação e na colheita é que as raparigas e a minha velha ajudam. Mas vai-se vivendo, conforme Deus é servido.

Uma crioula pousou na mesa, em frente a Francisco Benedito, uma xícara de café. O velho despejou o café no pires, e ao levá-lo à boca, demorou um pouco o braço no ar, dizendo para Coqueiro:

— Eu queria que seu compadre e sá comadre me dessem uma palavra à parte.

— As mulheres não podem ser padres, meu compadre, e não sabem também guardar segredo.

— Mas não todas, sá comadre; a minha velha é das tais, que o que se lhe diz é como jogar num poço.

— Vamos ao caso, compadre; disse Motta Coqueiro, que se havia levantado e tomava o corredor que comunicava a sala de jantar com a de visitas.

Chegados aí e sentados, o velho referiu miudamente a visita de Manuel João, Viana e Sebastião Pereira, o pedido que esses dois últimos lhe fizeram e concluiu:

— Eu estou velho, não tenho nada de meu, não disse que sim, nem que não; fiquei assim; vosmecês o que acham?

O embaraço interceptou por algum tempo a resposta; mas afinal a senhora de Coqueiro rompeu o silêncio para expender uma evasiva:

— Eu não posso dizer nada, meu compadre, o senhor sabe que não moramos aqui; eu estou sempre na cidade, e, quando venho para o sítio, não saio de casa; portanto nada posso dizer.

— Sá comadre tem razão de não querer falar; respondeu o velho, mas seu compadre pode me dar um parecer.

— O melhor é você fazer o que entender, compadre, respondeu o interpelado.

— Não, senhor, eu preciso de saber do parecer de seu compadre. Sou novato aqui; debaixo de Deus só devo a seu compadre a casa em que estou morando e as terras em que trabalho. Quem dá o pão, dá o castigo; quem me avisa meu amigo é.

— Ouça bem, compadre, o que eu lhe vou dizer: nem o Viana, nem o Sebastião querem casar com as meninas. Eu não pretendia dizer palavra, porque não gosto de envolver-me nestas coisas; mas enfim, não quero que você tenha razões de queixa, quando se arrepender. Eu no seu caso o que faria era dizer-lhes que não me viessem em casa, e se as meninas teimassem em querê-los para maridos, só lhes abriria a porta no dia do casamento.

— Ora vejam só que biscas aquelas, disse o velho sacudindo a cabeça; e me prosaram com uma venda, com um sítio...

— É verdade que o Viana tem uma venda, mas vive com uma mulher e parece até que é casado com ela. O Sebastião tem umas terras, mas não as cultiva e não gosta de trabalhar. A vida deles é fados e namoros. Eis o que tenho a dizer; o compadre é livre, faça o que entender.

— O diabo é que eu vejo as cabeças das raparigas meio viradas para eles..., um inferno; não há nada pior do que ser pobre.

A última consideração do velho denunciava uma quebra de propósito com que entrara na casa de Coqueiro: a imagem do sítio e da venda sufocava-lhe a reflexão. Além disso tinha esvaziado alguns canecos de aguardente, e o arrastado da língua e o cuspinhar contínuo denunciavam uma anormalidade nas suas faculdades.

Motta Coqueiro, como se se tivesse arrependido, mostrava-se contrariado, e mais ainda do que ele a sua esposa, que aproveitou, para retirar-se, o ensejo que deu-lhe a longa pausa sucedida às últimas palavras de Francisco Benedito.

Logo que a senhora retirou-se, Motta Coqueiro reatou a conversa a respeito dos esponsais das filhas do seu compadre, porém, procurando desviá-la e fixá-la em outro ponto, e tanto mais decididamente quanto mais o velho mostrava-se propenso a não atender o seu conselho.

— E sem que se dê por isso, compadre, vai quase para dois anos que você está aqui conosco.

— É verdade, meu compadre, e em tão boa hora o diga, ainda não tenho uma queixa de nenhum dos donos da casa.

— Muito obrigado. O que você devia, compadre, era cuidar de fazer a sua casa. A em que você mora, está velha, e muito longe do seu trabalho.

— É verdade, meu compadre, mas as plantações têm-me atrapalhado. Agora se esses dois rapazes quiserem ajudar-me, eu, o Juca e eles sempre somos quatro e a cousa vai depressa.

Não havia dúvida; Francisco Benedito já falava dos seus genros, os dois rapazes, e contava com eles.

— Pois faz muito bem: aproveite-os para alguma coisa, disse Motta Coqueiro, levantando-se.

O velho compreendeu que eram horas de retirar-se.

Enquanto esta cena se passava na sala da casa grande, tendo por únicas testemunhas algumas cadeiras vazias, e uns aparadores de jacarandá, lá fora, no campo do sítio outra se desdobrava ao luar, no silêncio e no ermo.

O triunvirato de amantes dissolvera-se por aquela noite, mas um deles apenas, o Viana, retirara-se imediatamente para a sua morada.

Os outros podiam ser encontrados nas circunvizinhanças da casa do velho agregado.

Sebastião Pereira, conforme tratara com Chiquinha, foi esperá-la na baixada. Era um lugar apropriado para uma entrevista; os amantes ali ficavam pela própria natureza recatados aos olhares curiosos.

Uma grande entrada quase circular, coberta de grama, levantava-se do sopé ao cimo da colina. Dai um enorme cajueiro vergava todos os seus galhos sobre a entrada, cobrindo-a com uma espécie de cúpula. Um banco de pau ornava o silencioso e pouco freqüentado recinto.

Deixando a casa do velho, Sebastião Pereira tomou cautelosamente o caminho que conduzia à baixada e deitou-se no banco, cobrindo o rosto com o chapéu. A sua imobilidade, o nenhum ruído da sua respiração represa faria crer a qualquer sertanejo, que ali entrasse, não serem mentirosos os contos de almas penadas e fantasmas de que lhe falavam desde a infância.

Aos segundos sucederam os minutos, e a estes os quartos de hora, tardos como afiguram-se a quem espera. Nenhum gesto de sofreguidão foi, entretanto, feito pelo violeiro; nem ao menos puxou pelo isqueiro e o cigarro, inseparáveis companheiros dos homens do sertão. Continha-o a paciência do mal, inalterável nos seus planos.

Passada meia hora, um leve ruído de saias engomadas produziu em Sebastião o efeito de um choque elétrico; pôs-se em pé de um salto e, conchegando o chapéu à cabeça, guindou-se como um gato, pela face do escondrijo.

Quando já as mãos do violeiro tocavam o cimo da colina, a voz de Chiquinha, trêmula e fraca, disse de manso:

— Não está aqui, meu Deus, não está.

— Psit: sibilou Sebastião; e continuou com voz gutural: espera!

A moça sem dizer palavra caminhou para debaixo da copa do cajueiro.

Quem a visse ai parada, ao passo que ainda de dentro do escondrijo só haviam saído os braços e a cabeça de Sebastião, que tinha o resto do corpo pendurado, julgaria ver a presa magnetizada e imóvel diante da serpente enorme, que lhe vai dar o bote.

O violeiro conseguira sair; e caminhando apressado para Chiquinha, prendeu nos braços e beijou a face da moça que o repelia, dizendo quase a chorar.

— Me deixe, me deixe; não foi para isso que eu vim cá.

— Falou certo, sá dona; eu é que não lhe devia tratar bem.

— Por que; eu lhe fiz mal?

— Escute só! — disse o brutal amante segurando e puxando pelo braço a amedrontada Chiquinha.

— Onde é que você quer que eu vá, seu Sebastião? fale aqui mesmo.

— Não quero; podem ver-nos de lá; vamos para a baixada.

— Não quero ir; mamãe pode me procurar; papai pode chegar; as outras pedem dizer; não quero; não posso demorar-me; me deixe.

De feito, a leviana rapariga, para aceder ao convite de Sebastião, que desvairou-a com os seus versos de desafio e os repenicados da viola, tinha dito à sua mãe que se ia deitar por estar muito cansada, e não podendo iludir às suas irmãs, que foram consigo para o quarto, dissera-lhes que ia fora um instantinho falar com o noivo.

Nada objetaram estas, cuja educação não se opunha a que os noivos tivessem as maiores familiaridades. Todavia estranharam que Sebastião tivesse deixado de conversar em casa, e recomendaram à irmã que voltasse logo.

As observações de Chiquinha não produziram nenhum efeito sobre Sebastião: ele continuava a segurá-la e a puxá-la para si. Forcejando contra ele, e tentando com o braço, que tinha livre, abrir o círculo que lhe fizera a mão do amante em volta do pulso, choramingava tristemente.

— Não vou, não vou!

Segurando-a pelos dois pulsos, Sebastião trouxe-a violentamente para junto de si, e depois impeliu-a de chofre.

A moça caiu sentada na relva acompanhada na queda por uma injúria.

— Pode ir, pode ir, minha sapeca; eu já sei de tudo. Ainda há de estar cansada; tem medo que eu lhe faça o mesmo que o santinho do capitão. A moça levara a mão aos olhos, e soluçando deixara-se ficar sentada.

— Pode ir, continuou o desapiedado; ele pode sentir falta e vir procurá-la, eu sou quem já se vai.

E foi se pendurando novamente na borda do escondrijo, e deixando-se escorregar pela grama.

Como se fosse vítima de uma alucinação inopinada, a atemorizada Chiquinha deitou a correr pela encosta em direção ao escondrijo, e aí, soluçando, lançou-se nos braços do violeiro. Afluíam-lhe as desculpas.

— É mentira; é mentira; eu não. O moleque Carlos bem viu, nem seu capitão disse nada. Que falsidade, meu Deus!

— Pois então, por que você me fez ficar zangado? Olha que eu sou capaz de esfaquear um diabo por sua causa; seja seu pai, seja quem for. Que quer? eu estimo tanto você; raios me partam se assim não é; parece feitiço.

Entontecida pela revelação calorosa da paixão do seu amante, e ao mesmo tempo traspassada de susto, Chiquinha não desviava a face dos lábios, nem tentava fugir dos braços de Sebastião.

A sua voz fraca, como se tentasse não ser ouvida pela própria moça, murmurava maquinalmente desculpas para acomodar o amante, enquanto este, dando asas à sedução, inundava-a de frases namoradas.

A esta sobreexcitação, seguiu-se um profundo silêncio; depois saíram silenciosos, e caminharam para o casarão, em cuja porta trocaram-se adeuses em voz sumida.