Motta Coqueiro/VII

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Motta Coqueiro por José do Patrocínio
Capítulo VII: As intrigas


De volta da casa de Licério, o violeiro congregou os seus companheiros para efetuar a distribuição dos papéis, que não tardaram muito a ser desempenhados.

As operações deviam começar com a partida de Motta Coqueiro para Campos e esta efetuou-se alguns dias depois, pela influência dolorosa que teve no espírito do fazendeiro a carta de sua esposa.

Na véspera da partida, protegido pela certeza que todas as pessoas do sítio nutriam de que ele não ousaria aproximar-se do seu ex-amo, Manuel João conseguiu falar a Carlos.

Vinha pedir-lhe uma coisa muito simples: ser portador de uma carta para a Sra. D. Maria.

Um generoso porte captou imediatamente a boa vontade de Carlos que, não obstante, teve medo da empresa por uma circunstância que lhe foi adicionada...

— Você leva a carta, disse Manuel João, e lá um dia deixa a ficar na cestinha da costura ou em qualquer outra cousa em que a senhora tenha de mexer.

Qual o quê, seu Manuel João, eu entrego mesmo na mão da senhora; é mais certo.

— É verdade, mas como o amo anda zangado comigo pode se aborrecer com você por levar uma carta minha à senhora, e afinal você vem a sofrer.

O moleque, lembrando-se da ameaça do seu senhor na noite da primeira entrevista de Antonica, aceitou plenamente a observação, e concordou com o expediente mostrado pelo ex-feitor para que a carta chegasse ao seu destino.

Estava desfechado o primeiro golpe, cuja profundidade o tempo e os acontecimentos incumbiram-se de mostrar.

A oportunidade para o segundo não tardou a apresentar-se. Ofendido pela intimação de Motta Coqueiro, o agregado tratou de angariar elementos para a construção da casa, e alguns dias depois, graças a empréstimos de dinheiro por parte do subdelegado e dos serviços oferecidos por Lúcio, o inspetor André, Sebastião e Viana, começaram-se a fincar os esteios.

Lisonjeado pelo acolhimento que recebeu dos seus vizinhos, Francisco Benedito convenceu-se logo, o que era fácil ao seu caráter, estar invulnerável diante do seu compadre, fossem quaisquer os abusos que para contrariá-lo praticasse.

Assim, contra a vontade do feitor, e zombando até das ameaças deste, lançou mão de bois do sítio para carregar a madeira que tinha necessidade e provia-se dos cereais de que precisava nas roças do seu compadre.

Essas represálias continuadas punham patente a mudança de Francisco Benedito no modo de pensar a respeito do seu protetor, e pela sua gravidade mesma não podiam passar despercebidas aos olhos do violeiro.

O vendeiro foi logo posto em campo para extremar de uma vez esta situação.

Já a nova casa, como um grande esqueleto, erguia-se completa no seu madeiramento. Ao lado dela avultavam grandes pilhas de sapé, que eram destinadas a cubrirem a cumeeira; e junto das pilhas, em enormes buracos, revolviam-se as enxadas amassando o barro para sopapar as paredes.

O vendeiro, que tinha contribuído assaz para a rápida prontificação da casa, travou conversa com Francisco Benedito a respeito do casamento.

— Então, seu Chico, é desta ou da outra que há de sair o casamento.

— A sair, seu Viana, há de ser daqui, com o favor de Deus. Aquela amaldiçoada casa não me vê mais dentro de oito dias.

— Está-lhe com muita gana hoje, mas já gostou bem dela.

— O passado, passado. Hoje até me parece que se o casamento saísse de lá vocês haviam de ser infelizes, tem-me acontecido ali o diabo; estou com os cabelos brancos.

— Na verdade deu-lhe água pela barba.

— Adoeceu-me a Antonica, prosseguiu Francisco Benedito, que desde a queda no rio nunca mais teve saúde; Chiquinha está que parece opilada, e se ela já tivesse ido à igreja bem se podia dizer ao marido que era tempo de tratar das toucas de lã; a minha Mariquinhas, que era dantes um gaturamo, que passava os dias cantando, anda-me agora com uma cara de poucos amigos, bisonha e aborrecida.

— Mas então posso contar com o sim da sua parte, seu Chico? perguntou Viana.

— Palavra de honra! e vai ver como isto se decide hoje, respondeu o agregado.

À noite voltaram para o casarão e Francisco Benedito, chamando sua mulher, disse-lhe que tratasse de ver o que se havia de fazer para os enxovais de Antonica.

A moça, que estava cosendo a um canto da sala, interveio dissimuladamente na conversa.

— Mas eu não tenho vontade de casar-me, papai; estou muito criança ainda.

— Ora vá daí, atalhou bruscamente Francisco Benedito; quem sabe se você deve ou não deve casar sou eu; pode meter a viola no saco.

O que passou no coração de Antonica é indescritível, mas, a julgar pelo seu semblante, o golpe foi tremendo. Ela nada respondeu, mas o seu olhar fulminou, com a indignação e o desprezo, o perturbado vendeiro.

Convencido de que Antonica submeter-se-ia à vontade de seu pai, Viana esmerava-se em multiplicar obséquios ao agregado, todos os dias de manha vinha encontrar-se com ele no casara-o e daí acompanhava-o à casa nova, onde não se poupava no trabalho do embarreamento.

Era chegado o dia em que se devia dar a última demão à obra; faltava apenas embarrear algumas paredes interiores e assentar as portas e janelas, que não eram muitas.

Todos os amigos de Francisco Benedito apresentaram-se logo de manhãzinha para, em companhia da família deste, festejar o final da construção.

Em rancho festivo partiram para a nova casa, acompanhados pelo agregado, sua mulher, o Juca e Mariquinhas. No casarão ficaram Antonica e Chiquinha, cujo estado de saúde impedia-as de caminharem através do campo, das picadas dos capoeirões ainda orvalhados.

Pouco tempo depois da partida do rancho, chegou ao casarão, silencioso, o vendeiro que trazia as mãos carregadas de garrafas e o coração cheio de alegria.

Antonica veio recebê-lo à porta e noticiou-lhe secamente a partida da família.

Contrariado pela frieza da recepção, Viana apressou-se em despedir-se. Quando já se havia afastado alguns passos do casarão, Antonica fê-lo parar e aproximou-se dele, dissimulando o ódio que lhe gerara a persistência do vendeiro no desejo de recebê-la como esposa.

— Oh! seu Viana, exclamou ela, vosmecê está se enganando por seu gosto, ouvindo o que papai lhe diz. Eu não quero esse casamento; e não se deve obrigar ninguém para esse fim.

Isto é criançada que há de acabar com o tempo, sá Antonica; respondeu Viana dando às suas palavras uma pungente entoação de mofa. — Quer saber, eu apanhei outro dia uma juriti no ninho; levei-a para casa, e prendi-a num viveiro. Que bonito pássaro é a juriti, não é? Pois esteve bravo e quase morreu, tanto bateu com a cabeça nas tábuas do viveiro. Hoje está mansinho como um cordeiro e macio como um veludo. As mulheres todas fazem como as juritis; amansam-se. Bom dia, sá Antonica.

A dor de tamanho escárnio encheu de desânimo a debilitada Antonica. Às contínuas vigílias pranteadas, que eram o seu viver desde que ouviu a seu pai a sentença que tanto lhe torturava o coração, a moça debatia-se em meio das mais atrozes angústias.

De um lado flagelava-lhe o seu amor prudentemente rejeitado, de outro a imposição cruel feita a toda a sua vida. Do meio desse flagelo elevava-se o espírito para logo desmaiar em acerbas inconseqüências.

Já não sabia resolver-se, bolava à mercê de esperanças, à feição de ilusões caducas. Imaginara muitas vezes que as suas lágrimas teriam forças para convencer o vendeiro de que ele só conseguiria fazer a sua infelicidade, e então deleitava em sonhar a piedade desse homem comovendo-se diante da sua sinceridade, e salvando-a de um martírio sem fim.

Assim, pois, em vez de romper como era de esperar do seu gênio fogoso, Antonica apenas desculpou-se e suplicou.

— Nem sempre as juritis se amansam, às vezes as coitadas morrem de desespero. Pensa que eu não lhe estimo? E mau pensar; não lhe estimaria mais uma irmã. Pois se vosmecê foi sempre bom para mim... e a prova é gostar ainda de uma pessoa que já lhe maltratou. Mas escute, eu juro-lhe por Deus que nos está ouvindo, se eu pudesse ... mas não está em mim, é um feitiço; tenha dó, vosmecê teve mãe e pai, pelo amor que lhes teve me perdoe. E que eu nunca viveria contente.

Estavam claramente provadas as afirmações de Manuel João; o vendeiro ouviu no soluçar da súplica de Antonica a revelação de um amor profundo, arraigado, mortífero.

Não era igual a esta a afeição que ele votava à moça; era uma cousa que impressionava às vezes, mas que nunca lhe ensombrara a razão sequer um momento; nunca lhe arrancara lágrimas e soluços; nunca lhe diminuíra ao menos o apetite.

Molestou-o, é verdade, o mau trato que recebeu da sua noiva, mas do mesmo modo que o molestava a firmeza de um freguês quando, para não chegar ao preço, ia fazer negócio em outra venda. Demais ele não pensou nunca em triunfar senão em virtude da sua posição de negociante e credor do pai de Antonica. O seu casamento foi sempre, no seu entender, um problema que, mais do que o coração, a gaveta do seu balcão podia render.

Ao dar de face com esse mundo de agonias plangentes, a sua inata grosseria, a sua alma semelhante às prateleiras da sua vendola, pouso e atração do mosqueiro, a sua falta de sensibilidade enfim só encontrou uma pergunta bestial, e uma condição miserável.

— E a quem é então que sá Antonica estima? Se me disser o nome talvez eu ceda.

O pudor da moça cobriu com um véu róseo o nome pedido, e o seu olhar inflamado, convergindo para o colo, para esse espesso invólucro do coração, fazia pensar na espada de fogo do arcanjo velando às portas do Éden. Aqui o paraíso era o coração de Antonica habitado pela imagem do fazendeiro.

O pudico silêncio da infeliz deu azo a uma nova grosseria.

— Então não temos nada feito; riu desdenhosamente o vendeiro. Afinal não vale a pena fazer mistério daquilo que todo o mundo sabe.

— Quem? interrogou Antonica, é um segredo só meu, e por isso mesmo deve-se ter dó.

— Sim, eu tenho dó de seu pai, que vive enganado e desonrado pelo malvado do capitão.

— E falso; é uma calúnia. Eu já não lhe peço nada. Faça o que quiser. Digo-lhe só isto: não hei de dobrar-me à vontade de meu pai; não hei de ir aturar as suas maldades, seu malvado; só se quiser casar com uma defunta.

Viana pôs-se a rir desaforadamente, e a sacudir o corpo com um movimento convulso; depois parou de chofre e perguntou entre uma gargalhada.

— Fica mesmo aqui no casarão, ou o capitão manda fazer casa nova?

A veemência do insulto ocasionou um verdadeiro acesso de loucura na humilhada Antonica. Com uma temeridade inaudita, a sua mão pequena agitou-se no ar e, certeira, inesperadamente espalmou-se na face do vendeiro.

A larga faca polida, a companheira inseparável dos roceiros, luziu vibrada pela mão possante do vendeiro; que vomitou colérico uma pungente injúria.

Antonica imóvel, braços cruzados sobre o colo ofegante, o olhar vivaz e percuciente, esperou impassível o desfechar do golpe sem pôr dique à sua cólera indomável.

— Podes matar-me, seu miserável; antes o casarão do que a casa de um covarde. E até um benefício; mate-me de uma vez. Mate-me porque é a vontade: eu amo, sim, ao capitão e só ele, que não é miserável como tu, infame, homem que julga desonrada a mulher com quem quer casar, malvado.

Apesar da provocação, em vez da lâmina polida o violeiro desfechou sobre a moça uma gargalhada, três vezes pior do que o golpe.

— Descanse, Sra. Dona... não há de perder a sua vez; por ora é cedo; mas não ficará para semente.

A crueldade dos desdéns de Viana contiveram a desgraçada moça. Ao passo que o insultador, despeitado, afastava-se ela quedava perplexa, não adiantava. Havia desfeito entre eles um grande charco de lodo; — era o caráter do vendeiro.

A sua fotografia perfeita foi feita numa frase de Antonica relembrando o insulto que foi vibrado por Viana, quando lastimou a desonra paterna pelo Capitão. Era o requinte da hipocrisia fundabulando com a mais negra das torpezas.

Depois da longa quietação, semelhantemente ao que sacode um pesadelo, e porque ainda ante os olhos vê as larvas truculentas que o afligiam, foge ao lugar em que dormia e não se liberta da impressão desagradável senão ao ouvir uma voz humana; Antonica, ao recuperar a calma após a luta violenta com o vendeiro, correu até o quarto em que, suspirando à vergonha, e carpindo o seu erro, Chiquinha madornava a prostração moral que a extenuava.

Aí, como a criança amedrontada, subiu apressada ao leito e conchegou a cabeça afogueada ao colo de Chiquinha. As lágrimas desencadearam-se-lhe, e, com elas, um soluçar nervoso.

A enferma sofria assaz para saber compreender as dores alheias, porque desgraçadamente é preciso a dor para aferir a dor.

Com a voz úmida de ternura e compaixão, escondendo nas palavras o espanto, Chiquinha, anediando os cabelos de Antonica, perguntou-lhe com a delicadeza que os sentimentos fraternais emprestam à mulher:

— É possível, minha irmã, que também você seja tão desgraçada como eu?!...

— Mais ainda, Chiquinha, soluçou Antonica, eu amo, e nem devo dizer — amo.

Uma cena tocante de amor fraternal, consórcio de sentimentos puros na desgraça, sem estudo, sem arte como a fusão das águas de dois afluentes em um volume único, largo, majestoso, correntio e limpo, seguiu-se às primeiras palavras das duas moças.

As lágrimas, o sagrado batismo do infortúnio, lustravam-lhes o passado, onde as douradas ilusões do amor converteram-se a pouco e pouco em fantasmas ominosos, cuja projeção assombrava-lhes o presente e agourentava-lhes o futuro.

A comunicabilidade das dores sinceras estabeleceu-se prontamente entre as duas irmãs, e daí a pouco nenhuma delas tinha segredos para a outra. Chiquinha não tinha pintado exatamente a sua situação; mas sobre o que ocultou impunha-lhes silêncio o pudor.

Seriam duas ou três horas da tarde quando Sebastião, que na qualidade de homem entendido em carpintaria tinha desempenhado o papel de mestre da obra, pegou de um martelo e repicando com ele sobre um banco de carpinteiro anunciou o completo acabamento da casa.

Francisco Benedito, que desde a chegada ao lugar da nova habitação testemunhava a sua alegria repetindo visitas às garrafas, ergueu no ar um caneco cheio de vinho e agradeceu os serviços dos trabalhadores por um brinde lacônico e sincero: vivam os bons amigos!

Todos acompanharam a expansão e, rindo alegremente, foram sentar-se à sombra de uma copada angelineira que bracejava a ramagem' robusta perto do terreirinho do edifício rústico.

Sobre o chão estofado pela folhagem morta e caída da árvore, a mulher do agregado estendeu sobre uma toalha, da alvura da albumina, o banquete comemorativo do acontecimento.

A casa nova, imóvel, apresentava ao norte a frente rasgada até meia altura por uma porta estreita e duas janelas a pouca distância desta; parecia um conviva irresoluto no bródio sertanejo.

Três janelas laterais abriam-se para o oriente e outras tantas para o ocidente. Ao fundo, como uma asa caída, declivava do teto uma meia-água que era destinada a desempenhar as funções de cozinha. Tudo vestia-se de duas cores apenas — o avermelhado do barro e o pardacento do sapê e da madeira das portas e janelas não pintadas.

Em torno da casa adensava-se a mata, só rareada em uma largura de duas ou três braças, as quais davam lugar ao leito da estrada, que se alongava a perder de vista, em plena franqueza de suas curvas caprichosas como as do serpear da cobra.

Sobre tudo isso reinava a eterna rotina da natureza; os mesmos garganteios acontraltados do nhambu, os pios e chilros da passarinhada, os zumbidos dos insetos, o murmur dos veios d'água nas grotas, o azul intenso das serras próximas e o desmaiado azul do firmamento e da cordilheira distante.

Alegres e lisonjeados pelas provas de gratidão que recebiam, os hóspedes e protetores de Francisco Benedito sentavam-se à mesa com o desembaraçado apetite de quem acaba de trabalhar braçalmente. Demais erguiam-se das terrinas uns vapores traindo adubos esmerados e conscienciosos.

Cumpre notar que o contentamento geral não privava todavia a solicitude hospitaleira da família e assim foi que não passou despercebido o mau humor de que dava mostras o Viana da venda, um dos que mais tinham contribuído para o feliz êxito da construção e para a aparência lauta do banquete.

Além disso, Antonica e Chiquinha, que tinham chegado por último à reunião, conservavam-se visivelmente tristes, e mantinham tão grande reserva com os circunstantes que foi necessário explicar pela moléstia este fato inesperado.

No fim do jantar o subdelegado Oliveira, a quem já o gárrulo agregado havia anunciado o próximo enlace de Antonica com o vendeiro, admirado do afastamento requintado entre os noivos, acercou-se do inspetor André e disse-lhe muito à puridade:

— Oh! seu André, não lhe parece que anda caça escondida neste mato?

— V. S. que o diz é porque é; mas também se há é tão arisca que há de custar a sair da toca.

— Pois bem, fique você na espera, com todos os cinco sentidos, enquanto eu vou pôr-lhe os cachorros.

— Mais fácil é ser mordido por uma jararaca do que arredar pé um momento, respondeu o inspetor, aproveitando o encaixe para um riso apigarrado de adulação.

Á pouca distância destes interlocutores conversavam muito intimamente o vendeiro e o violeiro. Graves questões debatiam a julgar pela gesticulação animada e um certo ar de irresolução que envolvia o vendeiro.

O subdelegado tomou nota do que se passava entre os dois e bem assim do olhar atento com que Antonica os seguia, não obstante parecer completamente absorvida em uma conversação com Chiquinha.

Batendo as palmas jovialmente, Oliveira achou-se logo cercado por todas as pessoas presentes, e começou no tom mais cordial de memória de homens:

— Para aqui junto de mim, Sr. Chico! eu não meto prego sem estopa. Diga-me cá, não se fazem os convites para o recebo a vós? Ande lá que parece querer deixar-me ficar no tinteiro?

— Bem falado, meu senhor, muito bem falado, respondeu o agregado; mas eu não sou o dono da festa, a culpa é toda do Viana que, sempre que a gente fala no caso, fica estranhão como uma criança de peito.

— Pois isto não se faz aos amigos, Sr. Viana, continuou o subdelegado, à medida que caminhava para o vendeiro.

Pondo-lhe depois as duas mãos sobre os ombros e sacudindo-o amigavelmente prosseguiu:

— Já tem padrinhos, seu maganão? O segredo nestes negócios é grande toleima.

Viana, porém, não deu em resposta senão o riso alvar da aquiescência contrafeita e Antonica denunciou claramente a repugnância que lhe causava a audição de palavras referentes ao consórcio.

— É novo isto, exclamou Oliveira, os noivos parece que se zangam com a gente porque lhes fala no casamento. O Viana está macambúzio como um boi mordido de cobra, e a Antonica amarelou como uma flor de abóbora. Está bom, está bom, não se casam, não; quem é que disse que vocês se casavam? Ora é boa, não faltava mais nada; calúnias! Há muito rná-língua neste mundo.

Uma risada estrondosa acolheu o gracejo do subdelegado, que regozijou-se interiormente com a certeza de ter descoberto o segredo dos noivos, e, satisfeito com essa vitória da sua perspicácia, multiplicou os epigramas, com o fim de conseguir pela irritação o que não podia obter espontaneamente.

— Já havia-me passado pela cabeça uma idéia, disse ele; era servir de padrinho ao Viana, se isto fosse do seu agrado, e não houvesse pessoa mais considerada já convidada. Depois eu disse com os meus botões: não, não me ofereço; o Chico é lá agregado do capitão e há de querer que ele seja o padrinho; já lhe deu a batizar uma filha...

— Mas hoje, interrompeu o agregado, não lhe dou por meu gosto nem um coco dágua. É bichinho que entra com pés de lã e depois arranha e morde.

— Isto é o que você pensa agora, mas antes ele era o seu deus; e o Viana ainda hoje não tem razão de queixa. Não é verdade, santinho?

— Queira perdoar vosmecê, seu subdelegado, mas eu hoje estou um pouco doente e vou-me chegando à casa, respondeu o vendeiro.

— E dispensa uma companhia? interrogou Oliveira.

— Está visto que não, até gostarei.

— Pois neste caso eu vou consigo; a conversa abrevia muito as viagens.

O melhor é irmos todos, ponderou Sebastião; não há nada mais a fazer aqui e para palestrar estamos muito melhor lá no casarão.

Quando o farrancho ia a entrar na casa do agregado, o violeiro, apontando para o porto, chamou a atenção geral para essa parte do campo.

— Parece que chegou canoa da cidade e se não me engano aqueles que lá estão no porto são o Faustino Silva e o Pelegrino.

Dentro em alguns minutos não houve mais dúvida; as pessoas que estavam no porto, com os remos às costas e cestos à cabeça, tomaram a direção da casa grande.

— Agora não sai ninguém daqui, exclamou o agregado; o Faustino há de candongar por força ao amo e eu quero meter-lhe ferro por saber que vocês estiveram comigo. É uma pagazinha dos desaforos que me tem feito.

— É direito, muito direito; acrescentou o violeiro; mostre-se àquele inchado capitão que a gente não morre de caretas.

Todos concordaram com a resolução do agregado, patrocinada pela arrogância do violeiro, ainda que não muito por vontade do subdelegado e inspetor, que só ficaram para não mostrarem-se medrosos.

Na porta do casarão, com o chapéu de lebre na mão e rosto carrancudo, assomou Faustino Silva, que apenas saudou o agregado e seus hóspedes, e logo retirou-se depois de ter entregado a Francisco Benedito uma carta que lhe era dirigida pelo capitão Motta Coqueiro.

Um movimento de surpresa descorou todos os rostos e ainda os mais corajosos estremeceram involuntariamente. De feito, era singular que em tão pouco tempo de ausência já o fazendeiro tivesse motivos urgentes para dirigir-se ao seu compadre.

A pedido de Francisco Benedito, o subdelegado colocou os seus óculos, quebrou a obréia da carta e leu com voz pausada:

"Compadre.
Ao sair do sítio tinha-lhe pedido que se apressasse a fazer a sua casa no lugar que demarquei para servir-lhe de situação. O tempo que o compadre gastou para levar a efeito esta condição do trato que de viva voz fizemos, quando entrou para nossa casa, faz-me crer que o compadre ainda não começou o trabalho, ou que não o terá muito adiantado. Aconselho-lhe agora que ou não comece, ou pare a construção.
A razão por que lhe aconselho isto é ter deliberado montar melhor o meu sítio, e tirar proveito dele de todos os modos.
Sabe o compadre que o sitio não tem grande extensão e por isso não posso mais dispensar terras para estabelecimento de agregados; ao contrário preciso de adquirir maior terreno.
Proponho-lhe um negócio que lhe será vantajoso; o compadre passar-me-á por uma avaliação as suas benfeitorias e ficará morando no casarão até que eu lhe possa arranjar um outro fazendeiro que tenha terras devolutas.
Recomendo-me a todos e faço votos para a inteira cura da Antonica."

— Não se pode crer em tanta infâmia, exclamou o subdelegado, ao terminar a leitura.

— Eu já esperava por esta, ajuntou Sebastião; ele é capaz de mais ainda.

Francisco Benedito vociferava como um possesso contra o compadre, e lastimava-se ao mesmo tempo, e concluiu por uma interrogação e uma ameaça.

— Eu só queria saber quem foi o demônio que me indispôs desta sorte com o diabo do malvado; havia de moê-lo a pauladas; desse no que desse.

— Nada é mais simples do que descobrir a causa, interveio Viana; procure bem por aqui mesmo; indague bem dentro de sua casa e verá.

Todos olharam-se espantados, e cada um sentiu-se vexado como os apóstolos quando o Cristo anunciou a sua próxima traição por um dos que com ele se reuniam no Cenáculo.

Antonica foi quem sofreu o golpe mais rude; tinha a certeza dolorosa de que as palavras de Viana eram o prólogo de uma vingança desapiedada e inexorável. Sentiu faltarem-lhe as forças e não pôde retirar-se da sala, como era seu desejo.

— Eu vou contar uma história, exclamou Sebastião no meio da perplexidade de todos; é uma história que me contaram há muito tempo. Havia um trabalhador já idoso que tinha muitos filhos, entre os quais algumas moças, que todos diziam ser muito bonitas. Um dia o velho achou-se meio do mato sem casa onde morar, sem trabalho; uma desgraça. Um fazendeiro da vizinhança mostrou ter dó dele e chamou-o para a sua casa, mas infelizmente o velho tinha filhas que eram umas jóias, e o fazendeiro gostou delas. Queria deste modo cobrar-se do favor que tinha feito. O que houve, o que não houve entre as moças e ele não sei, não me contaram; o certo é que desde que as moças foram pedidas em casamento o fazendeiro começou a maltratar e a perseguir o pai a quem tinha antes protegido.

Ora eis aí como foi o caso; entrou por uma porta, saiu por outra e manda el-rei que conte outra.

A aplicação da história contada pelo violeiro era fácil demais para que todos imediatamente não a fizessem. O subdelegado que desde o princípio do conto percebeu onde ele ia bater, desejoso de tomar mais explícita a censura, que tanto infamava Motta Coqueiro, reteve a erupção da cólera de Francisco Benedito, ponderando ao violeiro:

— Ora, outro ofício, Sebastião, isto é uma história da carocha.

— As vezes são verdadeiras, respondeu o violeiro, e esta é, eu lho juro.

Viana que, depois de atirar a suspeita, se havia calado, colocou-se então na frente de Francisco Benedito, cujas mãos segurou, e disse, voltando-se primeiro para o subdelegado e depois para o agregado:

— Infelizmente há histórias da carocha que são verdadeiras, e aqui temos uma prova. Seu Chico, escusado é ir longe buscar o seu inimigo; Antonica pode dizer o que há com o capitão.

O efeito das palavras do vendeiro excedeu à mais calculada expectativa: a amarelidão cadaverosa que tingiu as faces de Antonica, o tremor convulsivo que a obrigava a tiritar, o estupor chispante que estagnou-lhe o olhar faziam pensar a todos os circunstantes não em um protesto doloroso a uma ofensa pungente, mas em uma confissão extorquida de súbito a um sigilo que se julgava inviolável.

E tinha justificação eloqüente a perturbação da desventurada moça; pobre pérola perdida em um esterquilínio de caracteres em decomposição, sentia-se alinhavada nos farrapos sórdidos de uma vingança baixa e vila, que, sem coragem para um desforço não já em uma luta de honra, mas sequer em uma emboscada, lançava mão da intriga e por ela espojava-se em uma alegria insensata.

Uma intuição perspicaz escobrir-lhe-ia no espírito, de pé, solenes e iguais na estatura, a revolta da mulher pura insultada, e a vergonha da amante ao sentir em nudez profanada o íntimo da sua alma povoada de perdões e esperanças; de mágoas e abnegação; dor santa e veneranda porquanto, nessa hora em que a iniquidade consumava tanta torpeza, ela estava só, indefesa, entregue à indignação da boa fé paterna ilaqueada e aos golpes rudes do despeito triunfante.

Via todos os olhos cravados na sua perturbação inevitável, cheios de crueldade e de interrogações aviltantes, agora que a sua consciência chorava as amargas lágrimas do pudor angustiado, e, o que mais penoso era, via essas lágrimas serem grosseiramente confundidas com as do brio feminil acordado de chofre de uma letargia moral por uma sacudidela de censura.

Os lábios negavam-lhe uma única palavra, porque as combinações do alfabeto e dos sons falecem irremediavelmente nas horas das grandes crises dos sentimentos. Também de que lhe serviria falar, se todos os argumentos estavam de antemão condenados, se um grito de desespero seria julgado uma explosão de vexame ou refinamento de hipocrisia'?

Com a boa vontade de um sequioso que farta-se a beber água salobra, o vendeiro saciava neste martírio a sua desforra indigna; corvejavam-lhe jubilosos, sobre a hediondez do caráter, os instintos da perversidade fria e calculista.

— Anda de lá, velhaca; bradou bruscamente Francisco Benedito, conta-me, antes que eu perca o tino, as tuas sapecarias, sonsa dos diabos, que desonras as barbas do teu pai, fala enquanto não te esgano, que é quanto tu mereces.

— Calma! tenha calma, seu Chico, disse ameigando a voz o subdelegado; ela não é a mais culpada.

O prudente Sr. Oliveira já a esse tempo braçara-se com o agregado, que, vociferando, forcejava por desembaraçar-se e dirigir-se à filha, a quem cercavam suas irmãs e mãe, banhadas em pranto.

— Homem, escute, arrazoou Sebastião para o possesso pai; não é perdendo o siso que você há de deslindar a meada. Não esteja também fazendo futuros maus. Você é criança ou é um pai de família? Atenda primeiro, com seiscentos mil raios. Está a descompor à toa a rapariga.

Vencendo a pertinaz resistência do agregado, o Sr. Oliveira e Sebastião conseguiram tirá-lo para fora da sala e acalmá-lo um pouco.

Feito isto, o violeiro, que impressionara-se vivamente com o estado de abatimento de Antonica e ainda mais com os olhares súplices de Chiquinha, ou melhor pela evocação dos seus atos, segurou Viana por um braço, e falando-lhe à parte, disse-lhe terminantemente:

— Fique sabendo que o negócio é só com o capitão; deixe-se, portanto, de acusar a rapariga. Faça carga no bicho e poupe os mais, ou então eu parto para a cidade e vou na presença do capitão desarmar toda a igrejinha.

— Mas já lhe contei o que ela me fez, respondeu colérico o vendeiro; eu não sou homem para agüentar desaforos.

— Está bom, está bom, seu Viana; nenhum de nós engana um ao outro; você não quer nem queria casar-se com Antonica e podia fazer como nós, não quis por tolo. Venha daí e veja se acomoda o velho. Nós temos sido amigos até hoje e não devemos brigar por cousas de pouca monta. A zanga da menina há de passar; assim seja você bom para ela agora.

Os escrúpulos de consciência, o sonho da vitória do amor pelo amor, nascem da sinceridade do afeto e da limpeza das intenções, quando, porém, a paixão limita-se ao desejo da posse material da mulher, quaisquer que sejam os meios são sempre atraentes e exeqüíveis.

Acresce que as paixões desta ordem vegetam sempre nos corações apodrecidos pelo vício ou pela ignorância, do mesmo modo que certas parasitas preferem as árvores mortas para se proverem de seiva.

O vendeiro não podia ser classificado senão na última das duas classes de amantes, e por isso mesmo condescendeu com a esperança dada por Sebastião.

Sentando-se ao lado de Francisco Benedito, começou a asserená-lo, quando lhe pareceu oportuno.

O velho, já vencido pela argumentação tersa do subdelegado e pelas meias palavras consoladoras de Sebastião, havia ponderado criteriosamente.

— Quem pode dizer se eu tenho ou não motivo para danar é o Viana, ele é quem sabe do negócio, mas está aí calado como um garrafão lacrado; é que ele pensa comigo.

— Tem seus conformes, seu Chico, observou o vendeiro; eu ainda não falei nada.

— Pois safe-se daí logo com o que sabe, gritou o violeiro; é preciso a gente saber a quantas anda. Vamos por ora às apalpadelas.

— O que eu sei é isto: quando si Antonica por um triz que não se afogou, o capitão veio depressa em seu socorro, mas em vez de se portar como um homem sério beijou muito a coitada. Foi pelo menos o que me contaram...

— A verdade é esta, entende, meu senhor; interrompeu o agregado dirigindo-se ao Sr. Oliveira.

— Depois, continuou o vendeiro, eu vi com estes olhos o cuidado do capitão durante a doença de Antonica. Mandou escravas servi-la e ele próprio passava horas esquecidas velando a doente.

— Posso jurar nos Evangelhos como tudo está sendo dito direito, observou Francisco Benedito.

— Ninguém desconfiava nada, prosseguiu o comentador, porque o capitão é compadre da casa e um homem de idade. Depois de passada a doença houve, porém, quem visse Antonica ir por diversas vezes à casa grande sozinha, e quase sempre de noite.

— E ainda não querem vocês que eu tire das costas daquela sirigaiata os passeios sem licença dos seus pais?!

— Eu por minha parte nada suspeitei nunca, mesmo depois que me contaram o caso, mas hoje si Antonica me fez uma partida que me fez pensar muito sério. Depois de tudo tratado, disse-me sem mais nem menos, que não me estima já, e que por vontade dela não se casa. Enfim eu não digo nada, mas uma cousa destas tem muito peso.

Apesar de atenuada de alguma forma a culpabilidade de Antonica, todavia o agregado não se mostrava propenso a forrar-se da suposição desairosa para com sua filha. A tática do violeiro tomou-se necessária, indispensável, para multiplicar a queixa do seu inseparável amigo.

— Pela parte de sá Antonica pode descansar, seu Chico; ela é incapaz virar a cabeça. Há testemunha de vista de um caso. O Manuel João foi despedido daqui por causa disso e disse-me tudo tintim por tintim. É deste jeito.

Uma noite o capitão viu passar sá Antonica sozinha por defronte da casa grande e foi divertir-se com a menina. Esta, porém, não só ficou muito amofinada, mas até ameaçou de vir dar parte a você; está entendendo, seu Chico. Portanto, o que é que tem si Antonica a ver aqui.

— A mim também parece que, se houvesse alguma cousa, o capitão não quereria que você fosse morar para mais longe; ponderou o Sr. Oliveira.

— Está visto. Se há alguma cousa, é raiva do capitão por não ter conseguido os seus fins; isto está saltando aos olhos. O que admira é que o cismático do seu Viana venha aqui contar histórias ainda. Quanto mais se faz menos se merece.

A argumentação frouxa e descabida mesmo dos interlocutores abrandou a cólera superficial do agregado, cólera que rompia mais diretamente de um grau já bastante elevado de alcoolismo do que de um sentimento nobre.

Por fim Francisco Benedito falava com menos calor na maculação das suas barbas brancas e com veemência, com ódio na força do seu compadre e na própria fraqueza.

— Ser pobre é o mesmo que ser boi de ajoujo, repetia freneticamente o agregado; trabalha um homem e de uma hora para outra não tem mais onde meter a cabeça, porque tudo quanto se tem é pouco para a goela do rico.

Solícito em desvanecer esta derradeira nuvem que pairava sobre o espírito de Francisco Benedito, o subdelegado Oliveira resolveu dar-lhe por virtude da sua autoridade local uma prova inequívoca de zelo e de poder, que teve força de renascer a confiança do agregado.

— Quanto às terras, Sr. Chico, ponderou o subdelegado, corre por minha conta; basta você fazer-se duro por elas e o seu compadre há de ver-se tonto. Ele não o pode deitá-lo fora assim como quem enxota um cão; são necessárias certas formalidades da lei; por exemplo, requerer ao juiz de paz, etc., etc. Ora, o juiz de paz é um amigalhaço do Coqueiro, não iria nem para o céu em companhia dele. Vê, pois, você que está seguro.

— E se ele lançar mão da força, o que hei de eu fazer senão ceder? interrogou o agregado.

— Amor com amor se paga, e uma mão lava a outra. Se ele tem muitos capangas e escravos, você tenha jeito para tomar um despique. Pela minha parte dou-lhe carta branca, e digo-lhe até mais: será um benefício para este pobre povo ver-se livre de tal monstro. Em resumo, Sr. Chico, vou dizer-lhe a minha última palavra sobre isso: há certas questões que só se liquidam a pau.

— Quase sempre o cacete é a melhor justiça, confirmou todo risonho o inspetor André; não há melhor cadeia neste mundo do que uma camisa de grumarim.

— O mais que lhe posso oferecer, acrescentou o violeiro, é o adjutório do meu braço, caso os do seu Chico e seu filho não cheguem.

Após estes oferecimentos feitos por todos, à exceção do Viana, a reunião dissolveu-se a maldizer e desfear a causa da mudança de humor de Motta Coqueiro para com o seu compadre.

A meio caminho de casa e quase extremo cansaço do magro suspiro, o violeiro foi detido por Lúcio Ribeiro que, a largo e contínuo galope, vinha ao seu encontro.

O capadócio narrou miudamente que havia mais de duas horas que estava sôfrego a esperar o violeiro para comunicar-lhe uma conversa que tinha ouvido a Faustino.

— Ouvi, disse ele, ao demônio do caboclo, que faz rendimento de tirar a vida dos outros, dizer que o capitão está lá na cidade arranjando-me três côvados de pano para as costas. Dê no que der eu hei de ir para a praça.

— E você esqueceu, com o susto, o caminho da serra dos Olhos d'Água e as bibocas destes morros, forte medroso.

— Depois o Faustino contou também que o homem dá você aos diabos e promete-lhe castigo. O Faustino logo se ofereceu ali à vista de todos ficar a cargo dele o serviço contra você. A dúvida é o capitão dar-lhe cem mil réis; se ele chegar ao preço, o Faustino diz que é bem capaz de tirar a vida não só a você mas ao Chico Benedito e à família inteira. Eu quis logo avisá-lo porque o Faustino é homem de dizer e fazer.

— Mas ainda não se lhe deu o dinheiro.

— E o menos para o capitão, e, se não me engano, já há um dinheiro para o Faustino por um vale do capitão.

— Ora adeus, Lúcio; eu não estou dormindo.

Depois de separarem-se, o violeiro perdeu a aparência de calma que o revestia sempre nas situações perigosas. Ia à mercê do Suspiro que, abanando as longas orelhas, retardava cada vez mais a sua marcha lerda.

Quando entrou em casa, respondeu à ansiedade de Manuel João com um subterfúgio e foi sentar-se calado e a fumar em um canto da casa.

— Que tem você para ficar assim emburrado, homem, fale porque isto diz-me também respeito; perguntou o ex-feitor.

— Cale-se dai, seu maricas, isto é o fruto das suas trapalhadas.

Os dois recaíram em absoluto silêncio, e assim conservaram-se por largo tempo. Afinal surdiu através do incômodo de ambos a alegria expansiva do violeiro.

— Estou ficando tiro ruim como vocês; assusto-me por pouca cousa. Contaram-me uma fábula que é a minha felicidade, e no entanto eu fiquei amedrontado. Mas passou; vamos à prosa, seu Manuel João.

Os dois sentaram-se a fumar descansadamente, enquanto o violeiro narrava os sucessos do dia.

O plano magistralmente urdido pelo violeiro produziu resultados tão exatos e precisos quanto graves e terríveis.

A calúnia, a intriga e a dissimulação, entrançadas em uma teia consistente, enlaçaram-se como um baraço assassino ao sossego e descuidos íntimos das duas famílias, e estrangularam-nos desapiedadamente.

A existência de Antonica, verticiliada em risos e ilusões juvenis, transformou-se em uma série de humilhações pungentes, e o fazendeiro viu também suceder às prazenterias do lar o retraimento da esposa, ferida pela desconfiança na sinceridade do seu afeto.

Para Motta Coqueiro só houve, depois do penoso conhecimento da afeição de Antonica, alguns dias de tranqüilidade: foram os que se seguiram logo à chegada à sua chácara em Campos.

Lançando um olhar retrospectivo à consciência descobriu ai algumas sombras tristonhas, mas tão delgadas e diáfanas que desde logo acreditou que para desfazê-las bastava um sopro de raciocínio e resignação.

O isolamento em que vivia no sítio e que constrangia-o a diminuir até a atenção intelectual para que pudesse ser compreendido pelas pessoas com quem estava em imediato contato; semelhante isolamento foi substituído pela convivência polida e delicada de uma sociedade inteligente e desdobrada em pensamentos para a família e para a pátria.

Desde a manha era visitado por amigos que intermeavam as conversações familiares com observações judiciosas acerca do movimento social, e assim chamavam-lhe o espírito para a atividade sadia dos espíritos educados.

Vivia numa espécie de aturdimento intimo; tal era o atropelo das questões que era obrigado a discutir e apresentar solução, e força é dizer que semelhante estado agradava-lhe, porquanto redundava-lhe em um como soterramento das mágoas domésticas.

A chegada de Motta Coqueiro era esperada com ansiedade porque uma viravolta política tinha abalado o partido conservador campista, do qual o fazendeiro era membro proeminente e influência decidida.

O abalo tinha sido produzido por uma desastrada mudança na chefia do partido, não por serviços prestados, mas por um simples despacho do governo, que dava a direção da família conservadora da localidade a um novo juiz de direito nomeado.

Esse homem, que começava então a sua carreira política, pensando em tirar da sua posição proveito, mais útil à sua pessoa do que aos interesses do partido, inaugurou a sua direção concentrando em si toda a atividade sobre os correligionários.

Graças à sua inteligência superior e ilustração acatada e reconhecida por todos, o juiz de direito pôde em pouco tempo dizer: o partido conservador sou eu.

Mas como sempre essa absorção da coletividade promoveu dissabores que foram intumescendo silenciosamente a princípio, e mais tarde prorromperam em protestos enérgicos, reduzidos a fatos e estereotipados em uma dissidência irreconciliável.

Motta Coqueiro, cordato por índole, achou-se por isso mesmo a braços com grandes e insuperáveis dificuldades, visto como insistia no congraçamento dos campos dissidentes, único meio de fortalecer o partido.

Nada, porém, conseguiu a não ser trabalhos, sacrifícios e decepções.

Enquanto absorvia-se todo no serviço político, a sua atenção não voltou-se especialmente para os modos descomunais da sua consorte, e no entanto eles eram por demais sensíveis.

A Sra. D. Maria, desde três dias depois da chegada de Coqueiro, não era a mesma. O seu coração parecia andar envolvido numa atmosfera de gelo, e uma frieza quase indelicada recebia por ela todas as comunicações mais expansivas do marido.

Um dia em que, ao de leve, o fazendeiro apercebeu-se da indiferença da Sra. D. Maria, e lha observou com benevolência, a ressentida senhora, escondendo no aveludado da palavra uma censura amarga, respondeu-lhe com aparente simplicidade.

— O senhor não tem razão para enfadar-se; é preciso que eu preste toda a minha atenção aos interesses de nossa casa, agora que o senhor se ocupa exclusivamente com os estranhos.

Motta Coqueiro tinha, de feito, achado ocasião para a advert6Encia amistosa no meio de uma conversa relativa ao partido Foi ao terminar a descrição de um ataque decisivo ao rei da situação política de Campos que a sua vaidade fi-lo notar a indiferença da Sra. D Maria.

Longe de irritar se com a resposta, Motta Coqueiro procurou acalmar a esposa e prometeu-lhe, rindo com o desembaraço da confiança, livrar se o mais depressa possível dos enredos partidários aos quais atribuía o mau humor que lhe tinha sopitado o entusiasmo descritivo.

O fazendeiro, porém, enganava-se radicalmente quanto ao verdadeiro motivo de queixa da sua consorte.

A fonte da desarmonia conjugal era uma esperteza do moleque Carlos, em dar conta de uma empresa a que se comprometera com Manuel João.

Entrando sorrateiramente no quarto de dormir da sua senhora, o moleque depositou sobre o lavatório a carta que lhe tinha sido confiada. A curiosidade feminil incumbiu-se de tornar bem sucedido o ardil do triunvirato para a satisfação dos seus cálculos ulteriores.

A Sra. D. Maria ao ver a carta representou a eterna cena de Eva diante do pomo proibido.

Habituara-se, desde os primeiros tempos de casada, a abrir toda a carta que lhe fosse dirigida, em presença do seu marido. Era uma obrigação que voluntariamente se impusera e que desempenhava satisfeita.

Ao ver, porém, aquela carta misteriosamente colocada em lugar reservado, a Sra. D. Maria sentiu quebrar-se-lhe a cadeia do passado e afogueá-la uma nova resolução.

Rasgou sofregamente a sobrecarta e leu avidamente as linhas tortuosas lançadas sobre um papel ordinário.

Terminada a leitura, a senhora conservou-se por muito tempo no quarto, de pé diante do movei, pálida como se a tivesse acometido uma instantânea anemia. De vez em quando erguia a carta e repassava alguns dos períodos em voz baixa e trêmula.

Quando saiu aceitou com triste boa vontade as carícias inocentes dos seus filhos, e apertando ao colo o caçula disse-lhe, como se pudesse ser por ele entendida.

Deves querer muito bem a tua mamãe, filhinho, porque teu pai já não a estima.

O mistério da tristeza da Sra. D. Maria foi, porém, surpreendido por Motta Coqueiro quando ela menos esperava.

Joaquim Licério vinha freqüentemente a Campos para efetuar transações indispensáveis ao seu negócio, e por isso chegou também a Campos uma semana depois de Coqueiro.

Sendo forçado a demorar-se por mais tempo do que desejava, resolveu despachar os seus empregados por ser este expediente aconselhado pela boa economia, e ficar só na cidade.

Partiria depois em qualquer canoa que fosse para Macabu, o que não era difícil porque havia sempre grande número delas em viagem para lá.

Infelizmente, na oportunidade da partida, Licério não encontrou a sair senão as canoas das balsas de Motta Coqueiro, mas nem por isso julgou o obstáculo custoso de remover-se.

Lembrando-se da carta que havia escrito e que devia ter chegado às mãos da destinatária, entendeu que o melhor meio de captar a benevolência do fazendeiro era informá-lo das ciladas que lhe armavam.

Certo da procedência deste meio, procurou encontrar-se com Motta Coqueiro.

Pensando achá-lo indisposto contra si, Licério admirou-se de ser recebido afavelmente e o seu pedido receber lisonjeiro deferimento.

Para retribuir a bondade do fazendeiro, o rábula de Macabu entendeu que devia reduzir à obra a resolução, e no correr da conversa perguntou a Motta Coqueiro:

— Se não é indiscrição, V. S. poderá dizer-me como arranjou as cousas para aquietar o Chico Benedito?

— De forma alguma, porque até esta data não tem havido nada que valha a pena entre nós.

— Pois não é isto o que se diz por lá; o que consta é que V. S. e seu compadre já andavam queimados um com outro.

— Sabem mais do que eu; salvo se o compadre zangou-se porque lhe ordenei que fizesse prontamente a sua casa.

— Não é este o caso, respondeu Licério; com franqueza, Sr. Capitão, V. S. não tem notícia de uma carta que foi escrita à Sra. D. Maria?

— Ah! exclamou o fazendeiro admirado, então escreveu-se uma carta a minha mulher?

— Sim, senhor, eu conheço a pessoa que a escreveu, e sei também que foi mandada escrever por um dos genros do Chico, se não me engano, o Sebastião, e sei mais que nesta carta fala-se em V. S. e na menina Antonica.

— O senhor está bem informado, bradou surpreendido o fazendeiro?

— Por estar é que lhe aviso; queira indagar e certificar-se-á.

Açulado pela responsabilidade que via desempenhar-se de chofre sobre si, Motta Coqueiro dirigiu-se a Sra. D. Maria, resolvido a liquidar a intriga.

— A senhora vai fazer-me o obséquio de mostrar-me uma carta que recebeu de Macabu, disse ele secamente à esposa, a quem tinha convidado para um gabinete afastado do maior movimento da família.

— A carta dizia-me só respeito, respondeu friamente a esposa; li-a e rasguei-a.

— Então tenha a bondade de dizer-me o que lhe mandaram dizer.

— Já não me lembro; mas o senhor se quiser saber bem pode ir passar mais um mês no sítio e confirmar com a sua presença o que me comunicaram.

Esta resposta denunciava claramente qual a gravidade da acusação, e por ela Motta Coqueiro concluiu que não era possível que sua senhora tivesse rasgado a carta em que a acusação tinha sido feita.

Intimou portanto a sua esposa à imediata entrega do libelo escrito contra a sua pessoa e obteve-o depois de um chuveiro finíssimo de ironias.

Podia-se dizer que a maldita carta tinha o laconismo de um punhal brandido por um matador profissional.

Trêmulo de cólera o fazendeiro leu o seguinte:

"V. Ex. não tem necessidade de saber quem lhe dirige estas linhas, é um conselho da prudência esconder o meu nome. Devo entretanto afirmar que fala-vos um homem de bem, e um amigo agradecido, que se julga obrigado a dar-vos um desgosto para evitar mal maior.
O agregado, que o marido de V. Ex. admitiu no sítio, entendeu que devia retribui-lo com a pessoa da menina Antonica, hoje convertida em amante do Sr. capitão.
A ausência de V. Ex. incitou-o a não guardar as conveniências e hoje todo o mundo em Macabu conhece essas relações criminosas de um pai de família altamente colocado com a filha de Francisco Benedito.
Só V. Ex. poderá evitar as conseqüências que poderá ter este fato; as exigências não satisfeitas do agregado podem ter sérias conseqüências.
Um amigo de V. Ex."

— E a senhora acreditou nesta infâmia? perguntou Motta Coqueiro.

— E o senhor por que temeu tanto a vinda desta comunicação que chegou a descobri-la?

Para não faltar à consideração devida a sua esposa, o fazendeiro retirou-se sem responder-lhe a pergunta.

Depois de oscilar num oceano de alvitres, achou um que pareceu-lhe o mais acertado: tratar de despedir do sítio o compadre, que tanto o incomodava. Escreveu então a carta cuja leitura foi feita pelo subdelegado na casa de Francisco Benedito, carta que devia acomodar também a sua esposa.

De feito a Sra. D. Maria concordou com o expediente tomado.