Motta Coqueiro/VIII

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Motta Coqueiro por José do Patrocínio
Capítulo VIII: Como se pagam benefícios


No domingo da semana em que a carta de Motta Coqueiro foi recebida por Francisco Benedito, efetuou este a mudança para a casa nova.

A família achava-se agora aumentada por mais um membro, verdadeiro monstro encanecido desde o nascimento, feroz, sanguinário. O seu nome era o ódio, o seu caráter a perfídia, o seu culto a vingança. Cego e surdo corria por toda a parte, desgrenhado, brutal, insultuoso, a provocar intermináveis querelas com uma sanha inquebrantável, com um desgarro revoltante.

Era agora este o fiel conselheiro do agregado e o seu inseparável companheiro. Pregava a destruição e incitava para realizá-la a natural petulância de Francisco Benedito, presentemente exagerada pela proteção do subdelegado e do inspetor que lhe garantiam a impunidade para todos os abusos que fossem cometidos em prejuízo de Motta Coqueiro.

A gente do sítio era diariamente alarmada pela pilhagem acintosa exercida nas roças e no campo do sítio. Nada estava seguro, porque sempre o furto, o roubo, a depredação espiava o gado, os cafezais, as matas e assaltava-os para destruí-los. Além desses meios de vingança outro mais temível foi posto em prática; a sedução dos escravos.

Aconselhavam-nos para que fugissem, acenando-lhes com a perspectiva do descanso, acordando-lhes a eterna aspiração do espírito humano — a liberdade.

Em vão a tenacidade inesperada de Fidélis tentava opor diques a esta desenfreada torrente de cólera, que inundava de desordem e ruínas a propriedade do seu senhor. A franca resistência do escravo encontrava a astúcia precavida dos inimigos de Coqueiro, de maneira que era impossível puni-los.

As vezes, aos clarões suaves dos crepúsculos de setembro e outubro, os grandes capoeirões começavam a fumegar desdobrando no espaço uma enorme e negra cortina de fumo; logo depois, vermelhas como um ferro em brasa, ameaçadoras labaredas principiavam a trepar pelo horizonte, a inteiriçar-se e a correr um imenso reposteiro de fogo, que ameaçava os cafezais, os mandiocais e milharais contíguos.

O contínuo arrebentar dos taquaruçus, estrondoso como uma descarga de artilharia, dava rebate medonho, que obrigava a gente do eito, cansada pelo trabalho de um dia inteiro, a acumular fadigas penosíssimas ao seu cansaço.

Outras vezes grande parte da madeira que estava amontoada no porto amanhecia afundada nas águas, e a gente era forçada a ficar, logo de manhã, por largo tempo molhada para não deixar perdidas as grandes toras de árvores preciosíssimas.

Não havia, enfim, ato por mais iníquo e detestável, que não fosse cometido para desafogo do ódio do agregado.

Fidélis, o resoluto feitor, só dispunha de dois recursos: ameaçar os provocadores e participar essas desagradáveis ocorrências a seu senhor.

Tais meios eram escrupulosamente utilizados, porém tornavam-se improfícuos porque o agregado não temia ser constrangido pela severidade da lei a coibir-se, nem também que a arbitrariedade arreliadora de que se servia fosse retribuída por igual.

Motta Coqueiro, preso em Campos pelas suas ocupações e pela suspeita, contida mas não extinta, de sua mulher, apenas podia repreender por meio de cartas os desmandos do seu compadre, que sempre que recebia ordem de não continuar a fazer benfeitorias nos terrenos do sítio multiplicava-as por acinte, preferindo sempre afastar-se da zona que lhe fora marcada.

Os avisos eram também um incitamento aos estragos.

Verdade é que esta violação do contrato tinha sido posta em prática desde o primeiro dia da desavença: a casa ergueu-a o agregado no lugar em que lhe aprouve.

Uma circunstância veio por algum tempo diminuir a petulante intensidade da luta aberta por Francisco Benedito. Foi uma temporária falta de combustível à máquina da vingança, cuja pressão era regulada pelo ódio e pela impunidade.

Sebastião, o amigo predileto e obsequioso do agregado, tinha desaparecido da sua intimidade, deixando após si um rasto indelével, a desonra do lar do amigo.

Um dia a família de Francisco Benedito foi torturada por um acontecimento cruel. Chiquinha, que saíra a espairecer a sua enfermidade, passeando pelos aceiros das roças, não tinha voltado à casa.

Bateram-se todas as circunvizinhanças, mas debalde; a moça não apareceu.

A primeira idéia que assaltou o espírito do agregado foi a de ter sido vítima de uma cilada de seu compadre, que pelo aprisionamento de Chiquinha tentava impossibilitá-lo de continuar a vingar-se. Se tal hipótese procedesse era medida tão justa como a que antigamente tomavam as nações, exigindo reféns, para conter as invasões das outras.

As pesquisas do subdelegado e do inspetor provaram, porém, que semelhante suposição era mais um produto monstruoso da imaginação encandecida do agregado, e fizeram-no ver claramente a verdadeira causa da ausência de Chiquinha.

A moça tinha sido raptada pelo violeiro.

Em consciência, este desgosto tinha sido dado à família de Francisco Benedito mais por vontade da raptada do que pela do sedutor.

A tia Balbina advertiu a moça de que ela não poderia ficar nem mais um mês na casa paterna sem que o seu estado fosse conhecido por todos.

De feito, o próprio Francisco Benedito repetia por vezes o gracejo acerca da moléstia de sua filha:

— Era caso para perguntar-se quando era batizado, se o Sebastião já tivesse efetuado o recebo a vós.

E frase ainda mais significativa disse o inspetor André na noite da mudança para a casa nova.

Para testemunhar o seu júbilo pela entrada de Francisco Benedito no número dos pequenos proprietários da localidade, o inspetor não só compareceu à brincadeira, que foi preparada, mas também concorreu com uma leitoa.

Ao entregar o presente ao agregado, o dissimuladíssimo André disse através de sua galhofa maliciosa e perene:

— A minha brinquinho deu-me nada menos de uma dúzia de leitões dessa barrigada: dois deles são para esta casa; um cá está, o outro virá no dia que sá Chiquinha sabe.

Ainda a impressão destas palavras não se havia desfeito, ainda a insinuação impiedosa que tinha feito feria os brios de Chiquinha, e novo golpe, e este mais certeiro e profundo, foi desfechado pelo inspetor.

Acercando-se da moça, André segredou-lhe com a maior ingenuidade possível:

— Os nomes que mais assentam em crianças bonitas são Francisca e Manuel.

Não havia, pois, nenhuma dúvida para Chiquinha. Olhos demasiado curiosos e ânimos pessimistas já penetravam o seu segredo, e as palavras destacadas, e os epigramas aparentemente despretensiosos acabariam por despertar a atenção geral e perdê-la no conceito de seus pais.

Apegou-se, pois, a uma derradeira esperança: consultar a tia Balbina; mas da consulta resultou a certeza dolorosa de que não era possível iludir por muito tempo. Então, impelida pela vergonha, insistiu com Sebastião para abreviar o consórcio, e finalmente submeteu-se à única solução que o violeiro achava razoável — a fuga.

Certo da deslealdade do amigo, Francisco Benedito descortinou por alguns dias a série de males que o esperava, compreendeu que não tinha junto de si o apoio decidido e leal com que contava, e nem ousou vingar-se de Sebastião, nem a continuar com as provocações ao fazendeiro.

Sentia, tarde já, que a inimizade com o seu compadre punha-o inteiramente a descoberto dos insultos de toda sorte, ao passo que os seus amigos Oliveira e André adiavam sempre a punição deles.

Não tinha em quem confiar. O Viana tinha cortado completamente as relações consigo e sem que Francisco Benedito, por uma insignificância qualquer, lhe tivesse ofendido, perseguia-o pela dívida contraída na sua vendola.

Os seus amigos, autoridades do lugar, longe de promoverem a conciliação dos dois, tinham até concordado com o Viana que o melhor meio de cobrar a conta era obter penhora dos bens do agregado.

Além desta queixa uma outra veio esfriar a confiança entre os amigos.

Uma tarde Mariquinhas desceu para um ribeirão que serpeava algumas braças distantes da casa.

Antonica e sua mãe, sentadas no terreiro e ocupadas em costurar, ouviram o cantarolar monótono da moça, que tinha ido dobrar a roupa lavada.

De repente, a monodia esvaeceu-se e alguns minutos depois era substituída por gritos de socorro soluçados do lado do ribeirão.

Correndo apressadas para lá, Antonica e sua mãe receberam nos braços Mariquinhas, pálida de susto e ofegante de cansaço. O corpinho do seu vestido estava quase todo dilacerado e pelo pescoço da moça merejava o sangue, dentre arranhões extensos.

Quando Mariquinhas recuperou a calma e pôde falar, interrogada pelos seus insistentemente, respondeu, fundindo-se em pranto.

— Foi... foi ... um quilombola!

O irmão de Mariquinhas, assim como seu pai tinham corrido imediatamente atraídos pelos gritos, mas ao passo que Francisco Benedito correu para a frente da casa, Juca Benedito dirigira-se para os fundos.

Quando chegou à casa, o rapaz perguntou se não tinha estado aí o ex-feitor.

— Não! respondeu Antonica, admirada.

— Pois não se me dava jurar que eu vi Manuel João correndo para dentro da mata, e até lhe fiquei obrigado pelo serviço. Você não o viu por lá, Mariquinhas?

A moça meneou negativamente a cabeça, mas os seus soluços como que dobravam de força.

Convencido de que era o ex-feitor o autor dos ferimentos de sua filha, o agregado foi pedir providências ao seu amigo inspetor, mas este respondeu-lhe serenamente:

— Descanse, seu Chico; eu por ora não posso fazer nada; as eleições estão próximas e eu não hei de recrutar o rapaz que já me prometeu votar conosco. Em passando as eleições fale comigo.

O desengano era por demais expressivo e não havia contar com a punição do ex-feitor.

Todos esses acontecimentos que sobremaneira entristeciam o agregado tinham influência bem diversa no espírito de Antonica.

Firme na sua afeição pelo fazendeiro, cujo caráter nobre e generoso conhecia perfeitamente, cada uma das decepções que seu pai recebia cada ofensa que faziam-lhe os seus supostos amigos eram motivo de alegria para a moça que desta sorte via vingado o eleito dos seus sonhos.

As suas faces que tinham perdido a cor agradável da saúde, iam agora readquirindo-a, e os lábios, que pareciam ter desaprendido as crispações leves dos sorrisos joviais, já abriam-se agora, rubros como pétalas de rosa, para darem passagem a francas risadas.

Os olhos, amortecidos outrora, tinham presentemente o brilho peculiar da tranqüilidade e os olhares escarninhos e ousados que lhe eram congênitos.

Dava-se em Antonica uma verdadeira ressurreição: as cinzas tristes do coração da moça, as mortas quimeras da mocidade recompunham-se e afeiçoavam-se pelo divino galvanismo do amor.

Antonica era de novo feliz, porque não contava com a inconstância da fortuna.

A amizade do violeiro e do agregado não demorou a reatar-se por vínculos indissolúveis na vida. A necessidade recíproca era o nó que os prendia e desdá-lo era um perigo cujas conseqüências funestas já a experiência podia aquilatar.

A inatividade, em que Francisco Benedito jazeu durante o tempo da indisposição com o violeiro, provava exuberantemente o acerto da aliança, e por isso mesmo o pai de Chiquinha não duvidou aceitar as desculpas que lhe foram oferecidas pelo amigo.

Bem simples foram estas.

Sebastião confessou-se culpado de lesa-amizade, mas atenuando a sua culpa pela impossibilidade dê resistir à torrente das circunstâncias que o arrastou na sua onda vertiginosa.

Chiquinha padecia a olhos vistos: não tinha mais a frescura da mocidade, já no seu semblante não brilhava o plenilúnio da paz íntima que se esbatia em sorrisos descuidosos, em galanteios delicados.

Ao contrário: as lágrimas destruíam-lhe a pouco e pouco a graciosa carnação do corpo, e, como os depósitos sedimentares a contextura primitiva do mundo, alteravam-lhe a harmonia dos contornos, e a regularidade feérica das feições.

Semelhante ao pássaro cujas asas foram molhadas pela tempestade, e sem tentar um vôo queda tristemente pousado no galho seco de um pequeno arbusto; Chiquinha, sentindo as suas aspirações presentemente cercadas, conservava-se resignada no seu desconsolo.

Mas o pássaro entristecido lamenta-se em pios plangentes; assim também a moça desventurada carpia a sua desdita em flébeis suspiros.

Havia só dois caminhos para mim, acrescentou ainda o violeiro, ou abandonar a infeliz Chiquinha, o que seria a sua morte; ou adotar um meio qualquer para aviventar-lhe a esperança, até que seja possível efetuar o consórcio.

Prevenindo a objeção muito procedente: — ninguém na casa de Francisco Benedito impedia-lhe as visitas e familiaridades, o violeiro defendeu-se logo com a conversa que Lúcio Ribeiro disse-lhe ter ouvido a Faustino.

O resultado das explicações do atilado Sebastião foi não só o perdão, mas também o reconhecimento do agregado pela coragem com que o seu amigo se expunha aos golpes do fazendeiro.

— Já vê, seu Chico, as cousas como se passaram: eu mandei dizer a D. Maria o que fazia por cá a jóia do marido; ele já sabe que fui eu quem mandou escrever a carta; por força há de ter dado ordem, ou há de mandar dar ordem aos escravos para me fazerem uma espera. Livra-te dos ares que eu te livrarei dos males; foi o que eu pensei. Indo todos os dias à sua casa, seu Chico, era fácil uma escora e depois quem perdia a vida era eu, porque o diabo tem muito dinheiro para comprar a justiça.

— Não falemos mais nisso, Sebastião, decidiu Francisco Benedito; o que lá foi lá foi, tratemos do dia de amanhã.

O armistício involuntário que tinha sido concedido ao fazendeiro estava definitivamente findado pela volta de uma das potências beligerantes ao pacto de guerra.

Cumpre, entretanto, afirmar que as novas operações reduziram-se a simples escaramuças com o fim de arranjar provisões.

Um sério conflito, que evitou-se por uma felicidade quase milagrosa, acirrou os ódios e reacendeu o fogo dos cometimentos.

O feitor Fidélis acompanhara alguns dos seus parceiros ao mandiocal, para arrancar-lhe as raízes nutritivas. Aí encontrou o Juca Benedito provendo-se indevidamente; e este, longe de desculpar-se, continuou no seu furto sem dar a menor importância ao feitor.

— Olá, exclamou Fidélis, isto é então roupa de francês, ou casa de viúva?

O rapaz, sem responder palavra, e fingindo não ter visto os recém-chegados, nem mudou de posição. Todavia como tivesse arrancado um pé de mandioca, em vez de quebrar simplesmente o caule frágil, tirou da cintura uma larga faca de mato e com ela decepou as raízes. Em seguida tomou a rama do arbusto e a repetidos golpes partiu-a em pedacinhos. Feito isto passou a arrancar outro pé.

— Formiga quando quer se perder cria asas, resmungou Fidélis; e levantando logo a voz, bradou: oh! seu Juca, você errou o seu mandiocal, este é de meu senhor.

O mesmo silêncio provocador foi guardado pelo filho de Francisco Benedito.

Fidélis compreendeu que o desejo do rapaz era brigar, e, justamente ofendido na sua autoridade e qualidade de representante do proprietário lesado, rompeu por sua vez a provocação.

Chegando-se para mais perto de Juca Benedito, começou a atirar-lhe pequenas pedras a princípio e depois outras, que podiam perfeitamente ferir o intruso.

Oh! negro, gritou Juca Benedito, não me obrigues a fazer com que conheças o teu lugar! Olha que o subdelegado ainda tem bacalhaus em casa para quebrar a proa aos perrengues malcriados!

O feitor ouviu calmo a terrível ameaça, e por única resposta arremessou um projétil que foi cair junto a Juca Benedito.

— Eu vou mostrar-te se estou brincando ou falando sério, gritou este

Impelido pelo calor dos dezoito anos, o rapaz empunhando a larga faca deitou a correr para Fidélis, que o esperou serenamente.

Quando separavam apenas alguns passos o agressor e o agredido, este, levando ao rosto uma espingarda que tinha escondida por detrás de si gritou com acento escarninho.

— Arreda-te dai, filho de cobra, ou eu faço-te o braço em dois pedaços.

Acovardado pela perspectiva da morte que se lhe antolhava, o rapaz voltou costas, e abaixando-se para encobrir-se com a folhagem do mandiocal, desapareceu rapidamente.

Entretanto era dispensável tamanha rapidez. Quando o feitor levou a arma ao ombro, um pulso vigoroso havia prendido o cão da espingarda e assim impedira o tiro.

Tal movimento de prudência efetuou-o o preto Domingos, que acompanhava o feitor e que assistia às provocações com a fleuma natural que o caracterizava.

— Ora está aí a cousa, veio buscar lã e saiu tosquiado, disse Fidélis. Pai Domingos! vá buscar a mandioca arrancada pelo ladrão.

O preto obedeceu, mas de volta parou junto do feitor e disse-lhe com o tom de uma inabalável resolução:

— Fidélis, eu não quero mais vir trabalhar com você nestes lugares; você acaba dando trabalhos ao meu senhor.

— Vamos com histórias, pai Domingos, respondeu o feitor, faça o que se manda e dê ao diabo o que sabe.

O incidente, que acabamos de esboçar, foi o novo rastilho às explosões de ódio por parte do agregado, e os acintosos desmandos deste foram de novo levados ao conhecimento do fazendeiro, que em sucessivas cartas exprobava-lhe tais atos e concluía por um estribilho invariável:

Se o compadre não está bem no sítio, nada mais fácil do que abrir preço às suas benfeitorias. Assim evitaremos questões.

Nenhuma resposta era dada às judiciosas considerações e benévolos conselhos de Motta Coqueiro. Com referência aos negócios do sítio tinha por último sabido que Fidélis já se vira obrigado a apontar a sua espingarda contra o filho do agregado.

A gravidade de semelhante noticia decidiu Motta Coqueiro a passar alguns dias no sítio, para certificar-se da verdade dos acontecimentos que lhe eram comunicados.

A Sra. D. Maria acompanhou-o a esta viagem com o intuito de avigorar a energia do marido, quando a compaixão o viesse enfraquecer.

Chegando à noite e inesperadamente o fazendeiro não deu tempo a Francisco Benedito para prevenir-se porque no dia seguinte de manhã, antes que se soubesse da sua chegada, dirigiu-se logo à casa nova.

A Sra. D. Maria, que conhecia melhor do que seu marido o gênio traiçoeiro dos habitantes do interior, não permitiu que o fazendeiro fosse inerme e sozinho à entrevista com o seu compadre; fê-lo acompanhar por dois pretos de confiança e robustos: Domingos e Peregrino.

A presença de Motta Coqueiro na casa do agregado foi para este um choque de pavoroso sobressalto.

Tratou-se das benfeitorias e dos abusos, e o fazendeiro condenou severamente o procedimento desleal de Francisco Benedito, terminando por apresentar-lhe a única solução razoável.

— O compadre está mal acomodado aqui, desconfia de mim, e não pode dar-se bem com os escravos. Venda-me as benfeitorias, que lhe pagarei com vantagem, e mude-se. Eu ofereço-lhe já duzentos mil réis. Serve-lho o preço?

Humilhando-se miseravelmente Francisco Benedito apenas pediu tempo para pensar quanto ao preço, porque estava também deliberado a mudar-se. Bastavam-lhe somente dois dias de espera, no fim dos quais ele diria o que lhe convinha.

— Pois bem, compadre, respondeu o fazendeiro; ande com isso por bem para evitar a entrada da justiça neste negócio.

O agregado ouviu tudo submisso, mas logo que o fazendeiro saiu, mudou radicalmente de modos. Chamou sua mulher e pôs-se a blasonar com ela:

— Viste, mulher, já está manso como um cordeiro. Há de pagar-me bem o trabalho, se quiser que eu me mude. Agora vamos ver quem é que pode mais. Apronte-me a roupa, mulher, que eu vou entender-me com o subdelegado e o inspetor.

Daí há pouco Francisco Benedito saía de casa vestido com uma calça de ganga amarela e um paletó de riscadinho cor-de-rosa abotoado sobre uma camisa que o anil tomara cor de sanhaçu. De um maguá atravessado sobre o ombro, pendia-lhe o par de sapatos ingleses, cujo seio envaidava-se com o colorido azul desmaiado das meias.

Depois de alguns passos, voltou novamente à casa.

— Ó Juca, bradou ele, põe nova carga à espingarda e não arredes pé do terreiro.

Dirigindo-se depois à Mariquinhas, que viera com sua mãe espiá-lo à porta, sorriu mostrando os dentes escuros, e, estendendo a mão que a moça beijou, disse:

— Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a doentes. Eu não quero que você volte-me de novo arranhada para casa, e a cousa fique sem castigo.

De novo afastou-se da casa e andou cerca de dez braças; mas parando de chofre bradou sobressaltado:

— Ó mulher! onde está a Antonica? Não lhe pus hoje a vista em cima... Mande-a cá para lançar-lhe a bênção.

O velho havia parado junto de um touceira de bananeiras que abriam como um leque as suas folhas novas e inteiriças, ainda cobertas de um verniz de pérola devido ao rocio da manhã.

Saindo de trás da touceira, com voz trêmula e melancólica murmurou Antonica:

— Estou aqui, papai, a bênção!

— Então fez madrugada hoje? por onde andava?

— Eu fui lavar o rosto no ribeirão.

— Estás com cara de quem fugiu com medo do compadre; e deixa lá que tinhas razão.

Antonica abaixou os olhos silenciosa; e o velho pôs-se logo a caminho, levando a certeza de ter compreendido a razão do movimento dos olhos de Antonica.

Enganava-se. Ao ouvir a voz de Coqueiro, Antonica sentiu a alegria que é fácil imaginar; a alegria de rever o ente amado, que ausente mesmo ia-lhe a pouco e pouco absorvendo pela saudade toda a existência.

Quis primeiro vir à sala falar-lhe, mas refletiu a tempo que este expediente traí-la-ia.

Lembrou-se então das bananeiras; daí podia fitar ternamente o fazendeiro, nutrir-se à farta de sua imagem, com isenção, com avareza, sem temer que indiscreta curiosidade a viesse surpreender.

Tomando uma toalha, saiu pela porta lateral e foi colocar-se no lugar de onde foi tirada pelo chamado de seu pai.

Daí voltou para casa onde sentiu ir-se-lhe esvaecendo a alegria, ao passo que se lhe aumentava a melancolia.

Passaram os dois dias do prazo fixado por Francisco Benedito para a solução definitiva.

Mais de metade do dia 7 de dezembro de 1851 esperou Motta Coqueiro pela chegada de seu compadre para que se concordasse o preço da paz e da tranqüilidade de ambos.

Vã expectativa. Na véspera o agregado voltara à casa, após a consulta às autoridades locais, e declarou-se decidido a não ceder a sua posse e a não entrar em ajuste algum razoável.

A causa desta resolução deu-a ele à sua mulher, que, apesar de discordar, não resistiu-lhe.

— Bem me estava palpitando o coração, disse o agregado, assentando-se em um mocho da sala da entrada; aquele demônio o que quer é ferrar-me uma logradela, mas eu já não caio, e hei de ensinar-lhe o bom caminho.

— Duzentos mil réis valem a pena, seu Chico, e é melhor você pegar no trato e ficarmos descansados; advertiu a fleumática mulher.

— Você não entende de negócios, senhora; pergunte ali ao Sebastião se é logro ou não, e pense bem no caso.

O violeiro que, tendo chegado com Francisco Benedito, fora sentar-se a um canto da sala, respondeu com a sua natural vivacidade:

— Nem é preciso perguntar, isto está a entrar pelos olhos dentro. Só a casa pela madeira de que foi construída vale mais do que a oferta. Agora ajunte-lhe um cafezal de mais de quinhentos pés, roças de mandioca, milho, etc., e veja quanto o capitão deve pagar. Tolo será seu Chico se estiver pelo que o bicho quer.

— Mas o compadre não disse que os duzentos eram a sua última palavra, talvez dê mais uns trinta ou cinqüenta.

— Qual, mulher! se ele não escarrar quinhentos, ou ao menos, ao menos quatrocentos, não leva o meu suor. É rico, pode pagar; e há de pagar, exclamou o agregado.

À vista de tão descabida exigência a boa mulher sacudiu os ombros e retirou-se.

Eram horas de sossego e repouso; já havia muito que de envolta com o crepúsculo tinha cessado o gazear das aves, e que haviam acordado com as estrelas os zumbidos dos grilos importunos e da mosquitada impertinente.

Mora estes ruídos, o fraquíssimo silêncio, o religioso remanso da natureza, a solene afonia da noite.

— São horas de dormir, meu velho, disse o violeiro pouco depois que a mulher de Francisco Benedito se retirou. Precisamos acordar cedo; salvo se você já não está pelo que tratou comigo.

— Palavra é pedra, respondeu o agregado; o que ficou assentado, está assentado.

A sala ficou em absoluto silêncio.

De manhãzinha já Sebastião estava de pé, agitava-o uma impaciência febril. Abriu as janelas da sala, cantarolou, mediu a passos o recinto e afinal saiu para o terreiro.

Ai achou em breve com quem falar para espairecer a sofreguidão, e aproveitou o ensejo com a sua inata jovialidade, ironia e dissimulação.

— Fez madrugada hoje, sá Antonica?

— Tal qual como vosmecê, respondeu secamente a moça.

— Mas eu é porque tenho de fazer uma viagem grande e preciso adiantar.

— E eu porque sempre acordo a esta hora.

— Deve ser assim mesmo, sá Antonica; é para não desmentir o verso:

Quem tem amores não dorme,
Quem dorme não tem pensão.

— Seja o que vosmecê quiser; sabe mais da minha vida do que eu.

— Eu só lhe digo que se farte bem de vê-lo hoje; faça matalotagem para a sua saudade, porque amanhã... porque amanhã o sítio já há de estar vendido.

Uma risada prolongada acompanhou as últimas palavras do violeiro, enquanto que as faces de Antonica vestiam de uma lividez cadaverosa, que exagerava ainda mais a cor, os discos de ametista que serviam de pálpebras aos olhos tristes.

O violeiro tinha compreendido a justa causa da madrugada de Antonica; vinha com efeito beber com os olhares ternos o filtro da sedução que a assenhoreara e ao qual ela não ousava resistir.

— Veja se quer governar-me também, respondeu despeitada; e lembre-se que ainda vem a esta casa porque há homens que não merecem este nome. Não se satisfez com desgraçar uma das filhas do amigo, quer difamar a outra. Pode continuar.

Há uma força invencível sobre a terra, é a dignidade nas suas explosões sinceras. Antonica, por intermédio dela, pôde retirar-se, fazendo calar a mofa do violeiro.

Francisco Benedito veio daí a pouco tomar mais agradavelmente junto de Sebastião o lugar deixado pela moça.

— Então, já está pronto? perguntou o violeiro.

— Estou, mas devemos sair com horas diferentes, para não haver suspeita.

— E se ele vier primeiro?

— Qual; há de esperar que eu vá lá falar; o agregado é o mesmo que um escravo.

— Aonde então hei de ficar à sua espera?

Francisco Benedito meditou um pouco e depois respondeu vivamente:

— Nos taquaruçus; ali não pode falhar.

— E como esperar um veado no rio.

O violeiro não demorou muito; despediu-se da família e partiu.

Ao ver o seu gratuito apoquentador retirar-se, Antonica pôde enfim respirar.

Tal presença incomodava-a duplamente: nunca lhe perdoara o desgosto por ele causado à sua mãe pelo rapto de Chiquinha, e além disso seria testemunha da Sua perturbação, e um vigia a pôr-lhe obstáculos.

Rápido contentamento; maior contrariedade do que a presença do violeiro veio logo turvar-lhe a alegria que sentira ao despertar.

O seu egoísmo de amante regozijava-se com a exigência paterna, descomunal embora. E que via aí uma demora no ajuste e portanto maior espaço para contemplar o fazendeiro.

Mas estava marcado, talvez pelo destino, que para ela não haveria mais estabilidade; todo o sentimento grato devia esvaecer-lhe como um sonho.

Francisco Benedito, segurando o seu forte manguá, saiu depois de ter dito à mulher que ia dar a resposta ao compadre e que depois seguiria incontinenti a conciliar-se com o Viana.

A resolução do agregado foi uma punhalada cravada no coração de Antonica: frustrava-lhe a ocasião de ver o fazendeiro, e, perdida esta, quando se apresentaria outra?

Era mais de meio-dia quando Motta Coqueiro, cansado de esperar pelo agregado, resolveu ir procurá-lo para obter a decisão do negócio que tanto interessava ao seu bem-estar.

A Sra. D. Maria, sempre prevenida para com os sertanejos, queria que o seu esposo levasse em companhia dous escravos para defenderem-no de qualquer assalto, porventura planejado; mas o corajoso fazendeiro, referindo o que se tinha passado dous dias antes, os modos humildes, e a deliberação em que Francisco Benedito fingiu estar acerca da venda do sítio, negou-se a ouvir o conselho que se lhe dava e partiu só, cavalgando o seu fogoso e célere alazão.

Não obstante a resistência do marido, a cautelosa senhora não abandonou a sua prevenção, e pouco depois de Motta Coqueiro fez sair Carlos no seu encalço.

O moleque, obedecendo a meio a ordem recebida, seguiu a princípio a galope, porém logo depois na vagarosa marcha do animal, guiando-se pelas pegadas das patas do alazão.

Para atalhar caminho, o fazendeiro entrou pelo interior das suas roças, conduzido ora pelo galopar largo, ora pela andadura veloz e uniforme do seu corredor, distanciando-se assim cada vez mais do seu pajem.

Não tardou muito a achar-se diante da casa de Francisco Benedito, onde foi informado de que este saíra justamente para decidir a venda.

— Então não há tempo a perder, observou Motta Coqueiro; vou encontrar-me com ele em caminho.

Dando de rédeas ao valente alazão, tomou pela estrada geral, que apresentava o seu lombo vermelho no meio do capoeirão, como disforme coral estendida a fio comprido sobre um capinzal.

Quando ele sumiu-se na grande volta do caminho, Antonica veio encostar-se ao umbral, embebidos os olhares lamentosos na direção tomada pelo cavaleiro. Transluzia-lhe no semblante a eloqüência arrebatadora da saudade, e logo se lhe deslizou do coração aos lábios uma queixa, repassada de tristeza:

— Nem perguntou por mim: soluçou baixinho a sua voz comovida.

Parecia que as forças haviam-na abandonado, tornando-se-lhe impossível dar um só passo. É que a dominava um desfalecimento hipocondríaco, um desses espasmos morais que entorpecem os músculos e concentram todas as faculdades em um ponto único, semelhantemente a um abajur à luz de um foco enorme em superfície restrita.

De súbito, porém, eletrizada por um pressentimento, voltou-se para dentro perguntou à sua irmã:

— O capitão não disse se hoje falou já com papai?

— Não, respondeu Mariquinhas distraidamente, perguntou somente por ele.

— Meu Deus, meu Deus! eu sinto tanto medo, parece-me que vai acontecer alguma desgraça, murmurou Antonica.

— O que é que você está dizendo, mana?

— Ah! sim, gritou a infeliz; eu dizia que é mais certo que papai tenha ido primeiro visitar Chiquinha.

— Há de ser isto.

Antonica terminou o diálogo saindo apressada e cautelosamente, e quando já não podia ser vista correu incansavelmente até a margem do ribeirão atoladiço que espreguiçava o seu dorso limoso algumas braças distantes do fundo da casa.

Atravessou-o animosamente por sobre uma tora estreita que se lhe superpunha e, trepando pela margem oposta, resfolegou, para de novo correr por uma picada do capoeirão até à beira da estrada.

Pensava que, por maior velocidade que pudesse obter do seu invejável alazão, o fazendeiro não podia ainda ter passado por ali.

De feito a topografia do lugar fundamentava esta suposição. O vale, servindo de escoadouro a enormes brejais, obrigava a estrada a uma volta alongadíssima e extremamente caprichosa, acompanhando mais ou menos a fralda dos morros vizinhos.

Para bem figurar o traçado, imagine-se uma secção feita pela altura de um cone, cujo vértice era ocupado pela casa nova.

Quando chegou a estrada estava deserta.

Amedrontada por sua própria coragem, Antonica, ofegando de cansaço, não atreveu-se a ir adiante; ficou oculta entre os arbustos marginais da estrada.

Pendiam-lhe sobre ela, carregados de cachos vermelhos, os ramos de enorme aroeira; em torno e em cima estendia-se o silêncio do céu a transbordar de luz; da natureza asfixiada pela canícula.

Para distrair-se e disfarçar o temor, Antonica puxou um dos ramos pendentes e, cortando com os dentes um dos cachos de frutos, começou de arrancá-los repetindo baixinho, bem-me-quer, mal-me-quer.

O estrupido de um próximo galopar veio tirá-la prontamente da sua distração, precisamente no momento em que se despegava o último fruto, correspondendo a uma grata lisonja: bem-me-quer.

Impelida pelo coração, sentou-se à beira do caminho e, derribando os olhos, esperou por aquele a quem se sacrificaria sem escrúpulos.

De chofre o som do galopar extinguiu-se, e uma voz alegre fez ouvir.

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, sá Antonica.

Ainda Antonica não tinha voltado a si da profunda decepção, quando Carlos, que era quem a saudava, continuou:

— Senhor já passou por aqui?

Esta pergunta chamou Antonica ao triste pressentimento que a trouxera até ali, e acudiu de afogadilho:

— Vai, vai já, Carlos; um momento mais e talvez... vai, vai já.

O moleque, talvez recordando a cena a que tinha assistido na sala de jantar, não se deixava comunicar pela ansiedade da moça; ficou frio e perguntou em tom escarninho:

— Há onça pelo caminho ou algum boi bravo?

— Não, não há, mas pode haver coisa pior, muito pior; Carlos, uma emboscada e teu senhor morrerá.

Neste momento atroou, reproduzindo-se por longo tempo no eco, a detonação de um tiro.

Quem neste momento estivesse cerca de um quarto de légua de distância do lugar em que se achavam Antonica e o pajem, assistiria a uma cena da mais cruel desumanidade.

Sobre a estrada pouco espaçosa inclinavam-se, formando uma abóbada folhuda e virente, as ramificações e as pontas dos estípites de taquaruçus gigantescos.

Uma contínua escuridão entristecia o lugar, porque a estrada, estreitando e encurvando-se como um pescoço de cisne, fazia com que as árvores marginais quase entrelaçassem os galhos, improvisando uma espessa cobertura.

Os raios do sol apenas coavam-se, desenhando no solo um crivo de sombra e luz que, oscilando à mercê da viração, ora abria as grandes malhas lúcidas, ora adensava as largas manchas de sombra.

Aí, desde o amanhecer, estavam emboscados à espera do fazendeiro o agregado e o violeiro, para executarem um assalto conforme o plano traçado por este.

Era de feito o melhor lugar; não só a estrada estreitava-se, mas ainda fazia uma depressão, erguendo de um lado um alto barranco. O declive ia terminar num brejo que estendia o seu atoleiro até meio da estrada.

Qualquer transeunte era, portanto, obrigado a aproximar-se muito dos taquaruçus para não atufar-se no lodo.

Aquele que se emboscasse entre a enorme touceira das grandes taquaras podia sem perigo acometer sem temor de represália: defendia-o uma couraça tresdobrada.

Quando Motta Coqueiro, no largo e descuidado trote do seu alazão, ia costeando o meio da grande curva da estrada, Francisco Benedito desfechou-lhe a primeira paulada, que foi bater no ombro do fazendeiro.

O alazão estacou de súbito, e o seu dono tomou a atitude de defesa. Engatilhou rapidamente a pistola, e esperou com o sangue frio que lhe era peculiar.

O agregado apareceu então sobre a ribanceira.

— Mata-me, sedutor e ladrão da gente pobre; acaba assim a tua infâmia, não será primeira que tenhas feito.

— Ora, compadre, você nunca tomará juízo, homem? Vá para casa dormir que é do que você precisa. Eu perdôo-lhe por esta, mas a menor cousa que me conste eu lhe farei as contas. Passe bem.

Confiado na arma que empunhava, e ainda mais no seu possante alazão, Motta Coqueiro tentou seguir.

— Bêbado, não é? estou bêbado; esta é a resposta.

O manguá vibrado pelo agregado levantou-se sobre a cabeça do fazendeiro, que disparou a sua arma, ao mesmo tempo que esporeou o animal.

O manguá foi arrebatado pela bala das mãos de Francisco Benedito, mas ao mesmo tempo o alazão esticou-se em rápido arranco e Motta Coqueiro foi varejado em terra.

Um novo inimigo veio colocar-se-lhe em frente, e este, mais pujante e mais temível, era Sebastião Pereira.

Fora ele a causa da queda do fazendeiro.

Manejando um grosso cacete arrancou as rédeas da mão do cavaleiro, que foi inopinadamente arremessado pelo alazão.

Começou uma cena horrível; um homem inerme era forçado a defender-se contra dois outros que tinham a favor não só as armas, mas também a fria premeditação do crime.

— Eis-nos agora em frente, demônio, exclamou o violeiro; ou morres desta ou hás de guardar sinal para toda a vida. O fazendeiro não respondeu; todo o seu cuidado era defender-se para impedir a derrota inevitável.

Uma paulada, vibrada por Sebastião, lançou-o por terra afinal, inundado num lago de sangue.

Upa, upa ouviu-se neste momento, ao mesmo tempo que o estrépito de uma galopada.

— São os escravos do malvado; não há minuto a perder; fujamos, seu Chico.

Os dois miseráveis galgaram preste o barranco e internaram-se na mata, alados pelo temor do castigo.

De feito, não se haviam enganado.

Ouvido o tiro disparado por Motta Coqueiro, um grito desolador, arrancado pela paixão ao coração de Antonica, santificado pelo sofrimento, misturou-se à detonação, que transudava do seu roufenho arruir um pensamento de morte no espírito da moca.

A desventurada amante caiu de joelhos, e com voz quase sumida, murmurou:

— Meu pai matou seu capitão!

— Malvado, bradou o moleque, hei de matá-lo também.

Curvando-se sobre o cavalo esporeou-o e partiu à brida solta, gritando com o duplo fim de anunciar o próximo socorro e incitar o corredor na sua disparada.

Era uma tosca imitação do despeamento indomável do tártaro de Mazepa. Os arbustos, como que amedrontados, passavam semelhantes a relâmpagos por diante do cavaleiro, e o ar, vibrado violentamente, assoviava o cântico irônico da vertigem.

Atoleiros, pequenas pontes, tudo era passado de súbito. O chio e os cascos do animal formavam uma engrenagem invisível, rodando com o movimento do turbilhão.

Não era uma corrida, mas um vôo; as asas emprestavam-nas o temor e a dedicação.

— Upa, upa, bradava continuamente o cavaleiro; upa, valente!

Ao entrar na grande curva do caminho, empinando-se bruscamente sobre as patas traseiras, o corredor obstinou-se a não seguir e, tomando o freio entre os dentes, voltou na mesma desfilada.

Era impossível resistir-lhe; Carlos pulou resolutamente e correu.

A poucos passos do lugar em que o cavalo refugara, jazia Motta Coqueiro estendido sobre a estrada e banhado em sangue.

— Socorro! socorro! mataram o meu senhor, bradou Carlos dando de face com o corpo do fazendeiro.

Só o eco incumbiu-se de repetir-lhe, como por escárnio, as palavras cunhadas pela sua aflição, e quando o som da sua voz extinguia-se em sucessivos sussurros gradativamente esvaecidos, sobrevinha o profundo silêncio da mata, que exagerava a tristeza do quadro.

— Meu senhor, meu senhor! continuava o pajem; sou eu, Carlos, o seu escravo Carlos.

E o aflito rapaz apalpava e sacudia o desmaiado com uma impaciência febril.

— Ah! meu Deus; podem pensar que fui eu. Socorro!

A mão de Carlos colocou-se sobre o coração do fazendeiro.

— Está vivo; meu senhor! diga que não fui eu; diga a todos.

O infeliz pajem delirava e estafava os pulmões em gritos de socorro, disfarçando desta sorte principalmente o temor de ser considerado o assassino do seu senhor.

Alguém veio dentro em pouco tempo segundar os seus esforços para chamar o fazendeiro à vida.

Ofegante, com os olhos avermelhados e as mãos trêmulas, Antonica desceu correndo a pequena ladeira, e veio sentar-se junto dele, colocando sobre o seu colo a fronte ensangüentada do fazendeiro.

— Morto! os covardes mataram-no por minha causa, por mim que o amo.

— Não, não diga, o coração de meu senhor está batendo, veja.

Felizes aqueles que sabem amar: têm na própria desventura, nas horas da maior angústia, alegrias indizíveis. Para serem venturosos basta-lhes somente a esperança.

Antonica certificou-se de que ainda batia um coração sob o peito do eleito de sua alma, e depois fez os seus lábios testemunharem de que ainda por entre os lábios dele passava o sopro da vida. Nasceram-lhe espontaneamente os desvelos de mãe, e, solícita, tratou de prestar os primeiros Socorros. Coroou-lhe a felicidade os esforços; as pálpebras do fazendeiro venceram enfim o torpor que as paralisava.

— Está melhor, não é; já está melhor? sorriu a delicada amante.

— Covardes! murmurou o fazendeiro, e cerrou novamente as pálpebras.

A sofreguidão avassalou o ânimo de Antonica; não podia mais conter-se; queria convencer-se de que Motta Coqueiro não estava irremediavelmente ferido.

— Escute;. sou eu, Antonica; os malvados já se foram, estamos eu e Carlos. Tenha ânimo. Deus é grande; há de ficar bom.

As palavras da moça chamaram enfim o fazendeiro à realidade. Sentou-se cheio de espanto, e olhou ao redor de si.

Devia julgar-se no curso de um pesadelo, porque na verdade era incrível tão nobre dedicação na filha do ingrato que lhe pagava os benefícios recebidos com uma tentativa de assassinato.

Não menos para surpreender era a dor estampada no semblante de Carlos. O generoso escravo esquecia naquele momento que estava em face de um senhor, e chorava como um homem de bem a morte de um amigo.

— Antonica! exclamou ele, depois do primeiro espanto; pois é você, minha filha?

— Vim pedir o seu perdão para a maldade de meu pai; vim pedir-lhe que não me tenha ódio; eu não pude evitar, respondeu Antonica.

As lágrimas corriam-lhe em fios, e os soluços truncavam-lhe as palavras. Pairava-lhe sobre o semblante a solenidade de uma boa ação. O amor conquistava nesta hora um perdão que se podia crer impossível — o perdão do agregado.

— Por que havia eu de odiá-la, Antonica? Nem odeio a teu pai; são a embriaguez e a malvadeza de Sebastião os seus anjos maus; perdôo-o sim, porque tu és boa, és uma santa.

— Eu hei de estimá-lo ainda mais. Bom e santo é vosmecê; Deus há de pagar-lhe.

Uma efusão de ternura imaculada correspondeu às palavras de Antonica. O olhar do fazendeiro como que criava em tomo de si um mundo para os seus corações afinados ambos pela bondade.

Maquinalmente cingiu contra o peito a meiga filha do agregado e pagou com um beijo, roçado na sua fronte descorada, tanta coragem e amor.

Mas como se uma força misteriosa os repelisse, este abandono do amor não demorou-se; os lábios do fazendeiro retiraram-se e ao beijo sucedeu um estremecimento.

— É necessário que você parta, que volte para a casa de seus pais.

— Por quê?

— Porque ninguém acreditará que eu lhe voto o respeito de que você é digna, Antonica; hão de julgar-me seu amante.

— E que me importa a mim? não sairei daqui antes de vê-lo partir.

— É um comprometimento, minha filha, e bastaria que alguém aqui nos visse, para que seu pai justificasse o seu crime. Parte, parte já, minha filha.

O fazendeiro ordenou em seguida ao seu pajem que seguisse Antonica, e ela, sem forças para resistir, apenas protestou abaixando os olhos.

— Adeus! disse comovido o fazendeiro.

— Adeus! respondeu Antonica nessa triste entoação da condescendência queixosa, e levantou-se.

— Talvez não nos vejamos nunca mais, minha filha; quero que também me concedas um perdão; concedes?

Antonica acenou afirmativamente a cabeça.

— Perdoa-me o sofrimento de que eu tenho sido causa; perdoa-me, porque eu não faço mais do que cumprir com os deveres de honra para contigo e para com os meus.

— Eu já não me queixo, respondeu Antonica, é o meu destino. Adeus. Apenas alguns passos tinham sido dados pela moça, quando Carlos avisou a seu senhor de que se aproximava a gente do sitio.

— Tanto melhor, respondeu Motta Coqueiro, não ficarei sozinho. Com efeito, ouvia-se perto o tropel de uma cavalgada e antes que Antonica tivesse tido tempo de ocultar-se, Carlos exclamou cheio de espanto:

— É minha senhora, meu Deus, é minha senhora.

Na extremidade da curva apareceu, montada em um forte murzelo, a Sra. D. Maria. Os pés de Antonica negaram-se a caminhar; a aparição produzia-lhe o efeito de um espectro.

Apeando-se apressadamente a corajosa esposa, que adivinhara o acontecimento pela chegada do alazão, disparado e só, apertou nos seus braços o fazendeiro.

— Bem mo dizia o coração, soluçava ela; mas havemos de vingar-nos, seja embora necessário vender o meu último cordão de ouro. Covardes!

Houve um momento de silêncio. De repente a Sra. D. Maria, tendo olhado em volta de si, exclamou com a voz travorada de cólera:

— O que veio aqui fazer aquela mulher?

Motta Coqueiro respondeu severamente:

— Ouviu os gritos de socorro, e teve a coragem de vir.

— Então não foi ela a causa da emboscada! ...

— Não; é uma infeliz; culpada, não.