Motta Coqueiro/XIII

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Motta Coqueiro por José do Patrocínio
Capítulo XIII: A desafronta social


A notícia da condenação do fazendeiro voou ruidosamente, levando consigo a satisfação e a confiança às consciências dos crédulos adoradores da justiça humana.

Os nomes dos jurados eram repetidos por quase todos entre aplausos, congratulações e exageros tendentes a afearem ainda mais a reputação de Motta Coqueiro.

Nenhuma esperança restava pois ao infeliz, contra o qual a sociedade obstinava-se a fechar os olhos para não ver uma só atenuante, que ao menos ameigasse a monstruosidade da pena.

O cadafalso negrejava tremendo nas brumas do futuro, e era dia por dia arrastado pelos quatro esteios, e aproximado inexoravelmente das vistas do condenado.

Contrariedades e desgostos corriam ao seu encontro, como temerosa matilha de cães hidrôfobos, e atassalhavam-lhe com as presas envenenadas a propriedade e os brios.

Os credores e o fisco escancaravam as goelas enormes e não as fechavam sem terem engolido parte do trabalho do fazendeiro durante longos anos. Além disso o repetiam sempre estribilho hediondo da sua imaginária barbaridade contra a família do agregado.

Tinha sido de novo transportado para a corte, e assim ficavam-lhe sobremaneira dificultadas as suas relações, quer com sua esposa e filhos, quer com seus amigos.

Em troca dos carinhos e consolações que estes lhe ofereceriam, tinha apenas as palavras secas do carcereiro e os olhares repulsivos de todos que por acaso relanceavam-lhe o semblante.

O infortúnio havia por fim afugentado os camaradas que outrora o cercavam; afastaram-se todos, porque a convivência com os celerados é indicio de mau caráter.

Como os lázaros, nos passados tempos, eram postos fora das portas das cidades, o infeliz fora expulso de toda a sociedade.

Ficava-lhe do feliz e sorridente viver de quadra melhor apenas — a saudade, palheta encantada que esbatia rica de colorido, frescos comoventes, em que eram representadas as crianças descuidosas e prazenteiras, a esposa desvelada e tranqüila.

Mas repentinamente o quadro desaparecia como a brancura de um velino debaixo de um borrão, e o vulto negro e horripilante do cadafalso surgia dentre esses festivos sonhos como a careta de Quasímodo entre a alegria dos eleitores do Sumo Doido.

Então o desgraçado, com os cabelos arrepelados e o olhar flamejante, media silencioso o estreito recinto da prisão, e só parava quando, extenuado, caía sobre o leito afogado em soluços e em lágrimas.

Vejam como o remorso tortura aquele malvado, dizia o carcereiro ao vê-lo baqueado nessa dor profunda. Afinal de contas não lhe valeu ter dinheiro; não se pôde livrar da forca, nem pôde fazer calar a consciência.

E os que faziam na prisão a aprendizagem da dureza do coração e do cinismo riam desafogadamente escárnios pungentes à santidade daquele sofrimento.

Fora da prisão reinava a inexorabilidade, e mais ainda a torpeza. Uma das influências de Macaé, muito empenhada em ver perdido irremediavelmente o desventurado réu, planejou uma cena, cujo efeito demonstraria ainda aos mais aferrados defensores a culpabilidade de Motta Coqueiro.

Restava da família de Francisco Benedito uma única filha, a qual diziam ser casada com uma das testemunhas do processo, Sebastião Correia Batista, conhecido em Macabu por Sebastião Pereira.

A solícita influência resolveu mandar vir para Macaé a moça, cuja presença confundiria infalivelmente o malvado, que persistia em mostrar-se aparentemente tão sereno, que muitos já o consideravam vítima.

Aproximando-se a segunda sessão do júri a que deviam responder os réus mais odiados que têm aparecido em tribunais brasileiros, a zelosa influência apressou-se em realizar os seus desejos.

Chegou enfim o dia da sessão, e os réus compareceram para ainda uma vez afrontar a odiosidade popular, a retórica da promotoria, e a sensibilidade dos jurados,

Os espectadores, alegres por não verem na tribuna da defesa o advogado que na primeira sessão tinha-os ameaçado com um profundíssimo despeito manifestaram francamente os sentimentos contra Motta Coqueiro em um passageiro incidente.

Os julgamentos do fazendeiro e do escravo Domingos foram separados do julgamento dos outros dois réus.

— Faze lá o que quiseres, matreiro, sorriam os desalmados; já não há quem, possa tirar-te a corda do pescoço; estás ai, e estás a dançar sob as unhas do carrasco.

— O diabo é que ele assim demora a confirmação da sentença dos outros. Eu se fosse juiz não consentia que se rompesse a cambulhada; mataram juntos, deviam ser condenados juntos.

Quando começou o interrogatório de Motta Coqueiro, houve um grande sussurro, que não cedeu nem ao toque da campainha presidencial.

— Está aí embaixo; eu estou vendo daqui; deve ser ela.

Diversos espectadores mais sôfregos levantaram-se apressadamente dirigindo-se à escada, e outros debruçaram-se às janelas do edifício, prolongando assim o sussurro.

— Ora, bem parecia-me que não era, exclamou-se afinal; a filha do pobre assassinado não tem meios para vir aqui.

— Por isso não, porque o Dr..... mandou-a buscar.

Afinal o ruído dissipou-se e a voz de Motta Coqueiro, trêmula de comoção, pôde ser distintamente ouvida.

Depois de expor as suas relações com Francisco Benedito durante quatro anos, desde a sua chegada no sítio e moradia na casa próxima à em que residia a sua família, até o espancamento que lhe foi feito pelo agregado; exposta a marcha do processo, o procedimento de Licério e a indisposição de Lúcio Ribeiro e Manuel João; Motta Coqueiro declarou que tinha grande parte de Macabu por sua inimiga, mas que não sabe a quem atribuir o assassinato da família do seu agregado; seria fazer juízos temerários.

A voz fortaleceu-se então e adquiriu timbre que encarnava em si a maldição e ao mesmo tempo a resignação.

— Quanto à imputação que me fazem de semelhante crime, eu, perante o Sr. juiz e os Srs. jurados, perante Deus e o povo, declaro que estou inocente: tal não mandei fazer!

Prolongada hilaridade nas galerias recebeu este brado da consciência flagelada do fazendeiro, que ouvindo a gargalhada alvar dos insensatos, caiu como que fulminado sobre o escabelo infamante.

O infeliz Domingos nem podia ao menos ligar os fatos para expô-los; limitou-se a responder às perguntas da perspicácia doentia do magistrado, e concluiu por afirmar com a maior sinceridade: eu não fiz crime!

O conselho retirou-se para a sala secreta, mas desta vez a sua demora já não abria horizonte aos alvores da esperança no coração de Motta Coqueiro, estortegado pela cruel certeza de que seria novamente condenado.

O sol do dia vinte e oito de março de 1853 descambava triste para o ocidente, e para ele como para um caráter nobre e leal estava perto o ocaso; a região das sombras e dos mistérios.

A expectativa dos assistentes, posta por muito tempo a mal sofridos tratos, foi enfim satisfeita: os jurados apresentaram-se com a desejada resposta aos quesitos.

Confirmaram por unanimidade que o réu Manuel da Motta Coqueiro tinha mandado matar Francisco Benedito, sua mulher e seus filhos, alguns dos quais menores de sete anos.

Por oito votos reconheciam as circunstâncias agravantes de lugar ermo à noite, e tentativa de incêndio; por unanimidade as agravantes: motivo frívolo ou reprovado, premeditação, entrada na casa do ofendido, e ajuste com os executores da matança.

Aos quesitos formulados acerca do réu Domingos, respondeu o mesmo conselho confirmando por sete votos que o réu tinha morto a família de Francisco Benedito; por nove reconhecendo as circunstâncias agravantes de lugar ermo e de noite, tentativa de incêndio, motivo reprovado ou frívolo; por dez, a agravante de ter entrado na casa do ofendido com o fim de matá-lo; por sete a circunstância de premeditação; por oito negando atenuantes a favor do réu, que não foi violentado por força irresistível, nem medo.

O magistrado que presidia a sessão deu então a sentença marcada pelo código — a pena de morte; e apelou desta decisão.

— Ai! resmungou o desgraçado Domingos, os brancos são cegos; não querem ver a verdade!

Motta Coqueiro, com a cabeça pendida e sem poder conter as lágrimas, ouviu silencioso o veredicto tremendo que o perdia para sempre.

De feito que palavras poderiam encarnar em si a amargura de um espírito que, certo da sua inocência, não tinha forças para impedir que a sociedade, em nome da justiça, lhe extorquisse tudo quanto mais prezava, a honra, a família e a vida?!

O que havia ele de dizer a uma sociedade que execra a memória dos bárbaros porque destruíram os monumentos da arte antiga, e no entanto julga-se com o direito de destruir o seu semelhante, o monumento sagrado da natureza?

Que palavras merecia uma sociedade que exara nos seus códigos como circunstância agravante a superioridade de forças do ofensor sobre o ofendido, e que no entanto aponta mil espingardas contra o peito do réu, algema-o, ata-lhe ao pescoço um baraço, e fá-lo subir ao cadafalso?

Há dores para as quais não há manifestação possível; o coração humano limita-se apenas a senti-las, quando não é por ela espedaçado.

Entre os agentes da força pública os dois réus saíram do tribunal, e com eles os espectadores, magistrado e jurados.

A solidão sentou-se então no meio da grande sala ainda há pouco povoada e estrondante de maldições. Havia ai a solenidade das ruínas dos grandes templos da antigüidade, e na verdade acabava-se de esboroar um templo de sentimentos tranqüilos, erguido por um caráter de têmpera.

À porta do edifício um homem, com os braços cruzados sobre o peito, os olhos fixos no solo, permaneceu imóvel enquanto a multidão desfilava.

Este homem tinha feito parte do conselho que acabava de condenar á infâmia e á morte um dos chefes políticos de Campos, conhecido outrora pela sua severidade e vida imaculada.

Dir-se-ia que era uma estátua, ou uma aparição sobrenatural, tal era a palidez de seu rosto, a expressão tristíssima do seu olhar.

E a multidão, distendendo-se, dividindo-se, rareou e sumiu-se ao longe, nas ruas e praças, e o homem sempre imóvel conservava-se como alheado do que se passava em torno de si.

Um transeunte aproximou-se-lhe e disse-lhe jovialmente:

— Ora muito bem; tomei um ótimo logro, saí correndo de' casa para ouvir a decisão do júri e no entanto acho tudo concluído. Felizmente para mim encontro ainda o Sr. Seberg, que pode dar-me a notícia que desejo. O senhor não fez parte do conselho'?

Seberg não respondeu, nem mudou de atitude, pelo que o recém-chegado bateu-lhe de leve no ombro, e perguntou precipitadamente:

— Dar-se-á o caso que absolvessem aquela fera'?

— Não senhor; foi condenado á morte, respondeu Seberg tristemente. Ah! exclamou o recém-chegado; eu logo vi que não havia nada a temer de um júri em que entrassem como juizes de fato homens iguais ao Sr. Seberg.

— Diga antes que não há que fiar em tribunais onde entram para julgar homens que nem ao menos conhecem os processos.

— Está me parecendo que houve algum jurado que tentou fazer tramóia. Vejo-o tão incomodado...

— Desculpe-me. acudiu Seberg bruscamente; desculpe-me; tenho necessidade de falar já e já a um amigo.

E o nobre Sr. Seberg tomou. quase a correr, a direção pela qual seguiram a multidão e os réus, enquanto que o recém-chegado, perplexo, acompanhava-o com os olhos.

Alguns minutos depois o jurado entrava pela cadeia de Macaé. pedindo permissão para falar a Motta Coqueiro.

A luz do candeeiro fuliginoso que ardia no corredor da cadeia guiou Seberg até á prisão do fazendeiro. que, de pé com os braços apoiados na grade e a cabeça deitada sobre eles, amargava em silêncio o seu lamentável destino.

— Perdoe-me, perdoe-me; exclamou Seberg abraçando por entre a grade o condenado; reconheça-me pára perdoar um dos seus algozes.

Os soluços de ambos embargaram-lhes por largo tempo a voz. mas finalmente Motta Coqueiro, fazendo um grande esforço. pôde dirigir-se ao seu inesperado visitante

— Os Srs. cumpriram o seu dever, não lhes quero mal por isso. Perdôo mesmo aos que me perderam, mas o que eu não posso explicar é a razão por que foi condenado o meu pobre escravo, o infeliz Domingos. Eu tinha inimigos, mas ele... o desgraçado!...

— Não perca a esperança, exclamou Seberg; tudo ainda não está perdido. O que nossa exaltação impediu-nos de ver até hoje, talvez o tribunal superior possa descobrir. Tenha fé em Deus, meu amigo, resigne-se e espere.

O fazendeiro meneou a cabeça. Era a muda confissão do desânimo, respondendo à consolação da amizade.

Seberg abraçou pela última vez o desventurado e afastou-se dirigindo-se para a saída da cadeia, onde parou de chofre. Uma mulher coberta com um véu, e acompanhada por dois homens, entrava neste momento.

Quando estas três pessoas passaram, Seberg exclamou tristemente Pobre família; que desgosto e que vergonha!

As três pessoas que entraram atravessaram uma pequena sala, e, guiadas pelo carcereiro, foram tomar o lugar havia pouco deixado pelo Sr. Seberg.

O condenado, pertransido pela sua agonia, não percebeu que junto de si olhos curiosos espiavam-no, e nem ouviu o que se dizia a seu respeito.

Afinal um dos recém-chegados tomou a palavra:

O Sr. Coqueiro dá licença que lhe apresentemos uma pessoa que o veio visitar?

— Oh! meu senhor, respondeu o sentenciado, hoje uma visita é a prova mais sincera de amizade, que me pode ser dada. Eu sou tão odiado!

O homem que falou acercou-se então da mulher e levantou-lhe o véu.

— Minha senhora, exclamou Coqueiro; eu lhe agradeço muito a sua compaixão. Hei de ensinar a meus filhos a repetirem o seu nome.

— E não será muito difícil que eles o decorem; é a Sra. D. Chiquinha, filha de Francisco Benedito.

O efeito dramático produzido por estas palavras confundiu profundamente no primeiro lance ao inclemente recém-chegado. Esperava talvez ver o fazendeiro recuar espavorido diante da mulher, cujo nome e feições recordavam-lhe as vítimas que a maioria do povo julgava terem sido por ele barbaramente sacrificadas.

Os movimentos do sentenciado contrastaram, porém, com a expectativa do desumano preparador desta cena, tanto mais cruel quanto era já irremediável a perdição de um ator.

Estendendo os braços por entre a grade e buscando abraçar a moça que se esquivava, disse Motta Coqueiro:

Pobre Chiquinha, eu imagino o golpe que feriu-te o coração; pai, mãe, irmãos, todos os que eram mais caros a tua alma. Podes bem avaliar o que são as grandes desgraças; e ter piedade da minha sorte. Também a mim, Chiquinha, roubam-me os que mais estimo; a diferença é que para você há a piedade geral, e para mim o ódio ou o desprezo.

— Sr. Coqueiro, exclamou o recém-chegado, que tinha conseguido já dissipar a primeira impressão; eu nunca pensei que tivesse de assistir a semelhante esforço de dissimulação; quem tem o coração tão frio podia assassinar o mundo inteiro.

A nobreza do fazendeiro tornou-o invulnerável ao insulto venenoso, que lhe era dirigido pelo brutal visitante; a consciência abroquelou-se-lhe com a dignidade, e o desgraçado respondeu resignadamente.

— Era, pois, mais uma tortura que me haviam preparado. Viram, porém, que eu não tremi; tão grande é a frieza do meu coração.

Cambaleando e soluçando o fazendeiro retirou-se para o fundo da prisão, deixando por algum tempo imóveis os indignos que conspiravam contra a sua paciência.

Despeitado pelo malogro do seu plano, o cruel visitante convidou aos seus companheiros para saírem, e só quando fora, ouvindo os soluços mal contidos de Chiquinha, teve coragem de falar:

— Malvado, mil vezes malvado; mil vidas que lhe fossem tiradas não desafrontariam a sociedade. É uma fera.

— Não diga, não diga, seu doutor; ninguém viu as mortes, exclamou Chiquinha, e eu não posso acreditar.

— Generoso coração, disse o doutor; como devia ser honrado O seu infeliz pai para educar uma filha tão piedosa!

Após o grupo saiu o Sr. Seberg, que, só na volta, pôde conhecer uma das pessoas que dele faziam parte.

A aflição do nobre espírito de Seberg crescia à medida que se passavam as horas; como que um remorso esmagador, insopitável, polvo invisível que lhe aplicava sobre o coração as suas insaciáveis ventosas, ia-lhe aos poucos haurindo a vida.

— É impossível, dizia ele alta noite, passeando de um lado para outro da sala de jantar da casa em que morava; é impossível; se houvesse a isenção de ânimo exigida pela lei não ter-se-ia dado semelhante escândalo. Meu Deus, meu Deus, fazei com que se elucide a verdade.

Mais tarde acrescentou ainda:

— Oh como fui cruel, meu Deus! aqueles infelizes são inocentes.

No dia seguinte, pela manhã, Seberg saiu para despedir-se de Motta Coqueiro que devia partir para a corte.

Com grande admiração de todos foi ele visto na praia, meditativo e com os olhos rasos de lágrimas, acompanhando o bote, em que Motta Coqueiro e seu escravo se dirigiam para bordo do vapor ancorado ao longe.

— É um homem incompreensível este Sr. Seberg, diziam, condenou Motta Coqueiro, e no entanto chora agora talvez ter tido coragem de proceder assim.

Quando o bote sumiu-se; quando já não podia acompanhar com a vista o infeliz condenado, Seberg seguindo vagarosamente pela pitoresca rua de Macaé, que descerra as janelas da sua casaria olhando para a vastidão do mar; entrou finalmente numa farmácia e perguntou pelo seu proprietário.

Um homem de atraentes feições, agradável timbre de voz; saiu de um gabinete lateral e estendendo a mão a Seberg disse-lhe jovialmente.

— Por Deus, Sr. Seberg; tanta cerimônia fez-me pensar que procurava-me um desconhecido.

— Não me admiro que assim pensasse, respondeu Seberg, eu sou o primeiro a desconhecer-me. Preciso falar-lhe muito a sós.

O Sr. Apolinário Pacheco, substituto de juiz municipal de Macaé, e que era a pessoa que falava a Seberg, apontou para o gabinete.

— Aqui podemos estar à vontade; o meu caixeiro tem a particularidade de não ouvir o que eu quero que ele não ouça, e além disso ficamos retirados.

Sentaram-se um em frente do outro tendo de permeio uma pequena mesa redonda, e Seberg, apoiando sobre a mesa os cotovelos, movimento que foi logo seguido pelo Sr. Apolinário, disse com solene gravidade.

— Venho confiar à sua honra a solução de uma séria questão de consciência, para a qual invoco também os seus serviços de magistrado.

— Oh! Sr. Seberg, pode contar desde já com a minha dedicação, e ouso prometê-la porque sei com quem falo.

— Ontem, como sabe, foi o julgamento de Motta Coqueiro e do preto Domingos, e eu fiz parte do conselho que os condenou.

— Pobre homem! fui eu quem sustentou a sua pronúncia e entretanto faço hoje a seu respeito juízo bem diverso do que então fazia.

— Queira ouvir-me, e reflita sobre o que vou contar-lhe. Ontem depois de recolhido o conselho de jurados à sala secreta e efetuada a votação dos quesitos acerca de Motta Coqueiro, percebi que não havia no conselho aquela imparcialidade que era de esperar em assunto de tão grande alcance.

Passando-se a votar o primeiro quesito relativo ao preto Domingos, certifiquei-me do meu juízo, e, ainda mais, fui obrigado a assistir a um grande escândalo.

Procedendo-se à contagem das cédulas o secretário do conselho contou treze, e como era natural reclamei, e pedi verificação. Nova contagem do secretário chegou ao mesmo número. Pedi então que se procedesse a nova votação e fui acompanhado por mais cinco jurados, porém o presidente entendeu melhor proceder por si mesmo a contagem e cousa singular apareceram apenas doze cédulas.

Lidos os votos encontram-se sete cédulas reconhecendo o crime e cinco apenas negando-o.

Com grande pasmo certifiquei-me de que os cincos jurados tinham negado o crime, e eu com eles.

— Mas isto é uma iniqüidade; é preciso arrancar a máscara a esse homem que tão baixamente abusou da sua posição.

— Eu não quero fazer juízos temerários, porém, entendo que este fato deve ser já verificado, para descanso da consciência de todos.

— Mas não há dúvida meu amigo; havia com efeito treze cédulas e uma delas que dizia não foi escamoteada pelo presidente, que depositou na urna duas cédulas afirmando o crime. Oh! havemos de sabê-lo, eu lho juro; o Sr. invocou a minha honra de magistrado, eu comprometo-a.

O Sr. Seberg saiu revelando no semblante o alívio intimo que experimentava, e o Sr. Apólinário sentando-se logo à escrivaninha oficiou ao juiz de direito, narrando a comunicação que acabava de lhe ser feita.

Infelizmente a questão, que parecia fácil de ser dirimida, morreu abafada nas pastas do juízo municipal.

Uma grave enfermidade obrigou o digno substituto a p assar a vara a outro magistrado, e este, oficiado pela autoridade superior para continuar nas pesquisas a respeito, discutiu o assunto e deu-o por esgotado, sem inquérito.

Na tarde do dia em que Seberg deu o honroso passo a favor de Domingos, foram condenados também à morte Faustino Pereira da Silva e Florentino, e todos os réus enviados para as prisões da capital.

Usando do recurso ordinário que lhes restava, o tribunal da relação não se dignou atendê-los, negando-se a conhecer das apelações por não ser caso delas.

Este despacho está também na apelação do réu Domingos, em que foram reconhecidas circunstâncias agravantes por número de votos superior ao que confirmava o crime!

A desilusão do fazendeiro tinha chegado ao auge; não lhe era mais permitido uma única esperança, porque sabia bem que o poder moderador não atenderia à sua súplica.

Acresce que para agravar ainda mais o suplício moral dos condenados o processo seguia com dolorosa morosidade, e só após dois anos de espera veio o golpe final.

Domingos, intimado a fazer petição de graça, não a fez no prazo de oito dias conforme a lei, e portanto estava irremediavelmente condenado.

Pobre escravo! como poderia ele compreender, ouvindo a intimação do escrivão, que uma demora custar-lhe-ia a vida?

No dia 23 de junho de 1855, o cortejo fúnebre da justiça recreava a expectação geral da cidade de Macaé.

Um dos réus do bárbaro assassinato da família de Francisco Benedito ia subir à forca.

A vitima chorava e caminhava quase arrastada pelo carrasco e a população comentava desapiedadamente este horror da morte.

— Olha o negro, dizia-se; pensava que o dinheiro do senhor havia de livrá-lo, e por isso não chorou quando matou a pobre família. Agora é que lhe correm as lágrimas.

— Sabes? ouvi ainda há pouco e de pessoa muito séria uma cousa que está impressionando-me.

— Então conta já essa novidade.

— Dizem que o Domingos ao sair da cadeia disse para o padre que, se ele não é inocente, a corda não rebentará, mas se ele é inocente a corda há de arrebentar.

Este boato circulou, cresceu e dominou logo todos os espectadores e na praça do Rossio, onde se erguia a forca, os lugares eram disputados com tanto interesse que muitas vezes houve emprego de violência.

Chegou a desejada hora da execução. A ansiedade popular era febril e todos intimamente receavam assistir ao milagre profetizado pelo escravo.

A irmandade da Misericórdia colocou-se sob a forca em posição de ir em auxílio do condenado, caso fosse protegido pela fortuna, e o carrasco ao Som do credo, rezado pela multidão, subiu ao seu posto.

A escada foi logo retirada, o desventurado ficou suspenso pelo baraço, mas o seu corpo, impelido pelo carrasco, pouco tempo oscilou e foi logo cair no solo.

A confusão foi imensa, todos corriam, impeliam-se, encontroavam-se freneticamente:

— Está salvo, está salvo, este era inocente.

A aglomeração não permitia que todos se pudessem aproximar do sentenciado, e dentro em pouco tempo a desconsolação pintava-se em todos os semblantes.

Falou-se a princípio em segredo, e com imensa precaução; em seguida as vozes foram elevando-se, elevando-se e ouviam-se em todos os grupos discussões calorosas.

— É muito boa, dizia o Sr. Luís de Sousa, caiu morto e muito bem morto.

— Não está má a capa; todos nós vimos a corda arrebentar. O pobre Domingos! bem dizia ele que era inocente.

— Arrebentasse, ou não arrebentasse, a verdade é que ele caiu já morto.

— Ora valha-0 Deus, Sr. Luís de Sousa, mais de cem pessoas estão prontas a jurar que Domingos caiu vivo, e que o carrasco pôs-lhe terra à boca para asfixiá-lo.

— É falso.

— Não é tal, exclamou um novo interlocutor; eu vi com esses dois olhos que a terra há de comer. Barbaridade sem nome!

Nada, porém, é mais fácil do que asserenar a indignação do povo, o eterno leviano que aplaude ou insulta, vitoria ou calunia conforme os boatos e as intrigas, que o impressionam.

Através da versão da seva asfixiação de Domingos pela ferocidade do carrasco, surgiu uma evasiva.

— Então o que queriam que fizessem com um celerado como o assassino que morreu; que perdoassem e surtisse efeito a maquinação do senhor?

— Quais histórias! Domingos profetizou o acontecimento.

— Eu também profetizava se tivesse um senhor que tivesse dinheiro e amigos na Misericórdia, que é donde vêm as cordas para os enforcados. Com dinheiro e amigos tudo se arranja: até milagres.

O povo julgou razoável esta explicação, e quando se retirou da praça levava mais satisfação do que pesar.

O cadáver de Domingos foi entregue à polícia para ser sepultado, e os autos passados no mesmo dia ao Dr. Velho da Silva, juiz municipal, que os fez conclusos no dia cinco de julho ao juiz de direito.

A sociedade começava a indenizar a sua dívida com a família de Francisco Benedito.

A cova aberta para o justiçado Domingos tinha dimensões para quatro cadáveres, e conservava-se hiante à espera de ser aterrada com destroços humanos.

A justiça, um mês depois da execução do escravo, meteu mãos ao resto da obra da desafronta pública e os três outros réus foram notificados da sua morte próxima.

Para Florentino e Faustino esse golpe nada teve de descomunal; havia longos meses que, afazendo-se à atrocidade do seu destino, esperavam todos os dias ouvir o ranger das portas do calabouço e logo depois a intimação para seguirem até o lugar em que deviam ser supliciados.

Florentino, perdido no dédalo de conjeturas limitadas a que podia chegar o seu raciocínio pouco esclarecido, acabava por fundir em lágrimas o seu desespero e, sem consolar-se, calava-se e ficava silencioso a contemplar a perspectiva do seu fadário.

Faustino concretizava no coração revoltado as exalações da sua indignação, e rompendo bruscamente o silêncio, extenuava-se em cobrir de baldões a terra e de blasfêmias o céu.

Para o desventurado fazendeiro o futuro era mais ameaçador e o presente mais cheio de torturas. O presente representava-lhe o abandono em que vegetava, sugando a existência das angústias e do desconsolo, como a planta enfezada a seiva de um terreno maninho; no futuro antolhava-se-lhe o abandono três vezes mais cruel em que ficaria a sua família.

Quando, em uma tranqüila manhã de agosto, foi-lhe dada a notícia de que embarcaria brevemente para Macaé, a fim de submeter-se à pena que lhe fora imposta pelo júri, o desventurado sentiu fraquear-lhe a coragem que até então mantivera-lhe o sigilo sobre o nome do suposto culpado do morticínio.

Se se pode traçar paralelo a semelhante sofrimento, era como o do Cristo diante do cálix de amargura na tremenda noite do Horto.

Ambos, porém, acabaram pela resignação, e tiveram a serenidade heróica de encarar, caminhar e subir ao patíbulo, dando de esmola à atroz perseguição o perdão sincero dos seus espíritos calmos.

Para desafogo do seu tormento Motta Coqueiro escreveu à sua família, noticiando-lhe o horroroso desfecho da sua vida de probidade e de respeito aos seus semelhantes. Depois de escrever correram-lhe as tardas lágrimas que deslizam das consciências imaculadas e deixou-se avassalar pela horripilante catadura do túmulo.

Igual serenidade não foi, porém, partilhada pelo dedicado enteado, para quem a iniqüidade da sentença era um grito de alarma aos justos sentimentos.

Demais, vira nos escuros horizontes de sua família uma esperança consoladora. Como fecunda nebulosa apareceu nas trevas do seu viver uma petição das senhoras campistas a favor do sentenciado, e era de esperar que o poder moderador atendesse a tão espontânea manifestação popular.

De repente a miragem da salvação despenhou-se e atufou-se no lodo da enxovia, em que a justiça prendia para enlamear o infeliz sentenciado, e em vez da esperança apareceu como um espectro a crua realidade.

O coletor abriu trêmulo de comoção a carta que lhe era dirigida por seu padrasto, cuja letra fora trocada por uns sinais difíceis de serem entendidos.

Leu-a a primeira vez e não convenceu-se de que tinha-a lido; releu-a, portanto, mas desta vez em presença de sua mãe.

"Tudo está acabado; não há mais possibilidade de fugir às mãos do carrasco; as minhas súplicas como que afeiam ainda mais a acusação que me fizeram, e tornam mais inexoráveis os meus juizes.
Dize a tua mãe que se resigne â sorte que me foi prescrita e console-se; aos meus filhos repete-lhes que, na hora em que não havia mais uma esperança de salvação para si, o seu pai dizia sempre que matavam-no por um crime que não cometeu. Para impedir-lhes a suspeita, pondera-lhes que não é fácil mentir-se diante da morte.
Nunca, nunca digas-lhes a parte involuntária que tua mãe teve na minha perdição e no destroço daquela família. A minha desgraça deve santificar este pedido.
Quero igualmente que me façam uma derradeira vontade: desde o dia quinze de agosto até o fim do mês mandem sempre celebrar missas por minha alma; que seja ao menos permitido ao sentenciado pensar na paz além-túmulo.
Adeus, meu bom amigo; abençoa por mim os meus infelizes filhos e abraça a tua mãe; adeus, até à eternidade!"

A Sra. D. Maria, a quem os desgostos tinham depauperado extraordinariamente, ouviu imóvel a leitura compungente e fatal; a dor resignada, que de contínuo a trucidava, como que lhe havia anestesiado o coração e ela parecia já insensível a novos golpes.

Entendendo mal o estado de sua mãe, o coletor perguntou-lhe, machucando entre as mãos o papel:

— E a senhora o que diz a isto?

— O que hei de dizer, meu filho: se a minha voz não tem forças para desviar o golpe que nos deve ferir?

— Senhora, senhora, esta resposta é uma infâmia.

— Meu Deus, soluçou a aflita esposa, não quis eu por tantas vezes correr até os tribunais para acusar-me, e não fui contida por ti mesmo, meu filho?

— Mas então havia a esperança de fazer reconhecer a inocência de seu marido; hoje não, hoje é mister que evite a sua injusta execução.

— Devo, pois, entregar a minha cabeça ao braço do carrasco...

Um ai repassado de aflição embargou a voz â pobre senhora, que, levando as mãos à fronte, baqueou sem sentidos.

— Covarde, covarde mulher! gritou o filho alucinado; tenho vergonha de ser teu filho. Queres evitar a morte à custa da morte de um inocente; não, não, eu não o consentirei!

E o homem, que levava a honradez até a sufocação dos mais santos afetos, saiu correndo, como se temesse que a sua permanência junto de sua mãe inibisse-o de proceder conforme lho aconselhava o seu caráter.

A família sobressaltada pelo baque e ainda mais pela carreira inesperada, afluiu toda para o gabinete em que o coletor conversara com sua mãe, e encontrou aí a Sra. D. Maria estendida no assoalho.

Vendo que apesar dos seus esforços a senhora conservava-se lívida e desacordada, os desamparados filhos apressaram-se em mandar comunicar o acontecimento ao Dr..... um dos amigos de seu pai que lhe tinha guardado mais lealdade.

Acordando-se porém, de chofre, a doente encheu de espanto a quantos a cercavam.

— Meus filhos, soluçou ela, fiquem aqui bem perto de sua mãe; não consintam que me levem daqui, eu não quero morrer; sou mãe, não quero morrer!

Mal proferira estas palavras desgrenhando violentamente os cabelos embranquecidos pelo sofrimento, a desvairada senhora levantou-se de um pulo, rindo prolongadamente uma gargalhada insana.

Acercou-se então da maior das suas filhas e disse no meio da gargalhada contristadora.

— Vamos, vamos todos; é preciso que vamos todos.

O pranto filial recebeu esse convite do desvario com a profunda tristeza de corações, que se julgavam já órfãos de todo.

A mãe alucinada pegou então dos braços das duas filhas e caminhou para a porta principal da casa, repetindo o convite medonho:

— Vamos, vamos depressa!

Ao transpor o limiar a Sra. D. Maria foi embargada pelo Dr. que entrava. Vendo a transfiguração do semblante da esposa do seu amigo, perguntou-lhe sobressaltado:

— Qual é a nova desgraça, minha senhora? — tenha confiança em Deus.

— Vamos, vamos depressa, repetiu automaticamente a desvairada.

— Para onde quer ir, minha senhora!

— Para onde? gargalhou a infeliz, para onde? Não sabe então que eu devo ir para a forca, não sabe que eu sou a assassina; não ouviu meu filho dizer?

— Oh! santo Deus, tende piedade destas crianças que não fizeram mal a ninguém, exclamou o Dr.

É fácil imaginar-se a tristeza desse quadro, e a dificuldade do Dr. em conter a alucinação da enferma. Afinal triunfou a piedade do amigo e a Sra.

D. Maria foi recolhida ao seu quarto em que jazeu sobre o leito durante muitos meses.

O coletor, presa de igual desvario, tinha montado a cavalo e galopava pela estrada que se dirigia a Macaé.

Já havia chegado para Motta Coqueiro o declinar repentino da vida, e talvez na mesma hora em que a sua família era vítima de tanto martírio, ele punha pé na cidade que se regozijava com a sua condenação.

Foi esperado por um amigo, que, sem afrontar claramente a animosidade, que lhe resultaria das manifestações amistosas para com o sentenciado, todavia não evitava-a a ponto de sacrificar os deveres da amizade.

Seberg tinha pago caro a facilidade com que, homem de boa fé, dera ouvidos à infamante acusação feita ao fazendeiro.

A leitura da carta, que o Sr. Martins mostrou na primeira sessão do júri ao seu impertinente contendor, a cena da prisão, cujo fim só mais tarde veio a saber, a resignação evangélica de Motta Coqueiro, tudo, enfim, provava-lhe que tinha condenado à morte um inocente, e o seu caráter profundamente ferido exigia-lhe a mais inteira dedicação ao sentenciado.

Argüia-se diante dê todos os seus amigos; e trucidava continuamente a própria consciência, conservando-se ao lado de Motta Coqueiro, ouvindo-lhe os soluços, e vendo o crescimento gradativo do seu desespero à medida que se aproximava o dia da execução.

Na véspera do derradeiro dia da existência do fazendeiro, Seberg ao sair da cadeia encontrou-se com uma das autoridades macaenses, notoriamente infensas ao que ia morrer.

— Amanhã efetuar-se-á a demorada execução dos assassinos, ou haverá ainda adiamento? perguntou o famoso inimigo.

— Creio que será amanhã mesmo, respondeu Seberg tristemente.

— O seu voto contra aquele malvado, Sr. Seberg, é uma das maiores provas da fortaleza do seu caráter.

— Penso justamente ao contrário; creio que é a maior prova de fraqueza e cegueira que tenho dado em minha vida.

— Bondade sua, Sr. Seberg; era impossível que semelhante celerado não acabasse às mãos do carrasco. Felizmente nem o diabo o poderá salvar agora.

Seberg não respondeu, caminhou direito à sua casa, e voltou logo à cadeia.

Não pode, porém, falar ao amigo, que recebia do sacerdote as consolações da religião.

Esperou, passeando maquinalmente de um para outro lado do corredor da cadeia.

Quando o sacerdote retirou-se, Seberg aproximou-se da grade e disse para a vítima que soluçava:

— Meu amigo, não se submeta à injustiça dos homens e à malvadeza da lei, não se submeta.

— Mas o que hei de eu fazer para evitar.

Houve um momento de silêncio, quebrado depois por Seberg, que, fuzilando nos olhos as flamívomas agonias do remorso, segredou a Motta Coqueiro, cujas mãos segurava fortemente:

— Suicidar-se! Eu condenei-o à morte; venho agora ensinar-lhe o meio de efetuar por si mesmo a sentença. Mate-se, mate-se; não consinta que os seus inimigos, que chegaram a iludir até os seus melhores amigos, triunfem nesta causa iníqua.

Motta Coqueiro ficou só, perplexo, a recordar o conselho de Seberg.

Olhou em torno de si; não havia uma arma, um meio de realizar o suicídio; nem ao menos podia enforcar-se porque as sentinelas à vista passeavam de continuo diante da grade e vinham freqüentemente espiá-lo.

Da parede da enxovia como um pungente escárnio ao luxo pendia um pedaço de espelho. O fazendeiro caminhou até ele, e recuou espavorido gritando angustiosamente:

— Meu Deus, meu Deus; é horrível esperar assim pela morte!

Voltando depois ao mesmo lugar agarrou do pedaço de espelho, cravou-o no pulso e rasgou um profundo e amplo golpe.

Foi porém surpreendido e impedido de terminar o seu intento.

A noite veio em seguida adiar por algumas horas o eterno descanso da vítima. Dir-se-ia que o tempo colaborava na obra atrocíssima da sociedade.

Durante toda a noite Motta Coqueiro repetiu sempre ao sacerdote do Crucificado:

— Vou morrer inocente!

Mas o ministro da religião do Mártir imolado às iras farisaicas não cria na pureza da vitima, e insistia em pedir-lhe a verdade em nome da condenação eterna. Só no dia seguinte, quando o préstito entrava no templo, quando a alva do condenado infamava um nobre caráter, abriram-se os olhos do sacerdote.

É que neste momento um desconhecido tentou revelar um segredo relativo ao padecente; e no mesmo instante um olhar deste impediu a revelação.

Ninguém sabia quem era este homem; diziam apenas que era um cavaleiro que tinha vindo das bandas de Campos.

De feito, o desconhecido tinha chegado desta cidade, e, se tivesse podido falar, ouvir-se-ia um filho denunciar à sua mãe como involuntária mandante do bárbaro assassinato.

Mas a grandeza d'alma do esposo fez malograr o ato de heroísmo, e daí pouco um negro instrumento da sociedade desafrontava-a, assassinando juridicamente a Manuel da Motta Coqueiro.

Nesta hora os sacerdotes campistas levantavam as Hóstias consagradas, oferecendo ao seu Deus o incruento sacrifício em favor da alma do condenado.

E as Hóstias erguidas no espaço, enquanto pendia do baraço o cadáver do justiçado, traziam ao pensamento daqueles que tinham certeza da inocência da vítima um quadro de consolação infinita.

E que se lhes afigurava verem na região da paz infinita o Mártir Deus abrir os braços, e santificar com o seu olhar a execução do mártir das intrigas dê uns bandidos, da cólera de um selvagem, e da cegueira de uma população.

A sociedade estava desafrontada!

Para as consciências dos magistrados e do povo era verdade inconcussa, ponto de dogma a culpabilidade Motta Coqueiro e dos seus companheiros de destino.

Quem ousasse negar semelhante axioma correria o risco de ver-se apedrejado e apupado por uma chusma de retóricos, que zelavam com a mesma solicitude as vítimas e os supostos algozes porque tiravam dessa correlação muitos tropos de efeito, e muitos lances de estilo admiráveis.

O povo crédulo tratava de continuar por lendas supersticiosas o engano fatal e a cegueira pertinaz que o levara a cometer uma infamante injustiça contra um homem que na medida de suas forças fora sempre seu devotado servidor.

Pouco antes da complicação dos acontecimentos que tiveram por epílogo a tristeza, o isolamento e a mancha do patíbulo, Motta Coqueiro começara a edificar um grande prédio à margem do rio Ururaí.

O edifício, abandonado em meio da construção, semelhava a uma grande ossada de pé no meio da mata.

O local era misterioso e tristonho. Uma velha ponte, quase desmantelada, ficava-lhe ao lado, e o rio de águas verde-negras espumava-lhe sem ruído às plantas.

Por noites de luar a sombra do prédio vinha oscilar silenciosamente na face da correnteza, e quando o céu era sem lua, ou quando soprava mais forte o vento, via-se um vulto surgir imenso da escuridão, ou ouviam-se crebros sons que lembravam um coro de gemidos.

Ninguém, portanto, aventurava-se a passar por ali em horas de silêncio e repouso; ninguém, porque era preciso ânimo inquebrantável para assistir ao espetáculo que todas as noites se representava naquele teatro escuro e não concorrido.

Ouvia-se um gemido agudo, horripilante de produzir calafrios; em seguida um fantasma, cuja altura entestava com a cumeeira do prédio, surgia como um jorro das trevas subterrâneas.

Como a sombra dos telhados pela superfície das paredes, subia sem apoiar-se, até ao teto do edifício, e aí abrindo os braços descomunais tomava a atitude de um blasfemo ou de um precito apostrofando o céu.

Neste momento três outros fantasmas apareciam inopinadamente ao seu lado, e todos prorrompiam em gemidos e soluços assombradores.

Quando as quatro larvas se congregavam, como se as folhas, se as gotas de orvalho, se as espumas do rio se convertessem repentinamente em fogos-fátuos, via-se uma aluvião destes ondular, reunir-se, desagregar-se, afundir-se, e alevantar-se enchendo a mata da claridade ominosa do seu luzir.

Após a inundação dos fogos-fátuos um clarão vermelho, como um ferro ao sair da forja, flamejava na escuridade, e os quatro fantasmas, acompanhados pelos fogaréus de baça claridade, seguiam pelo cimo da floresta até perderam-se no horizonte.

Eram as almas condenadas dos justiçados, que penavam misteriosamente na terra o seu crime sem nome.

Enquanto a superstição arraigava desta sorte a animadversão pública não já para Motta Coqueiro, mas para a sua memória, os seus inimigos e o verdadeiro assassino da família do agregado viviam tranqüilamente.

Balbina e Carolina, cujos depoimentos serviram de base à condenação do fazendeiro, foram libertas pela generosidade popular, que não podia consentir em que os dois instrumentos tão úteis ao serviço da justiça fossem traiçoeiramente quebrados pela vingança dos parentes do ex-senhor das duas pretas.

Balbina podia sorrir tranqüilamente; queria apenas vingar-se e conseguiu também a liberdade.

Sebastião Pereira, o Viana da venda, Licério, Lúcio Ribeiro e as demais testemunhas e atores da dolorosa tragédia desfiavam materialmente os anos na apatia de consciência que é a maior felicidade da vida.

Só um homem dos que tinham entrado no entrecho e desenlace da tragédia havia desaparecido. Era Manuel João, a testemunha que talvez mais acusou e caluniou o desgraçado fazendeiro.

Ninguém sabia novas dele e também ninguém as procurava.

Onze anos tinham passado indiferentemente sobre a cova dos justiçados e sobre as dores da família de Motta Coqueiro, que herdara à pobreza de. envolta com a difamação do nome do seu chefe.

Onze anos chorados continuamente, por uma esposa, que se condenava como culpada da perda de seu marido; onze anos repassados de vergonha para os filhos, que se viram obrigados até à repudiação do apelido paterno, serviam apenas para agravar dia por dia a situação da mísera consorte e ainda mais a dos lastimáveis descendentes do fazendeiro.

Corria, portanto, o ano de 1866, undécimo primeiro da desafronta de Macaé e Campos.

Um caboclo de raça, homem de estatura heróica, de compleição robusta, apareceu na vila de Itabapoana, pequeno centro povoado das fronteiras da província do Rio de Janeiro.

Apesar das maneiras humildes e submissas, o recém-chegado não atraiu nenhumas simpatias no lugar, antes para a antipatia geral concorriam poderosamente as feições do caboclo.

O seu rosto pentagonal, de pomas carnudas e salientes, os beiços grossos, o nariz chato, e sobretudo os seus olhos que não se atreviam nunca a encarar, e só obliquavam uns olhares furtivos e maus, esse conjunto fisionômico induzia a população a guardar certa reserva para o espontâneo imigrante.

Para explicar a repulsão que instintivamente sentia, a população dizia dissimulando os seus sentimentos.

— Nada de amizades com caboclos; são muito desconfiados; nunca se sabe quando estão pelos pés ou pelas mãos, e foi um dia... Tem-se visto muita cousa.

Uma circunstância atenuou em breve tempo a indisposição geral contra o recém-chegado; é que em sua companhia andava um rapaz, que além da submissão natural da sua índole, iluminava o semblante com as irradiações de uma consciência limpa.

Herculano, o velho caboclo, desde muito que tinha em seu filho Marcolino a apresentação, que o recomendava às povoações onde estadiava, por isso mesmo o velho caboclo estremecia o moço trabalhador.

Itabapoana foi o lugar escolhido por Herculano para dar estabilidade à sua vida até então nômada.

Como ao caminheiro da legenda cristã, havia palavras, nomes, que faziam com que Herculano tratasse imediatamente de retirar-se do lugar em que eles fossem proferidos, resultassem-lhe embora da mudança grandes prejuízos pecuniários.

Essas mudanças rápidas e bruscas explicavam-se por uma frase:

— Todo o caboclo é cismático, em dando para uma cousa é como o burro quando empaca. O melhor é deixá-lo.

Itabapoana, já bastante afastada da localidade, de cujo nome soava mal aos ouvidos de Herculano, agradou extraordinariamente ao inconstante trabalhador.

Ai deviam correr os últimos dias de sua vida sem ambições e, por isso mesmo, talvez sem mágoas.

Oficial de ferreiro, conciliava o trabalho com a liberdade de ação, ora malhava aqui, ora limava acolá, e o pequeno salário era por ele recebido com a alegria de quem satisfaz facilmente a sua sobriedade.

O independente viver do velho, e por seu lado, o amor do trabalho e bom caráter do filho, acabaram por dissipar a antipatia, e até mesmo transformá-la de alguma forma em boa vontade para com ambos.

Dez anos decorreram assim, dez anos tranqüilos, felizes e poetizados pela dedicação filial e pelo reconhecimento paterno.

Ao lusco-fusco de um dia dos meados de 1876, um preto velho, magro e roto, bateu à porta do casebre em que, fora da vila, residia Herculano.

A hospedagem é uma lei inviolável para o indígena; a porta foi aberta imediatamente.

O preto e Herculano estremeceram involuntariamente ao fitarem-se, e entretanto não se conheciam. Era a repulsão inata da inocência e do crime.

Trocadas as primeiras saudações, o preto pediu simplesmente a Herculano lhe obsequiasse com uma brasa para acender o cigarro.

— É quase noite, camarada, ponderou o caboclo; pouse aqui e saia de manhã.

— Não posso, respondeu o preto; Fidélis não pode ter descanso, resmungou o desventurado.

Quando o preto desapareceu, Herculano que ficara à soleira da porta e acompanhava-o com os olhos, exclamou sinceramente comovido:

— É um deles; adivinha-me o coração que é um deles! Ainda sofrem, e sofrerão sempre.

Longo tempo o caboclo permaneceu numa atitude desoladora; em seguida, porém, sacudiu os ombros, levantou-se e entrou para o casebre.

Mas a tranqüilidade habitual trocara-se-lhe em agitação; e em breve, não podendo acalmar-se, saiu para distrair-se.

Quando voltou ao casebre deitou-se para não mais levantar-se.

A varíola fez-se instrumento da justificação de um nobre caráter.

Desde que sentiu que não poderia salvar-se, ao sacudir um dos penosos delírios, Herculano chamou para junto de seu leito o entristecido Marcolino.

— Tenho uma grande confissão a fazer-te, meu filho; disse o enfermo.

— Estou pronto para ouvi-la e guardá-la até a minha morte.

— Não; não é um segredo que eu quero confiar; é ao contrário um segredo da minha vida que desejo que tu espalhes por toda a parte apenas eu morra. Juras-me que farás esta vontade a teu pai?

— Bem sabe que não sei desobedecer-lhe.

— Deixa-me um instante ligar as minhas lembranças!

Estas palavras já foram pronunciadas com acento que traía a perturbação mental do moribundo. Só depois de meia hora de espera foi proferida a primeira palavra do tremendo segredo:

— Meu filho, há vinte e quatro anos apareceram cortadas a foice, esfaqueadas e estranguladas todas as pessoas de uma família. O assassino de toda essa gente fui eu!...

— Meu pai, meu pai; isto é pesadelo seu, não diga tal, interrompeu-lhe o filho perturbado.

— Pesadelo julgaram talvez os que eu matei ser a noite tremenda da minha vingança. Não poupei nem os velhos nem as crianças; depois lancei fogo a casa, mas a chuva do céu não quis que a labareda, que é pura, se manchasse no sangue daquela raça.

— Meu pai, tenha piedade dos que morreram.

— Morreram pela mão de um homem, e mataram pela mão de um outro. Foi simplesmente uma paga. Ouve!

A fraca e sussurrante voz do moribundo começou então a narrar a maneira por que tinha assaltado a casa das pessoas da quais se confessava assassino e a maneira pela qual efetuara a carnificina.

Marcolino, perturbado e ao mesmo tempo relutando dar crédito ao que ouvia, perguntou ao narrador:

— E onde fez meu pai estas mortes?

— Em Macabu, respondeu o moribundo.

— E qual era o nome do chefe da família que meu pai matou?

— Francisco Benedito, sorriu o moribundo.

— Mas então meu pai foi também do número dos que foram pagos pelo Motta Coqueiro?!

Sentando-se violentamente no leito, o moribundo, como se quisesse fulminar com o olhar ao aflito Marcolino, tentou bradar, e apenas disse baixinho:

— Teu pai nunca matou por ofício, matou a raça do seu inimigo por vingança.

— Mas isto não pode ser verdade.

— É; juro na hora em que vou morrer; hora em que não se mente; Motta Coqueiro nem me conhecia, nem suspeitava que naquela noite devia sumir-se da terra a malvada raça de Francisco Benedito.

— E vosmecê consentiu que ele morresse; porque não confessou, e não defendeu o inocente?

— Ninguém viria em mim senão um instrumento de Coqueiro, e morreríamos os dois, e a verdade não seria sabida.

— Oh! Deus de Misericórdia!

— Escuta, escuta; já te disse, fui eu quem matou o miserável. Devia-lhe...

— O que, qual era essa dívida?

— A desonra de minha família.

Em vão Marcolino tentou arrancar o resto da confissão; o moribundo tinha perdido a voz.

O filho desvairado perguntou ainda uma vez ao moribundo, se era ele de feito o bárbaro assassino de tantos infelizes. O velho forcejando por abaixar as pálpebras, levou dificultosamente uma das mãos ao peito em sinal de afirmação.

Passados alguns minutos, Herculano era cadáver, e seu filho, obedecendo à ordem que dele recebera, declarava diante de testemunhas que seu pai fora o assassino de Francisco Benedito e sua família. Juntava que Motta Coqueiro nem ao menos tinha conhecido Herculano!

O povo de Itabapoana murmurou acerca da confissão de Herculano, tão baixo, quanto alto clamaram campistas e macaenses contra Motta Coqueiro. E ainda mais, depois de vinte e cinco anos de opróbrio sobre uma família mártir, há corações tão miseráveis que ousam continuar a infamar a memória da vitima da cegueira jurídica, mesmo depois da declaração terminante de um moribundo.

Homens perdidos que são estes! São mais torpes do que os assassinos, porque buscam justificá-los envilecendo inocentes; mas nem semelhantes cabeças eu quisera ver na mão dos carrascos.