Mulheres illustres do Brazil/Catharina Paraguassú

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MULHERES ILLUSTRES
DO BRAZIL

 

CATHARINA PARAGUASSÚ


 

Pelos dominios da historia patria.

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Em plena barbaria estava a mulher brazileira, em terras desconhecidas do civilisado europeu. O sentimento da honra e da virtude, precisava do elemento regenerador da religião de Christo. O instincto da maternidade carecia ser aquinhoado pelas luzes de outra civilisação que o divinizasse, apezar de saber a mulher ser mãe, seja qual for a sua condição social, por ter como director do sentimento, o coração, sempre o coração.

N’aquelles dias, uma vastissima parte do globo achava-se no mais completo abandono de tudo que fosse culto.

Conhecido porém o nosso Brazil por Pedro Alvares Cabral, encantou-o a perspectiva do continente que tinha anle a vista. O zimborio finamente esmaltado da quarta parte do mundo, marchetado por nuvens rozeas ao romper da aurora e por outras de côr mais afogueada ao declinar do sol, tingindo os montes debruçados no mar e as campinas de além, fez com que as riquezas das suas florestas e depois as de suas minas de oiro, de prata e de diamantes, attrahissem a nova Golconda milhares de estrangeiros de todas as nações.

Não venho, aqui entretanto, recapitular largamente os successos da Historia do Brazil, já tão conhecidos, nem muito menos relembrar as immorredouras glorias do seculo XVI.

Depois da primeira expedição, ficou o novo mundo abandonado dos portuguezes, o que motivou outros paizes quererem explorar tambem o riquíssimo torrão.

Nas plagas brazileiras aportavam não só expedições enviadas pelos monarchas, como outras muitas á custa de particulares.

Em 1510, porém, naufragou na Bahia de «Todos os Santos» o portuguez Diogo Alves Corrêa, natural de Vianna, que ia em demanda das Indias.

Ora, os Tupinambás, senhores da costa, viram um dia surgir das ondas, como se fosse a cabeça de um monstro, a de um homem, joven,

bello, olhar audaz, que trazia cuidadosamente
Manoel Lopes Rodrigues - Sonho de Catarina Paraguaçu.JPG
CATHARINA PARAGUASSÚ
uma espingarda e com ella pizou em terra,

surpreso ante a scena ideal que tinha á vista.

Os selvagens olhavam contentes para a presa, quando elle, ao ver voar um passaro, acto continuo, aponta a arma e fal-o cahir morto. Pela detonação, grande foi a surpresa dos nossos aborigenes que irromperam em gritos: «Caramurú, Caramurú!... que quer dizer: «homem de fogo.»

Salvo por isso de tão melindrosa situação, a sua sorte mudou, cercaram-no de considerações e accumularam-no de presentes.

Entre elle e os selvagens houve longa explicação que deu em resultado ficarem logo amigos.

Gritos de prazer repercutiram pela taba; desde esse dia, as gesticulações amistosas substituiram as ameaças. A arma de fogo garantialhes o feudo com o concurso do novo alliado. Completamente senhor da situação e da amizade dos selvagens, quiz em seguida moralisar a familia, pelo que fez edificar cabanas, levando para a sua a bella Paraguassú, filha do Cacique, a quem tomou por esposa, não obstante ter impressionado muito as mais lindas donzellas da tribu, inclusive Moêma.

Assim, a joven india comprehendeu quanto vale uma mulher, que, esposa, se compenetrados seus mais sinceros deveres.

Diogo infundiu-lhe a idéa de Deus e tanto que, dos destroços do navio naufragado, elle erigio uma capelļinha a Nossa Senhora da Graça que ainda lá está[1].

Senhor do idioma e dos costumes do paiz, desejando ver novamente a sua terra, com ella fez-se transportar a França, onde a nossa patricia baptisou-se com o nome de Catharina, em honra da rainha mãe, Catharina de Medicis, sendo madrinha a esposa de Henrique II, e o padrinho.

A este respeito, os historiadores são unanimes em concordar com o facto aqui narrado, tal qual diz a historia, reza a tradição e poetiza a lenda. Pouco tempo depois voltavam á patria. Sendo já considerado brazileiro Diogo, teve a Bahia o seu primeiro governador, Thomé de Souza a, quem Caramurú, então já velho, foi prestar obediencia, garantindo-lhe a amizade dos Tupinambás, como fizeram com Francisco Pereira Coitinho.

Affirmava isso fiado em sua mulher, que, já măe de muilos filhos, de grande influencia dispunha entre os selvagens, concorrendo até para a pacificação das tribus, quando revoltadas. Foi della que descendeu a nobre casa da Torre, que tanto brilho teve.

Paraguassú abrio, pois, á mulher brazileira, com as suas virludes civicas e moraes, o capitolio do lar, e, a mim, que de prazer não me vae n’alma ao ver sobre a primeira folha do livro offerecido á familia do meu paiz, o nome da mulher que teve como apanagio o amor sincero do homem a quem jurou a sua fé, amando-o com verdadeira dedicação...

Ella sobreviveu a Diogo Alves Corrêa algum tempo, fallecendo na sua graciosa casa de «Villa Velha» com oitenta e seis annos, repousando as suas cinzas na legendaria capella, do somno do qual não se acorda mais.

Deixemol-a dormir, apezar de ser eu agora obrigada a sacudir a poeira do sarcophago onde jazem as preciosas reliquias da nossa illustre patricia, que já foi immortalisada pelas pujantes estrophes de Santa Rita Durão — O monge poeta, no seu poema épico — Caramurú.

  1. O retrato que aqui damos da celebre brazileira, foi tirado da capella (hoje mosteiro da Graça, dada aos trades de S. Bento por ella e seu marido), e devido a gentileza de pessoa amiga, mas que chegando-me as mãos depois da obra impressa, é precizo sobre o mesmo uma ligeira explicação.
    Diz Rocha Pitta á pagina 31, que Catharina, por mysterioso sonho, soube que a imagem ante aquella se acha ajoelhada, pedio-lhes que a fosse buscar dos distroços do naufragio de um navio que navegava para as Indias, o que fazendo ella, collocou á Virgem Santa no altar mór a accolheu os naufragos, por cuja razão, recebeu uma carta do Imperador Carlos V de Hespanha com agradecimento. Foi aproveitando a Lenda que o artista executou o quadro e cuja photographia caprichosamente feita, d’ella têm a copia as minhas chorus leitoras, couza que muito me lisongeia.