Não sei (Adélia Fonseca)

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Uma pergunta fizeste-me,
Á qual não sei responder;
Tu pretendes que te explique
O que mal posso entender :
Não sabendo si é exacto,
Como, o que penso, dizer?

′Num labyrintho de ideias
Minha mente confundida,
Sem luz, que lhe aclare as trevas,
Em que se acha envolvida,
Em dubio estado divaga,
Sem atinar co′a sahida.

Tu, sim, que melhor conheces
O humano coração,
Que tens mais experiencia
D′este mundo de ficção,
Deves saber si esses olhos
Exprimem verdade, ou não.

Com perfeição elles sabem
Amor, ternura exprimir;
Mas sei eu si então reflectem
Do coração o sentir?
A mentira, da verdade,
Como ′n elles distinguir?

Ás vezes, quando, mais ternos,
Mais desfeitos em langôr,
Na dôce expressão revelam

Um paraiso de amor,
Eu penso existir na terra
Um dos anjos do Senhor.

E como então não ter crença
No que me diz esse olhar?
Acaso os olhos de um anjo
Póde a mentira manchar?
Quando os julgo tão divinos,
Posso d′elles duvidar?

Ah! eu jamais perderia
Esta fagueira illusão,
Si ′n elles sempre encontrasse
Tão angelica expressão;
Si ás vezes não deslumbrassem
Como do raio o clarão.

Si, quando mais abrasados,
Mais ardentes a luzir,
Parecendo estarem d′alma
Todo o fôgo a reflectir,
Os labios lhes não viessem
O que dizem, desmentir!

Si confirmassem os labios
D′esses olhos a expressão,
Si aquelles fossem de fôgo,
Quando estes de fôgo são,
Minha mente não ficára
Em tamanha confusão.

Mas, como o fôgo dos olhos
Acreditar, no momento
Em que os labios me asseguram
Ser gelado o sentimento?!
Querer ver quaes são os falsos,
Não é buscar um tormento?

De gêlo a palavra, opposta
Das vistas á chamma ateada,
Faz-me pasmar, sem que saiba
O que me torna assombrada;
Si o raio ardente das vistas,
Ou si a palavra gelada!

Si são os labios, si os olhos
Que mentem, dizer não sei;
Do labyrintho, em que vivo,

Dês-que sabel-o intentei,
Que fio tirar-me póde?
Como d′elle sahirei?

Tu, pois, que melhor conheces
O humano coração,
Que tens mais experiencia
D′este mundo de ficção,
Deves saber si esses olhos
Exprimem verdade, ou não.

Não me dirijas perguntas,
Ás quaes não sei responder;
Não pretendas que te explique
O que mal posso entender;
Vem antes, com tuas luzes,
Minha mente esclarecer.


Abril de 1852.