Naquele grande motim

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Ao vigario da Villa de S. Francisco por huma pendencia, que teve com hum ourives a respeyto de uma mulata, que se dizia correr por sua conta.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1Naquele grande motim,
onde acudiu tanta gente,
a título de valente
também veio valentim:
puxou pelo seu faim,
e tirando-lhe a barriga,
você se quer, que lho diga,
disse ao Ourives da prata,
na obra desta Mulata
mete muita falsa liga:
        Briga, briga.
  
2É homem tão desalmado,
que por lhe a prata faltar,
a estar sempre a trabalhar
bate no vaso sagrado:
não vê que está excomungado,
porque com tanta fadiga
a peça da igreja obriga
numa casa excomungada
com censura reservada,
pela qual Deus o castiga:
        Briga, briga.
  
3Porque com modos violentos
a um vigário tão capaz
sobre quatro, que já traz,
cornos, lhe põe quatrocentos!
deixe-se desses intentos,
e reponha a rapariga,
pois a repô-la se obriga,
quando afirma, que a possui,
e se a razão não conclui,
vai esta ponta à barriga:
        Briga, briga.
  
4Senhor Ourives, você
não é ourives da prata?
pois que quer dessa Mulata,
que cobre, ou tambaca é?
Restitua a Moça, que
é peça da Igreja antiga:
restitua a rapariga,
que se vingará o Vigário
talvez no confessionário,
e talvez na desobriga:
        Briga, briga.
  
5A Mulata já lhe pesa
de trocar odre por odre,
pois o leigo é membro podre,
e o Padre membro da igreja:
sempre esta telha goteja,
sempre dá grão esta espiga,
e a bola da rapariga
quer desfazer esta troca,
e deixando a sua toca
quer fazer co Padre liga
         Briga, briga.
  
6Largai a Mulata, e seja
logo logo a bom partido,
que como tem delinqüido
se quer acolher à igreja:
porque todo o mundo veja,
que quando a carne inimiga
tenta a uma rapariga,
quer no cabo, quer no rabo
a Igreja vence ao diabo
com outra qualquer cantiga.
        Briga, briga.