Nicolas Barré

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Carta de Nicolas Barré de 12 de julho de 1555
por Nicolas Barré
Primeira carta do piloto francês Nicolas Barré, que participou da expedição de Nicholas Durand de Villegagnon à baía de Guanabara, em 1555.



No ano do senhor de 1555, no dia 12 de Julho, o senhor de Villegagnon, depois de ter adquirido e organizado tudo o que lhe parecia necessário para a sua empresa e reunido muitos gentis-homens, operários e marinheiros dispostos a acompanhá-lo, terminou de equipar, com artilharia e provisões, dois belos navios cedidos pelo rei Henrique II, de 200 toneladas cada - as peças de artilharia deveriam ser utilizadas não somente para proteger o comboio como também para serem instaladas, posteriormente, em terra. Acompanhava as duas embarcações uma urca encarregada de levar os víveres e outras coisas necessárias à empresa.

Às três horas da tarde do referido dia, estando tudo pronto, fizemos vela da cidade de Havre de la Grace, em cujo porto havíamos embarcado. Quando da partida, o mar estava excelente, pois soprava um vento nordeste, muito próprio para a navegação, que, se tivesse durado, teria rapidamente nos permitido ganhar o caminho para a terra ocidental. A partir do dia seguinte, porém, o vento virou para sudoeste, soprando directamente contra nós, o que nos estorvou enormemente e acabou por nos obrigar a arribar na Inglaterra, nomeadamente em Blanquet. Lançamos âncora nesse lugar, na esperança de que o vento diminuísse de intensidade, mas foi em vão. Tivemos de, a duras penas, retornar à França e arribar no porto de Dieppe. A tormenta lançou no interior da embarcação em que viajava o senhor de Villegagnon uma tal quantidade de água que, em menos de meia-hora, retiramos das sentinas de 800 a 900 bastões de água, o que dá uns 400 baldes - coisa incomum de acontecer com navios que estão saindo de um porto.

Por todos esses reveses, entramos com grande dificuldade no porto de Dieppe, porto que contava somente com três braças de água, quando os nossos navios demandavam 2,5. E, para piorar ainda mais a situação, o mar, em razão do vento que soprava, estava muito agitado. Felizmente, os naturais de Dieppe, seguindo os seus honrados e louváveis costumes, acorreram em grande número para puxar as amarras e os cabos, permitindo-nos, no dia 17 do referido mês, entrar no porto. Uma vez ancorados, muitos de nossos gentis-homens, satisfeitos por terem visto o mar, seguiram o velho provérbio: Mare vidit et fugit. Também muitos soldados, operários e artesãos descontentes seguiram o mesmo caminho. Permanecemos ancorados por cerca de três semanas, aguardando um vento propício e querenando a embarcação. Depois que o vento passou a soprar de noroeste, vento que nos beneficiou mesmo depois de sairmos do porto, esperávamos poder deixar a costa e ganhar o alto-mar. Fomos, porém, mais uma vez, impelidos para trás pela violência de um novo vento contrário e obrigados a voltar para terra, desta vez para Havre, de onde tínhamos partido. Aí permanecemos até meados de Agosto. Enquanto aguardávamos, cada um procurou recompor-se da melhor maneira para ganhar o mar pela terceira vez. Graças à bondade e clemência de Deus, que apaziguou a fúria do céus e do mar contra nós, no dia 13 o tempo mostrou-se tal como pedíramos em nossas preces. No dia 14, ao constatarmos a alteração e verificarmos que o vento poderia ser duradouro, embarcamos e fizemos vela.

O vento favoreceu-nos de tal modo que, por ele impulsionados, passamos o Canal da Mancha (um estreito entre a Inglaterra e a Bretanha), o Golfo da Biscaia, a Espanha, Portugal, o Cabo de São Vicente, o Estreito de Gibraltar (chamado Colunas de Hércules), as Ilhas da Madeira e as Sete Ilhas Afortunadas, também conhecidas como Canárias. Numa dessas ilhas, vislumbramos ao longe o pico de Tenerife -Monte Alas, como denominavam os antigos. Este mar que ora navegamos é conhecido pelos cosmógrafos como Atlântico. O dito monte é muitíssimo elevado e pode ser visto a 25 léguas de distância. No domingo, 20 dias depois da nossa terceira partida, aproximamo-nos de Tenerife a cerca de um tiro de canhão. De Havre de la Grace até Tenerife, situado a 28º ao norte da linha tórrida, percorremos 1.500 léguas.

Pelo que pude apurar, essa ilha produz açúcar em grande quantidade e muitos bons vinhos. O lugar, como viemos a saber, é habitado por espanhóis. Planejávamos lançar âncora e pedir um pouco de água doce e refrescos a uma bela fortaleza, situada ao pé de uma montanha, mas os seus ocupantes desfraldaram uma bandeira vermelha e dispararam dois ou três tiros de colubrina, um dos quais feriu o vice-almirante de nossa companhia. Tudo isso teve lugar às 11 ou 12 horas da manhã; o ar estava parado e fazia um calor impiedoso. Convinha-nos responder ao ataque, e de fato disparamos vários tiros de canhão, tiros que danificaram e destruíram muitas casas, além de obrigarem as mulheres e crianças a se retirarem para o campo. Se nossos barcos tivessem saído dos navios, creio que teríamos feito um Brasil ali mesmo naquela bela ilha. Em todo o incidente, feriu-se somente um de nossos canhoneiros, que atirava de um cardinac; ele morreu dez dias mais tarde.

Constatamos, por fim, que não poderíamos fazer mais do que ficar ali trocando tiros com a fortaleza, e resolvemos nos retirar para o mar. Aproximamo-nos, então, da Barbaria, na costa da África. O vento favoreceu-nos e passamos o rio Loyre (na Barbaria), o Promontório Branco, situado sob o Trópico de Câncer, e avistamos, no 8º dia do dito mês, o Promontório da Etiópia, onde o calor começou a fazer-se sentir. De Tenerife a esse promontório a distância é de 300 léguas.

O calor extremo causou uma febre pestilenta no navio em que viajava o senhor de Villegagnon, pois a única água que havia para beber, à qual os homens eram obrigados a recorrer, estava tão malcheirosa e suja que dava pena. Essa febre foi extremamente contagiosa e perniciosa, derrubando 90 das 100 pessoas que estavam a bordo. Dos que caíram doentes, cinco morreram; coisa lamentável que muito nos abateu. O senhor de Villegagnon foi convencido a retirar-se para a embarcação do vice-almirante, onde se encontravam todos bem dispostos e frescos. O Promontório da Etiópia fica a 14º abaixo da zona tórrida e é habitado por mouros. Nessa altura, perdemos o bom vento que nos acompanhava e enfrentamos seis dias de calma e bonança. Todas as tardes, porém, ao cair do sol, o vento soprava com as mais impetuosas e violentas rajadas e chovia tão copiosamente que, aqueles que se encontravam desabrigados, rapidamente, em razão da força dos ventos, ficavam cobertos por grandes feridas. Durante esses dias, não nos atrevemos a dar muito da grande vela do Papefust. O Senhor, porém, veio em nosso socorro e mandou um vento de sudeste, contrário à posição em que estávamos, posição a oeste. Esse vento, refrescante o suficiente para agir positivamente sobre os nossos corpos e espíritos, impulsionou-nos para a costa da Guiné. Aproximamo-nos, então, da zona tórrida, a qual, ao contrário do que diziam os antigos, nos pareceu bastante temperada, de tal modo que os homens que estavam vestidos não precisaram despir-se e os que estavam despidos não careceram cobrir-se.

Atravessamos o centro do mundo no dia 10 de Outubro, na altura das ilhas de Santiago, que estão à direita do equinócio, próximas à terra do Manicongo. Ainda que esse não fosse o melhor caminho, julgamos por bem obedecer ao vento, que nos era contrário. E assim o fizemos, percorrendo, de um total de 1.000 a 1.400 léguas, cerca de 300 quase que em linha recta. Se tivéssemos a intenção de dobrar o Cabo da Boa Esperança, situado 37º abaixo da linha, nas Índias Orientais, teríamos de qualquer modo de dirigirmo-nos para o Brasil, primeiro para 5º norte do dito Equador, depois para 5º sudoeste.

Encontramos tamanha quantidade de peixes no caminho que, por vezes, parecia que navegávamos em seco, sobre eles. Identificamos as seguintes espécies: marsuínos, golfinhos, baleias, douradas, albacoras, bonitos-pintados e peixes voadores. Vimos muitos desses últimos voando em bando, como fazem os estorninhos em nosso país. Nessa altura da travessia, a água que havia escasseou, restando somente a água malcheirosa e infecta que acumulara pelos cantos do navio. Para bebê-la, tínhamos que fechar os olhos e tapar o nariz. Encontrávamo-nos, assim, hesitantes e quase sem esperanças de alcançar o Brasil - distante ainda cerca de 900 a 1.000 léguas -, quando o Senhor Deus enviou-nos um vento de sudoeste, que nos fez meter a proa para oeste, direcção que desejávamos tomar. Impulsionados por esse bom vento, fomos dar, no dia 20 de Outubro, numa bela ilha que as cartas marítimas denominam Ascensão. Ao avistarmos essa ilha, elevada cerca de 8,5º, todos se alegraram, pois neste momento soubemos onde estávamos e a que distância nos encontrávamos das terras da América. Aproximamo-nos cerca de 1 grande légua dessa ilha, e todos experimentaram um grande prazer em vê-la, pois a terra firme ainda distava 500 léguas. Seguimos nosso caminho, aproveitando um vento favorável, e depois de navegarmos algumas noites e dias, a 3 de Novembro, um domingo, avistamos a Índia Ocidental, a quarta parte do mundo, dita América, do nome daquele que a descobriu no ano de 1493.

É dispensável relatar a alegria que tomou conta de todos e como cada um rendeu graças ao Senhor por termos sobrevivido à miséria em que nos encontrávamos e ao tempo que permanecemos no mar. O lugar onde chegamos, situado a 20º da linha, é chamado pelos selvagens de Pararbe e é habitado por portugueses e por uma nação que vive em constante estado de guerra com aquela com a qual temos aliança. Deste lugar, navegamos mais 3 graus, o equivalente a 80 léguas, até o Trópico de Capricórnio. No dia 10 de Novembro, chegamos ao rio Guanabara, rio que mais parece um lago. O local encontra-se exactamente sob o Trópico de Capricórnio. Pusemos o pé em terra cantando louvores e acções de graças ao Senhor. No lugar, encontramos de 500 a 600 selvagens, todos nus e armados de arcos e flechas. Esses nativos disseram-nos, na sua língua, que éramos bem vindos, ofereceram-nos alguns presentes e aclamaram-nos como aqueles que iriam defendê-los dos portugueses e de outros dos seus inimigos capitais.

A baía é bela e fácil de fixar na memória, pois sua entrada é estreita e fechada de ambos os lados por duas altas montanhas. No meio da dita entrada (que tem cerca de meia légua), há uma rocha, com mais ou menos 100 pés de comprimento e 60 de largura, sobre a qual o senhor Villegagnon, prevenindo-se contra os inimigos, construiu um forte de madeira e instalou a sua artilharia. O rio referido é tão espaçoso que todos os navios do mundo poderiam aí ancorar com segurança; sua superfície é cheia de belas ilhas, todas cobertas de verdes bosques. Em uma dessas ilhas, situada em frente ao forte, foi colocado o restante dos homens e da artilharia. Optou-se por instalá-los nesse espaço, porque temia-se que, caso fossem transferidos para a terra, os selvagens empreendessem um ataque contra os homens e roubassem as mercadorias.

O solo local produz somente milho-miúdo, que em nosso país é conhecido pelo nome de trigo-sarraceno. Desse cereal e de uma raiz chamada maniel, cuja folha em muito se assemelha à da Paeonia, os nativos extraem uma espécie de vinho. Essa raiz, que serve ainda para a produção de uma farinha mole tão boa quanto o trigo, dá origem a uma árvore da altura do sabugueiro. Cheguei a ver também uma erva, chamada petume, que os nativos, após limpá-la e extrair-lhe o suco, transformam num alimento capaz de sustentar um homem por oito ou nove dias. Duas espécies de frutas, que experimentei, eram maravilhosamente boas: uma, denominada nanás, vem de uma planta semelhante ao aloés; trata-se de uma fruta espumosa, muito doce, mas de difícil digestão. A outra, de nome pacoma, é uma espécie de figo, muito leve e agradável, cuja planta é dotada de umas folhas semelhantes àquelas da Lapathum aquaticum. A terra produz, ainda, favas grandes e pequenas, ambas muito boas para comer, e uma quantidade pouco significativa de cana-de-açúcar. Também em pequena quantidade são os limões e laranjas aqui encontrados, pois os habitantes locais são extremamente negligentes no seu cultivo. Quanto às plantas medicinais, eu encontrei somente a beldroega, o mirto e o manjerico. Todo o resto é tão selvagem e grande que, se mestre Jean, o herbanário, aqui estivesse, ficaria, sem dúvida, bem embaraçado.