Noções Elementares de Archeologia/V

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Noções Elementares de Archeologia por Joaquim Possidónio Narciso da Silva
Capitulo V: Era ogival secundaria


Architectura religiosa[editar]

Forma das igrejas

Notavel mudança se introduziu no seculo XIV no plano das igrejas pelo accrescimo de um renque de capellas ao longo de cada um dos lados das naves. As capellas, que formam de certo modo o complemento dos templos da idade média foram, n'essa época, construidas depois das obras completas da edificação dos templos, grande numero de igrejas e muitas cathedraes do século XIII; a contar do seculo XIV, deu-se muitas vezes á capella terminal, consagrada á Virgem, maiores dimensões que d'antes.

Contrariamente ao que se fazia em o norte, no sul e no sudoeste de França, muitas igrejas do século XIV não tinham naves lateraes, mas só a nave principal; o côro não tinha, como annos depois, a separação da galeria no arco triumphal, e as cadeiras do côro que a dividiam do resto da igreja.

Em logar de naves lateraes, formaram capellas rectangulares entre os pilares dos contrafortes que recebem os arcos das abobadas. Fez-se então, por cima d'essas capellas, tribunas correspondendo exactamente a estas, recebendo luz de compridas janellas com duas ou tres aberturas e no cimo ornadas de triflorios moldurados; porém, no maior numero de casos, não tinham ornato algum. Comprehender-se-ha melhor esta disposição pela gravura da pag. 211 [fig. 210] dos dois vãos da cathedral de S. Bertrando de Comminges (França).

Figura 208: Plano da cathedral de Bayeux
a. Capellas annexas do lado do norte.— b. Capellas annexas do lado do sul.
Figura 209: Plano de uma igreja do sul da França sem naves lateraes
Figura 210: Dois vãos com arcadas da cathedral de Saint-Bertrand-de-Comminges

Portanto, no seculo XIV, as igrejas do meio-dia raras vezes tinham o triforium e o clerestory, que occupavam os dois terços da altura das paredes lateraes. A mesma disposição foi seguida nos seculos XV e XVI.

Contrafortes

A largura consideravel que deram no XIV seculo ás janellas do clerestorium, e a pouca resistência que as paredes com aberturas arrendilhadas apresentavam então ao encontro das abobadas, obrigou a fortificar as paredes situadas entre as janellas, empregando maior esmero no trabalho dos arcos-botantes. O contraforte servia tambem nos edificios do norte de apoio para dois arcos-botantes, sobrepostos, como se vê na cathedral de Amiens em França, na Batalha em Portugal, etc.

As torrinhas não tinham sómente por fim formar o remate do contraforte; serviam tambem pelo seu peso para consolidar ainda mais o esforço das abobadas e os outros produzidos pelos proprios arcos-botantes.

Nos paizes meridionaes, a falta das naves lateraes, como já mencionámos, ao correr da nave principal, evitou construirem-se arcos-botantes; porque os contrafortes elevavam-se verticalmente até ao cimo das paredes, apresentando muitas vezes grande saliencia. A curiosa igreja dos jacobinos de Toulouse, de que damos a vista lateral, pag. 213 [fig. 211], é um exemplo que faz vêr esta disposição habitual do emprego dos contrafortes executados no meio-dia em França. Esta igreja, construida inteiramente de tijolos, é uma das mais ousadas construcções que se conhecem.

O emprego do tijolo concorreu para se fazerem modificações nas fórmas das aberturas e n'aquellas dos ornamentos; e, n'este caso, principalmente pela influencia dos materiaes, por tal modo, que o investigador estranho ao paiz ficaria realmente muito perplexo quando lhe fosse preciso determinar uma data para indicar a época d'estas construcções, cujas ogivas são tão semelhantes durante muitos seculos.

Figura 211: Igreja dos Jacobinos de Toulouse, inteiramente construida de tijolos

Ornamentos

A maior parte dos ornamentos do seculo XII, vê-se que passaram sem alteração para o seculo subsequente.

As folhagens, de que já apresentámos typos, quando tratámos da flora mural, e que ornam muitas vezes os monumentos do ultimo meado XIII seculo, caracterisam de igual maneira as decorações do principio do XIV.

Pondo de parte essas analogias, as molduras apresentam na execução certa differença no seculo XIV, principalmente na ultima metade. Se por ventura se nota, em geral, maior perfeição na pratica das esculpturas, encontra-se tambem alteração nas fórmas: os tóros não tem já a mesma rotundidade, nem a sacada que os distinguia no XIII seculo; em uma palavra, já não é a obra feita sob a antiga direcção. Estas differenças são mais faceis de descobrir com a vista do que em minuciosa descripção.

Eis aqui desenhados alguns capiteis do seculo XIV com a sua ornamentação vegetal.

Figura 212: Capiteis do seculo XIV ornados de folhagens
Figura 213: Amores-perfeitos e myosotis
Figura 214: Folhas de rainunculos

Arqueaduras na ornamentação

Os arcos continuos servem de remate aos frontões triangulares; e ás vezes são ornados com enfeites de fórma de colchetes.

Figura 215

Vêem-se tambem as paredes ornadas com estas arqueaduras fingidas collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas. Este genero de decoração foi muitas vezes empregado sobre grandes superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo seguinte.

Os colchetes eram collocados mais profusamente sobre os logares que já designámos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.

Triforium

No seculo XIV uma alteração muito notavel se manifestou na galeria do triforium: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria inferior.

Figura 216: Triforium transparente

O especimen acima mostra um triforium tendo luz por baixo de uma grande janella de clerestory: então as paredes ficavam verdadeiramente rendilhadas, como se vê na cathedral de Strasbourg, no convento da Batalha em Portugal, etc. Alguns triforiuns com claridade são attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porém a maior parte pertence ao XIV e XV.

Columnas

A disposição das columnas é a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas que estão enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e não se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV não era raro encontrar ainda capiteis, que faria suppôr pertencerem ao XIII; porém depressa o açafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. Não se vêem no meado do século XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.

No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o açafate em duas partes quasi iguaes. Esta combinação era tambem muito caracteristica do seculo XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de transformação d'onde devia sair um typo novo.

Essas bases não apresentam mais os escapulados tão profundos como no século XIII; até desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui separados um do outro.

Os socos tem a importancia nova nos pilares do seculo XIV. Muitas vezes mostram tantos socos repelidos quantas são as columnasinhas, e são de fórma octogonaes ou prismaticas. Quando o soco tem muitos resaltos, esses resaltos ficam separados por molduras reentrantes; algumas vezes, emfim, a parte inferior do pilar é formado por um massiço no qual os socos parece que são embutidos.

Janellas

No seculo XIV, muitas columnas servindo de pinasios verticaes dividiam essas aberturas no sentido da largura, e o centro da arcada apresentava muitos compartimentos em feitio de flôr de trêvo, folhas de quatro pontas ou em florões.

Figura 217: Janellas do seculo XIV

A combinação mais usual era aquella que se vê na figura A: duas ogivas gemeas encimadas por um oculo polylobado, enche todo o vão da janella. Cada uma das duas ogivas se decompõe em duas outras partes ou em duas novas aberturas, tendo por cima um florão; de maneira que o todo da janella apresenta em ponto grande a imagem das duas ogivas gemeas que emmolduram, e que representara portanto o mesmo feitio das janellas do seculo XIII. Nos edificios de ordem interior, a janella B é muito frequente a sua applicacão no seculo XIV. A gravura seguinte mostra uma janella muito grande, pertencente ao seculo XIV; tal como se vê algumas vezes na extremidade dos cruzeiros das igrejas, ou na sua fachada occidental, as mais importantes.

Figura 218: Janella do cruzeiro usada no século XVI

Portaes

As portas do seculo XIV differem pouco das do seculo XIII: as voltas e os tympanos são igualmente cheios de pequenas figuras em baixo-relevo; os frontões triangulares que lhe servem de remate tem rendilhados, em logar de ficarem lisos ou cheios como no seculo XIII; são tambem ordinariamente mais elevados e ornados de crochets. Sobre os tympanos de algumas portas, a flor de trêvo, as folhas de quatro pontas, ou florões, substituem as figuras em alto relevo.

Arcadas

Não se encontram as molduras tão excessivamente pronunciadas e executadas alternativamente, ora redondas, ora concavas, que ornavam no seculo XIII as archivoltas das grandes arcadas; os toros são muito menos boliados e por vezes tem feitio ellyptico, não produzindo o contraste da luz e sombra que dava tão notavel distincção aos arcos repelidos do primeiro estylo ogival.

Torres

As torres eram rematadas por uma agulha em pedra, e tinham passeio com parapeito e corrimão, como se vê quasi sempre entre a torre e a base da pyramide, que lhe fica superior, conforme se construia desde o seculo XIV. Até lá nos telhados pyramidaes das torres tinham posto poucos ornamentos: esculpiam-lhes unicamente modilhões curvilineos, ou telhas recortadas; mas no XIV, abriram-lhes buracos contornados como as flôres de trêvo, em florões, etc., cobriram-lhes os angulos de ornatos de forma de crochets. A reunião d'estes differentes caracteres podem servir para se distinguirem as grandes torres do seculo XIV das do XIII.

Ladrilhos

Os pavimentos de tijolos vidrados foram empregados nas capellas e nas igrejas, compondo magnificos florões.

Pinturas muraes

A pintura empregada nos seculos antecedentes, e que no seculo XIII cobria os portaes, as curvaturas e partes mais notaveis dos edificios, foram igualmente prodigalisadas no XIV. Existe d'essa época grande numero de decorações polycromaticas, infelizmente apagadas e muitissimo deterioradas.

Pinturas sobre vidro

Se se considera o effeito geral, a harmonia das tintas e o brilhantismo das côres, a bella época das vidraças coloridas, foi a do seculo XIII. Á medida que nos afastamos d'essa época, tão auspiciosa tambem para a architectura, as producções das pinturas sobre o vidro perdem do seu brilho, porém as figuras são de maior estatura e desenhadas com mais esmero.

Considerando, que no sul da França e nas margens do Rheno, os architectos estavam ainda no seculo XIII dominados pelos principios da escola do seculo XII, poder-se-hia suppôr que no seculo XIV deveriam ter adoptado o estylo ogival primitivo; porém não aconteceu assim: quando elles se decidiram a adoptar o estylo ogival, foram tomal-o no estado em que se achava. Assim vemol-o, no seculo XIV, na Allemanha e na Bélgica, com os caracteres quasi similhantes áquelles que dominavam em França.

Altares

Os altares do seculo XIV não differem dos do XIII, senão pela natureza dos detalhes de architectura que fizeram entrar na sua decoração, e que oferecem os mesmos caracteres que os dos monumentos da época.

Os armarios, ou tabernaculos, mettidos nas paredes, proximo do altar, imitavam, pouco mais ou menos, as mesmas disposições que no seculo XIII.

As credencias, por vezes gemeas, como se faziam no seculo anterior, não tinham todavia, no meado seculo XIV, senão uma arcada única e com uma só piscina.

Pias baptismaes

A mesma observação ha que fazer para as pias baptismaes como para os altares. As formas usadas no seculo XIII encontram-se no XIV; sómente com a differença de que as pias pedicelladas, com columnas auxiliares, eram mui raras, e as columnasinhas são applicadas como decorações sobre um apoio central e fazem corpo com elle, em logar de ficarem destacadas como antes se praticava.

Figura 219

Encontram-se muitas vezes pias oitavadas, como a que está representada na pag. seguinte [fig. 220], tendo cada um dos lados ornatos e compartimentos com o feitio de uma janella do estylo radiante: além das pias d'este typo, vêem-se tambem columnasinhas moldurando essas janellas e separando as faces umas das outras.

Figura 220: Pia baptismal octogona do seculo XIV

Sepulturas e tumulos

Os tumulos do seculo XIV distinguem-se dos do XIII unicamente pelo modo como os ornamentos são executados. Os caracteres que indicamos para a architectura do seculo XIV dão facilmente a conhecer os tumulos formados de arcadas collocadas ao correr das paredes.

Campas

As pedras tumulares, no seculo XIV, tiveram aprimorada execução; pois que todos os detalhes dos vestuarios estão reproduzidos com grande fidelidade, e as composições architecturaes destinadas a formar a parte ornamental, que encerrava a representação dos personagens, tomam o feitio das capellas ou das naves de igrejas. Tinham os seus typos correspondentes nas decorações do mesmo genero no seculo XIII, e nas vidraças pintadas com representações dos santos, que a igreja expunha á veneração dos fieis.

No norte, nos Paizes Baixos, e em outras nações, as lageas escolhidas eram de marmore de côr cinzenta ou preta; em grande parte da França, foram as campas feitas principalmente de pedra calcaria branca, como usavam em Portugal; tambem usavam as lageas amarellas ou jaspeadas, pertencendo ás formações secundarias e terciarias; finalmente, nas regiões graniticas e schistosas, serviam-se de lageas fornecidas d'estas rochas[1], porém eram menos empregadas, por causa da difficuldade com que n'ellas executavam os ornamentos.

Architectura civil[editar]

A architectura monastica conservou no seculo XIV as disposições geraes adoptadas precedentemente; modificaram apenas a ornamentação: portanto nos claustros apparecem as arcadas com muitos vãos, tendo como remate oculos ou espelhos, como se praticava nas construcções das janellas; e assim o mostra a gravura da pag. 226. [fig. 222]

Pode-se dizer outro tanto dos paços archiepiscopaes, e outros grandes edificios civis; notando-se, todavia, que foi no seculo XIV que principiaram a apparecer as grandes janellas com cruzetas de pedra, fig. B, pag. 225 [fig. 221], que vieram a ser depois tão communs nos seculos seguintes.

As chaminés conservaram a sua forma elegante, e quando não ficavam cobertas por um abrigo pyramidal, então assimilhavam-se a uma colunma cylindrica ou octogona; ás vezes eram ornadas no cimo por folhas de quatro pontas ou outras molduras.

Figura 221: Janellas do seculo XIV

Hospicios

Os hospicios, os mercados cobertos, as casas da camara, e os outros edificios de utilidade publica, não se differençavam dos que eram construidos no seculo XIII, tanto pela fórma das aberturas, como pela qualidade das molduras.

Os hospicios compunham-se sempre de um ou muitos salões para os doentes, dependendo da casa conventual, ou da igreja. Estes edificios eram dispostos á roda de um pateo principal, mas havia alguns com segundo pateo para o serviço do estabelecimento.

Figura 222: Arcos de claustro do seculo XIV
Figura 223: Chaminé do seculo XIV

O hospicio de Nuremberg apresenta corpos de habitações parallelos com alguns pateos centraes debaixo dos quaes passava um braço de rio, que era desviado da corrente principal. A architectura das salas d'este hospicio parecia pertencer além do seculo XIV.

Não fallaremos das gafarias, as quaes tinham chegado ao numero de 19:000, depois das guerras das cruzadas, porque eram antes uma reunião de casinhas ou cellas, no meio das quaes havia um pateo e uma capellinha consagrada a S. Lazaro, que se não deve considerar hospital publico. Das numerosas gafarias dos seculos XIII e XIV só existem actualmente as capellinhas sem que apresentem interesse algum architectonico.[2]

Figura 224: Hospital de Nuremberg

Casas da camara

Algumas casas dos municipios do seculo XIV, como a de Brunswich, mostra qual a importancia adquirida por estes monumentos desde o seculo XIII (vêde a pag. 193 [fig. 195], a casa da camara de Ypres), como se conservou até no seculo XIV, sendo então decorada com coruchéos, balaustradas e estatuas, e com as molduras mais elegantes d'aquella época.

Mercados, açougues e armazens

Mercado coberto de Bruges. O mercado de Bruges, que pode ser considerado como monumento mixto, pois que é ornado do campanario communal, fórma um quadrilatero de 84 metros por 43. As casas mais visinhas do campanario estavam d'antes isoladas; acrescentaram-lhe as azas desde 1325 até 1364.

O mercado de Evron, em França, construido de madeira, data do seculo XIV, como igualmente o côro da igreja abbacial: compunha-se de duas naves formadas por tres filas de prumos.

Figura 225: Prumos que sustentam o grande madeiramento dos mercados em Évron

Apresentemos o traçado das peças de madeira de uma asna d'este grande madeiramento, e que se apoiam sobre o renque dos prumos de vigas, que separam as duas naves. Este madeiramento merece estudo particular, e será apreciado pelos constructores, visto que estes grandes edificios construidos por esta fórma acabaram de todo, e ainda não foram sufficientemente estudados.

Mercado de Dives. O antigo mercado de Dives, em madeira, tem igualmente certa importancia. A parte menos antiga, que está do lado leste, pertence ao seculo XIV; os dez vãos mais bem construidos que compõem o mercado primitivo, datam certamente da idade media; tem 32 metros de comprimento e 11 metros de largura, decompondo-se da maneira seguinte: a nave central, 7 metros; as lateraes 4m,32. A gravura mostra o córte transversal do madeiramento.

Figura 226: Córte transversal do mercado de Dives

Em certas cidades bastante povoadas, onde a corporação dos carniceiros era poderosa, como em Gand (Belgica) e na Inglaterra, o mercado coberto formava um monumento.

Figura 227: Vista d'uma parte do açougue de Gand

Açougue de Gand. Este grande edificio, do qual os viajantes vulgares não fazem caso, e que os itinerarios não se dão ao incommodo de descrever, é comtudo digno de ser citado. É dividido no interior em duas naves por bem combinadas divisões de madeira. As duas portas das fachadas correspondem ás duas naves. Datando a sua construcção do fim do seculo XIV, o açougue de Gand foi consideravelmente augmentado depois, e reconstruido em grande parte no reinado de Carlos V, em 1542.

Figura 228: Grande armazem de deposito na cidade de Constance

O armazem de deposito de Constance, pag. 232 [fig. 228], pode dar-nos idéa dos grandes armazens do seculo XIV; compõe-se de muitos andares, cujos pavimentos de madeira são sustentados por grossas vigas a prumo.

Casas particulares

Figura 229: Casa antiga construida em Cordes

As casas particulares do seculo XIV eram, como as do seculo XIII, construidas de cantaria ou madeira; quando havia na proximidade bons materiaes, que facilmente se extrahiam e transportavam, davam-lhe a preferencia; porém, achar-se em similhantes condições era raro, e por isso preferiam a madeira; veio d'ahi certa combinação no systema particular das construcções, de que se encarregavam especialmente os entalhadores para ornamentar as madeiras apparentes; além de facilitarem as suas edificações.

Escolhemos como especimen das casas construidas de cantaria, uma das mais notaveis que existem em Cordes, como se vê na gravura da pag. 233 [fig. 229].

Architectura militar[editar]

Formas geraes

Figura 230: Galeria saliente de cantaria

A começar do seculo XIV, as partes habitadas dos castellos tomam formas mais regulares, encaminhando-a a se aproximar do estylo moderno. No pateo principal, que é ordinariamente quadrado, apresentam grandes e vastas habitações que se ligam intimamente com as muralhas de recinto. Por esta forma, as obras de defensa estão alternadas com os aposentos, ficando as construcções civis augmentadas em prejuizo das fortificações. Muitos castellos do seculo XIII se completam no XIV com grandes addicionamentos.

As torres dos angulos encerravam geralmente as escadas para se subir aos differentes andares. Collocavam tambem uma escada principal na torre levantada ao centro da fachada nobre do edificio.

Os cachorros de madeira que coroavam as paredes das fortificações apresentavam, como já dissemos, bastantes inconvenientes, aos quaes procuravam dar remedio. No seculo XIV as galerias salientes de cantaria com bésteiras, gravura da pag. 234 [fig. 230], substituiram pouco a pouco os cachorros nas praças fortes. As muralhas d'Avignon, e as de Cahors, reconstruidas no seculo XIV, offerecem bellos exemplos.

Figura 231: Interior de uma porta com ponte levadiça

As bésteiras não existiam antes dos seculos XIV e XV; á falta de outro typo, pela sua construcção pode-se confirmar a antiguidade das muralhas, quando ellas lhe servem de remate sem nenhuma interrupção. As portas dos recintos são constantemente defendidas por duas torres, e tendo na parte superior, como no seculo XIII, uma sala onde faziam mover a ponte levadiça. Foi no seculo XIV, que principiaram, como já referimos, a ser munidas de pontes levadiças,[3] movidas por contrapesos. A pequena porta destinada aos pedestres tinha ponte levadiça particular, como se vê na gravura da pag. 235 [fig. 231].

Citaremos entre os castellos mais completos do seculo XIV o de Pierrefont, que fomos vêr em 1867 quando a sua restauração era dirigida pelo eminente architecto e archeologo, o nosso confrade mr. Viollet-le-Duc.

A formidavel Bastilha de Paris, destruida em 1789, cujo fac-simile se encontra em grande numero de bibliothecas publicas, fôra começada em 1369 por ordem do rei Carlos V. Esta fortaleza compunha-se de habitações em grande altura, dispostas regularmente em roda de um pateo quadrilongo; tinha quatro torres semiesphericas nos angulos do quadrado e mais duas no centro dos dois maiores lados.

Figura 232: Vista exterior da Bastilha

Diversas janellas quadradas se abriam para o interior dos pateos, e algumas nas muralhas exteriores.

Vincennes é antes uma praça forte do que um castello propriamente dito; a forma regular do recinto, o torreão, as torres, os parapeitos, este todo offerece um bello exemplo do grande monumento militar do seculo XIV,[4] e sempre que se pudesse, dever-se-hia adoptar um plano symetrico, quando o terreno fosse aproprido para similhante construcção.

Esta fortaleza conserva ainda algumas construcções muito antigas.

O rei Filippe Augusto foi o primeiro soberano que mandou edificar n'este logar uma casa de campo para suas caçadas.

A maior parte das fortificações foram demolidas em 1337, para se construirem as que existem; assim como o bello torreão do castello, que veio a ser prisão do Estado no reinado de Luiz XI. Este torreão é um dos melhores, no seu genero, que possue a França.

É notavel a elegancia da galeria dos antigos aposentos reaes, bem como a architectura da capella, construcções pertencentes aos reinados de Francisco I e da rainha Maria de Medicis.

Notas[editar]

  1. Na antiquissima igreja de S. Miguel, em Guimarães, na nave unica que tem, está coberta de campas de granito, mostrando em relevo emblemas guerreiros com o escudo e a lança. [N. A.]
  2. Em Cintra, proximo do Ramalhão, ainda em 1872 existiam os vestigios de uma casa de leprosos, com a sua capellinha; quasi ao meio da estrada ha um tumulo de um bispo, que falleceu ali d'essa enfermidade. Saindo da estação principal dos caminhos de ferro em Setubal, encontra-se á direita, indo para aquella cidade, um bello portal, unico vestigio de uma outra gafaria, que houve n'aquelle sitio. [N. A.]
  3. Como ainda ha na praça de guerra de Elvas. [N. A.]
  4. Como foi construida a praça forte de Villa Viçosa: actualmente em completa ruina. [N. A.]