No País dos Ianques/II

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No País dos Ianques por Adolfo Caminha
Capítulo II


No dia 27 deixamos o Recife em direção às Antilhas.

Como até aí, a viagem continuou a vapor – uma verdadeira viagem de recreio se não fosse a exigüidade dos cômodos a bordo do cruzador.

O comandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos à abertura da exposição internacional americana, onde o Almirante Barroso devia figurar como legítimo e admirável produto da indústria naval brasileira tão pouco conhecida no estrangeiro.

Adotávamos, sempre que o vento permitia, a navegação mista, e deste modo, à vela e a vapor, arrastados pelas correntes marítimas que puxam para o norte, alcançamos, a 2 de março, a linha equatorial, onde apanhamos alguns chuviscos debaixo duma atmosfera ardentíssima.

Reinava “calmaria podre”. Ferraram-se as velas à míngua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que pudéssemos suportar o calor na tolda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialíssimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se embaixo, no porão, as fornalhas acesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, caindo como um cáustico sobre o navio.

À tardinha incendiavam-se os horizontes de um colorido rubro, ensanguentado, de mágica, refletindo-se no espelho do mar tranqüilo como num grande lago de cristal...

Demos graças a Deus quando nos vimos fora de tão desagradáveis regiões.

No dia 11 avistamos terra de Barbados, uma das mais prósperas colônias inglesas das Antilhas. Era o primeiro porto estrangeiro do itinerário.

O capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglês de aspecto duro como em geral o de todo inglês, olhando através de uns grandes óculos azuis e ostentando fleumaticamente um par de suíças ruivas. Trajava dólmã branco, muito justo ao corpo, calças de pano preto e chapéu de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.

Fez a visita sacramental e pôs-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortíssimo shake-hand.

A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quase completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planícies que primeiro ferem a retina do observador. Ao aproximar-se-lhe, porém, novas paisagens de efeitos cambiantes vão-se desenrolando à maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco aí, casas de campo confortáveis, árvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai aparecendo à medida que nos aproximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangê-la.

À distância Bridgetown semelha uma pobre cidade desabitada, sem indício de civilização. A surpresa que experimenta o viajante é completa depois. Alguém que aí esteve anos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglesas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra afirmando o grande poder marítimo desse país, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.

Um dia e meio – eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo suficiente para conhecermos a ilha à vol d’oiseau.

A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratável.

Abundam os ciceroni, espécie curiosíssima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira bárbara. Querem, à fina força, ensinar-lhes as ruas, os hotéis, e não os largam enquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo número de shillings.

Falam um patois detestável: ninguém os entende com facilidade. Imagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: – Came hear! came hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O mísero julga-se por um momento transportado, como por encanto, às costas da África, fecha ouvidos à grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remédio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, até que, depois de uma luta incrível, esguedelhado, ofegante, pálido, embarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!

E ainda por cima vocifera a legião faminta dos negros!

Não exagero. Parece realmente um país semibárbaro aquele, e ai! de nós se não fossem os policemen, ativos e enérgicos guardas da vigilância pública, que a um simples franzir de sobrolhos fazem desaparecer a medonha horda de capadócios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demônios.

É espantosa a ambição do povo por dinheiro.

Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.

Basta dizer que ainda não tínhamos fundeado e já grande número de pequenas embarcações à vela e a remos – fly boats – aproximavam-se do navio, cortando-lhe a proa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam:

I am pilot! I am pilot!

Embalde procurávamos persuadir àqueles esfaimados de dinheiro que não precisávamos de prático, pois a baía de Bridgetown é bastante espaçosa e oferece entrada franca.

Dávamos com o lenço, mandando-os embora – que não! mas os gritos repetiam-se: – I am pilot! I am pilot!

Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio estrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.

Formidáveis importunos os tais negros de Barbados!

A edificação de Bridgetown, puramente inglesa, é curiosa, pitoresca mesmo, se bem que uniforme.

As casas, baixas quase todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua arquitetura, são confortáveis e convidam ao far-niente.

As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitáveis, em conseqüência do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.

No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a St. Leonard’s School e uma igreja-cemitério.

A estátua de Nelson, o herói de Trafalgar, ergue-se, em bronze maciço, numa das melhores praças do lugar – Nelson’s Square, se me não engano.

Os poucos hotéis que existem na ilha são vastos e oferecem o necessário conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnífico vinho, deliciosos sorvetes – ice-cream – e, finalmente, boas camas e muito asseio.

O brasileiro que viaja, com raras exceções, tem necessidade imprescindível de duas coisas que ele julga essenciais ao seu bem-estar: café e cigarros.

Spleen e charutos – são coisas inseparáveis de um inglês da Inglaterra; café e cigarros – eis o que um brasileiro não dispensa.

Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestável composto de muito pó e pouca água, que os naturais misturam à guisa de chocolate, mas de um sabor desagradável, repugnante.

Duas linhas de bondes percorrem a capital dum extremo a outro.

A ilha é circundada por uma via férrea.

De resto, é admirável senão assombroso o progresso dessa colônia, relativamente pequena e tão longe da metrópole.

E, note-se, de vez em quando atravessam aquelas regiões terríveis ciclones produzindo estragos incalculáveis em toda a extensão da ilha. Inúmeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas à costa por esses formidáveis meteoros. O último caiu em 1851 e figura nos anais da navegação como um dos grandes desastres marítimos do Atlântico.