No País dos Ianques/XI

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No País dos Ianques por Adolfo Caminha
Capítulo XI


Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilização, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar um havana, desses que fabricas aos milheiros e que fazem a delícia dos consumidores do bom tabaco.

Belas cubanas de olhos rasgados e sensuais, acreditamos piamente nas coloridas descrições em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades físicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabelos negros, a vossa graça incomparável e sedutora... Nos oito curtos dias que passamos em vossa pátria não tivemos a felicidade rara, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.

Dizem outros que sois belas e irresistíveis, que dançais divinamente o salero, que possuís todos os encantos possíveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular convosco.

E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas calles irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem capitais, sobriíssima de diversões populares, quase monótona, mas relativamente adiantada.

Não se lhe pode negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilização européia.

Encontram-se nela importantes estabelecimentos comerciais, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quase todos os mercados do globo; excelentes botequins, poucos hotéis.

O célebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões à América, disse que toda a arquitetura brasileira é pesada e sombria; eu acrescentarei que no mesmo gênero são as edificações de Havana, o que não é para surpreender numa cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metrópole espanhola.

Entre os monumentos arqueológicos notamos a secular catedral onde (refere a crônica) estão sepultados os ossos de Cristóvão Colombo.

Vimos uma estátua – a de Isabel, a Católica, num grande largo que tem o nome da santa rainha.

Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em conseqüência do calor excessivo e constante a que vive sujeita.

Visitamos também (ia-me esquecendo) os aquedutos que fornecem água à população da cidade. Todos eles vão despejar num imenso reservatório de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no solo, formando uma espécie de tanque de grande capacidade para comportar muitos e muitos metros cúbicos d’água cristalina. O sítio, onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inacessíveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céu límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até aí se faz em diligências puxadas a mulas, arriscando-se o turista a chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o atrativo das belas paisagens claras do Brasil.

O sol é ardentíssimo em Cuba, e, entretanto, as diligências partem da cidade pela manhã e chegam às onze horas ao reservatório, onde não se encontram hotéis nem botequins. Sua-se por todos os poros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moído.

O Passeio Público... Oh! não falemos de coisas tristes. Quem já viu o Passeio Público da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmíssimo cemitério deserto e sombrio, o mesmíssimo abandono criminoso; árvores colossais, meia dúzia de castanheiros decrépitos, e um silêncio, um silêncio absoluto de arrepiar cabelos. Aos domingos costuma ir chorar para ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Público em Havana.

La Havana, de resto, é o que se pode chamar uma cidade pacífica, sossegada e sem atrativos. A impressão que ela deixa no espírito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.

Mas, para que não fosse de todo ociosa e inútil a nossa visita a Cuba, aproveitamos o ensejo de ver uma de suas mais pitorescas e curiosas cidades – Matanzas, onde chegamos depois de algumas horas de viagem costeira. Aí nos esperava o vice-cônsul do Brasil, excelente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr à nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdêssemos oportunidade de contemplar o majestoso panorama do vale de Yumiri, um dos mais belos do mundo, cerca de uma légua distante da cidade.

– Os senhores vão ver um belíssimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brasil, preveniu-nos o cônsul. É uma maravilha!

E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios à topografia do país, cheia de altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, numa disparada única por montes e vales, aos solavancos.

Era quase noite quando parou o último carro, e corremos logo à tal “maravilha” que o diplomata recomendara.

Aqui têm os aquarelistas motivo sensacional para uma tela rembrantesca.

Crepúsculo... Céu pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão côncava do vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido, verde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.

Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira – larga faixa de veludo cinzento – limita o cenário, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silêncio de abismo...

Vê-se muito ao longe, de um lado da paisagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nódoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de cores esmaecidas...

Há muito que o sol tombou na sua eterna circunvolução diurna. A sombra que se alastra, a plêiade fosforescente dos pirilampos, o silêncio absoluto que nos cerca – tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instintivamente, levantar uma prece à misteriosa Força que rege o Universo...

Existe no alto da montanha a modesta capela de N. Srª de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretensão de nicho de aldeia, com a sua torrezinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do vale.

Caiu de todo a noite, e, no silêncio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressamos para o hotel, cujo salão principal tinha agora o aspecto suntuoso (dados os devidos descontos...) dum refeitório de convento em dia de festa pascoal: mesa lauta, vinte variedades de vinho excelentes e tudo mais que se faz mister num banquete finamente organizado à moderna.

O resto é fácil de imaginar: brindes, hurras, charutos finíssimos... e um sono reparador obrigado a pesadelos...

Na manhã seguinte acordamos para outro passeio não menos agradável. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possível. Cometeríamos indesculpável falta se não fôssemos ver as Cuevas de Bella-mar, essas caprichosas grutas subterrâneas, verdadeiros palácios de cristal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulência de suas maravilhosas estalagmites e estalactites. Era mais uma deliciosa surpresa que nos estava reservada. Ir a Matanzas e não ver as Cuevas equivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo estrangeiro.

Cuevas de Bella-mar... Entre os numerosos fenômenos que a geologia registra muitos há que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua própria natureza complexa e profundamente científica.

No terreno da geologia subterrânea, com especialidade, inúmeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem dúvida, a formação das cavernas, as escavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da água no solo calcáreo, formando essas caprichosas pirâmides de cristal, que a ciência denomina estalagmites e estalactites.

As Cuevas de Bella-mar formam um dos mais belos panoramas que se podem imaginar.

Figure-se um grande túnel aberto no subsolo e de cuja abóbada pendem cristais multiformes, cada qual o mais surpreendente, alguns de tamanho admirável, enquanto do chão constantemente úmido sobem outros de igual estrutura, pontiagudos quase sempre, formando, às vezes, colunatas brilhantes, esplêndidos capitéis, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam arquitetados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palácio encantado, à luz dos archotes, porque é impossível percorrê-la sem luz, e a cada passo uma nova exclamação de surpresa irrompe da boca do observador, espontânea e entusiástica. É com efeito, encantador o aspecto das Cuevas.

A atmosfera é quase insuportável, apesar da umidade que se reflete das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acesa.

É, expressamente proibido tocar nos cristais. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recomendando-lhe, de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...

Desta vez tínhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.

Nesse mesmo dia o Barroso fez-se de marcha para o país dos ianques, para Nova Iorque, a bela e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.

E... foi um dia a ilha de Cuba...