No País dos Ianques/XIII

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No País dos Ianques por Adolfo Caminha
Capítulo XIII


Nunca fui a Londres, apesar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britânica, mas estou bem certo de que Nova Iorque em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.

Toda nova, toda alegre e pitoresca, sem os bairros imundos que o Tâmisa lambe com as suas águas pútridas, onde bóiam cadáveres em decomposição, iluminada por um sol que dá vida e conforta, a nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo nela é grandioso e opulento, desde a edificação igual, sólida e elegante, até às festividades públicas e às instituições nacionais.

As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (Fourteen street, Fifteen street etc.).

A Broadway é o centro comercial, a rua de maior movimento quotidiano – equivale à City de Londres.

Aí é que os carros se atropelam, que os transeuntes se abalroam numa confusão burlesca e indescritível de que a nossa Rua do Ouvidor não dá sequer a menor idéia. Negociantes, capitalistas, banqueiros, corretores, operários e vagabundos acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os calos e vão seguindo adiante, sem olhar pra trás, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova Lorque. A gente vê-se abarbada para romper aquela multidão cerrada, compacta e egoísta.

Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.

Americanos, ingleses, espanhóis, franceses, italianos, alemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes esquisitos, confundem-se nas ruas de Nova Iorque, enchendo-as em ondas sucessivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, à primeira vista, que o elemento estrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquele. Custa, porém, a encontrar-se um português ou um brasileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por espanhóis da Europa e da América. Os mexicanos, apesar da natural e oculta ojeriza que têm aos americanos dos Estados Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu tipo original: estatura média, rosto anguloso abolachado, moreno, cabelo duro, olhos pequenos; amáveis. Não perdem ocasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma afeição especial.

Uma das coisas mais curiosas de Nova Iorque são os trens elevados (elevated railroad), a complicada rede de linhas férreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes colunas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade setentrional, em Harlem River. Segundo o relatório apresentado pela New York Elevated, o número de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatística como base fundamental do progresso entre os americanos!) A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluída até Harlem. Os moradores das margens dessas estradas de ferro aéreas queixavam-se continuamente da vizinhança.

Pudera! Ruído, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são coisas que agradem a ninguém. A pobre gente fica em risco de perder o juízo, pois não!

Felizmente, o que aliás é muito admirável, os desastres reproduzem-se raríssimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedível perfeição e as posturas municipais verificam-se inexoravelmente.

As estações são numeradas, como as ruas: Primeira Estação, Segunda Estação, etc.

Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que comunicam com as estações.

O espírito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da atividade pública se encontra uma aplicação nova de mecânica industrial, um artifício de utilidade prática, econômico e curioso, uma invenção engenhosa...

Aproveitar o tempo e economizar os dólares – tal é o princípio fundamental da sabedoria ianque.

Um domingo em Coney Island: nada mais pitoresco e hilariante, nada mais sugestivo...

Coney Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os franceses e Hyde Park é para os ingleses – um interessantíssimo microcosmo de incrível bizarria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, num pêle-mêle vertiginoso, com as suas toilettes claras, com o seu belo ar despretensioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosfera leve e pura.

Essa pequena ilha constitui a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova Iorque.

Famílias inteiras, burgueses de todas as castas, cocotes, afluem para ali nesses dias. Pela manhã, cedo, largam da Falton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo músicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.

Não há lugar para todos nos hotéis. Improvisam-se piqueniques defronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas há que não se lembram de comer – preferem a cerveja, o bock, a qualquer espécie de alimento sólido.

Vimos dois grandes hotéis – o Great Hotel e o Gigantic Elephant.

Aquele é um magnífico estabelecimento, todo construído de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos próprios. Novo gênero de hotéis até então desconhecido para nós. Num dado momento podem ser conduzidos, como qualquer tramway, dum lugar para outro.

O Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world, como lá dizem...) mede 175 pés ingleses de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janelas, e iluminado, à noite, por 25 focos de luz elétrica. Figura um elefante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço donde se descortina uma esplêndida paisagem rasa e calma.

Quer num, quer noutro, o promeneur encontra abundante variedade de petiscos e bebidas.

As crianças, com especialidade, fazem de Coney Island um céu aberto. Elas, sim, não perdem os cavalinhos que andam à roda ao som de um clássico realejo seboso, os passeios aéreos, na ponte-russa, nas barquinhas, nos trens elevados...

Por toda a parte música, realejos, pregoeiros de coisas maravilhosas, gritos, gargalhadas...

Tiram-se retratos instantâneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavalos de passeio... Enfim, Coney Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.

O pobre-diabo que não for esperto e econômico arrisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...

À noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insuportável. Canta-se a Marselhesa em vozes detestáveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animais de toda a espécie... Uma loucura!

Entretanto, abençoado país! em todas essas pagoderias não se distingue sequer um boné policial. Não há conflitos, nem desastres.

Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda cívica. Os policemen podem cochilar à vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.

Coney Island é o complemento necessário e indispensável de Nova Iorque.

Pelo verão reúnem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o cálculo aproximado do cônsul brasileiro.

Dias depois da nossa chegada, o Barroso entrou para o dique de Brooklin, a fim de sofrer alguns reparos no casco.

Enquanto isto se dava, enquanto a guarnição ocupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, íamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.

Não nos foi dado, porém, diga-se em parêntesis, ver o mais grandioso espetáculo dos Estados Unidos – a célebre cascata do Niágara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas cores de sua palheta de artista inimitável.

Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital americana, e tampouco o presidente Cleveland.

Esse privilégio coube quase que exclusivamente. ao ex-príncipe d. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niágara, nem pelo presidente Cleveland.

Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza e menos ainda de personagens ilustres.

Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um óculo, nos livros do poeta, e o sr. Cleveland, vi-o casualmente no Daily News, no ato do seu casamento realizado a esse tempo. Pareceu-me um belo tipo de ianque: cheio de corpo, cabelo penteado pra trás, olhar firme, bigode grosso..

Assim, contentamo-nos com visitar algumas cidades de importância e tão depressa que era impossível apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quais se pode apreciar a vida de uma população.

Vejamos:

BALTIMORE – Cidade aristocrática, pequena, mas extremamente bela na simplicidade, no gosto sóbrio de sua edificação, muito asseada, clara, semelhando toda ela, no seu conjunto gracioso, uma confortável habitação de outono, fresca e risonha, boa para se gozar o sossego de uma vilegiatura sem preocupações mercantis e utilitárias.

A gente de Baltimore parece viver uma vida tranqüila e descuidada no calmo interior de seu home, longe da mentira social, longe de todo o ruído, beatificamente, numa paz invejável, respirando uma atmosfera livre do micróbio daninho das civilizações tumultuosas.

Baltimore é uma cidade por excelência aristocrática e higiênica, onde os temperamentos requintadamente pacíficos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparável doçura de um clima raro.

Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estátua em mármore do grande Washington, geralmente considerada “um dos mais interessantes monumentos da América” e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma elegante coluna dórica de 20 pés de diâmetro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estátua do primeiro presidente dos Estados Unidos, representando-o no momento de renunciar à sua comissão de general-em-chefe dos exércitos de seu país.

Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degraus (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nu, todo o panorama, realmente belo, da cidade, que lembra uma dessas paisagens holandesas, muito claras e sugestivas, tais como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, num fundo de aquarela, linhas de arvoredo e revérberos d’água parada...

Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que aí nos demoramos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possível que víssemos com olhos protetores de hóspedes em terra estranha...

Era nosso cônsul naquela cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das Opalas, bom poeta e péssimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as comodidades possíveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do lugar. Fez mais: ofereceu gentilmente à oficialidade brasileira um delicadíssimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patrícios.

Guardamos belas recordações de Baltimore.


FILADÉLFIA – Grande centro de indústria e comércio. Altas chaminés características. Céu encoberto de fumaça, pesado e lúgubre a certas horas do dia. Aquedutos, casas colossais, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Contínuo movimento de carros e tramways. Imensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edifício em construção, cheio de rumor de máquinas e de operários em atividade permanente. – Jardim Zoológico. – Universidade importantíssima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades. – City Hall, edifício monumental, vasto e muito alto, onde funcionam as repartições públicas: dizem ser o maior dos Estados Unidos.

Não há tempo a perder. Temos apenas três horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Anápolis às cinco da tarde e já são duas...

Leio na tabuleta de um bonde: Zoological Garden... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoológico, a mais completa coleção de animais, que já se conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoológico de Londres e o de Filadélfia, opta por este. Vejo, de passagem ruas belíssimas, esplêndidas filas de casas luxuosas, magníficos jardins particulares, templos em estilo gótico; descampados...

Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.

Trabalho perdido! Voltamos no mesmo bonde, sem ter visto o apetecido Jardim Zoológico.

Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se acumulavam na gare, e saltar para dentro do vagão.

E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso daquela cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colônia a respeito da qual Chateaubriand exprimia-se deste modo: – L’aspect de Philadelphie est froid et monotone...

Não foi preciso mais de um século para que os americanos fizessem dela uma das principais cidades industriais do mundo.

Em Filadélfia tive ocasião de ver, pela primeira vez, bondes elétricos funcionando com a máxima regularidade.

O que será a grande cidade americana daqui a cem anos?